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23 February 2025

FOLK-ROCK MINIMALISTA


Se há personagem que, sem a mais ínfima molécula de dúvida, deverá ser objecto de incondicional veneração por parte da Internacional Melómana é Joe Boyd. É o mínimo devido a quem, enquanto produtor, editor, autor e "olheiro", foi um silencioso motor por trás das carreiras de Fairport Convention, Sandy Denny, Richard (& Linda) Thompson, Pink Floyd, Nick Drake, The Incredible String Band, R.E.M., John and Beverley Martyn, Kate & Anna McGarrigle, Billy Bragg, 10 000 Maniacs, Shirley Collins, Fotheringay, Albion Band, Dagmar Krause, Mary Margaret O'Hara e June Tabor. Mas também um dos fundadores do lendário UFO, clube da Londres psicadélica, o criador da etiqueta Hannibal Records (1980/1998) e autor de White Bicycles: Making Music in the 1960s (2007), segundo Brian Eno, "O melhor livro sobre música desde há muitos anos". Razões mais do que suficientes para que, quando ele se entusiasma com alguma coisa, lhe prestemos atenção. (daqui; segue para aqui)

"Logic"

17 July 2024

"Folk music used to be a potent political tool. Does it still have that power? 

Shirley Collins - Potent political tool? I would say 'My arse', if you wouldn’t mind. For me, Pete Seeger bashing his bloody banjo and exhorting an audience to join the chorus of 'We Shall Overcome' never seemed to advance any causes. It just made people feel they were taking part in something. Bob Dylan’s 'Masters of War' is great, but I didn’t quite trust the people writing protest songs because those I knew weren’t, frankly, nice people" (daqui)

19 June 2024

FILIGRANA E LABAREDAS

No passado dia 30 de Abril, contaram-se 50 anos sobre a publicação de I Want To See The Bright Lights Tonight, de Richard e Linda Thompson, eterno (e justíssimo) candidato a figurar nas listas dos melhores álbuns de sempre. Por essa altura, Richard tinha no currículo "apenas" 5 álbuns com os Fairport Convention - entre os quais a trilogia de ouro de 1969, What We Did On Our Holidays, Unhalfbricking e Liege & Leaf -, o primeiro álbum a solo, Henry The Human Fly (1972), No Roses (1971), com Shirley Collins e a Albion Country Band, Rock On (1972), integrado em The Bunch, selecção de notáveis do emergente folk-rock na hora do recreio à volta de canções de (entre outros) Elvis Presley, Buddy Holly e Everly Brothers, e Morris On (1972), espécie de derivação do anterior com a tradição das "morris dances" como eixo. Faltava, porém, ainda muito (nunca menos do que brilhante) caminho até se atingir o bonito total actual de 24 álbuns a solo, 18 "live" (a solo e com os Fairports), 10 compilações, 5 bandas sonoras para televisão e cinema, e dispersas pelas esquinas do universo sonoro, literalmente incontáveis colaborações mais ou menos notórias. Mas, desde o agora cinquentenário, a atmosfera na qual tudo o que viria a seguir se instalaria ficava definitivamente estabelecida na canção de embalar "The End Of The Rainbow" dedicada a Muna, a filha recém-nascida: "I feel for you, you little horror, safe at your mother's breast, no lucky break for you around the corner, 'cos your father is a bully and he thinks that you're a pest, and your sister, she's no better than a whore, life seems so rosy in the cradle, but I'll be a friend I'll tell you what's in store, there's nothing at the end of the rainbow, there's nothing to grow up for anymore". (daqui; segue para aqui)


