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16 April 2024

ESCUTAR A TERRA
Talvez não se tenha devidamente reparado mas Old Wow, de Sam Lee, foi um dos mais importantes álbuns publicados em 2021. Se, desde há anos, escutando The Unthanks, Stick In The Wheel, Hack-Poets Guild, Lankum e mais uns quantos, podia afirmar-se que as músicas de raiz tradicional e raio de acção contemporâneo haviam entrado numa nova idade de ouro que em nada ficava atrás da era dos Fairport Convention, Seeleye Span ou June Tabor, não se estava propriamente â espera do surgimento de uma personagem renascentista que elevasse tudo a um nível superior. Reunindo todas as pontas soltas, Sam Lee abraçou quantas causas ambientais foi capaz - fundou a Music Declares Emergency, associou-a â Featured Artist Coalition e esteve na origem de The Nest Collective - e, no mesmo gesto, entregou-se à redescoberta da música tradicional britânica. Em particular, aquela que foi recolhendo no contacto com aa comunidades cigana/"traveller" locais. (daqui; segue para aqui)
 
"Bushes And Briars"

20 September 2023

 

"Messenger Birds" (álbum integral aqui)

(sequência daqui) Por essa altura, na verdade, as duas meninas ainda adolescentes, já se haviam irremediavelmente extraviado do caminho da salvação e iriam travando conhecimento com diversos enviados das forças do mal: o belíssimamente discreto guitarrista David Williams, o baixo sinuosamente melódico de Frank Boylan e a inventividade rítmica do baterista Will Murray. Em conjunto, descobririam afinidades com os melhores da colheita da época: Sandy Denny/Fotheringay (em "Messenger Birds"), Steeleye Span (em "Dan The Wing"), Pentangle (em "Break Your Token"), Fairport Convention ainda seriamente contaminados pelos Jefferson Airplane (em "The Poet And The Witch" e "Lonely Man") e, de um modo geral, todas as mais cristalinas águas da corrente folk-rock convergiriam para Swaddling Songs (1972). Exemplar único - e, por isso, ainda mais precioso - de uma via que se manteria para sempre aberta.

24 January 2023

 
(sequência daqui) E, confessando ser, desde sempre, apaixonada por histórias “de dragões, castelos encantados e bruxas más”, conta que devorou tudo, de contos de fadas clássicos a Ursula Le Guin: “Vivi toda a minha infância, numa ininterrupta fantasia de heróis épicos em paisagens mágicas, nas margens da Water Of Leith, perto de Edimburgo”. Reparemos também agora no espectro de Angela Carter que por aqui. paira, tal como (em "Frequencies To Victory") o de Hedy Lamarr – cintilante beldade de Hollywood mas, igualmente, cientista inventora de um dispositivo capaz de alterar as frequências dos sinais de rádio impedindo os radares nazis de descodificarem mensagens durante a Segunda Guerra Mundial –, fertilizando 15 canções que, em La Bête Blanche, deambulam entre a folk, estridências punk, Kate Bush, Steeleye Span ou a memória dos imperdoavelmente ignotos Spriguns. Todas, de forma diversa e sob ângulos vários, retratando apenas as mais aptas a passar num critério de avaliação: “She’s a witch, she’s a witch, from her tail to her tits”.
, uma espécie de sistema de comunicações secreto que

25 November 2022

APENAS "MÚSICA LINDÍSSIMA"

Há 12 anos, preparavam-se Rachel e Becky Unthank para actuar no Olga Cadaval, em Sintra, pareceu-me urgente anunciar a verdadeira dimensão do que iríamos testemunhar: “Desde a era dos Fairport Convention, Steeleye Span, Pentangle, Richard & Linda Thompson e das irmãs Collins – ainda que com valiosíssimos porta-estandartes como June Tabor durante o interregno –, não surgia nenhum grupo na cena folk inglesa capaz de deixar absolutamente clara a ideia de que, no idioma popular tradicional, circulava ainda sangue suficientemente oxigenado e pronto a garantir que ‘os anos de ouro’ nunca seriam apenas uma antiga e saudosa memória. The Unthanks, em três magníficos álbuns – Cruel Sister (2005), The Bairns (2007) e Here’s The Tender Coming (2009) –, mudaram tudo”. Desde então, vários outros notáveis - Kinnaris Quintet, Lankum, Stick In The Wheel, Mànran, Sam Lee – se lhes juntaram. (daqui; segue para aqui)
 
"The Old News"

26 March 2021

Anne Briggs - "Summer's In"
 
(sequência daqui) O período que abrange começa no momento em que, no número 49 da Greek Street, no Soho londrino, abria o folk club “Les Cousins” (nome inspirado pelo filme homónimo de Claude Chabrol) onde, em alternativa à ortodoxia folk de Ewan McColl e "hardliners" afins, uma fresquíssima vaga de gente – Davy Graham, Bert Jansch, John Renbourn, Sandy Denny, The Strawbs, Incredible String Band, The Young Tradition, Anne Briggs, Martin Carthy, John Martyn... – desempoeirava as “sagradas escrituras” e, sem cerimónia, expunha-as a toda a sorte de heresias, do embrionário psicadelismo aos subterrâneos esoterismos lendários da “old, weird Britannia” pagã. Vários deles reencontram-se nestas 60 faixas mas valerá a pena dizer que, com mui honrosas excepções, não é por acaso que alguns nomes (Fairports, Pentangle, Steeleye, Third Ear Band, Young Tradition, Tim Hart & Maddy Prior, Shirley Collins, Mr Fox, todos aqui presentes) mais facilmente se recordam: eles eram incomparavelmente melhores.

