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24 September 2019

UM LONGO CAMINHO

  
Dungeness é um promontório na costa de Kent, no sudeste de Inglaterra, uma reserva natural de Especial Interesse Científico devido à sua particular geomorfologia bem como às ricas fauna e flora. É também o local onde, desde 1983, se ergue uma central nuclear que, apesar de, diversas vezes, ter apresentado problemas graves, só tem o encerramento previsto para 2028. Foi, justamente, aí que Derek Jarman – cineasta, encenador, pintor, escritor, poeta e activista pelos direitos gay –, imediatamente após ter sido dignosticado HIV-positivo em 1986, comprou uma velha casa de pescadores em torno da qual foi plantando um jardim, “cujas fronteiras eram o horizonte”. No diário que, entre 1989 e 1990, escreveria sob a assombração da central (“Vê-se um por-do-sol ameaçador por trás da central nuclear: amarelos lívidos e negros de tinta com um profundo golpe escarlate. À medida que as sombras se adensam, a paisagem torna-se cinzenta; o céu sorveu todas as cores”), registaria todas as espécies botânicas cultivadas e as experiências de jardinagem no solo infértil de cascalho enquanto capítulos vitoriosos de uma guerra irremediavelmente perdida (“Não desejo morrer... ainda. Gostaria de ver o meu jardim ainda mais alguns verões”). O último verão foi o de 1993 e o título do diário, Modern Nature


Foi depois de uma visita ao jardim de Jarman que Jack Cooper sentiu não apenas o desejo de explorar um lugar de ambiguidade entre bucolismo pastoral e tensão urbana como achou o nome da banda que sucederia aos extintos Ultimate Painting: ele, Will Young (Beak>), o saxofonista Jeff Tobias (Sunwatchers), e o violoncelista Rupert Gillett chamar-se-iam Modern Nature. Escutando How To Live, apetece dizer que foi necessário percorrer um longo caminho até chegarmos a tão magnífico destino: Cooper revela, voluntariamente, alguns dos locais de paragem – Richard Thompson, Kraftwerk, Robert Wyatt, Brian Eno, Morton Feldman, Talk Talk, Shirley Collins, Pentangle, Simon Fisher Turner, Jonny Greenwood, Krzysztof Komeda – mas, à extensa lista, poderia ainda acrescentar-se (não tanto pela música em si, mas pelas atmosferas que evoca), It’s Immaterial, Blue Nile ou Young Marble Giants. Num video dividido entre paisagem rural e marítima e fragmentos de "morris dancing", leia-se um discreto manifesto de serena perplexidade: “Modern nature, great failure, tired and broken old creator, grand space race, find a new place, high above the barren fixed state (…) hide my eyes, my ears, away to nature”.

27 August 2019

JÁ NÃO É O MESMO RIO


Os mandalas – círculos geométricos simbólicos ou mapas rituais presentes no Hinduismo, no Budismo, no Jainismo e no Xintoismo – têm, no Budismo tibetano, uma forma de expressão particular: os "dul-tson-kyil-khor" ou mandalas de areias coloridas que, após semanas de minuciosa elaboração, uma vez concluídos, são ritualmente destruidos e a areia que os constituía lançada à água de um rio, como modo de concretização da concepção budista sobre a transitoriedade da vida material. Quando, a 29 de Agosto de 1952, John Cage entregou ao pianista David Tudor a responsabilidade de estrear os seus 4’33” de silêncio na Woodstock Artists Association – uma peça em três andamentos nos quais, sem tocar uma única nota, Tudor limitava-se a abrir e fechar o instrumento para assinalar o início e fim de cada um deles –, pretendia, essencialmente, propor três ideias: 1) o silêncio não existe (durante os 4’33” escutou-se o vento nas árvores, gotas de chuva percutindo o telhado, vozes e cochichar do público atónito); 2) música é todo o som, espontâneo ou planeado, que, em cada instante, desejarmos aceitar como tal; 3) qual "dul-tson-kyil-khor" (e sabe-se a influência determinante que as filosofias orientais exerceram sobre Cage), o universo sonoro – urbano, rural, industrial, natural, convencionalmente musical – que nos envolve não deve (nem pode) ser imobilizado nem capturado mas apenas momentaneamente acolhido.



