The Great Hunger:The Life & Songs Of Shane MacGowan
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11 February 2020
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01 August 2019
ENCORAJAR A RESISTÊNCIA
O programa da participação de Marc Ribot na próxima edição do Jazz em Agosto será centrado em Songs Of Resistance 1942-2018, o magnífico álbum de militância anti-Trump (e anti-direita xenófoba global) que, no ano passado, espicaçado pelo desastre presidencial de 2016, publicou, na companhia de Tom Waits, Steve Earle, Meshell Ndgeocello, Syd Straw, Sam Amidon, Tift Merritt, Cornelius, Fay Victor e Domenica Fossati. O guitarrista favorito da cena "downtown" de Nova Iorque tem um objectivo claro e não poupa as palavras.
Antes de mais, queria dizer-lhe que, na minha opinião, Songs Of Resistance 1942-2018, tanto do ponto de vista musical como no que respeita à urgência da intervenção política, foi o melhor álbum de 2018.
Muito obrigado, é um enorme elogio.
A primeira impressão ao escutá-lo foi de que se tratava de uma muito ilustre descendência contemporânea de Liberation Music Orchestra (1970) do Charlie Haden. O que, ao ler o que escreveu no "booklet", acabei por confirmar. Pode dizer-se que um funcionou como "template" para o outro?
Não lhe chamaria exactamente "template" mas é verdade que fui sempre fã da Liberation Orchestra. Tem piada que tenha referido isso porque estou numa digressão com a Diana Krall e o Joe Lovano que tocou com a orquestra do Charlie Haden faz parte da banda. Esse é um assunto acerca do qual conversámos várias vezes. Aliás, num álbum já antigo (Don’t Blame Me, 1995), fiz uma versão de "Song For Che". Tratou-se, na realidade, de sentir a urgência de reagir a uma determinada situação política.
É interessante porque essa peça do Charlie Haden tem um significado muito especial para os portugueses: quando no primeiro Festival de Jazz de Cascais, em 1971, durante os últimos anos da ditadura, ele – com o quarteto de Ornette Coleman – interpretou "Song For Che", dedicou-a aos movimentos de libertação das colónias portuguesas...
E foi preso, eu sei.
Como procedeu para realizar a escolha dos temas que iria abordar no álbum, existindo um tão grande arquivo de canções políticas e da luta anti-fascista?
Desde há bastante tempo que vou incluindo no meu reportório canções de resistência ou da luta pelos direitos cívicos nos EUA. Cresci com muitas delas. Mas, para este álbum, orientei-me por duas ideias: uma era que teria de escolher canções que não tivessem apenas uma importância histórica mas que fizessem sentido e fossem relevantes agora. E esse “agora” era o início de 2017, imediatamente após a tomada de posse de Donald Trump como presidente dos EUA. A outra era procurar incluir canções capazes de se dirigirem a um grande número de pessoas, o momento exigia uma política de frente popular contra aquilo que entendi como uma ameaça do ressurgimento de ideias fascistas.
No "booklet", também afirma que há uma explícita intenção de agit-prop. Sente que têm funcionado como tal?
Não tenho a ilusão de que, pelo facto de alguém escutar estas canções, de súbito, vá pensar que, afinal, votar em Trump não é uma boa ideia. A intenção é, de certo modo, fazer saber a quem se sente desconfortável com a situação política que vivemos que não estão sozinhos, há mais gente que pensa como elas, encorajá-las a agir. Ninguém, na época da luta pelos direitos cívicos, participou no movimento apenas porque ouviu uma dessas canções. Por exemplo, "We Are Soldiers In The Army", que está neste album, era uma canção cantada no exterior das prisões quando alguém era preso, para transmitir coragem e sentir que tinham apoio.
E uma canção como "Bella Ciao" que o Tom Waits interpreta magnificamente no álbum, proporciona, por outro lado, um alargamento da perspectiva histórica evocando os "partigiani" italianos...
Queria muito que essa canção fizesse parte do álbum porque é escrita de um ponto de vista muito pessoal de alguém que se junta à resistência anti-fascista, e despede-se da namorada tendo perfeitamente consciência de que poderão não voltar a ver-se. É uma canção política e de resistência mas centrada num momento de intimidade.
Como é que procedeu relativamente à escolha de quem iria interpretar cada canção?
Para algumas canções, eu já tinha uma ideia assente sobre quem desejava que a interpretasse. Ao Tom Waits, propus uma série de canções mas ele apaixonou-se imediatamente pela “Bella Ciao”.
Já a conhecia?
Creio que não. Mas foi imediatamente investigar tudo que podia acerca dela e ouvir as versões originais, tal como fez com as outras.