01 December 2020

DE BEM VIVA VOZ

 

Após 38 anos sem gravar um disco, a primeiríssima dama da folk britânica, Shirley Collins, regressou, inesperadamente, em 2016, com o belíssimo Lodestar. A disfonia que a afectara aparentemente vencida, reincide, agora, com Heart’s Ease, outra pérola do reportório folk que, aos 85 anos nos oferece, não demasiadamente desconfortável com o confinamento (“Desde há muito que vivo sozinha, já estou habituada”) mas tremendamente furiosa com o rumo que o Reino Unido tomou: “Boris Johnson, que homem horrível! Como é que a Inglaterra pode ter chegado a este ponto! Eu sou europeia!...” 

    Em Electric Eden, Rob Young cita-a: “Sempre soube que esta música tinha nascido em mim. Sabia como cantá-la e nunca me iria afastar daí”. Foi, de facto, assim? 

Durante a 2º guerra mundial, era eu ainda criança, vivíamos em Hastings, na costa Sul de Inglaterra. Havia, frequentemente, raides aéreos e tínhamos de correr a refugiar-nos em abrigos onde os meus avós cantavam para mim e para a minha irmã, Dolly. Só mais tarde percebi que o que nos cantavam eram canções folk, música tradicional. Canções que eles, naturalmente, cantavam e que faziam parte da vida diária. Creio que começou tudo aí: adorava os meus avós, sentia-me segura junto deles, muito cedo essas músicas entraram em mim e nunca mais sairam. 

    No início do folk revival, havia aquela atitude militante de recolha e preservação da “música do povo”, levada extremamente a sério por gente como Alan Lomax (com quem viajou aos EUA numa expedição de recolha) ou Ewan MacColl... Como lidava com isso? 

Até certo ponto, compreendo-a uma vez que se trata de algo importante que deve ser preservado. Mas é uma forma um bocado agressiva de lidar com a música. Prefiro que as pessoas se sintam livres para fazer o que gostam sem necessitarem de regras estabelecidas por outros. O Ewan MacColl foi o pior de todos nessa atitude de ditar aquilo que podia e não podia ser cantado.* Não gostava nada dele, por isso também não liguei muito ao que dizia. Pareceu-me sempre um bocado falso, não era genuíno. Já o Alan Lomax era diferente, tinha consciência da importância de salvar do esquecimento a música tradicional de todos os países e do orgulho que as pessoas deveriam sentir na sua herança musical.

  

    Mas essas tradições musicais estavam, realmente, moribundas e necessitavam de ser preservadas?  

Era necessário mantê-las vivas porque estavam a ser exterminadas pela grande máquina da indústria musical que nos atira a mesma música para cima, seja qual for o lugar do mundo onde nos encontremos. Claro que também produz música óptima mas, no seu caminho, esmaga tudo, nada resta das músicas originais que fazem parte da História e das tradições dos povos. É terrível mas não tenciono deixar de lutar. 

    Na viagem aos EUA, com Alan Lomax, sentiu-se um pouco como um Colombo “ao contrário”, indo descobrir na América aquilo que já conhecia em Inglaterra? 

(risos) Sim, sobretudo nas montanhas Apalaches e Ozark, no Kentucky e no Arkansas, onde encontrámos canções originalmente inglesas, irlandesas e escocesas. Era fascinante escutar, em versão americana, canções que eu conhecia das colecções do Cecil Sharp. Evidentemente, ao longo dos anos tinham-se transformado gradualmente. E pude cantar algumas das versões que conhecia que as pessoas de lá receberam com a alegria de constatarem que, como diziam, “back in the old country”, ainda eram conhecidas. 

    Aos seus olhos, Fairport Convention, Steeleye Span, Pentangle, foram bem-vindos? 

Foi fantástico, de um modo geral, foi muito bom. A música era muito bem tocada, eram todos músicos que conheciam bem aquilo com que estavam a lidar, não era uma moda de que, mais tarde, se iriam arrepender. Acreditavam no que estavam a fazer. Era claro que, por exemplo, os álbuns de "morris dances", nunca iriam ser populares. Mas era uma questão de manter viva aquela música, de uma forma fresca e que não a rebaixava nem insultava.


  Como foi a experiência de, com a sua irmã Dolly, colaborar com David Munrow e o Early Music Consort em Anthems In Eden (1969) e Love, Death And The Lady (1970)? 