Existirão, assim, sempre disponíveis tantos “concertos” de 4’33” (ou com outra qualquer duração) quantos quisermos, únicos e irrepetíveis. É justamente por aí que STUM433, a caixa de 5 LP com 58 “versões” (e respectivos videos) da peça de John Cage que será publicada na sequência da comemoração dos 40 anos da Mute Records (“mute”= “mudo”, “silencioso”), tropeça e falha clamorosamente o alvo: o que A Certain Ratio, A.C. Marias, Alexander Balanescu, Barry Adamson, Cabaret Voltaire, Depeche Mode, Einstürzende Neubauten, Goldfrapp, Irmin Schmidt, Laibach, Lee Ranaldo, Mark Stewart, Michael Gira, Mick Harvey, New Order, Simon Fisher Turner, Wire, e os restantes 41 artistas da editora de Daniel Miller fazem ao aceitar registar em disco as sonoridades aleatórias, "found", ambientais, mais públicas ou mais privadas, por que optaram é tão só o exacto oposto do que Cage não se cansou de explicar e que, parafraseando Heráclito, poderíamos, agora dizer “Nenhum homem se banha duas vezes na água do mesmo rio sonoro, pois já não é o mesmo rio e ele já não é o mesmo homem”.

20 November 2018

ARMISTÍCIO


Quando menos se espera, volta e meia, surgem em Portugal as ideias mais surpreendentes. Por exemplo – antecipando de uma semana a celebração, em Paris, do Armistício da I Guerra Mundial –, festejar a paz que pôs termo à selvática carnificina inter-imperialista (na qual, rasgando novos horizontes para a historiografia, o comandante supremo das Forças Armadas portuguesas conseguiu enxergar o quadro quase hippie de uma luta "pela compreensão contra o ódio, pela liberdade contra a opressão, pela justiça contra a iniquidade, pela Europa aberta contra a Europa fechada") com... “o maior desfile militar em 100 anos”! Leram bem: festejar a paz = desfile militar. O maior em 100 anos. Tantos quantos os do Armistício. Se, para um estudo da natureza profunda da mente militar, a literatura recomendada continua a ser O Bom Soldado Švejk, de Jaroslav Hašek, que tem lugar, justamente, durante a guerra de 1914-18 – preste-se particular atenção à personagem do alferes Konrad Dauerling –, evocar de forma decente e enxuta as memórias desse tempo é o que, desde 2016, Darren Hayman tem andado a fazer com o tríptico Thankful Villages de que é agora publicado o terceiro e último volume. 

Wysall, Nottinghamshire (Thankful Villages/XXVII)

Não há aqui monumentos aos mártires nem epopeias heróicas: apenas um inventário das 54 “aldeias gratas” por todos os seus soldados terem regressado vivos a casa. Hayman visitou-as uma a uma e, em cada uma delas, realizou um video e uma aguarela, conversou com os residentes locais, registou entrevistas, histórias e "field recordings", e criou atmosferas sonoras e canções "site specific". Nas últimas 19 etapas do Volume 3, em Minting, no Lincolnshire, um gato invadiu-lhe o carro e recusou-se a sair enquanto David, professor da escola da terra, músico, e detectorista amador foi com ele desenterrar moedas chinesas antigas; chega a Ousby, Cumberland, onde um cavalo o olha fixamente, um cão lhe ladra, e recebe a notícia do assassinato da deputada trabalhista Jo Cox por um extremista de direita, a um mês do referendo do Brexit; no dia a seguir à vitória de Trump nos EUA, em Wysall, Nottinghamshire, dão-lhe a ver um filme das irmãs “Miss Evans” sobre a vida da aldeia e o último dia da escola, quando Mrs. Kettle era a professora; e, Sally Beers, um dos 48 habitantes de Teigh, Rutland County (pano de fundo musical cortesia de Simon Fisher Turner), conta-lhe a história do avô, o reverendo Henry Tibbs, preso por ser simpatizante nazi. Uma miniatural história secreta da Grã Bretanha que vale por mil desfiles militares.