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06 March 2015

NÓSTOS + ÁLGOS


Por muito que a “marca Portugal” (inserir aqui um discreto “lol”) desejasse deter o "copyright" mundial sobre a palavra e o conceito de “saudade”, a verdade é que foi o médico suíço, Johannes Hofer, quem, em 1688, a partir dos termos gregos nóstos e álgos, literalmente inventou a “nostalgia”, ou "mal de Suisse", quadro clínico afim da melancolia, que afectava os soldados em campanha, longe da terra mãe. Se este padecimento, originalmente, se definia por um afastamento territorial, não foi preciso muito para que passasse a incluir também o "longing" ou "yearning" (duas óptimas traduções para a “intraduzível” saudade que, curiosamente, em gaélico irlandês, se diz “fadó”), esse anseio por tempos idos, real ou imaginariamente, “de ouro”. Isto é, a matriz para todas os futuros ímpetos nostálgicos e retro que conduziriam Simon Reynolds, a declarar, trezentos e alguns anos depois, que “the avant garde is now an arrière garde”



Alvo de uma crítica decididamente afirmativa foi, em Maio de 71, a loja de moda "vintage" londrina, “Biba”, atacada à bomba pelos anarquistas da Angry Brigade que, parafraseando Dylan, proclamavam: “If you’re not busy being born, you’re busy buying”. E acrescentavam: “Na moda, como em todo o resto, o capitalismo apenas pode andar para trás, não tem para onde ir, está morto. O futuro é nosso”. Não podiam estar mais errados. Se, no século XXI, as provas da sua esmagadora derrota abundam, na pop, pode considerar-se humilhante: o império-retro é avassalador e o recente Classics, de She & Him, outra lança em território inimigo. She é Zooey Deschanel – assim baptizada em homenagem a Zooey Glass, personagem de Salinger, “nascida” 45 anos antes dela –, a eterna Manic Pixie Dream Girl americana, e Him é M. Ward, criatura de credenciais indie, desde 2006, via S&H, convertido a uma minuciosa operação de reciclagem das preciosas antiguidades detectáveis no perímetro Motown/Spector/Tin Pan Alley/Nashville. Desta vez, o empreendimento não recorre à cosmética fake ao jeito-Lana Del Rey: Deschanel e Ward atiram-se de frente a treze temas dos anos 30 a 70 popularizados por Johnny Mathis, Louis Armstrong, Ella Fitzgerald, Aznavour ou Frank Sinatra (vendo bem, se Dylan pode, porque não eles?) e o resultado é, deveras, "cute". Os avós vão adorar. 

30 August 2011

AS FOTOS DAS FÉRIAS


















Tennis - Cape Dory

É extraordinariamente duvidoso que, só de olhar de relance a capa, alguém não excessivamente interessado pelo tipo de seres vivos que alimentam os palcos dos arraiais de província, considere sequer a hipótese de escutar Cape Dory. O nome da banda também não ajuda muito. Mas, ultrapassada a relutância visual e com alguma boa vontade, acaba por se descobrir que Tennis é "nom de plume" para o duo norte-americano, Patrick Riley e Alaina Moore, casal feliz e adepto das artes da navegação que, após sete meses a velejar pelo Atlântico, poisou os pés no cais com um álbum de canções pronto a gravar. A pergunta, então, é outra: quem é suficientemente simpático e tem pachorra para aturar uma sessão de fotografias-das-nossas-férias prolongadamente exibidas por amigos e pontuada de exuberantes “olha eu ali”?

