Ler de "The Pelagians had argued..." a "... that they seem to be singing from that region" - Santo Agostinho lança as bases para uma teomusicologia do peido (em The Rise and Fall of Adam & Eve - Stephen Greenblatt)
"Outro problema, já levantado por Santo Agostinho (De Civitate Dei XII, 20), é o que aconteceria a um morto devorado por canibais. Para Agostinho, a carne que alimentou o canibal dissolveu-se, mas, como Deus omnipotente pode trazer de volta o que se desfez, ela será restituída ao indivíduo comido: foi tomada de empréstimo pelo canibal e deve ser devolvida àquele a quem pertencia. Seria absurdo pensar que, não obstante nenhum cabelo da cabeça possa ser desperdiçado, se poderiam perder tantos quilos de carne" (Umberto Eco, Aos Ombros de Gigantes)
"Na quaestio 80 do Supplementum, São Tomás pergunta-se se os intestinos ressuscitarão, que são certamente órgãos do corpo humano, mas que não poderiam ressurgir cheios de imundície e muito menos vazios, pois a natureza tem horror ao vácuo. E o braço de um ladrão justamente amputado, caso ele depois se penitencie e se salve, poderá ser recuperado mesmo não tendo cooperado para a salvação do arrependido? Também não poderia ser eliminado, pois essa falta puniria alguém que passou a ser beato. Tomás responde que, assim como a obra de arte não seria perfeita se lhe faltasse algo que a arte exige, também é preciso que o homem ressurja perfeito e, portanto, é necessário que todos os membros realmente existentes no corpo sejam reconstituídos na ressurreição.
Portanto, os intestinos ressurgirão cheios, não de ignóbeis dejectos, mas de nobres humores. E, quanto ao ladrão, embora o membro amputado não tenha cooperado para que o homem conquistasse a glória merecida posteriormente, ele merece ser premiado com todas as suas partes.
Mas ressurgirão os cabelos e as unhas? Diz-se que são produtos, como o suor, a urina e os outros excrementos, do alimento supérfluo e que certamente não ressurgirão com o corpo. Mas o Senhor disse: 'Mas não se perderá um só cabelo da vossa cabeça'. Os cabelos e as unhas foram dados ao homem como ornamentos. Ora, o corpo humano, especialmente o dos eleitos, deve ressurgir em toda a sua beleza. Deve, portanto, ressurgir com cabelos e unhas.
Contudo, pelo contrário, os genitais não ressurgirão, visto que no paraíso 'nem eles se casarão, nem elas serão dadas em casamento', como não ressurgirá o esperma, que não serve à perfeição do indivíduo, como os cabelos, mas apenas à perfeição da espécie. Ou seja, no paraíso será possível fazer tranças, mas amor, não" (Umberto Eco, Aos Ombros de Gigantes)
"'All too often'damage control took precedence over the concern for victims in sexual abuse cases involving clergy (...) 'Sexual abuse was kept quiet and one thought that the problem could be solved by appointing the clergy in question someplace else'". (Cardeal Godfried Danneels, ex-arcebispo de Mechelen-Brussels e ex-presidente da conferência episcopal da Bélgica - aqui)
PORQUE HOJE É O DIA DE SANTO AGOSTINHO, DOUTOR DA IGREJA, AQUI SE RECORDA COM A MÁXIMA DEVOÇÃO UMA SANTÍSSIMA TRADIÇÃO CRISTÃ POR ELE JÁ PRATICADA E APROVADA E QUE CONTINUA BEM VIVA NA CASA DO SENHOR
Santo Agostinho - Philippe de Champaigne, 1645-1650
"Augustine, as bishop of Hippo, appointed his monk, Antoninus in the 410s to be bishop of a subordinate diocese in Fussala, one of Africa's relatively few villages, in the hills of what is now eastern Algeria. Antoninus turned out to be a bad man - he was young and from a poor family, he was promoted too fast - and he terrorized the village, extorting money, clothing, produce and building materials. He was also accused of sexual assault. Augustine removed him, but did not depose him, and tried to transfer him to the nearby estate of Thogonoetum. Here, the tenants told Augustine and their landowner that they would leave if he came. (...) Augustine was very embarrassed, as indeed he should have been ('I did not dare look the people of Fussala in the eye'). (...) It is not surprising that Augustine's main fear was that the peasants would revert to the Donatist church, abandoning Catholic Christianity altogether" (The Inheritance Of Rome/A History Of Europe From 400 To 1000 - Chris Wickham)
"Eu já era bispo de Hippo, quando viajei até à Etiópia com alguns servos de Cristo para pregar o Evangelho. Neste país vimos muitos homens e mulheres sem cabeça, que tinham dois enormes olhos nos peitos; e em países ainda mais a Sul, vimos pessoas com um único olho na testa" (Santo Agostinho, Sermão 37, citado em Taylor, Syntagma, 52; Diegesis, 271; Doane, Bible Myths, 437)
(2009)
08 January 2009
BLASFÉMIAS - Palmira F. da Silva (um belo raccord com o post anterior)
Santo Agostinho Refutando os Hereges (manuscrito iluminado do sec XIII)
"A palavra heresia, do grego haerĕsis, significa escolha, preferência, gosto particular, escolha filosófica, inclinação ou preferência filosófica ou por uma escola de pensamento. Já a etimologia de outra palavra intimamente ligada, blasfémia - do grego blaptein, injuriar, e pheme, reputação -, indica-nos que na sua génese se referia a irreverência face a uma pessoa ou algo considerado de elevada estima.