27 July 2023

COMO UMA CORRENTE 

Há três anos, aquando da publicação do belíssimo Heart’s Ease, de Shirley Collins, a veterana padroeira da folk britânica, sem papas na língua mas com alguma dose de injustiça pelo meio, a propósito daqueles que poderiam constituir a sua "descendência" actual, dizia-me: "Para ser sincera, as Unthanks fazem música lindíssima mas parecem-me demasiado repetitivas, prefiro um pouco mais de substância. E os Stick In The Wheel dão-me a sensação de estarem a cantar sempre a mesma música. Mas adoro os Lankum – a Radie Peat é uma cantora extraordinária!..." No último número da "Songlines" – na capa, os Lankum, sob o título de "The Fearless Future of Folk" –, a mui respeitável Natalie Merchant, unindo pontas, contava como, tempos antes, quando procurava uma versão de Shirley Collins para o tradicional "Hares On The Mountain", deparara com um vídeo de Radie Peat e Daragh Lynch (metade dos Lankum) interpretando esse tema: "Fiquei imediatamente rendida à tonalidade da voz dela e ao desenho hipnótico da guitarra. Escavei mais fundo e descobri 'The Young People' e 'Hunting The Wren' (ambos de The Livelong Day, 2019). Parei imediatamente. Os textos do Ian Lynch e o talento da banda para reinventar a tradição são impressionantes. Se 'Hunting The Wren' fosse um poema, não seria menos poderoso. Mas, com aquela voz, naquela música, é devastador". (daqui; segue para aqui)

27 November 2022


(sequência daqui) E, elas próprias, com o fundamental contributo de Adrian McNally (teclista, percussionista, compositor e arranjador), dividiram-se por inúmeros projectos paralelos: em torno das canções de Robert Wyatt e de Molly Drake, com a Brighouse and Rastrick Brass Band, em Songs From The Shipyards e Lines. Com os soberbos Last (2011) e Mount The Air (2015) dir-se-ia que o programa confessado por McNally – “Exigimos reinventar-nos permanentemente de modo a tornarmo-nos ‘bandas diferentes’, cada uma de acordo com cada projecto” – se consumara. Sete anos depois, Sorrows Away, pelo contrário, parece querer dar razão ao que Shirley Collins, em 2020, me confessava: Elas fazem música lindíssima mas parecem-me demasiado repetitivas, prefiro um pouco mais de substância”. Em "My Singing Bird", "Waters Of Tyne" e "The Bay Of Fundy" toda a substância está lá, intacta. Mas o resto são tão só imponderabilidades cinemáticas, tapetes vocais de veludo, orquestrações mais leves que o ar. Apenas “música lindíssima”.

25 November 2022

APENAS "MÚSICA LINDÍSSIMA"

Há 12 anos, preparavam-se Rachel e Becky Unthank para actuar no Olga Cadaval, em Sintra, pareceu-me urgente anunciar a verdadeira dimensão do que iríamos testemunhar: “Desde a era dos Fairport Convention, Steeleye Span, Pentangle, Richard & Linda Thompson e das irmãs Collins – ainda que com valiosíssimos porta-estandartes como June Tabor durante o interregno –, não surgia nenhum grupo na cena folk inglesa capaz de deixar absolutamente clara a ideia de que, no idioma popular tradicional, circulava ainda sangue suficientemente oxigenado e pronto a garantir que ‘os anos de ouro’ nunca seriam apenas uma antiga e saudosa memória. The Unthanks, em três magníficos álbuns – Cruel Sister (2005), The Bairns (2007) e Here’s The Tender Coming (2009) –, mudaram tudo”. Desde então, vários outros notáveis - Kinnaris Quintet, Lankum, Stick In The Wheel, Mànran, Sam Lee – se lhes juntaram. (daqui; segue para aqui)
 
"The Old News"