Devem ter sido os momentos mais emocionantes da minha vida musical! Para além de, como já lhe contei, os meus avós nos ensinarem canções tradicionais, o meu tio Fred fazia-nos ouvir muitos discos de Monteverdi. Aprendi, assim, a adorar também a música antiga. Conheci o David Munrow em Londres, com a Dolly. Fomos ter com ele ao Early Music Center porque adorávamos o trabalho dele, cheio de vida e energia. Passado algum tempo, surgiu a possibilidade de gravarmos Anthems In Eden e o David aceitou interpretar os arranjos da Dolly com o Early Music Consort. Ele era imensamente entusiástico, estar ao pé dele era como estar ligado a uma central eléctrica. Não duvidava que esta música deveria ser tocada e interpretada de uma forma rigorosa. Mas era tão gentil, o género de pessoa com quem nos apetece estar sempre... Eu não lia música (e continuo a não ler), o que, ao entrar para estúdio, me deixou um bocado nervosa. A Dolly tinha partituras para todos e, quando ele me disse que a minha entrada era no sexto compasso, tive de lhe confessar que não lia música. Respondeu-me: “Não há problema. Durante muito tempo, eu também não li música e, quando andei pela América Central, fui apanhando tudo de ouvido!” Era um músico extraordinário e foi o grande responsável da redescoberta e do interesse pela música antiga. A verdade é que tenho tido muita sorte com todos os extraordinários músicos com que me fui cruzando. 

    Também teve sorte por ter conseguido recuperar a voz... 

É verdade. O David Tibet, dos Current 93, veio visitar-me durante o período em que eu tinha deixado de cantar e disse-me que adorava os meus álbuns e que gostava que eu cantasse uma ou duas coisas num álbum dele. Ao fim de anos a tentar convencer-me, falou-me de um concerto que iria dar na Union Chapel de Londres e, depois de tanto tempo a dizer não, disse que sim!... E cantei mesmo. 

    Surpreendeu-se ao descobrir, em Shirley Inspired, que tinha tantos novos fãs como Lee Ranaldo, Meg Baird, Rozi Plain, Bonnie 'Prince' Billy?... 

Sim!...Foi uma grande surpresa ver aquela enorme variedade de músicos pegarem nas minhas canções. Não é uma questão de falsa modéstia mas tenho consciência que a música que faço se destina a um pequeno nicho. 

    Qual a sua opinião sobre gente recente como as Unthanks, Stick In The Wheel?..

Para ser sincera, as Unthanks fazem música lindíssima mas parecem-me demasiado repetitivas, prefiro um pouco mais de substância. E os Stick In The Wheel dão-me a sensação de estarem a cantar sempre a mesma música. Mas adoro os Lankum – a Radie Peat é uma cantora extraordinária! – e o Alasdair Roberts.;

    Tanto em Lodestar como em Heart’s Ease, o processo de selecção do reportório foi o que sempre utilizou? 

Sim, e não foi difícil encontrar as canções. Poderia gravar mais 20 álbuns se fosse necessário. O essencial é que os arranjos nunca se sobreponham â canção. Os músicos com que tenho trabalhado são perfeitos para mim, comprendem instantaneamente o que cada canção pede. São pessoas inteligentes, divertidas... e lêem livros! (risos) Já agora, tenho de dizer-lhe que a minha filha deu-me a conhecer a obra do José Saramago. Comecei por A Jangada de Pedra e, agora, estou a ler o Manual de Pintura e Caligrafia. É extraordinário!
 

* ver aqui e aqui

09 November 2020

BEAUTIFUL LOSERS

Judy Dyble, a antecessora de Sandy Denny nos Fairport Convention, durante as canções nas quais, em concerto, não intervinha, sentava-se à boca de cena, a tricotar. Celia Humphris, cantora dos Trees, aconselhada a não se movimentar de modo demasiado exuberante no decurso das longas passagens instrumentais, optava por se deitar no palco. Uma vez, adormeceu. As peculiaridades das suas divas não são o único ponto comum entre as duas bandas. De facto, não disparatando demasiado, quase poderia dizer-se que uma foi a continuação da outra que ainda não desaparecera (nem, com as mais diversas formações, até hoje, desapareceria). Em 1969, enquanto os Fairports publicavam a trilogia de ouro What We Did In Our Holidays, Unhalfbricking e Liege & Lief e, de caminho, inventavam o folk.rock britânico, os guitarristas David Costa e Barry Clarke convidavam o baixista Bias Boshell ("housemate" de Clark), o baterista Unwin Brown (amigo de escola de Boshell) e Celia Humphris (irmã de um colega de trabalho de Costa), para formarem uma banda. Uma coisa assim bastante caseirinha.