A resposta é: por música é menos penoso. Mesmo que os Tennis não sejam imensamente diferentes do também "boy-girl-duo", Cults – honestamente, só à lupa se distinguem –, e que, como eles, sigam fidelissimamente o caminho das pedrinhas dos Camera Obscura, She & Him, Concretes ou God Help The Girl, isto é, assentem delicadamente, um pezinho atrás do outro, sobre as pegadas deixadas na areia por todos os "girl groups" que desenharam órbitas em torno de Phil Spector, acrescidos dos astros da galáxia-Motown. É tudo fresco, vaporosamente melodioso, os “ooohs”, “aaahs” e “shalalas” escorrem sobre os tímpanos como gotas de chuva no deserto, as "surf guitars" e as surdas triangulações de baixo invocam coreografias de "beach bums" betos sobre as ondas, e, de um modo geral, o sol brilha, eternamente, no horizonte. Mas, como nos bilhetes-postais, tudo demasiado semelhante.

(2011)

23 August 2011

RÉPLICA EXACTA


















Cults - Cults

A frase poderá ser reescrita de diversas formas mas, nestes casos, o argumento da defesa assenta sempre numa ideia-chave: a banda apropria-se de múltiplas referências já inúmeras vezes citadas mas insufla-lhes uma nova energia. Não estou a inventar, tropeça-se nela a cada esquina e, para o que, agora, interessa, também no caso dos Cults. Traduzindo, por isto se pretende dizer que nos encontramos perante mais outro daqueles grupos – aqui, o duo californiano relocalizado em Nova Iorque, Madeline Folin e Brian Oblivion – que, garimpando avidamente o filão Phil Spector/Motown/"girl groups", tal como muitos outros antes dele (Zooey Deschanel/She & Him, Concretes, Camera Obscura ou, definitivamente o "state of the art" na matéria, God Help The Girl), substitui o esforço de invenção pela concentração na réplica exacta do original, oferecendo uma espécie de colecção "fake" de raridades inéditas dos mestres, apenas com assinatura diferente para evitar sarilhos legais.



Nesse domínio, os Cults são, sem dúvida, extraordinariamente competentes na manipulação dos "genre signifiers", ainda que, aqui e ali, a pratiquem de modo excessivamente óbvio: "Bumper" escusava de fotocopiar tão escancaradamente a melodia de "Give Him a Great Big Kiss", das Shangri-Las, e "You Know What I Mean" e "Most Wanted" teriam levado na mesma a água ao seu moinho sem que, à transparência, tivessem de deixar adivinhar com tal nitidez a silhueta das Supremes. Mas são reparos menores: Cults é uma "period piece" de óptimo recorte, um trabalho de reconstituição realizado com minúcia e dedicação que, como todos os seus parentes próximos, acaba por nos oferecer a possibilidade de, consoante a hora, a temperatura ou o estado de espírito do momento, optarmos por peças "vintage" ou pelos seus sucedâneos actualizados.

(2011)

29 November 2010

A HERANÇA E OS HERDEIROS


















Magic Kids - Memphis



















All Delighted People - Sufjan Stevens

No “Guardian”, Paul Lester apresenta a questão de forma absolutamente clara: “Quem prefeririam ver – os três membros sobreviventes dos Beach Boys, de 68 anos, com um elenco de familiares, amigos e o leiteiro de passagem, a cantar canções que escreveram há quase meio século sobre miúdas adolescentes chamadas Wendy e proezas que nem por essa altura seriam capazes de realizar, ou um grupo de putos de vinte e poucos anos que oferece uma versão de baixo orçamento do mesmo?” A pergunta não é retórica porque as duas opções, de facto, existem: para o próximo ano – momento em que se comemora o 50º aniversário dos Beach Boys – Mike Love anunciou já a reunião dos elementos ainda vivos do grupo; e, como, logo um parágrafo abaixo, Lester afirma, os Magic Kids são os Beach Boys de Memphis entregues à missão de recompor até ao mais ínfimo pormenor a música dos dias de glória da banda de Brian Wilson “antes de o aventureirismo e os desconcertantes jogos de palavras de Van Dyke Parks lhe terem virado a cabeça do avesso”.