03 November 2021

(sequência daqui) Em estúdio e acompanhado pelo violinista Ultan O’Brien, mas, sobretudo, pelo baterista/compositor Ross Chaney e pelo produtor Brendan Jenkinson, compreende-se melhor por que motivo, quando chamado a confessar as suas referências, numa longuíssima lista, inclui John Martyn, Portishead, Gavin Bryars, Sufjan Stevens, Ewan MacColl, Shirley e Dolly Collins, David Byrne, Steve Reich, Bill Frisell ou Big Thief. Basta escutar "Shallow Brown" – dilacerante "sea-shanty" de navios negreiros que já assombrou June Tabor – a ser devorada por um vórtice electrónico, "My Son Tim" gradualmente estilhaçada em dissonâncias e estridências, "Lovely Joan" em dissolução num labiríntico arranjo de cordas e sopros, o emaranhado novelo de melodias para dois "tin whistles" de "Tralee Gaol" ou o tríptico "Bring Me Home" em irreversível caminhada para uma fantasmagórica abstracção. “Beautiful and strange”, sem dúvida. E absolutamente preciosa.

26 March 2021

Anne Briggs - "Summer's In"
 
(sequência daqui) O período que abrange começa no momento em que, no número 49 da Greek Street, no Soho londrino, abria o folk club “Les Cousins” (nome inspirado pelo filme homónimo de Claude Chabrol) onde, em alternativa à ortodoxia folk de Ewan McColl e "hardliners" afins, uma fresquíssima vaga de gente – Davy Graham, Bert Jansch, John Renbourn, Sandy Denny, The Strawbs, Incredible String Band, The Young Tradition, Anne Briggs, Martin Carthy, John Martyn... – desempoeirava as “sagradas escrituras” e, sem cerimónia, expunha-as a toda a sorte de heresias, do embrionário psicadelismo aos subterrâneos esoterismos lendários da “old, weird Britannia” pagã. Vários deles reencontram-se nestas 60 faixas mas valerá a pena dizer que, com mui honrosas excepções, não é por acaso que alguns nomes (Fairports, Pentangle, Steeleye, Third Ear Band, Young Tradition, Tim Hart & Maddy Prior, Shirley Collins, Mr Fox, todos aqui presentes) mais facilmente se recordam: eles eram incomparavelmente melhores.

11 December 2020

01 December 2020

DE BEM VIVA VOZ

 

Após 38 anos sem gravar um disco, a primeiríssima dama da folk britânica, Shirley Collins, regressou, inesperadamente, em 2016, com o belíssimo Lodestar. A disfonia que a afectara aparentemente vencida, reincide, agora, com Heart’s Ease, outra pérola do reportório folk que, aos 85 anos nos oferece, não demasiadamente desconfortável com o confinamento (“Desde há muito que vivo sozinha, já estou habituada”) mas tremendamente furiosa com o rumo que o Reino Unido tomou: “Boris Johnson, que homem horrível! Como é que a Inglaterra pode ter chegado a este ponto! Eu sou europeia!...” 

    Em Electric Eden, Rob Young cita-a: “Sempre soube que esta música tinha nascido em mim. Sabia como cantá-la e nunca me iria afastar daí”. Foi, de facto, assim? 

Durante a 2º guerra mundial, era eu ainda criança, vivíamos em Hastings, na costa Sul de Inglaterra. Havia, frequentemente, raides aéreos e tínhamos de correr a refugiar-nos em abrigos onde os meus avós cantavam para mim e para a minha irmã, Dolly. Só mais tarde percebi que o que nos cantavam eram canções folk, música tradicional. Canções que eles, naturalmente, cantavam e que faziam parte da vida diária. Creio que começou tudo aí: adorava os meus avós, sentia-me segura junto deles, muito cedo essas músicas entraram em mim e nunca mais sairam. 

    No início do folk revival, havia aquela atitude militante de recolha e preservação da “música do povo”, levada extremamente a sério por gente como Alan Lomax (com quem viajou aos EUA numa expedição de recolha) ou Ewan MacColl... Como lidava com isso? 

