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28 March 2022

"Bernice Bobs Her Hair" (de Liberation, na íntegra aqui)
 
(sequência daqui) Com os dois colegas em fuga à penúria, refugiou-se no sótão da casa dos pais no Ulster e escreveu, escreveu, escreveu, compôs, compôs, compôs (“Sofreram muito os meus país, sofreram mesmo”). Keith Cullen acabaria por contactá-lo e, perante a desconcertante pergunta “Então, vais fazer alguma coisa ou é para esquecer?”, atirou “Tenho o álbum aqui prontinho! É o novo Sgt. Pepper! Quando posso começar a gravá-lo?” Foi assim que, num estúdio baratucho de Londres, com um engenheiro de som acumulando com a função de baterista e Neil responsável por todos os outros instrumentos, surgiu Liberation: “O mais espantoso é ter havido algumas pessoas que o compraram. Os franceses, em especial, gostaram bastante dele. Já tínhamos um ponto de apoio nessa frente”. Seria por essa altura que começaria a compreender aquela que se tornou a sua regra de ouro: “Há apenas dois ingredientes indispensáveis para quem pretende criar música interessante: conhecimento e ignorância. O conhecimento é importante porque é necessário sentir que possuimos alguma coisa que desejamos transmitir. Mas a ignorância é, pelo menos tão importante porque, ao falhar na busca de uma certa sonoridade ou na imitação da nossa banda preferida, algo de original acontece nesse processo. Se tivéssemos a noção de quão pouco sabíamos no princípio, talvez nunca conseguíssemos reunir a coragem suficiente para sequer tentar”. Nesse percurso de imitação/aprendizagem, passou por Scott Walker (“Ele foi incrivelmente importante, embora isso nem sempre seja evidente na minha música. Foi quando me mudei pela primeira vez para Londres que vi, na televisão, ‘The Best of Scott Walker and the Walker Brothers’ e ouvi aquela voz... fiquei apanhado. Era o mais espantoso som que já tinha ouvido a sair da boca de alguém. No dia seguinte, fui comprar logo a cassete e escutei-a até ao vómito. Tudo nela abalroou o meu mundo”.
(segue para aqui)

17 September 2021

AS NOTAS QUE GOSTAM UMAS DAS OUTRAS


Poderá não ter sido o melhor álbum dos Beatles (aqui a doutrina divide-se), mas aquele que é, sem dúvida, um dos mais importantes objectos culturais pop da segunda metade do século XX – Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band – foi assim intitulado apenas porque, à mesa, alguém se dirigiu a Paul McCartney pedindo-lhe “Pass the salt and pepper” e este julgou ter ouvido “Sargeant Pepper”. Por outro lado, a famosíssima capa dupla (concebida por Peter Blake, Jann Haworth e pelo fotógrafo Michael Cooper a partir de um esboço de John Lennon – ou Paul McCartney, a doutrina divide-se de novo) e as 71 figuras nela representadas teve, na origem, uma intenção assaz prosaica e utilitária: na primeira era dos LP, era comum que, após a aquisição de um disco, fosse necessário passar algum tempo de viagem em transportes públicos até poder colocá-lo sobre o prato do gira-discos. Esse tempo seria habitualmente preenchido perscrutando todos os pormenores da capa do objecto amado. A ideia era que, com Sgt. Pepper’s, fossem necessárias umas quantas viagens de autocarro até que ele pudesse ser integralmente decifrado. No que à própria música diz respeito, Jimi Hendrix não precisou de tanto tempo: três dias após a publicação do álbum, abriu o seu concerto no Saville Theater, de Londres, com uma versão fumegante de "Sgt Pepper’s". No meio do público, estavam George Harrison e Paul McCartney.
 