Sejamos justos: nos oceanos surfados por Wilson, irmãos & associados, já inúmeros outros – mais ou menos recentemente, mais ou menos explicitamente – igualmente navegaram, dos Concretes, Camera Obscura, Beach House, She & Him, Grizzly Bear, Animal Collective ou Fleet Foxes aos vetustos Big Star e Association ou aos oficiosamente reconhecidos Wondermints, cujo perito em assuntos-BB, Darian Sahanaja, actuou, em 2004, como braço direito (e, eventualmente também, esquerdo...) de Brian Wilson na reconstituição do lendário Smile. Por outro lado, nem é indispensável ouvir Memphis com demasiada atenção para se reparar como a ementa dos moços é algo mais variada do que uma exclusiva monodieta californiana: eles também escutaram os Seekers (olha o ostinato de piano de "Georgy Girl" em "Hey Boy"!), os Herman’s Hermits ("I’m Into Something Good" a espreitar à transparência de "Phone"), os ELO, os Turtles, as Ronettes e os Lovin’ Spoonful, têm um fraquinho por Jack Nitzsche e não dizem que não a uns saldos catitas de Phil Spector. Sim, nada de novo debaixo dos céus, mas um fresquíssimo aperitivo confeccionado com matérias-primas de boa qualidade.



Sejamos ainda mais justos: herdeiro verdadeiramente legítimo de Brian Wilson, actualmente, existe apenas um e chama-se Sufjan Stevens. E "herdeiro" no mais desejável sentido de quem, sem lhe macaquear os tiques, continua e enriquece uma peculiar visão musical da América, trabalha sobre os mesmos planos de complexidade vocal e orquestral e, higienicamente, presta bastante pouca atenção às tendências do momento. Colocado para "download" no seu site da Net, All Delighted People é um EP (de 60 minutos!) que Sufjan descreve enquanto “homenagem dramática ao Apocalipse, ao 'ennui' existencial e a 'Sounds Of Silence’ de Paul Simon” e destinado a ocupar os fãs até ao próximo álbum – The Age Of Adz, gravado no estúdio dos National. Mas que – mesmo admitindo que se trata de objecto lateral e circunstancial – não deixa de ser um tanto problemático nas suas épicas e extensas incursões por opulentas orquestrações, massas corais e intermináveis deambulações de guitarra eléctrica. Aceite-se que não é de digestão fácil, dê-se-lhe o tempo necessário de maturação, mas, pelo sim, pelo não, acenda-se um sinal de alarme.

(2010)

05 May 2010

PERIOD PIECES



She & Him - Volume Two

É publicado agora mas, há dois anos, poderia muito bem ter sido o outro CD de uma edição dupla de She & Him, isto é, Zooey Deschanel e Matt Ward em modo de delicados arcaísmos pop. Melhor: se, na data de publicação, fossem referidas as décadas de 50, 60 ou 70 e não houvesse nenhuma informação adicional acerca dos autores, dificilmente se descobriria que se trata de gente actual e (no caso de Zooey) consideravelmente jovem. Só mais um ajuste: daqui a dois meses, com temperatura e calendário a coincidirem devidamente, seria a banda sonora ideal para os instantes de mais aguda paralisia cerebral que os calores do Verão induzem.



Até porque um certo abandono mental é indispensável para não reparar demasiado quanto o conceito She & Him é pouco mais do que um conjunto de "period pieces", do girl pop ao pastiche-Beach Boys, de Spector a Carole King, do bubblegum de liceu ao romantismo country, uma espécie de Last Picture Show em sessões contínuas. Está lá tudo no videoclip de “In The Sun”: Zooey, num corredor de "high school", por entre cacifos e armários, dança e sorri, leve como uma bola de sabão, brinca com hoola-hoops, e, no final, afasta-se num saltinho inocente. Se fosse mesmo necessário, nesse momento, tudo lhe seria perdoado.