(On The Shore integral aqui)

Meio século depois, Boshell define-os, á “Uncut”, como “o grupo de pessoas menos ambicioso que alguma vez existiu”. Sonhavam com os Byrds, Jefferson Airplane, Buffalo Springfield e Quicksilver Messenger Service mas, porque Costa fora iniciado na tradição folk através da amizade com Martin Carthy, e "Meet On The Ledge", dos Fairports, era matéria de estudo obrigatória, os dois únicos álbuns dos Trees – The Garden Of Jane Delawney (1970) e On The Shore (1971), agora republicados em "boxset" de 4 CD – acabariam integralmente contagiados pelas marcas do género emergente. Clark era um Richard Thompson em embrião que urdia belíssimos contrapontos eléctricos com a guitarra de Costa – ainda algo imperfeitamente em "Glasgerion" e "The Great Silkie", do primeiro, e nas extensas e magníficas "Streets Of Derry", "Polly On The Shore" e "Sally Free And Easy", de On The Shore, conduziam o psicadelismo folk-rock a focos de incêndio nunca antes ateados – e Celia era uma candidata pronta a ocupar, em qualquer momento, o lugar de Sandy Denny. Havia aproximações aos (então nascentes) Steeleye Span ("Soldiers Three"), evocações medievais ("Adam’s Toon") e hinos luditas ("While The Iron Is Hot"). Durariam, sem qualquer sucesso, até 1973. Celia, após, durante anos, ter sido a voz que, nas estações do metro de Londres nos alertava “Mind the gap!”, em 2009, participaria como convidada no álbum Talking With Strangers. De Judy Dyble. (ver também aqui)

17 September 2019

Steeleye Span - Ten Man Mop Or 
Mr. Reservoir Butler Rides Again

(daqui - álbum integral aqui)

18 August 2019

VINTAGE (D)

Steeleye Span - "Jigs: Bryan O'Lynn/The Hag With The Money"

16 August 2019

TEMPOS DE VIRAGEM


Um tipo que se chama Karl Frederick em homenagem a Karl Marx e Friedrich Engels e cujos pais, no dia em que nasce, o inscrevem no Independent Labour Party – uma formação política da esquerda trabalhista britânica – tem, de certo modo, o destino traçado. Não foi, assim, muito surpreendente que Karl Dallas (1931 – 2016), activista pela paz desde os oito anos, enquanto jornalista, tivesse colaborado militantemente com o “Daily Worker”/”Morning Star” (jornal do Parido Comunista Britânico) e participado em inúmeras iniciativas de carácter anti-fascista. O que já não seria tão previsível é que Dallas – também "songwriter" com canções gravadas por Ewan MacColl e June Tabor – viesse a tornar-se o pai-fundador do jornalismo folk-rock britânico, essencialmente, nas páginas do “Melody Maker” (mas também no “Times” e “Independent” e nas suas próprias revistas “Folk News” e “Folk Music”) e em tomos como The Cruel Wars: 100 Soldiers' Songs From Agincourt to Ulster (1972), One Hundred Songs of Toil: 450 Years of Workers' Songs (1974) e The Electric Muse: The Story of Folk into Rock (1975). Foi a propósito da morte de Sandy Denny que, em Maio de 1978, na “Folk News”, Dallas recordou “aqueles gloriosos dias de Verão, no Soho, quando Paul Simon, Ralph McTell, Jackson C. Frank, Anne Briggs, Al Stewart, Beverley, Roy Harper, The Young Tradition, Bert Jansch, John Renbourn, (…) e um miúdo judeu chamado Dylan deambulavam pelo West End”.

Karl Dallas
 
É essa história e a imediata sequência dela que se resume em Strangers In The Room: A Journey Through The British Folk Rock Scene 1967-73 – mais um volume do precioso arquivismo histórico da Cherry Red – que, não por acaso, começa logo por citar Karl Dallas (do “Melody Maker”, Janeiro de 1970): “Há dois anos, folk rock era uma espécie de palavrão. Os adeptos da folk não compreendiam por que motivo tantos dos seus heróis electrificavam a sua música e os do rock recusavam-se a escutar tudo o que não soasse como o trovejar de uma manada. Hoje, graças aos Fairport Convention, a palavra pode tornar-se respeitável. Porque, se o que eles tocam não é folk rock, então o termo não significa nada”. Na verdade, a viragem começara um pouco mais atrás quando, em 1965, praticamente em simultâneo, os Byrds gravaram uma versão eléctrica de ‘Mr Tambourine Man’, de Bob Dylan, e este concluía as sessões de estúdio de Bringing It All Back Home, em cujo lado A era acompanhado por uma banda de rock. Duas páginas à frente no "booklet", Maddy Prior oferece a sua versão da história: “Na realidade, foi um casal americano que me fez interessar pela música inglesa. Andei a conduzi-los durante um ano por Inglaterra e, às tantas disseram-me: “Tens de parar de cantar música americana. Não tens jeito nenhum para isso. Porque é que não experimentas música inglesa?”