Com o advento do cristianismo, ambas as palavras evoluíram, assumindo significados exclusivamente dirigidos para a religião cristã, isto é, heresia passou a ser uma declaração contra a fé cristã como interpretada pela hierarquia da Igreja e blasfémia perdeu a sua dimensão humana. A conjunção de ambas as palavras foi considerada especialmente grave, isto é, uma blasfémia herética, como dizer que Deus é um produto dos homens ou negar a natureza divina do Cristo, era (e aparentemente continua a ser) um «pecado» mortal dos mais graves (com isto significando durante muito tempo merecedor de morte).
É assim curioso o Desidério ter referido a palavra blasfémia no contexto do que tem acendido o De Rerum Natura, o artigo que escreveu para o Público de 24 de Dezembro sobre as observações «ecológicas» de Bento XVI. É curioso porque o artigo foi escrito ao mesmo tempo que a Assembleia Geral da ONU votava pelo quarto ano consecutivo uma resolução condenando a blasfémia, ou antes, a «difamação» da religião - a boa notícia nesta história é que o apoio à resolução tem diminuido consideravelmente ao longo dos anos, não obstante este ano a China e a Rússia terem decidido apoiar os estados islâmicos seus proponentes". (continuação aqui; a raíz aqui)
(2009)
11 November 2007
DEFESA PAGÃ DO URSO POR RAZÕES DE CALENDÁRIO - COMO, AGORA MESMO, SE COMPREENDERÁ - INTEIRAMENTE JUSTIFICADAS (II)
(sequência daqui) "Desde os primeiros séculos do cristianismo, diversos autores tinham classificado o urso entre os animais perniciosos e, retomando uma frase enigmática de Plínio, tinham visto nele uma criatura particularmente maligna. (...) Mas foi na viragem do século IV para o século V que foi dado o passo decisivo, e, como muitas vezes aconteceu, foi Santo Agostinho quem pronunciou a sentença decisiva, aquela em torno da qual se iria construir durante vários séculos toda a simbologia cristã acerca deste animal: "URSUS EST DIABOLUS!" (...) Pôr em cena homens de Deus mais fortes que os animais selvagens (...) e capazes de se fazer obedecer por eles ou de empregar de modo útil a sua força ou a sua astúcia natural, terá certamente contribuído para enfraquecer a devoção que era prestada a este animal por populações recente e superficialmente convertidas à religião cristã.
Em relação ao urso, porém, isso não era, de todo, suficiente e a igreja da Alta Idade Média teve de ir mais longe nas suas estratégias hagiográficas para eliminar os últimos santuários dos antigos cultos que lhe eram dedicados. Para o conseguir, desde o início, certos prelados tiveram a ideia de utilizar o calendário: nos diferentes momentos do ano em que se desenrolavam cerimónias e rituais pagãos relacionados com a admiração votada a esta fera invencível, foram planeadas festas dedicadas a grandes santos ou a santos mais locais e regionais mas tendo todos, de uma ou de outra forma, relação com o urso.