Todos aqueles que convidou aceitaram participar ou houve algumas recusas?
Tentei convidar algumas pessoas que, por motivos de calendário ou outros quaisquer, não puderam participar. Quando se procura gravar um álbum colectivo como este, por vezes, umas pessoas estão disponíveis e outras não. Mas toda a gente nos deu um grande apoio e nos encorajou a prosseguir. E cada um dos que participaram teve uma entrega total e incondicional.
Houve também o caso da intérprete mexicana de "Rata de Dos Patas" cuja identidade, por receio de retaliação política, não pôde ser revelada...
Ela temia que, caso pretendesse actuar nos EUA, a entrada lhe fosse negada. Gostaria imenso de poder dizer que os receios dela não tinham fundamento mas, infelizmente, não posso.
Com uma tal diversidade de canções e intérpretes, de que forma pensou a unidade estética do álbum?
Bem... digamos que esperei que tudo corresse o melhor possível! O Kamilo Kratc que o misturou fez um trabalho extraordinário, foi tudo concretizado um pouco em cima da hora. Tínhamos feito uma pré-mistura mas foi no desfecho final que tudo encontrou o seu devido lugar e espaço.
Para além da questão política imediata e concreta, já contou que existem igualmente razõess pessoais e familiares que o motivaram...
Sou judeu e os meus avós do lado do meu pai eram da Polónia e Bielorrúsia. Os do lado da minha mãe eram da actual Ucrânia, relativamente perto de Auschwitz. Praticamente todas as pessoas da família alargada dos meus avós foram exterminadas pelos nazis. Não digo que Trump seja nazi mas todas as pessoas que tenham algum conhecimento da História não podem deixar de ficar bastante nervosas com ele. Aquela combinação de irracionalidade e estupidez é extremamente perigosa.
Prevê que as próximas eleições possam correr de maneira diferente?
Apoio o candidato escolhido pelos Democratas, qualquer que ele seja. Mais do que isso: irei, voluntariamente, de porta em porta, tentar convencer as pessoas da urgência de nos vermos livres de Trump. Em Nova Iorque, toda a gente irá votar contra ele, por isso, estou disposto a ir até aos lugares onde as pessoas possam ainda estar hesitantes. É o tipo de acção verdadeiramente importante que é indispensável realizar.
Tem um candidato ou candidata Democrata preferido?
Tenho candidatos que prefiro mas não vou falar acerca disso. Na minha opinião, qualquer um deles é melhor do que Trump. O espírito do álbum é de unidade, uma proposta de frente popular que seja capaz de nos libertar deste tipo de gente que é, realmente, uma ameaça para a democracia. Por isso, tenho os meus favoritos, vou trabalhar com eles e votar neles mas, no final, apoiarei quem for escolhido para enfrentar Trump. Há quem defenda a teoria do quanto pior melhor, isto é, que, quando alguém é realmente tão mau quanto Trump, isso poderá contribuir para acelerar as mudanças sociais. É o género de treta política que me parece demasiado perigoso considerar sequer.
Nesta digressão europeia, tem actuado em países como a Ucrânia, Polónia, Hungria ou Itália onde existem governos de direita xenófoba particularmente assanhada...
Tenho andado em digressão com a Diana Krall. Toquei em todos esses sítios que referiu mas, tratando-se da música dela que não é abertamente política, não era de esperar reacções particularmente significativas. Mas é verdade que em todos esses países que mencionou, especialmente na Hungria, existem problemas enormes que devemos empenhar-nos em resolver, enquanto for possível, da forma que for possível.
Gostava que desenvolvesse uma ideia que referiu, aquando da públicação do álbum: como combater o inimigo sem nos transformarmos nele?
(risos) Sim, penso que existe sempre esse perigo. Num poema, o Yeats diz “Too long a sacrifice can make a stone of the heart, o when may it suffice?” Falava da luta dos irlandeses contra o que era a opressão do colonialismo inglês da altura e dirigia-se a uma mulher por quem estava apaixonado e que desejava ver mais dedicada a ele do que à luta política. (risos) Sempre existiram canções de combate por causas justas ou injustas. E são todas muito semelhantes. Mas o que estas canções têm de mais belo é o reconhecimento da fragilidade dos seres humanos, não se satisfazem em gritar “somos fortes, vamos vencer!” Em "We Are Soldiers In The Army", o segundo verso acrescenta logo “we've got to fight although we have to cry”. "Bella Ciao" é também uma canção muito triste: o protagonista imagina a possibilidade de morrer na luta pela liberdade. Uma outra canção (que acabou por não ser incluída no álbum) do movimento pelos direitos cívicos que descobri numa compilação da Folkways, "Kingdom of Heaven", diz “I am a pilgrim of sorrow, walking through this wild world alone, I have no hope for tomorrow but I’m trying to make Heaven my home”. Era cantada para encorajar as pessoas e foi com essa mesma intenção que eu pretendi partilhar estas canções de resistência. Pode parecer um chavão mas, a verdade é que acredito na democracia e na liberdade, o meu coração está com os corajosos estudantes de Hong Kong. Se a música pode contribuir para todos estes combates, é uma coisa boa.