(2010)

30 November 2009

NÃO VALIA A PENA



Monsters Of Folk - Monsters Of Folk

Esqueçamos por um instante que a história do pop/rock transformou a palavra "supergrupo" num palavrão a evitar cuidadosamente em sociedade. Façamos por não reparar que Conor Oberst (Bright Eyes), Jim James (My Morning Jacket), Matt Ward (She & Him) e Mike Mogis (Bright Eyes), ao reunirem-se para uma série de concertos em 2004, e ao publicarem, agora, o reportório comum daí resultante, optaram por se pôr a jeito, designando-se como Monsters Of Folk. Concentremo-nos, sem demasiados preconceitos, apenas em cada um deles e no que resulta do encontro dos quatro, tal como poderíamos pensar em relação aos Crosby, Stills, Nash & Young ou aos Traveling Wilburys. Que resulta, então, daí? Pois... não há outra forma de o dizer: apenas uma versão assaz requentada dos CSN&Y e dos Wilburys, metastizada pelos territórios dos Beatles, dos Byrds, de Woody Guthrie, dos Monkees e, sim – na faixa de abertura, "Dear God" –, até pelo falsetto charoposo, versão-Bee Gees. Com derivações pontuais para os tiques mais estereotipada e imediatamente reconhecíveis de Neil Young, Gram Parsons e várias outras luminárias que apenas por crueldade e demasiado espaço disponível seria de enumerar. Não valia a pena terem-se incomodado.

(2009)

15 February 2009

PARAR O TEMPO



M. Ward - Hold Time

Não é muito frequente que, com tanta precisão, todo o programa de um álbum se concentre completamente no título. Mas, no caso de Hold Time, há que ficar grato a M.Ward por, de tal modo, nos poupar mil palavras desnecessárias para caracterizar suficientemente a gravação que, após a aventura She & Him, em dueto com Zooey Deschanel, agora publica. Na verdade, tudo começou aí porque, tal como nesse divertimento paralelo sucedia, é de “parar o tempo” outra vez que se trata.



Exactamente na mesma época – década de sessenta e margens limítrofes – mas explorando outros filões: já não tanto o território compreendido entre a Motown, Tin Pan Alley e Nashville mas antes o que se situa num perímetro definido por Dylan, Neil Young, os Beach Boys, os Buffalo Springfield de Again e, menos concentradamente, o espírito genericamente “folk-pop-country” da atmosfera canabinóide da época. A pequena diva Zooey reaparece e vem acompanhada de Lucinda Williams, Rachel Blumberg (Decemberists) e Jason Lytle (Grandaddy), uma espécie de minisupergrupo da nomenclatura “indie” contemporânea, amável mas não indispensável.

(2009)

19 October 2008

TEATRO RETRO



She & Him - Volume One

Começou muito bem: em 2006, durante a rodagem de The Go-Getter, o realizador Martin Hynes sugeriu a Matt Ward (que se ocupava da banda sonora) a ideia de, para o genérico final, ele e a actriz principal, Zooey Deschanel, gravarem uma versão de “When I Get To The Border”, de Richard & Linda Thompson. O proverbial “marriage made in heaven” musical – com os melhores padrinhos – estava encontrado. Volume One é apenas a sequência natural (e quase inevitável) desse episódio inicial onde a luminária “alt./country/folk” Ward actua como catalisador e eminência parda da beldade “indie” e lhe oferece o cenário ideal para que o seu talento de actriz floresça.



Sim, porque, neste requintado exercício de retro-pop/country, Deschanel vai desempenhando sucessivamente os papéis de Tammy Wynette, Linda Ronstadt, Carole King, das Ronettes ou de Karen Carpenter, num desfile de modelos que cobrem todo o espectro que vai de Phil Spector à Motown e de Tin Pan Alley a Nashville. Acrescente-se que o argumento é também dela: dez das doze canções são suas (uma a meias com o actor Jason Schwartzman) e as duas restantes dos Beatles e de Smokey Robinson.

(2008)