Nem todas estas histórias serão inéditas mas, no contexto de McCartney 3,2,1 – a mini-série de 6 episódios (cerca de 30 minutos cada) realizada por Zachary Heinzerling –, que coloca frente a frente Paul McCartney e o lendário produtor Rick Rubin (fundador das editoras Def Jam e American Recordings, produtor dos Beastie Boys, Public Enemy, Run-DMC, Johnny Cash, Red Hot Chili Peppers), contribuem para temperar de detalhes vividos aquilo que é, essencialmente, uma visita guiada, praticamente uma "master class" sobre a discografia dos Beatles, com muito fugazes incursões à obra a solo de McCartney (daqui; segue para aqui)

31 May 2017

"Sgt Pepper is called the first concept album, but it doesn't go anywhere. All my contributions to the album have absolutely nothing to do with the idea of Sgt Pepper and his band; but it works 'cause we said it worked, and that's how the album appeared. But it was not as put together as it sounds, except for Sgt Pepper introducing Billy Shears and the so-called reprise. Every other song could have been on any other album" (John Lennon)

23 May 2017

RUGAS


Aparentemente, tudo teria ficado definitivamente resolvido em 09.09.09, quando a totalidade da discografia dos Beatles, digitalmente remasterizada segundo os mais excelsos padrões tecnológicos "state of the art", foi apresentada ao universo. Allan Rouse, Sean Magee e Steve Rooke – druídas sonoros da EMI de serviço – asseguravam a quem os visitava no nº 3 de Abbey Road que tudo ficara “o mais fiel possível à forma como a banda soava nas ‘masters’ originais nunca usadas nas reedições em CD”, correspondia exactamente “ao modo como os próprios Beatles se escutavam em estúdio” e que “a autenticidade e integridade das gravações analógicas tinham sido religiosamente respeitadas”. Em suma, “dificilmente se poderia ter ido mais longe”. Já na altura, porém, havia quem colocasse reticências, particularmente em relação a Sgt. Pepper’s. Geoff Emerick, engenheiro de som dos Beatles, desde Revolver (1966) até Abbey Road (1969) – não convidado para participar no processo de remasterização –, jurava que as conversões de “mono” para “stereo” eram quase uma falsificação: “O ‘mono’ era a verdade. Durante as três semanas que durou o processo de mistura em ‘mono’ de Sgt. Pepper’s, os Beatles estiveram sempre presentes. Era dessa forma que eles pretendiam que o álbum fosse escutado, em ‘mono’. Quando começámos as misturas em ‘stereo’, eles já tinham ido para férias. As versões ‘stereo’ eram só um acrescento”. E foi, então, recordada a célebre declaração de George Martin: “Se nunca o ouviram em ‘mono’, nunca ouviram Sgt. Pepper’s



Era pouco provável, contudo, que o 50º aniversário da banda do sargento pudesse passar sem que se aproveitasse a oportunidade para dele espremer mais algum rendimentozinho. A argumentação de Giles Martin (filho de George) responsável pela nova remistura “stereo” é que, francamente, se dispensava: as versões originais “soam velhas” e era indispensável que “os nossos filhos e netos possuissem uma versão do álbum que ‘funcione’ bem neste novo milénio”. Tratar-se-á, agora, de saber, qual o prazo de validade da presente reciclagem até que comece a exibir rugas embaraçosas. Mas, ao mesmo tempo, reconheça-se que todo um imenso campo de possibilidades se abre de par em par: “os nossos filhos e netos” não preferirão Os Pássaros, de Hitchcock, com música do princípio ao fim? E que tal o tecto da Capela Sistina em 3D? E, já agora, porque não reconstruir como deve ser o Templo Romano, de Évora, que até dói ver assim em cacos?...

16 June 2007

SARGENTO, SIM


Sargeant Pepper’s Lonely Heart Club Band não foi o primeiro álbum conceptual da pop moderna (essa distinção deverá ser atribuída a Freak Out!, dos Mothers Of Invention, publicado em 1966) nem sequer foi, realmente, um álbum conceptual. Segundo os próprios Beatles, a ideia de criar uma banda e personagens/heterónimos deles próprios foi rapidamente descartada no alinhamento final após a segunda canção (“With A Little Help From My Friends”, interpretada por Ringo Starr/Billy Shears) e apenas a “reprise” do tema-título na penúltima faixa procurou, em quase desespero de causa, recuperar o que restava do plano inicial.