Nas 60 faixas da caixa de três CD, podem descobrir-se os clássicos lendários (Steeleye Span, Fairport Convention, Sandy Denny, Pentangle, Shirley Collins, Strawbs, Incredible String Band, Matthews Southern Comfort, Albion Country Band), os imerecidamente não tão na ponta da língua (The Woods Band, Trader Horne, Michael Chapman, Trees, Mike Hart, Bill Fay, Third Ear Band, Horslips, Ralph McTell, Mr Fox, Spirogyra, Bridget St. John) e algumas pérolas obscuras (Dando Shaft, Jade, Prelude). Para um primeiro passo no conhecimento mais completo da indispensável obra dos Steeleye Span, a Cherry Red propõe outra caixa de 3 CD, All Things Are Quite Silent: Complete Recordings 1970-71 que reune a fundamental trilogia inicial Hark! The Village Wait (1970), Please To See The King e Ten Man Mop or Mr. Reservoir Butler Rides Again (ambos de 1971), lugares onde a profunda erudição folk anglo-irlandesa acolhe e dilata as experiências eléctricas que Ashley Hutchings – agora acompanhado por Maddy Prior, Peter Knight, Tim Hart e uma posterior multidão de outros – havia iniciado quando ainda a bordo dos Fairport Convention, aqui elevadas a um patamar de apuro vocal e instrumental que estabeleceria o padrão face ao qual tudo o que viria a seguir haveria de ser comparado.

11 December 2018

DYLAN BY FAIRPORT


As raízes da árvore do folk-rock são emaranhadas mas não demasiado difíceis de identificar. Cinco dias antes de, a 20 de Janeiro de 1965, os Byrds entrarem nos estúdios da Columbia, em Hollywood, para gravarem a versão electrificada de "Mr Tambourine Man", de Bob Dylan (que chegaria ao topo da tabela da “Billboard”), este concluía as sessões de estúdio para o quinto álbum, Bringing It All Back Home. Das 11 faixas, as 7 primeiras do lado A eram acompanhadas por uma banda rock competente mas razoavelmente anónima – exceptue-se o baixista William E. Lee apenas por ser o pai de Spike Lee – e as do lado B, em registo acústico. O tremendo alarme dos integristas folk perante a “traição” concretizada em "Subterranean Homesick Blues" ou "Maggie’s Farm" ficaria, para toda a eternidade, arquivado na gaveta "silly" da História. Mas o que importa é que, algures na segunda metade do mês em que morria Alan Freed - o inventor do termo “rock’n’roll” -, o folk-rock tinha surgido. 


A descendência seria numerosa mas, do lado de cá do Atlântico, apenas conheceria o seu "big bang" em 1969, ano em que os Fairport Convention publicariam What We Did In Our Holidays, Unhalfbricking e Liege & Lief. Não é fácil nem habitual parir três clássicos absolutos num periodo de 12 meses. Para além disso, contudo, a banda que, no início, se imaginava como uns Jefferson Airplane britânicos, não se satisfez em ser a prodigiosa incubadora de talentos da grandeza de Richard Thompson, Sandy Denny, Fotheringay, Steeleye Span, The Bunch, Morris On/Dancing Master e as diversas Albion Band, mas também, transversalmente ao seu percurso – especialmente desde Liege & Lief –, se dedicaria a redescobrir a música tradicional em matrimónio eléctrico com o ar do tempo. Paralelamente, porém, não abdicaria de ir recolhendo alimento estético na origem do seu mundo: em álbuns de estúdio, emissões de rádio, actuações ao vivo e "outtakes" várias, chamaria suas a 17 canções de Bob Dylan, agora, recolhidas em A Tree With Roots, assinado por Fairport Convention & Friends (isto é, eles mesmos mais Sandy Denny a solo e os Fotheringay). Embora já quase todas dispersamente disponíveis em edições oficiais e "bootlegs", um valioso programa de “Dylan by Fairport” no qual se podem re(escutar) o saboroso "mock cajun" de "Si Tu Dois Partir"/"If You Gotta Go, Go Now", o belíssimo crescendo vocal/instrumental de "Percy’s Song" ou a assombrosa "I’ll Keep It With Mine", não é convite que se despreze.

26 June 2018

BOAS ÁGUAS

  
Robin Hood’s Bay é uma pequena vila piscatória na costa Norte do Yorkshire. É pouco provável que Robin Hood alguma vez tenha andado por lá – tão pouco provável quanto a própria existência histórica da personagem – mas uma velha balada conta que, após um saque das embarcações de pescadores locais por piratas franceses, o lendário herói terá vencido os corsários e distribuído o produto da pilhagem pelos pobres da terra. O lugar situa-se a pouco mais de hora e meia, a pé, do porto de Whitby, cenário inspirador para o Dracula, de Bram Stoker, povoação natal de Cædmon, o mais antigo (sec. VII) poeta inglês de que há registo, e não demasiado longe de Scarborough, cuja feira foi usada como intrigante metáfora para "Scarborough Fair", balada possivelmente anterior ao sec XVII e que, depois de diversas versões – Ewan Mac Coll, A.L. Lloyd, Martin Carthy, Shirley Collins, Bob Dylan (sob o título "Girl From The North Cuntry") – se tornaria um êxito para Simon & Garfunkel, em 1966. Foi com Martin Carthy que Paul Simon a aprendeu, numa das suas, então habituais, deslocações a Inglaterra. 