Até certo ponto, compreendo-a uma vez que se trata de algo importante que deve ser preservado. Mas é uma forma um bocado agressiva de lidar com a música. Prefiro que as pessoas se sintam livres para fazer o que gostam sem necessitarem de regras estabelecidas por outros. O Ewan MacColl foi o pior de todos nessa atitude de ditar aquilo que podia e não podia ser cantado.* Não gostava nada dele, por isso também não liguei muito ao que dizia. Pareceu-me sempre um bocado falso, não era genuíno. Já o Alan Lomax era diferente, tinha consciência da importância de salvar do esquecimento a música tradicional de todos os países e do orgulho que as pessoas deveriam sentir na sua herança musical.

  

    Mas essas tradições musicais estavam, realmente, moribundas e necessitavam de ser preservadas?  

Era necessário mantê-las vivas porque estavam a ser exterminadas pela grande máquina da indústria musical que nos atira a mesma música para cima, seja qual for o lugar do mundo onde nos encontremos. Claro que também produz música óptima mas, no seu caminho, esmaga tudo, nada resta das músicas originais que fazem parte da História e das tradições dos povos. É terrível mas não tenciono deixar de lutar. 

    Na viagem aos EUA, com Alan Lomax, sentiu-se um pouco como um Colombo “ao contrário”, indo descobrir na América aquilo que já conhecia em Inglaterra? 

(risos) Sim, sobretudo nas montanhas Apalaches e Ozark, no Kentucky e no Arkansas, onde encontrámos canções originalmente inglesas, irlandesas e escocesas. Era fascinante escutar, em versão americana, canções que eu conhecia das colecções do Cecil Sharp. Evidentemente, ao longo dos anos tinham-se transformado gradualmente. E pude cantar algumas das versões que conhecia que as pessoas de lá receberam com a alegria de constatarem que, como diziam, “back in the old country”, ainda eram conhecidas. 

    Aos seus olhos, Fairport Convention, Steeleye Span, Pentangle, foram bem-vindos? 

Foi fantástico, de um modo geral, foi muito bom. A música era muito bem tocada, eram todos músicos que conheciam bem aquilo com que estavam a lidar, não era uma moda de que, mais tarde, se iriam arrepender. Acreditavam no que estavam a fazer. Era claro que, por exemplo, os álbuns de "morris dances", nunca iriam ser populares. Mas era uma questão de manter viva aquela música, de uma forma fresca e que não a rebaixava nem insultava.


  Como foi a experiência de, com a sua irmã Dolly, colaborar com David Munrow e o Early Music Consort em Anthems In Eden (1969) e Love, Death And The Lady (1970)? 

Devem ter sido os momentos mais emocionantes da minha vida musical! Para além de, como já lhe contei, os meus avós nos ensinarem canções tradicionais, o meu tio Fred fazia-nos ouvir muitos discos de Monteverdi. Aprendi, assim, a adorar também a música antiga. Conheci o David Munrow em Londres, com a Dolly. Fomos ter com ele ao Early Music Center porque adorávamos o trabalho dele, cheio de vida e energia. Passado algum tempo, surgiu a possibilidade de gravarmos Anthems In Eden e o David aceitou interpretar os arranjos da Dolly com o Early Music Consort. Ele era imensamente entusiástico, estar ao pé dele era como estar ligado a uma central eléctrica. Não duvidava que esta música deveria ser tocada e interpretada de uma forma rigorosa. Mas era tão gentil, o género de pessoa com quem nos apetece estar sempre... Eu não lia música (e continuo a não ler), o que, ao entrar para estúdio, me deixou um bocado nervosa. A Dolly tinha partituras para todos e, quando ele me disse que a minha entrada era no sexto compasso, tive de lhe confessar que não lia música. Respondeu-me: “Não há problema. Durante muito tempo, eu também não li música e, quando andei pela América Central, fui apanhando tudo de ouvido!” Era um músico extraordinário e foi o grande responsável da redescoberta e do interesse pela música antiga. A verdade é que tenho tido muita sorte com todos os extraordinários músicos com que me fui cruzando. 

    Também teve sorte por ter conseguido recuperar a voz... 