Do ponto de vista das alegadas “inovações revolucionárias” no que ao idioma pop/rock diz respeito, pouco contém que eles próprios não tivessem já explorado – e de forma francamente mais conseguida –, no ano anterior, em Revolver: “She’s Leaving Home” é uma parente muito pobre de “Eleanor Rigby” e “For No One”, “Love You To” humilha sem dó a canja mística de “Within You Without You”, “I’m Only Sleeping” já experimentara a utilização das “reverse tapes” no solo de guitarra, os pastiches/exercícios de estilo de “Got To Get You Into My Life” (Memphis soul), “Good Day Sunshine” (Lovin’ Spoonful) e “Here, There And Everywhere” (Beach Boys) reduzem o vaudeville-de-trazer-por-casa de “When I’m Sixty Four” e “Lovely Rita” à sua verdadeira dimensão e “Tomorrow Never Knows” (processamento electrónico de vozes e instrumentos, “tape loops”, técnicas da “musique concrète”) mete literalmente num chinelo todo o alegado vanguardismo da filarmónica do sargento.



Que sobra, então? O soberbo puzzle de “A Day In The Life”, o magnífico ensaio de colagem verbal e sonora de “Being For The Benefit Of Mr. Kite" e a levitação lisérgica em technicolour de “Lucy In The Sky With Diamonds”. Tivessem “Penny Lane”, “Strawberry Fields For Ever” (compostas para Sgt Pepper’s mas finalmente excluídas para edição em single – esse, sim, um single conceptual sobre as reminiscências de Liverpool de Lennon e McCartney), “Baby You’re A Rich Man”, “I Am The Walrus”, “Hello Goodbye” ou até mesmo “All You Need Is Love” (todos publicados em 1967) integrado o pelotão e, aí sim, teríamos um disco capaz de, no mesmo ano, dar luta a Forever Changes, Goodbye And Hello, Safe As Milk, The Velvet Underground & Nico, The Piper At The Gates Of Dawn ou Are You Experienced?. Afinal, à maior banda pop da época, bastou, contudo, estar no lugar certo, na altura certa (publicado a 26 de Maio, Sgt Pepper’s daria praticamente o pontapé de saída ao “Summer of Love”), para que o seu álbum mais fraco pós-Rubber Soul e pré-Abbey Road pudesse oferecer a um sargento os galões de marechal. (2007)

13 June 2007

1967, UM ANO MUITO POUCO COMUM



De acordo com o calendário gregoriano, 1967 foi um “ano comum”. Isto é, um ano não bissexto, de 365 dias. Mas não atribuamos demasiadas responsabilidades ao papa Gregório XIII que, a 18 de Janeiro de 1582, o promulgou para substituir o anterior calendário juliano: nem através de ligação directa ao Grande Arquitecto do Universo poderia ele ter previsto a dimensão exacta pela qual o ano em que John Coltrane, Che Guevara, Woody Guthrie e René Magritte morreram e Kurt Cobain, Julia Roberts, Nicole Kidman e Noel Gallagher nasceram foi tudo menos um ano comum. No mundo, em geral, e na cultura pop, em particular, 1967 foi, indiscutivelmente, um daqueles anos de viragem e ruptura que não deixaria pedra sobre pedra do que para trás ficara e que marcaria irremediavelmente as quatro décadas que, até hoje, se lhe seguiram.


The Beatles - Strawberry Fields Forever

Porque é impossível não o referir, recorde-se já que foi em 1967 que, a 26 de Maio, os Beatles publicaram Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band. Enquanto marco simbólico do ano e da era, a sua importância permanece mas deve também adiantar-se que, no âmbito mais restrito da sua ressonância na cultura pop posterior, já viu bem melhores dias: não só todo o resto que os Beatles editaram no mesmo período de doze meses – os singles “Penny Lane”/”Strawberry Fields Forever”, “All You Need Is Love”/”Baby You’re A Rich Man” e “Hello Goodbye/”I Am The Walrus” e o duplo EP “Magical Mystery Tour” – é francamente mais rico e interessante como, em sucessivas votações dos “all time best” (na última, do número de Junho da “Mojo”, para “os 100 discos que mudaram o mundo”, ficou-se por um modesto 16º lugar), tem vindo, aceleradamente, a ver a sua cotação desvalorizada relativamente a diversos outros concorrentes e até face a outras gravações da banda de Lennon e McCartney como Revolver, ou mesmo (na recentíssima da “Mojo”) ao single de 1963, “I Want To Hold Your Hand” (um honroso segundo lugar atrás de “Tutti Frutti”, de Little Richard).