Feche-se, agora o círculo: gravado na Fisherhead Congregational Church de Robin Hood’s Bay (onde reside o casal Martin Carthy/Norma Waterson), Anchor assinala o momento em que Carthy, que jurara não voltar a cantá-la (memórias amargas de direitos de autor sonegados na banda sonora de The Graduate...), regressa a "Scarborough Fair". É uma interpretação óptima e consideravelmente diferente mas a importância do álbum está muito longe de se ficar por aí: verdadeira reunião de duas gerações da realeza folk britânica, Norma Waterson & Eliza Carthy With the Gift Band – tal como já acontecera antes sob a designação Waterson:Carthy – junta Eliza com os pais, Marty e Norma (ambos a chegarem aos 80 anos), e, em geografia historicamente adequada, não apenas convoca toda a memória dos Watersons, Steeleye Span, Fairport Convention, Albion Band e Brass Monkey, mas, sem reflexos nostálgicos, abre-a também a saborosas contiguidades ("Lost In The Stars", de Kurt Weill, a desaguar em "The Galaxy Song", dos Monty Python), belíssimas transfigurações ("Strange Weather", de Tom Waits, "The Beast", de Michael Marra, a assombrada "Shanty Of The Whale", de KT Tunstall), ou à redescoberta da empolgante "The Elfin Knight", prima afastada de... "Scarborough Fair". Depois do óptimo Lodestar (2016), gravado por Shirley Collins aos 81 anos, Anchor confirma: a folk britânica só pode ser, sem dúvida, território de boas águas.

29 November 2016

PERGAMINHO

  
“Repent, repent, sweet England, for dreadful days are near”, escreveu, em 1580, Thomas Deloney por ocasião do grande terramoto que então sacudiu Londres. Ralph Vaughan Williams recolheu-a, em 1909, e, agora, aos 82 anos, Shirley Collins escolheu-a para abertura de Lodestar, improvável regresso aos discos após quase quatro décadas de ausência. O álbum de homenagem, Shirley Inspired..., de 2015 –, no qual intervinha gente de tão diversas proveniências como Lee Ranaldo, Meg Baird, Rozi Plain, Bonnie Prince Billy ou Graham Coxon – oferecia uma esclarecedora visão da imensa ressonância que, mesmo após tão prolongada ausência, Collins continuava a possuir. Ela que, em 1959, nos primórdios do "folk revival", viajara com o folclorista Alan Lomax até ao Sul dos EUA para o registo de espécimes musicais de blues, bluegrass e folk, e que, a seguir, com a Albion Band, Watersons, Young Tradition, o Early Music Consort, de David Munrow, foragidos dos Fairports e Steeleye Span, e a irmã, Dolly, publicaria preciosidades da dimensão de Anthems In Eden (1969) Love, Death And The Lady (1970), No Roses (1971), ou o colectivíssimo Son Of Morris On (1976), descobriu-se emudecida, desde 1978, em consequência de uma disfonia.


Agradeçamos, pois, os bons ofícios de David Tibet (Current 93) que a persuadiu a não desistir e, inesperadamente, a aceder em gravar Lodestar. Produzido por Ian Kearey, da Oysterband, pode dizer-se que se trata da matriz, em estado de natureza, das Murder Ballads, de Nick Cave: reunindo peças do século XVI ao XX, num tremendo painel gótico de uma "olde weird England" – com desvio cajun pela América – onde até uma festiva e pagã cantiga de Maio não abdica de encerrar com a ameaça “and when you are dead and you're in your grave, you're covered in the cold, cold clay, the worms they will eat your flesh, good man, and your bones they will waste away”, imperial, por entre sanfonas, concertinas, dulcimers, violoncelos, rabecas e orgãos de tubos, a voz de pergaminho de Shirley Collins, faz desfilar personagens e cenas de horror, vingança, negríssimo humor e inquietante "nonsense", com a deliciosa ligeireza amoral da tradição capaz até de tornar cativantes palavras como “There was blood in the kitchen, there was blood in the hall, there was blood in the parlor where the lady did fall”.

07 September 2012

UM ESPAÇO PEQUENO COM GENTE ENORME


É uma vergonha. Mas foi preciso que, meia dúzia de dias após termos conversado telefonicamente, Van Dyke Parks me tivesse enviado um email a pedir imensa desculpa por se ter esquecido de me dizer quanto o tinha impressionado, em 1957, uma estátua de Vasco da Gama que vira em Lisboa, para que eu me apercebesse de que, sim, existe, em Lisboa, uma estátua dele. No Arco da Rua Augusta. À beira dos 70 anos, o homem que, com Brian Wilson, inventou o lendário Smile e vê, agora, o seu magnífico tríptico inicial reeditado (Song Cycle, 1967, Discover America, 1972, Clang Of The Yankee Reaper, 1975) sabe isso e muitíssimo mais e é o exacto tipo de interlocutor com quem apetece conversar pelas horas fora.