É verdade. O David Tibet, dos Current 93, veio visitar-me durante o período em que eu tinha deixado de cantar e disse-me que adorava os meus álbuns e que gostava que eu cantasse uma ou duas coisas num álbum dele. Ao fim de anos a tentar convencer-me, falou-me de um concerto que iria dar na Union Chapel de Londres e, depois de tanto tempo a dizer não, disse que sim!... E cantei mesmo. 

    Surpreendeu-se ao descobrir, em Shirley Inspired, que tinha tantos novos fãs como Lee Ranaldo, Meg Baird, Rozi Plain, Bonnie 'Prince' Billy?... 

Sim!...Foi uma grande surpresa ver aquela enorme variedade de músicos pegarem nas minhas canções. Não é uma questão de falsa modéstia mas tenho consciência que a música que faço se destina a um pequeno nicho. 

    Qual a sua opinião sobre gente recente como as Unthanks, Stick In The Wheel?..

Para ser sincera, as Unthanks fazem música lindíssima mas parecem-me demasiado repetitivas, prefiro um pouco mais de substância. E os Stick In The Wheel dão-me a sensação de estarem a cantar sempre a mesma música. Mas adoro os Lankum – a Radie Peat é uma cantora extraordinária! – e o Alasdair Roberts.;

    Tanto em Lodestar como em Heart’s Ease, o processo de selecção do reportório foi o que sempre utilizou? 

Sim, e não foi difícil encontrar as canções. Poderia gravar mais 20 álbuns se fosse necessário. O essencial é que os arranjos nunca se sobreponham â canção. Os músicos com que tenho trabalhado são perfeitos para mim, comprendem instantaneamente o que cada canção pede. São pessoas inteligentes, divertidas... e lêem livros! (risos) Já agora, tenho de dizer-lhe que a minha filha deu-me a conhecer a obra do José Saramago. Comecei por A Jangada de Pedra e, agora, estou a ler o Manual de Pintura e Caligrafia. É extraordinário!
 

* ver aqui e aqui

27 November 2020

VINTAGE (DXXXIX)
 
Shirley & Dolly Collins - Anthems In Eden (c/ The Early Music Consort of London, dir. David Munrow)
(álbum integral aqui)

31 July 2020

 SEM BÚSSOLA NEM CALENDÁRIO

  
Brigid Mae Power esteve doente com Covid-19 e agora, já aparentemente recuperada, conta que teve “imensos sonhos estranhíssimos que ainda persistem. Aparecem-me pessoas conhecidas mas em versões tremendamente horríveis delas próprias. Não as reconheço e tento fazê-las desaparecer. São sonhos verdadeiramente loucos...” Head Above The Water, o terceiro álbum da "singer-songwriter" de Galway, foi gravado antes de adoecer mas quase se diria que a matéria-prima para os pesadelos já se encontrava latente, não exactamente nos temas das canções mas na atmosfera febril de sonoridades desencarnadas que parecem navegar, sem bússola nem calendário, num oceano enganadoramente sereno. 


A bordo de The Green Door – um minúsculo estúdio analógico de Glasgow com lotação máxima para 4 pessoas de cada vez –, às ordens dos produtores e músicos Alasdair Roberts e Peter Broderick (ex-Efterklang e Mr. Power), esteve, durante três dias, uma tripulação de executantes de guitarra, piano, violino, bouzouki, flauta, contrabaixo, mellotron, pedal steel guitar, harmonium indiano e percussão, a dar espessura e densidade a dez canções localizadas entre a raiz tradicional de "The Blacksmith" e aquelas que se manifestam através do encontro imprevisível de textos esquecidos rabiscados em blocos de notas e novas melodias (ou vice-versa): ”Na verdade, não penso demasiado sobre como escrever ou acerca do que escrever. Trabalho sem pensar demasiado nisso, de uma forma muito pouco consciente, não sou pessoa para partir de ideias concretas”, disse â “Fractured Air”. É uma atitude recomendável. Afinal, a miúda que sonhava com Aretha Franklin, Etta James e Tim Buckley e se imaginava pianista de blues, escutada hoje, tanto faz pensar em Sandy Denny e Shirley Collins ("Wearing Red That Eve", "On A City Night", "Head Above The Water"), como em Liz Frazer ("We Weren’t Sure") e Hope Sandoval ("Wedding Of A Friend"). Ou em nenhuma delas, apenas nesta particular decantação de inquieta folk sideral e assombrado psicadelismo de câmara.