Pink Floyd - Interstellar Overdrive

As oscilações do gosto terão a sua própria lógica mas a verdade é que, num ano em que – política, social e culturalmente – aconteceu incomparavelmente mais do que em muitas décadas, escolher um único objecto/figura emblemáticos não andaria muito longe de confiar no acaso de um lançamento de dados. Tomem, então, nota:
1) álbuns de estreia pop/folk/rock – The Velvet Underground & Nico, seguido, também em 1967, de White Light/White Heat; The Songs Of Leonard Cohen; The Doors (e, no final do ano, Strange Days); The Piper At The Gates Of Dawn, dos Pink Floyd; Safe As Milk, de Captain Beefheart; Are You Experienced?, da Jimi Hendrix Experience (e ainda Axis: Bold As Love); Mr. Fantasy, dos Traffic; The Grateful Dead; Buffalo Springfield (Neil Young+Stephen Stills) e (sobretudo), no Outono, Buffalo Springfield Again; Chelsea Girl, de Nico; David Bowie; Surrealistic Pillow, dos Jefferson Airplane, antecedendo After Bathing At Baxter’s; Moby Grape; Blowin’ Your Mind, de Van Morrison; Electric Music For The Mind And Body, de Country Joe & The Fish (que publicariam também I Feel Like I’m Fixin’ To Die); The Thoughts Of Emerlist Davjack, dos Nice (casulo de Keith Emerson, futuramente Emerson, Lake & Palmer); H. P. Lovecraft; Big Brother & The Holding Company (voz. Janis Joplin).


The Jimi Hendrix Experience - Purple Haze

2) obras-primas avulsas, objectos de culto e sementes de futuro – Goodbye And Hello, de Tim Buckley; Forever Changes e Da Capo, dos Love; Pleasures Of The Harbor, de Phil Ochs; Absolutely Free, dos Mothers of Invention; 5000 Spirits Or The Layers Of The Onion, da Incredible String Band; Days Of Future Passed, dos Moody Blues; The Who Sell Out; Something Else By The Kinks; Between The Buttons e Their Satanic Majesties, dos Rolling Stones; Walk Away Renee/Pretty Ballerina, dos Left Banke; Ptoof, dos Deviants; Tenderness Junction, dos Fugs; Tangerine Dream, dos Kaleidoscope; Mass In F Minor, dos Electric Prunes; Younger Than Yesterday, dos Byrds; Disraeli Gears, dos Cream (Eric Clapton+Jack Bruce+Ginger Baker); John Wesley Harding, de Bob Dylan; Easter Everywhere, dos 13th Floor Elevators.

Que outro ano, anterior ou posterior, se poderá gabar de ter fundado uma mão-cheia de géneros musicais (o psicadelismo dos Pink Floyd, Grateful Dead, Country Joe & The Fish, Kaleidoscope, Traffic, Fugs, H. P. Lovecraft, Jefferson Airplane ou de Their Satanic Majesties; o rock-sinfónico/progressivo dos Nice ou Moody Blues; o “noise”, com White Light/White Heat; os blues “cósmicos” de Jimi Hendrix, Big Brother ou Cream – ainda que, aqui, haja, que reconhecer os antecedentes dos Yardbirds; as incursões pelos idiomas clássico, da vanguarda contemporânea/electrónica e das músicas orientais dos Electric Prunes, Tim Buckley, Nico, Incredible String Band, Love, Frank Zappa/Mothers of Invention, Phil Ochs e dos próprios Beatles que, já em Revolver, por aí haviam deambulado; a ópera-rock com The Who Sell Out), de ter revelado (ou confirmado ao segundo álbum) figuras que marcariam indelevelmente a pop até hoje – Lou Reed, John Cale, Van Morrison, Neil Young, Jimi Hendrix, Nico, David Bowie, Tim Buckley, Leonard Cohen, Frank Zappa, Captain Beefheart – e, de um modo geral, ter participado intensamente nas convulsões que, daí em diante (e o Maio francês estava apenas a um ano de distância), virariam o século XX do avesso. A música aspirava o espírito do tempo e, ao expirá-lo, acelerava a rotação do mundo.