    Deve ser uma sensação bastante peculiar ver, ao fim de mais de quatro décadas, as suas primeiras gravações de novo publicadas...

    A primeira impressão é que, de súbito, me fez sentir muito velho. Agora, tenho cabelos brancos e estamos a falar de obras do tempo em que eles eram castanhos. Aos meus filhos, digo: há neve no telhado mas, cá dentro, o fogo continua a arder. Continuei sempre a trabalhar e acredito que o melhor ainda está para vir. Voltando ao que ficou para trás, tenho de dizer que ainda me espanta, parece-me bem executado e surpreende-me que esteja a ser reeditado porque sempre tenho vivido nos bastidores e retirado imenso prazer de trabalhar para outros músicos como arranjador. Mas tenho muito orgulho nos poucos discos que publiquei em nome próprio, na sensação de descoberta que neles existe, e vejo-os não como peças de museu mas como sinais claros de uma "street sensibility" e de um sentido de humanidade que não desapareceram.


    Diria que aquilo que pretendeu concretizar com Song Cycle estava no mesmo comprimento de onda do que, em Smile, com Brian Wilson e os Beach Boys, pouco antes, tinha experimentado?

    Não posso dizer que, conscientemente, tivesse pensado em alguma comparação ou continuidade: ambos exprimiam aquilo que eu era e os assuntos por que me interessava e qualquer semelhança – ou mesmo dissemelhança – seria totalmente acidental.

    Não estava a pensar em semelhanças mas na possibilidade de existir alguma atmosfera criativa da época partilhada por ambos os projectos...

    Não sei responder a isso. De um modo geral, o meu trabalho é completamente instintivo, nada racionalizado. Estilisticamente, surgiu com uma certa espontaneidade, nunca tive, sequer, tempo para pensar nisso.

    Deixe-me, então, reformular a pergunta: andarei demasiado longe da verdade se disser que o espírito que liga todos estes trabalhos é o que dá o título a um dos seus álbuns, Discover America?

    Acho que sim. Desde miúdo, ensinaram-me que a primeira regra da escrita é escrevermos sobre aquilo que conhecemos. Eu escrevia sobre aquilo que me era familiar. Em particular, sobre a experiência americana. É preciso recordar que, na época em que Song Cycle foi publicado, os Beatles eram a “Invencível Armada”, a força dominante na música. Todos desejavam ser musicalmente ingleses e não era popular ser americano. Na América, aconteciam motins raciais, lançavam-se bombas sobre o Vietname, ser americano era algo de indesejável, déclassé... e, no entanto, eu pretendia ir pela estrada menos utilizada, queria descobrir a América.



    Por outro lado, qual foi a sua sensação quando, tanto tempo depois, Brian Wilson publicou, finalmente Smile?

    Fiquei muito feliz porque a minha relação era, essencialmente, com ele, era um projecto altamente pessoal e foi maravilhoso podermos revisitá-lo e conclui-lo dado que havia ainda tecido conjuntivo no corpo da obra que necessitava de ser construído. Foram apenas necessários alguns dias, foi como voltar a andar de bicicleta depois de muitos anos sem o fazer. Mas isso é só aquilo que tem sido a realidade da minha vida, o prazer de fazer música, escrever textos, colaborar com outros, a verdadeira felicidade está aí. Sempre me senti muito distante tanto de cumprimentos como de insultos no que respeita à opinião que possam ter sobre o meu trabalho.

    Tanto é compositor como produtor, arranjador e letrista, já escreveu para o cinema e colaborou com gente tão diferente como Tim Buckley, Randy Newman, Laurie Anderson, Harry Nilsson, Fiona Aple, Phil Ochs... como faz para se exprimir através de veículos tão diferentes e com gente tão diversa?

    Pode dizer-se que é uma arena social bastante elástica. É preciso lidar com uma dinâmica muito ampla mas a regra de ouro, para mim, tem sido sempre procurar rodear-me dos maiores talentos que for capaz e tentar servi-los lealmente, procurando tirar partido do melhor que têm. E, ao fazê-lo, talvez consiga contribuir com algo e construir um corpo de trabalho significativo. É um desafio muito exigente, claro, trabalhar com outros e respeitá-los, quer esteja de acordo com eles ou não. Tanto como produtor, como enquanto compositor ou arranjador, acho que descobri formas para o fazer bem. Mas nunca me sinto preparado para isso, não é como se tivesse descoberto a fórmula mágica. É preciso ter confiança nesse processo.


    Falando de três daqueles que já não estão connosco – Tim Buckley, Harry Nilsson e Phil Ochs – como foi trabalhar com eles?