24 September 2019

UM LONGO CAMINHO

  
Dungeness é um promontório na costa de Kent, no sudeste de Inglaterra, uma reserva natural de Especial Interesse Científico devido à sua particular geomorfologia bem como às ricas fauna e flora. É também o local onde, desde 1983, se ergue uma central nuclear que, apesar de, diversas vezes, ter apresentado problemas graves, só tem o encerramento previsto para 2028. Foi, justamente, aí que Derek Jarman – cineasta, encenador, pintor, escritor, poeta e activista pelos direitos gay –, imediatamente após ter sido dignosticado HIV-positivo em 1986, comprou uma velha casa de pescadores em torno da qual foi plantando um jardim, “cujas fronteiras eram o horizonte”. No diário que, entre 1989 e 1990, escreveria sob a assombração da central (“Vê-se um por-do-sol ameaçador por trás da central nuclear: amarelos lívidos e negros de tinta com um profundo golpe escarlate. À medida que as sombras se adensam, a paisagem torna-se cinzenta; o céu sorveu todas as cores”), registaria todas as espécies botânicas cultivadas e as experiências de jardinagem no solo infértil de cascalho enquanto capítulos vitoriosos de uma guerra irremediavelmente perdida (“Não desejo morrer... ainda. Gostaria de ver o meu jardim ainda mais alguns verões”). O último verão foi o de 1993 e o título do diário, Modern Nature


Foi depois de uma visita ao jardim de Jarman que Jack Cooper sentiu não apenas o desejo de explorar um lugar de ambiguidade entre bucolismo pastoral e tensão urbana como achou o nome da banda que sucederia aos extintos Ultimate Painting: ele, Will Young (Beak>), o saxofonista Jeff Tobias (Sunwatchers), e o violoncelista Rupert Gillett chamar-se-iam Modern Nature. Escutando How To Live, apetece dizer que foi necessário percorrer um longo caminho até chegarmos a tão magnífico destino: Cooper revela, voluntariamente, alguns dos locais de paragem – Richard Thompson, Kraftwerk, Robert Wyatt, Brian Eno, Morton Feldman, Talk Talk, Shirley Collins, Pentangle, Simon Fisher Turner, Jonny Greenwood, Krzysztof Komeda – mas, à extensa lista, poderia ainda acrescentar-se (não tanto pela música em si, mas pelas atmosferas que evoca), It’s Immaterial, Blue Nile ou Young Marble Giants. Num video dividido entre paisagem rural e marítima e fragmentos de "morris dancing", leia-se um discreto manifesto de serena perplexidade: “Modern nature, great failure, tired and broken old creator, grand space race, find a new place, high above the barren fixed state (…) hide my eyes, my ears, away to nature”.