Já tocou várias vezes em Portugal. Sente alguma especial afinidade pelo país?
Na verdade, a primeira vez que toquei em Portugal foi em 1982, com o Wilson Pickett. Ele perdeu um avião e, por isso, passei três dias em Lisboa. Desde essa altura, Lisboa, em particular, e Portugal, em geral, passaram a ser um dos meus sítios preferidos no planeta. Lisboa é, evidentemente, muito diferente de Nova Iorque mas é "funky" de uma forma que Nova Iorque costumava ser. Por muitas razões históricas, Portugal é completamente distinto da Europa do Norte, racialmente diverso... quando passeio pelas ruas, recordo-me de Nova Iorque. Com a vantagem de aqui poder saborear sardinhas assadas!... (Anfiteatro ao ar livre da Fundação Gulbenkian, qui, 1 Ago / 21:30 – 23:00)
Na verdade, a primeira vez que toquei em Portugal foi em 1982, com o Wilson Pickett. Ele perdeu um avião e, por isso, passei três dias em Lisboa. Desde essa altura, Lisboa, em particular, e Portugal, em geral, passaram a ser um dos meus sítios preferidos no planeta. Lisboa é, evidentemente, muito diferente de Nova Iorque mas é "funky" de uma forma que Nova Iorque costumava ser. Por muitas razões históricas, Portugal é completamente distinto da Europa do Norte, racialmente diverso... quando passeio pelas ruas, recordo-me de Nova Iorque. Com a vantagem de aqui poder saborear sardinhas assadas!... (Anfiteatro ao ar livre da Fundação Gulbenkian, qui, 1 Ago / 21:30 – 23:00)
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08 October 2018
SE NÃO RESISTIRMOS
Não é, de modo nenhum, um exagero voltar a escrever sobre Songs of Resistance 1942 – 2018, o álbum que Marc Ribot (juntamente com Tom Waits, Steve Earle, Meshell Ndegeocello, Fay Victor, Tift Merritt, Sam Amidon, Justin Vivian Bond, Ohene Cornelius, Syd Straw e Domenica Fossati), sentiu a urgência de gravar, imediatamente após a eleição de Donald Trump: “Os meus avós perderam irmãos, irmãs, primos, tias e tios no Holocausto e eu tenho amigos na Rússia e na Turquia, por onde viajei: sabemos bem quem é Trump e não é nenhum mistério onde acabaremos se não resistirmos. (...) A resistência – não apenas o protesto que, por definição, reconhece a legitimidade do poder a que se dirige – tinha de ser planeada. Sou músico, iniciei, então, a minha prática de resistência pela música”.
Particularmente esclareceder dessa urgência é o que, na contracapa do CD, se pode ler acerca da intérprete da canção popular mexicana "Rata de Dos Patas" (composta por Manuel Eduardo Toscano a propósito do Presidente mexicano, Carlos Salinas de Gortari, e originalmente cantada por Paquita la del Barrio, mas, aqui, remetida para destinatário temporariamente residente na Casa Branca): “Devido ao receio de que a retaliação do regime de Trump pudesse ameaçar o seu visto de emigrante, a vocalista desta gravação pediu que fosse omitida qualquer referência à sua identidade. Não duvidamos que os seus receios são inteiramente justificados, por isso, actuámos de acordo com o seu desejo. Ficamos-lhe gratos pela maravilhosa interpretação e pela coragem de, apesar de tudo, ter participado na gravação. E ansiamos pelo dia em que a expressão política e artística não mais esteja sob a ameaça de uma repressão tão vingativa e racista. Venceremos!” Porém, embora admitindo que “os arranjos e as canções neste disco foram escritos e executados, abertamente, como agitprop”, isso não excluiu a intenção de que conseguissem actuar em diversos níveis: dispensando a veneração perante a “autenticidade histórica” e recorrendo a todas as matérias-primas – do free-jazz à country, ao cancioneiro antifascista e ao rock, à citação da poesia e textos de Yeats, Ginsberg, Pete Seeger, do economista Nicholas Stern, do “New Colossus” (de Emma Lazarus), do Génesis, ou à colagem de fragmentos de notícias e palavras de ordem escutadas nos protestos de rua –, Songs of Resistance 1942 – 2018 é a concretíssima demonstração de como, no século XXI e sempre que necessário, a música de perfil político continua de belíssima saúde estética e militante.