The Velvet Underground - I'm Waiting For The Man

De facto, o ano em que, logo a 2 de Janeiro, Charlie Chaplin estreava o seu último filme (A Condessa de Hong Kong) e que, a 19 de Dezembro, ouviria o professor John Wheeler formular, pela primeira vez, o conceito de “buraco negro”, foi um período de movimentos e eventos contraditórios: se a Guerra dos Seis Dias (entre 5 e 10 de Junho) incendiava irreversivelmente o Médio Oriente, o golpe de estado “dos coronéis” na Grécia instalava mais uma ditadura europeia e o general Westmoreland garantia que a vitória americana no Vietname era certa, o “Gathering of the Tribes for a Human Be-In” que, a 14 de Janeiro, reunia 30 000 pessoas no Golden Gate Park de S. Francisco, fazia convergir para um mesmo lugar as várias sensibilidades heterodoxas da época (ecologistas, velhos beatniks, feministas, novos hippies, anarco-freaks, militantes anti-Vietname, contestatários estudantis, activistas anti-segregacionistas, radicais de esquerda, gurus místicos e apóstolos lisérgicos), dava a palavra a oradores como Allen Ginsberg, Jerry Rubin e Timothy Leary (que lançaria o mote do ano com o seu famoso “Turn on, tune in, drop out” aparentemente “soprado” por Marshall MacLuhan, enquanto o “underground chemist”, Owsley Stanley, abastecia generosamente as massas com LSD – ilegalizado desde 16 de Outubro de 1966 – especialmente sintetizado para a ocasião), oferecia o palco aos Jefferson Airplane, Grateful Dead e Quicksilver Messenger Service e, acima de tudo, anunciava o “Summer of Love” que, meses depois, faria convergir para o distrito de Haight Ashbury, Berkeley e da baía de S. Francisco mais de 100 000 “flower children” em busca de “amor livre”, comunitarismo, transcendência e bucolismo utópicos “à la” Thoreau, êxtases químicos instantâneos e toda a parafernália cultural e filosófica que estaria na raiz da “New Age” e da contracultura “underground”.


Timothy Leary - How to Operate Your Brain

No entanto, a 15 de Janeiro, um dia depois do “Human Be-In”, no Ed Sullivan Show, os Rolling Stones, a bem da moral e dos bons costumes, seriam forçados a cantar “Let’s spend some time together” em vez do “Let’s spend the night together” original e, um mês mais tarde, Mick Jagger e Keith Richards veriam a polícia londrina invadir-lhes uma festa privada e acusá-los de consumo e posse de drogas pelo que, a 29 de Junho, acabariam mesmo por ser presos. Foi, sem dúvida, um ano em que manter-se a par das notícias não terá sido fácil: no mesmo dia em que as “tribos” se congregavam no Golden Gate Park, o “New York Times” revelava que o exército americano realizava experiências em matéria de guerra biológica; a 1 de Março, a Revolução Cultural Chinesa termina com o regresso dos Guardas Vermelhos à escola, oito dias antes de Svetlana Alliluyeva, filha de Estaline, fugir para os EUA e, no penúltimo dia do mês, os Beatles são fotografados para a capa de Sgt Pepper's, uma semana antes de levantar voo o primeiro Boeing 737 (a 11 de Dezembro, seria o baptismo de vôo do Concorde).
Outra linha de acontecimentos decorre paralelamente: a 28 de Abril, Cassius Clay/Muhammad Ali recusa combater no exército dos EUA e, embora, a 12 de Junho, o Supremo Tribunal de Justiça norte-americano (do qual, a 30 de Agosto, Thurgood Marshall seria o primeiro membro afro-americano) tenha declarado inconstitucionais todas as leis que proibiam os casamentos interraciais, isso não impede que, a 15 de Julho – dois dias antes da morte de John Coltrane –, expludam violentos motins raciais em Detroit (43 mortos, 342 feridos, 1400 edifícios incendiados) que alastram a Nova Iorque, Washington D.C. e Alabama, e, a 21 de Setembro (quatro dias depois da estreia do musical hippie, Hair), dezenas de milhares marcham sobre Washington contra a guerra do Vietname enquanto Allen Ginsberg entoa mantras com o objectivo de “fazer levitar o Pentágono”.