16 August 2019

TEMPOS DE VIRAGEM


Um tipo que se chama Karl Frederick em homenagem a Karl Marx e Friedrich Engels e cujos pais, no dia em que nasce, o inscrevem no Independent Labour Party – uma formação política da esquerda trabalhista britânica – tem, de certo modo, o destino traçado. Não foi, assim, muito surpreendente que Karl Dallas (1931 – 2016), activista pela paz desde os oito anos, enquanto jornalista, tivesse colaborado militantemente com o “Daily Worker”/”Morning Star” (jornal do Parido Comunista Britânico) e participado em inúmeras iniciativas de carácter anti-fascista. O que já não seria tão previsível é que Dallas – também "songwriter" com canções gravadas por Ewan MacColl e June Tabor – viesse a tornar-se o pai-fundador do jornalismo folk-rock britânico, essencialmente, nas páginas do “Melody Maker” (mas também no “Times” e “Independent” e nas suas próprias revistas “Folk News” e “Folk Music”) e em tomos como The Cruel Wars: 100 Soldiers' Songs From Agincourt to Ulster (1972), One Hundred Songs of Toil: 450 Years of Workers' Songs (1974) e The Electric Muse: The Story of Folk into Rock (1975). Foi a propósito da morte de Sandy Denny que, em Maio de 1978, na “Folk News”, Dallas recordou “aqueles gloriosos dias de Verão, no Soho, quando Paul Simon, Ralph McTell, Jackson C. Frank, Anne Briggs, Al Stewart, Beverley, Roy Harper, The Young Tradition, Bert Jansch, John Renbourn, (…) e um miúdo judeu chamado Dylan deambulavam pelo West End”.

Karl Dallas
 
É essa história e a imediata sequência dela que se resume em Strangers In The Room: A Journey Through The British Folk Rock Scene 1967-73 – mais um volume do precioso arquivismo histórico da Cherry Red – que, não por acaso, começa logo por citar Karl Dallas (do “Melody Maker”, Janeiro de 1970): “Há dois anos, folk rock era uma espécie de palavrão. Os adeptos da folk não compreendiam por que motivo tantos dos seus heróis electrificavam a sua música e os do rock recusavam-se a escutar tudo o que não soasse como o trovejar de uma manada. Hoje, graças aos Fairport Convention, a palavra pode tornar-se respeitável. Porque, se o que eles tocam não é folk rock, então o termo não significa nada”. Na verdade, a viragem começara um pouco mais atrás quando, em 1965, praticamente em simultâneo, os Byrds gravaram uma versão eléctrica de ‘Mr Tambourine Man’, de Bob Dylan, e este concluía as sessões de estúdio de Bringing It All Back Home, em cujo lado A era acompanhado por uma banda de rock. Duas páginas à frente no "booklet", Maddy Prior oferece a sua versão da história: “Na realidade, foi um casal americano que me fez interessar pela música inglesa. Andei a conduzi-los durante um ano por Inglaterra e, às tantas disseram-me: “Tens de parar de cantar música americana. Não tens jeito nenhum para isso. Porque é que não experimentas música inglesa?”



Nas 60 faixas da caixa de três CD, podem descobrir-se os clássicos lendários (Steeleye Span, Fairport Convention, Sandy Denny, Pentangle, Shirley Collins, Strawbs, Incredible String Band, Matthews Southern Comfort, Albion Country Band), os imerecidamente não tão na ponta da língua (The Woods Band, Trader Horne, Michael Chapman, Trees, Mike Hart, Bill Fay, Third Ear Band, Horslips, Ralph McTell, Mr Fox, Spirogyra, Bridget St. John) e algumas pérolas obscuras (Dando Shaft, Jade, Prelude). Para um primeiro passo no conhecimento mais completo da indispensável obra dos Steeleye Span, a Cherry Red propõe outra caixa de 3 CD, All Things Are Quite Silent: Complete Recordings 1970-71 que reune a fundamental trilogia inicial Hark! The Village Wait (1970), Please To See The King e Ten Man Mop or Mr. Reservoir Butler Rides Again (ambos de 1971), lugares onde a profunda erudição folk anglo-irlandesa acolhe e dilata as experiências eléctricas que Ashley Hutchings – agora acompanhado por Maddy Prior, Peter Knight, Tim Hart e uma posterior multidão de outros – havia iniciado quando ainda a bordo dos Fairport Convention, aqui elevadas a um patamar de apuro vocal e instrumental que estabeleceria o padrão face ao qual tudo o que viria a seguir haveria de ser comparado.