25 September 2018
NO PASSARÁN!
Dias antes das eleições presidenciais francesas do ano passado nas quais Macron e Marine Le Pen se enfrentavam, Marc Ribot e “um grupo de músicos novaiorquinos preocupados” – Jack Dejohnette, Mary Halvorson, Roy Nathanson, Marco Cappelli, Ches Smith – publicavam no “Le Monde” uma carta dirigida “aos nossos amigos franceses que pensam abster-se no domingo”. E alertavam: “A eleição de Donald Trump foi, para nós, um pesadelo. Escrevemos-vos porque, vendo os números das sondagens de Le Pen e ouvindo os debates acerca da abstenção, vivemos um aterrador 'déjà vu'. Esperamos que possam beneficiar da nossa experiência. Como muitos de vós, muitos de nós opuseram-se ao neo-liberalismo de Hilary Clinton e, agora, ao de Macron. Mas a cura para a opressão neo-liberal – em França, Grã Bretanha, Hungria ou EUA – não é a eleição das respectivas Frentes Nacionais. Dizemos: NO PASSARÁN! E apelamos a todos que apoiem uma Frente Popular que as detenha. (...) Não à abstenção! Não a Le Pen!”
Por essa altura, já Ribot tinha dado início à gravação do álbum que, “cinco minutos após a eleição de Trump”, decidira ser inevitável: Songs Of Resistance 1942 – 2018. Inspirado por “Liberation Music Orchestra (1970), de Charlie Haden, Sounds of the Civil Rights Movement, da Smithsonian Folkways, e tudo o que os Last Poets publicaram”, o ubíquo guitarrista da vanguarda de Nova Iorque que Tom Waits, Elvis Costello e John Zorn não dispensam pesou prós e contras – “Há muitas contradições no acto de fazer música com objectivos políticos: como agir contra alguma coisa que detestamos sem nos tornarmos iguais a ela? Porventura, iremos cometer erros mas aprenderemos com eles” –, avançou e, belissimamente acompanhado, não cometeu um único erro. Entre clássicos do cancioneiro antifascista italiano como "Bella Ciao" (esventrada por Tom Waits) e "Fischia II Vento" (transfigurada pela voz de Meshell Ndegeocello em levitação), o desfile de imprecações reorientadas para Trump na canção popular mexicana "Rata de Dos Patas" (“Rata inmunda, animal rastrero, escoria de la vida, (...) espectro del infierno, maldita sabandija, cuánto daño me has hecho”), hinos reconfigurados dos Direitos Cívicos, ou as novíssimas e magníficamente iradas "Srinivas" (por Steve Earle e Ribot) e "The Big Fool" , se Songs of Resistance, cobrindo um reportório de quase 80 anos, parece ecoar Hegel – “aquilo que a História ensina é que nunca aprendemos nada com a História” –, na verdade, dos "partigiani" italianos aos combatentes de Charlottesville, obstina-se em nunca depor as armas.
24 May 2017
“O olhar [de Richard Thompson] sobre o mundo e as criaturas não capta senão micro-infernos como Salford, que já dera origem à 'Dirty Old Town', de Ewan MacColl ('Salford sunday and I'm dreaming, and it's all in black and white')"
01 October 2008
DARK CHORDS

Joan Baez - Day After Tomorrow
Joan Baez nunca cantou tão bem. É de prever que uma legião de milhões de fãs se erga em fúria perante tal afirmação – afinal, a sua reputação foi construída sobre a imagem de diva quase-operática da folk-song militante – mas a verdade é que, agora que o registo de agudos da sua voz (de que usava e abusava) deixou de lhe estar acessível, o timbre mais escuro e quente veste como uma luva o óptimo reportório que, nos discos mais recentes (particularmente o belíssimo Dark Chords On A Big Guitar, de 2003), tem vindo a escolher.
Produzido por Steve Earle (que também compôs três canções e intervém como guitarrista), Day After Tomorrow recorre a temas de Elvis Costello/T Bone Burnett, Tom Waits, Eliza Gilkyson, Patti Griffin, Diana Jones e Thea Gilmore que, em configuração acústica country/folk, mereceriam atenção pelo menos idêntica à que é oferecida a inúmeras mini-luminárias de tendência “alt/psych/free”. E estou certo que Tom Waits abençoará a interpretação do tema-título (“They fill us full of lies everyone buys 'bout what it means to be a soldier, I still don't know how I'm supposed to feel 'bout all the blood that's been spilled”), a sua improvável “protest song” sobre a guerra do Iraque.
