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01 September 2021

 
(sequência daqui) Agora que Path Of Wellness é publicado, Brownstein volta à carga: “Acho muito interessante que as mesmas pessoas que rejeitam o conservadorismo em política desejassem que nos contentássemos com uma versão estática e codificada da banda. Nós sempre nos vimos com o passo trocado em relação ao que, às vezes, as pessoas pretendem de nós”. Gravado durante o pesado Verão pandémico de 2020, em Portland, quando as manifestações Black Lives Matter enchiam diariamente as ruas e as florestas do Oregon ardiam – “It’s not the summer we were promised, it’s the summer we deserve”Path Of Wellness, desta vez produzido pelo duo sobrevivente, dificilmente trará de volta os dissidentes: (demasiado?) adulto e (demasiado?) polido, o espírito “riot” continua lá mas as vozes que o gritam parecem não se dar conta do amontoado de clichés rock que as sufocam.

30 August 2021

COM O PASSO TROCADO
 

“A Annie pretendia rearrumar a nossa caixa de ferramentas e reconfigurar a banda de uma forma que não perdesse de vista quem somos”, dizia Carrie Brownstein há dois anos, pretendendo justificar a escolha de Annie Clark/St. Vincent como produtora de The Center Won’t Hold, o segundo álbum das Sleater-Kinney após o regresso, em 2015, com No Cities To Love. Mas, apesar de alguns sinais de alerta de que, então, se aperceberam (“Ela pretendia somar, somar, somar, e nós víamos a tela a ficar toda preenchida e pensávamos ‘É isso mesmo mas tem de existir aí algo escorregadio’”), isso não impediu que Janet Weiss, a baterista e terceiro elemento histórico da banda com Corin Tucker e Brownstein, se sentisse marginalizada e tivesse abandonado o pioneiro trio de “riot grrrls” o que, algo profeticamente, a imagem da capa – uma colagem de estilhaços dos rostos das três Sleater-Kinney – anunciava. A marca de St. Vincent era, de facto, óbvia mas ainda que a sua intervenção não desfigurasse o álbum, um alegado abuso de “popização” levou alguns mais ortodoxos a torcer o nariz e cavou divisões nas fileiras outrora unidas. (daqui; segue para aqui)

12 February 2021

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13 August 2019




RESPIRAR

  
“Não desejo sugar todo o ar de uma canção mas o que gosto no maximalismo da Annie é a sua linguagem densa e complexa. Por isso, a ideia era ‘Ok, tudo bem, mas preserva a respiração de cada canção’. Essa respiração pode ser variada mas as Sleater-Kinney são isso: uma possibilidade de caos, um momento em que se abre espaço. Uma expiração, uma inspiração, um grito, um suspiro, um berro – essa respiração tem de estar lá. Foi aí que o nosso trabalho com a Annie resultou realmente bem porque ela pretendia somar, somar, somar, e nós víamos a tela a ficar toda preenchida e pensávamos ‘É isso mesmo mas tem de existir aí algo escorregadio’”, disse à “Uncut” Carrie Brownstein a propósito da colaboração com Annie Clark/St. Vincent que as Sleater-Kinney elegeram como produtora de The Center Won’t Hold, publicado quatro anos após No Cities To Love (que, por sua vez, interrompera uma longa ausência de 10 anos desde The Woods). À “Mojo”, Brownstein foi mais sintética: “A Annie pretendia rearrumar a nossa caixa de ferramentas e reconfigurar a banda de uma forma que não perdesse de vista quem somos”


E, convenhamos, esse seria o mínimo exigível a alguém que se arriscasse a lidar com uma das bandas mais simbólicas (e longevas) do rock-no-feminino, herdeiras da insurreição "riot grrrl", que, na viragem do século, Greil Marcus consagraria como “America’s best rock band”. Na realidade, não foi exactamente assim: "Reach Out" ou "Ruins" poderiam, facilmente, ser incluídas num álbum de St. Vincent – e terá sido, eventualmente, essa excessiva proximidade que, concluídas as gravações, conduziu Janet Weiss a abandonar a banda –, mas, em grande medida, é obrigatório reconhecer-se que, se contaminação houve, não poderia ser mais bem-vinda. Inspirado num poema de Yeats (“The Second Coming”, 1919) alusivo à atmosfera do pós-guerra – “Things fall apart, the centre cannot hold, mere anarchy is loosed upon the world” –, o álbum é um insolente desabafo (“You know I'm unfuckable, unlovable, unlistenable, unwatchable”) lançado sobre o mundo e os seus aterradores protagonistas contemporâneos (“You’re a creature of sorrow, you’re the beast we made, you scratch at our sadness until we’re broken and frayed”), um SOS aflito (“Reach out and touch me, I’m stuck on the edge, reach out, the darkness is winning again”) e desnorteado (“I need something muddy to cover up the stain, the center won't hold”). Se St. Vincent lhe obscureceu a luz e endureceu as arestas, só teremos de ficar-lhe gratos.

14 September 2017

DESPERTAR


Desde há anos que os R.E.M. (via Peter Buck) e as Sleater-Kinney (via Corin Tucker) alimentavam uma discreta sociedade de mútua admiração. Tanto assim que, logo a seguir ao "harakiri" do grupo de Michael Stipe, em 2011, e durante a suspensão de actividades das pós-"riot grrrls" de Olympia, entre 2007 e 2014, Buck e Tucker começaram, sem demasiada pressa, a reunir as peças para o que, sob o nome de Filthy Friends, haveria de ser a mais recente encarnação de uma das assombrações da história do rock: o “supergrupo”. Acolheriam a bordo Scott McCaughey, Bill Rieflin (antigos "compagnons de route" dos R.E.M.), Kurt Bloch (veterano da cena alternativa de Seattle), e, episodicamente, Krist Novoselic (Nirvana). Se, de início, o pretexto era o de actuar como banda de "covers" de David Bowie – e foi nessa qualidade que, em Janeiro do ano passado, uma semana após a morte de Bowie, se apresentaram no “Todos Santos Music Festival”, anualmente organizado por Peter Buck na Baja California –, ainda em 2012, Buck e Tucker tiveram uma visão do futuro e ele era assustador. E, meio século depois de Dylan, decidiram-se a escrever a "The Times They Are A-Changin’" contemporânea. 


Só a publicariam, porém, em 2016, no último mês da campanha presidencial, no site “30 Days 30 Songs – Musicians for a Trump Free America”, declarando: “Já antes de Trump anunciar a candidatura, apercebemo-nos de quanto o país estava a mudar cultural e politicamente. A realidade é ainda mais feia e desanimadora. Desejamos de todo o coração poder dizer ‘adiós’ a Trump no dia da eleição”. Como bem sabemos, não puderam. Mas, agora que os Filthy Friends publicam o primeiro álbum (Invitation), na voz de Corin – algo entre Grace Slick e Patti Smith –, "Despierta" soa, paradoxalmente, ainda mais poderosa: “Despierta, senador, the time is nearly here, the gold watch strapped around your wrist must have stopped some time ago, the day is fading quickly and the hour is nearly here, the whitest chalk upon this land is about to disappear, holding onto the past won’t make it repeat, it’s time to get up, I think you’re in my seat (…), your time is over, your power’s peaked, adiós, senador, I have come to get the keys”. Será, inevitavelmente, a bandeira que irá à frente num desfile de 12 belíssimas canções sobre as quais, naturalmente, a sombra dos R.E.M. paira. Mas também as dos Television, dos T. Rex ou dos Pixies contribuem para que, neste caso, “supergrupo” deva ser lido literalmente.

09 September 2017