Peace March - Thousands Oppose Vietnam War, 1967

A atmosfera cultural do “Verão do Amor” (que, na edição de 7 de Julho da “Time”, a “cover story” intitulada "The Hippies: Philosophy of a Subculture." descrevia como "Do your own thing, wherever you have to do it and whenever you want. Drop out. Leave society as you have known it. Leave it utterly. Blow the mind of every straight person you can reach. Turn them on, if not to drugs, then to beauty, love, honesty, fun”) seria, entretanto, perfeitamente caracterizada pelo Monterey Pop Festival – 200 000 participantes e o primeiro festival pop/folk/rock, ao ar livre e gratuito -, na Califórnia, no qual actuaram Jimi Hendrix, The Who, The Byrds, Jefferson Airplane, Ravi Shankar, Hugh Masekela, The Grateful Dead, Janis Joplin com os Big Brother & The Holding Company, The Association, Buffalo Springfield, Country Joe & The Fish, Moby Grape, Quicksilver Messenger Service, Laura Nyro, Canned Heat, Simon & Garfunkel, The Paul Butterfield Blues Band, The Steve Miller Band, os Blues Project e Otis Redding, que morreria a 10 de Dezembro, num acidente de avião.


Janis Joplin c/ Big Brother and the Holding Company

Não foi a única baixa do universo cultural a lamentar: entre Maio e Agosto, juntar-se-lhe-iam Edward Hopper, Vivien Leigh, Jayne Mansfield, o poeta Carl Sandburg, o dramaturgo Joe Orton, René Magritte, o manager dos Beatles, Brian Epstein e Woody Guthrie. Tragédia de enorme dimensão foram as cheias de Lisboa, a 26 de Novembro, com 462 vítimas mortais que se somariam às das guerras coloniais em curso, às do Vietname ou às decorrentes do abate pela República Popular da China de dois aviões norte-americanos que teriam violado o seu espaço aéreo.
Mas, mais visível ou invisivelmente, havia forças várias em movimento: a 26 de Junho (um dia antes de, em Enfield, no Reino Unido, o Barclays Bank abrir a primeira máquina multibanco), Karol Wojtila – futuro João Paulo II – é ordenado cardeal e, pela mesma altura, Lech Walesa começa a trabalhar como electricista, nos estaleiros Lenine, de Gdansk; a 4 de Julho, o Parlamento britânico descriminaliza a homossexualidade, Antony Hewish e Jocelyn Bell Burnell, da Universidade de Cambridge, descobrem o primeiro pulsar e, no final do ano (que se iniciara com a morte de Jack Ruby, assassino de Lee Harvey Oswald, putativo assassino de John Kennedy), Christiaan Barnard realiza, na cidade do Cabo, na África do Sul, o primeiro transplante cardíaco. O “zeitgeist” da era impulsionaria, ainda Ralph J. Gleason e Jan Wenner a fundar a “Rolling Stone” (para onde Greil Marcus – salário: 30 dólares por semana – , Hunter S. Thompson ou Lester Bangs escreveriam), sobrevivente única de “rock magazines” históricos como a “Crawdaddy!” e “Creem”. Muitos anos mais tarde, reflectindo sobre a atmosfera desses anos, um dos seus alegados heróis, Leonard Cohen, diria: “Os hippies não me interessaram especialmente. Em particular, quando começaram a poluir os rios e a deixar lixo por todo o lado, quando iam para o campo adorar Deus e a Natureza. Eram péssimos campistas! Eu que fui escuteiro posso dizê-lo”. (2007)