    Tinham os três uma coisa absolutamente idêntica: todos decidiram o seu próprio caminho, todos viveram sem perder de vista os seus princípios, sabiam distinguir o certo do errado. Talvez não soubessem para onde se dirigiam mas agiam de acordo com o que pensavam ser correcto. O Phil Ochs foi o homem mais honesto e incorrupto que alguma vez conheci na música. O Harry Nilsson, entretanto, foi o mais inteligente, era um génio, um génio matemático, e, ao mesmo tempo, uma imprevisível bola de fogo capaz de incendiar qualquer lugar onde entrasse. O Tim, com uma personalidade mais fechada, tinha uma visão muito clara. Mas eram todos completamente verdadeiros em relação a si mesmos, o género de pessoas com quem eu gosto de estar numa sala. Porque gravar um álbum é isso: estar dentro de um espaço pequeno com gente enorme.

    Li que, na sua relação com outros músicos, procura adoptar uma atitude reactiva perante aquilo que eles lhe sugerem. Enquanto compositor, no entanto, como passa a uma posição activa?

    Sinto-me autorizado a estar errado, preciso de gozar do direito a falhar. Há uma autoridade no insucesso, tal como existe uma autoridade no êxito. Repare na autoridade de um falhanço, por exemplo, Vincent Van Gogh: ninguém representa a autoridade do insucesso como esse pintor holandês. Vendeu um único quadro durante toda a vida e, contudo, emergiu como um pintor de imenso valor porque sabia desinquietar as pessoas e interrogar a forma como viam o mundo. Não que eu me tenha proposto fazer o mesmo mas a minha música também mexeu com quem a ouviu, ao ponto de alguns se irritarem e de isso me criar problemas com a crítica. É muito reactiva em relação ao tempo e aos acontecimentos que me formaram e não me envergonho disso. Quando compus Song Cycle tinha 24 anos e consigo ver os erros que cometi. Claro que gostava de ter tido uma vida economicamente desafogada mas esse tipo de preocupações nunca me ocorre quando estou a pensar em música.


    Quando, há pouco, falou do seu americanismo por oposição à invasão britânica dos anos 60, recordei-me de uma entrevista em que afirmou não se ter impressionado muito com o folk-rock mas sim com o folk, que Martin Carthy era o seu músico britânico favorito e que votava mais nos Steeleye Span do que nos Fairport Convention. O que, tendo estes sido o casulo de dois dos maiores "songwriters" – Richard Thompson e Sandy Denny –, me surpreendeu...

    Sem dúvida. Tanto a Sandy como o Richard ou o Martin representam uma continuidade. Parte da obrigação de um artista consiste em revelar uma compreensão histórica e, simultaneamente, mergulhar no futuro: há que manter o pára-brisas maior que o espelho retrovisor mas devemos preservar ambos. Há tesouros que devem ser estimados e descobrir uma forma de os fazer iluminar esta idade das trevas em que vivemos e que se chama Antropoceno: no meu tempo de vida, começou com o lançamento da primeira bomba atómica e é uma era mais negra da História humana do que, alguma vez, poderia ter imaginado, um momento em que a contribuição das artes tem de ser mais importante do que nunca. E eu quero fazer parte desse processo.

28 February 2011

MIMETISMO



















The Decemberists - The King Is Dead

Segundos iniciais de "Don’t Carry It All", a primeira faixa, e somos atingidos de frente pelo gemido de uma harmónica dylaniana enquanto dobradiça da porta de entrada para uma canção que, certamente por distracção, os Fairport Convention não terão incluído num dos seus primeiros álbuns. A obediência aos preceitos do folk-rock britânico permanece lá mas nada sequer de remotamente semelhante aos épicos prog-trágico-marítimos em quatro partes, sobre criaturas da floresta, entidades mitológicas e diáfanas donzelas por que os Decemberists, até agora, foram amados e execrados em partes iguais. Segunda canção, "Calamity Song", e oh felicidade!... é, afinal, "Talk About The Passion", dos R.E.M., quase nota por nota, com Peter Buck na tripulação e tudo.



Buck aparece mais duas vezes: em "Down By The Water" – abertura springsteeniana deslizando para uma melodia desenhada à transparência sobre "The One I Love", tal como Richard e Linda Thompson a interpretariam, mas com Gillian Welch no lugar de Linda – e, ao banjo, no tema de abertura. Nenhum Rolling Stone assina o ponto mas "All Arise" é "Honky Tonk Women" em versão Fairports-meets-The Band e, mesmo sem a comparência de Morrissey ou Johnny Marr, “This Is Why We Fight" teria entrada instantânea num Best Of dos Smiths.



Semeiem por aí meia dúzia de pinceladas das paletas de Neil Young, Wilco e Gram Parsons, Springsteen mais umas quantas vezes, entretenham-se a decidir se "Rox In The Box" puxa mais para Richard & Linda, para os Steeleye Span ou para Young com Nicolette Larson, se "January Hymn" contém maior quantidade de material genético de Donovan ou de Simon & Garfunkel e, sem fazer batota, experimentem descobrir qual a faixa em que Laura Veirs se ouve lá ao fundo. O juízo final até é simples: em formato aparado e escanhoado, quanto mais Colin Meloy e cúmplices se despersonalizam e cultivam o mimetismo, melhor é a sua música.

(2011)