(2008)
Joan Baez - Day After Tomorrow
Joan Baez nunca cantou tão bem. É de prever que uma legião de milhões de fãs se erga em fúria perante tal afirmação – afinal, a sua reputação foi construída sobre a imagem de diva quase-operática da folk-song militante – mas a verdade é que, agora que o registo de agudos da sua voz (de que usava e abusava) deixou de lhe estar acessível, o timbre mais escuro e quente veste como uma luva o óptimo reportório que, nos discos mais recentes (particularmente o belíssimo Dark Chords On A Big Guitar, de 2003), tem vindo a escolher.
Produzido por Steve Earle (que também compôs três canções e intervém como guitarrista), Day After Tomorrow recorre a temas de Elvis Costello/T Bone Burnett, Tom Waits, Eliza Gilkyson, Patti Griffin, Diana Jones e Thea Gilmore que, em configuração acústica country/folk, mereceriam atenção pelo menos idêntica à que é oferecida a inúmeras mini-luminárias de tendência “alt/psych/free”. E estou certo que Tom Waits abençoará a interpretação do tema-título (“They fill us full of lies everyone buys 'bout what it means to be a soldier, I still don't know how I'm supposed to feel 'bout all the blood that's been spilled”), a sua improvável “protest song” sobre a guerra do Iraque.
(2008)
30 June 2007
DECANTAÇÃO

June Tabor - An Echo Of Hooves
Joan Baez - Dark Chords On A Big Guitar
Evitarei cuidadosamente a metáfora do vinho do Porto. Mas arranjarei, por certo, uma outra forma de dizer que, de modo diferente e por razões várias, muito bem assentam os anos em June Tabor e Joan Baez. Em relação à primeira, dir-se-ia que se trata apenas de um naturalíssimo processo de apuramento e refinamento contínuo no qual cada sucessivo disco testemunha mais um passo na decantação cada vez mais subtil de todas as ínfimas tonalidades da voz que se dirigem sempre de fora para dentro, da interpretação para a transfiguração,
dos agudos para os graves de veludo negro e profundo. Com June Tabor — por ela, inteiramente para além de tão baixos parâmetros, não se definem regras — importa muito menos o material do que a voz e a quintessência da música que ela transporta e sobre a qual a voz se exerce. Sejam Costello, Richard Thompson ou quem quer que ela tenha atraído para a sua teia, palavras e melodias serão sempre outras, uma vez filtradas através do grão daquele timbre. E, se começou com a herança da tradição britãnica, a ela regressa agora com este eco de galopes em onze estações, na companhia de Huw Warren, Mark Emerson, Tim Harries, Martin Simpson e Kathryn Tickell. E é em "Rare Willie", três passos antes do fim, "a capella" radical, que ressoa o eco da memória, do vento, da chuva e da neblina da ilha que, por todo o resto do disco alastra como um véu que repele a obscena luz do sol.
A boa notícia é que isto se aplique também a Joan Baez.
Já sem os agudos e vibratos estridentes com que, nos seus "young years", imaginava atribuir uma nova alma à tradição, à "protest song", a um Bob Dylan quase "belcantado" e a todas as causas "politically correct", Baez canta agora com a voz que lhe resta. E como o uso que faz da voz que lhe resta é tão infinitamente melhor! Velada e obscurecida, com um discreto acompanhamento instrumental de veia alt.country, opta por um reportório de "dark chords" oferecido por Steve Earle, Joe Henry, Gillian Welsh ou Ryan Adams e, mesmo para quem, como eu, nunca se inscreveu na seu clube de fãs, é uma agradável surpresa. (2003)
June Tabor - An Echo Of Hooves
Joan Baez - Dark Chords On A Big Guitar
Evitarei cuidadosamente a metáfora do vinho do Porto. Mas arranjarei, por certo, uma outra forma de dizer que, de modo diferente e por razões várias, muito bem assentam os anos em June Tabor e Joan Baez. Em relação à primeira, dir-se-ia que se trata apenas de um naturalíssimo processo de apuramento e refinamento contínuo no qual cada sucessivo disco testemunha mais um passo na decantação cada vez mais subtil de todas as ínfimas tonalidades da voz que se dirigem sempre de fora para dentro, da interpretação para a transfiguração,
A boa notícia é que isto se aplique também a Joan Baez.
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