26 June 2018

BOAS ÁGUAS

  
Robin Hood’s Bay é uma pequena vila piscatória na costa Norte do Yorkshire. É pouco provável que Robin Hood alguma vez tenha andado por lá – tão pouco provável quanto a própria existência histórica da personagem – mas uma velha balada conta que, após um saque das embarcações de pescadores locais por piratas franceses, o lendário herói terá vencido os corsários e distribuído o produto da pilhagem pelos pobres da terra. O lugar situa-se a pouco mais de hora e meia, a pé, do porto de Whitby, cenário inspirador para o Dracula, de Bram Stoker, povoação natal de Cædmon, o mais antigo (sec. VII) poeta inglês de que há registo, e não demasiado longe de Scarborough, cuja feira foi usada como intrigante metáfora para "Scarborough Fair", balada possivelmente anterior ao sec XVII e que, depois de diversas versões – Ewan Mac Coll, A.L. Lloyd, Martin Carthy, Shirley Collins, Bob Dylan (sob o título "Girl From The North Cuntry") – se tornaria um êxito para Simon & Garfunkel, em 1966. Foi com Martin Carthy que Paul Simon a aprendeu, numa das suas, então habituais, deslocações a Inglaterra. 



Feche-se, agora o círculo: gravado na Fisherhead Congregational Church de Robin Hood’s Bay (onde reside o casal Martin Carthy/Norma Waterson), Anchor assinala o momento em que Carthy, que jurara não voltar a cantá-la (memórias amargas de direitos de autor sonegados na banda sonora de The Graduate...), regressa a "Scarborough Fair". É uma interpretação óptima e consideravelmente diferente mas a importância do álbum está muito longe de se ficar por aí: verdadeira reunião de duas gerações da realeza folk britânica, Norma Waterson & Eliza Carthy With the Gift Band – tal como já acontecera antes sob a designação Waterson:Carthy – junta Eliza com os pais, Marty e Norma (ambos a chegarem aos 80 anos), e, em geografia historicamente adequada, não apenas convoca toda a memória dos Watersons, Steeleye Span, Fairport Convention, Albion Band e Brass Monkey, mas, sem reflexos nostálgicos, abre-a também a saborosas contiguidades ("Lost In The Stars", de Kurt Weill, a desaguar em "The Galaxy Song", dos Monty Python), belíssimas transfigurações ("Strange Weather", de Tom Waits, "The Beast", de Michael Marra, a assombrada "Shanty Of The Whale", de KT Tunstall), ou à redescoberta da empolgante "The Elfin Knight", prima afastada de... "Scarborough Fair". Depois do óptimo Lodestar (2016), gravado por Shirley Collins aos 81 anos, Anchor confirma: a folk britânica só pode ser, sem dúvida, território de boas águas.

27 December 2016

MÚSICA 2016 - INTERNACIONAL (IV)

(iniciando-se, de baixo para cima *, de um total de 26)











* a ordem é razoavelmente arbitrária...

A atmosfera geral – de Cohen a PJ Harvey, Burroughs, Darren Hayman, Shirley Collins, Paul Simon, Christy Moore – não foi propriamente festiva. Há anos assim. Mas alguns, como este, na música e no resto, carregam claramente nas tintas. Do francamente sepulcral à nostalgia dorida, ao delírio assombrado ou à denúncia política, a paleta raramente recorre às cores primárias. O que, seria facilmente acentuado se, dilatando a lista dos dez primeiros, incluíssemos Blackstar, de David Bowie, Lover, Beloved: Songs From An Evening With Carson McCullers, de Suzanne Vega, Skeleton Tree, de Nick Cave, ou You Can't Go Back If There's Nothing to Go Back To, dos Richmond Fontaine. Fiquemos, pois, gratos à vibrante experimentação electro-acústica de Anna Meredith, ao suave neo-classicismo de Meilyr Jones (e, noutro registo, Bob Dylan) ou à iconoclastia de Luke Haines e Neil Hannon, por terem permitido que um pouco de luz penetrasse.