19 August 2025
11 June 2023
(sequência daqui) 4) “A única coisa que espero poder fazer é cantar aquilo que penso e, talvez, recordar-vos de alguma coisa. Não me classifiquem como um homem com uma mensagem. As minhas canções são só eu a conversar comigo mesmo. Pode parecer uma afirmação egoísta mas é a verdade. Não tenho qualquer responsabilidade perante ninguém a não ser perante mim próprio” (Bob Dylan, Londres, 1965)
5) “Andava em concertos quando recebi a surpreendente notícia de ter ganhado o Nobel da Literatura e precisei de algum tempo para a processar. Pensei em William Shakespeare. Imagino que se via como um dramaturgo. A ideia de escrever literatura não lhe deve ter passado pela cabeça. Escrevia para o palco. Para ser dito, não lido. Enquanto escrevia o Hamlet, devia estar a pensar em várias coisas diferentes: ‘Quais os actores certos para estes papéis?’, “Deverá a acção decorrer na Dinamarca?” (...) ? ‘O financiamento está a correr bem?’ Aposto que a última coisa que lhe ocorria era a interrogação ‘Será isto literatura?’ (do discurso de aceitação do Nobel da Literatura de 2016, lido por Azita Raji, embaixadora dos EUA na Suécia, a 10 de Dezembro, após uma relutância de 15 dias em reconhecer a atribuição) (segue para aqui)
22 August 2022
14 September 2020
13 April 2020
Construída como uma articulação de duas canções diferentes, "Murder Most Foul" – título retirado de uma cena do primeiro acto de Hamlet – situa-se, inicialmente, no interior do Lincoln Continental que conduz John Kennedy ao açougue, enumerando em detalhe cada ponto do trajecto (Love Field, Grassy Knoll, Dealey Plaza, Elm Street, Trinity River, Parkland Hospital), mas, qual sonho febril, desde o arranque inquietada pela incessante interferência, explícita ou dissimulada, de dezenas de referências históricas, literárias e musicais, títulos e citações de filmes, autocitações, ecos, uma jangada de palavras e imagens à deriva ou uma outra Waste Land na qual Abril já não é “the cruellest month” mas sim Novembro. E, de súbito, tudo muda: invocando o fantasma do lendário DJ Wolfman Jack – “Wolfman Jack, he’s speaking in tongues (...) play me a song, Mr. Wolfman Jack” – segue-se uma interminável "playlist" do acervo musical da América e do mundo, espécie de “people’s history” alucinada ou sequência errática de episódios da Theme Time Radio Hour, na qual, como na totalidade dos 17 minutos, sobre um fundo musical discretamente cénico, Dylan recita mais do que canta esta longuíssima litania.
10 July 2018
11 December 2016
30 March 2016
15 March 2016
12 October 2015
e Recreativo "Os Janotas da Ramboia"), crava o punhal afiado entre as omoplatas de quem...
29 September 2014
27 September 2014
24 September 2013
Elvis Costello não se fica por meias palavras: “Se não gostam de escutar June Tabor, melhor seria que desistissem de ouvir música”. De facto, a existirem casos em que um certo fascismo estético se justifica, June Tabor é bem capaz de ser um deles. Experimentem, por exemplo, recorrer ao vosso bom amigo YouTube e procurem “June Tabor sings Lili Marlene”. Durante os quase dois minutos iniciais (no concerto “Daughters of Albion”, da BBC4), June conta a história dessa canção. Provavelmente, não repararão de imediato mas, já aí, na articulação das palavras, nas pausas, acentuações, respirações, é de música que se trata. E, logo a seguir, desde o instante em que pronuncia “Vor der Kaserne, vor dem grossen Tor...”, por um milhão de vezes que tenhamos escutado o texto de Hans Leip musicado por Norbert Schultze, a voz que, agora, o interpreta apossa-se dele e fá-lo como se fosse a primeira. Para ela, trata-se de uma espécie de compromisso ético/estético: “Não tem a menor importância de onde provém uma canção. Desde que seja uma boa canção, tenha um texto forte e me fale directamente, é-me completamente indiferente o facto de ser muito recente ou muito antiga. Se mexer com as minhas emoções, sei que vou ser capaz de a interpretar. Porque é isso que eu faço: sou uma intérprete que procura partilhar as sensações que uma canção me proporciona. Tenham as canções seiscentos anos ou apenas dois. A melhor interpretação é a que soa como se fosse a primeira vez que estivéssemos a cantar aquela música. Se parecer ser apenas mais uma canção, é porque estamos a prestar-lhe um mau serviço”.
17 June 2013
13 June 2013
12 June 2013
27 April 2013
E, agora, também June Tabor, integrada no trio Quercus, com Huw Warren (piano) e Iain Ballamy (sax soprano e tenor). Gravado ao vivo – mas, pela “sonoridade ECM”, nunca de tal se suspeitaria – durante uma série de concertos em 2006, triunfa gloriosamente em terreno afim daquele (Some Other Time, 1989) onde, abordando os standards do cancioneiro americano, pela única vez, Tabor havia falhado: os quatro tradicionais são exercícios de pura levitação – e "As I Roved Out" e "Brigg Fair" (esta a capella) elevam-se ainda mais alto do que isso –, os textos de Robert Burns, Shakespeare, A. E. Housman, com música de Warren/Ballamy, bem como todos os restantes, descobrem o norte polar do equilíbrio perfeito entre o impressionismo jazz “modernista” e a imponderável gravitas do canto de June Tabor (o uníssono de voz e saxofone, em "Come Away Death", rampa de lançamento para um lírico sobrevoo de Ballamy e Warren, impossibilita qualquer hipótese de desconcentração), algo como um milagre que permite que a liberdade de improvisação e o rigor quase solene da abordagem de palavras e melodias não apenas coexistam como pareçam ter-se, desde sempre, desejado.