A este respeito, é exemplar o caso de S. MARTINHO, cuja festa principal, inicialmente em data flutuante, foi definitivamente fixada a 11 de Novembro, suposto dia da morte do santo arcebispo de Tours, em 397. Esta data não foi escolhida ao acaso. Com efeito, nesse dia, numa grande parte da Europa temperada, os camponeses festejavam o momento em que o urso sentia os primeiros frios do Inverno, regressava à toca e começava o seu longo período de hibernação. A data era, por outro lado, no mundo rural, a altura em que as actividades exteriores começavam progressivamente a cessar e em que cada camponês recolhia o gado e armazenava os cereais, antes de ele próprio se abrigar com a família. O comportamento do urso que partia para a hibernação, simbolizava este momento forte do calendário: a passagem do exterior para o interior, a passagem da vida para a morte. Essa a razão porque numerosos ritos e cerimónias associavam o urso às diferentes festas do Outono. Ritos pagãos, certamente ruidosos, violentos, transgressivos, por vezes perigosos e sexuais, feitos de danças, disfarces e mascaradas que só podiam aterrorizar os clérigos e os prelados". (segue para aqui)
(L'Ours/Histoire d'un Roi Déchu - Michel Pastoureau, La Librairie du XXIème Siècle/Seuil, 2007)
(2007)
02 February 2007
ASSIM NA TERRA COMO NO CÉU
Numa das muitas salas da vitoriana "Lion House" de Salt Lake City, o almoço com três jornalistas europeus está a chegar ao fim mas Wendell M. Smoot, Don Lefevre, Jerold Ottley e Craig Jessop ainda continuam a falar sobre o problema prático que, nesse momento, lhes ocupa o espírito: toda a complexa logística de transportar um coro de mais de trezentos elementos (e outros tantos acompanhantes) dos EUA para a Europa, o cruzeiro mediterrânico que isso implicará e os inevitáveis imprevistos que as particularidades acústicas de cada sala levantarão. Os quatro são respeitados e veneráveis membros da sua comunidade e, embora visivelmente conservadores, irradiam o irresistível charme rústico dos velhos cavalheiros do Sul. Será, então, possível que estas sejam as mesmas personagens que, enquanto membros da congregação Mormon, acreditam que, no século VI a.C., três tribos judaicas emigraram por mar para a América do Norte (onde, depois de ressuscitar, Jesus foi, evidentemente, pregar aos nativos um novo Evangelho), que esses foram os verdadeiros antepassados dos índios americanos e que Deus (que, aliás, é feito de carne e osso como qualquer mortal) mantém residência no distante planeta Kolob?
Custa a crer mas é, realmente, verdade. E é verdade porque, na qualidade de presidente, maestros e responsável pelas relações públicas do famoso Mormon Tabernacle Choir, actualmente em digressão pela Europa, todos eles fazem parte da elite dirigente da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Ultimos Dias (designação pela qual os seguidores da religião Mormon preferem ser conhecidos), uma particularíssima confissão religiosa que é, contudo, aquela que mais rapidamente se tem expandido nos EUA e no resto do mundo (10 milhões de seguidores) e cujo império económico foi recentemente avaliado pela "Time" em cerca de 30 mil milhões de dólares. Como qualquer boa história clássica americana, tudo começou, afinal, como mais um episódio na conquista do Oeste e na forma de encarar a América como a Terra Prometida. Os EUA necessitavam de uma religião própria, cristã e nativa e, a 21 de Setembro de 1823, Joseph Smith, "farmboy" de poucas letras de Palmyra, Nova Iorque, era o homem certo na altura certa.
No início do século XIX, a América fervilhava de místicos, socialistas utópicos, revivalistas evangélicos e iluminados (Shakers, The Society Of The Public Universal Friend, comunidades pietistas, discípulos de Robert Owen e Fourier ou as experiências hippy-avant-la-lettre de Oneida, Hopedale e Brooke Farm) mas Deus ou a selecção natural iriam determinar que só um deles teria êxito. Uma criatura "extraordinariamente branca e luminosa", o anjo Moroni, apareceu durante a noite a Joseph Smith e revelou-lhe que, a dois passos do lugar onde vivia, haveria de descobrir, enterradas, várias placas de ouro onde se achavam inscritas as profecias dos americanos primitivos, descendentes dos Nephitas, Lamanitas e Jareditas que - à época da Torre de Babel e, mais tarde, 600 anos antes de Cristo - haviam emigrado da Palestina para o continente americano onde, na qualidade de antepassados dos índios, Jesus Cristo Ressuscitado lhes pregaria um outro "Gospel".Quatro anos depois, Smith teria finalmente acesso às míticas placas e, auxiliado na sua gigantesca tarefa pelas pedras mágicas Urim e Thummim (não esquecer, mesmo em inglês, ele não era muito fluente), traduziria do "egípcio reformado" gravado nas placas o que viria a ser "O Livro de Mormon", último profeta da raça primordial que preservara para a eternidade os escritos e visões desses judeo-americanos iniciais que Cristo, amavelmente, visitara e instruira.
Até aqui, não se dará muito por isso mas estava em gestação uma teologia pitoresca. Levando muito americanamente à letra a ideia de que Deus "criou o Homem à sua imagem e semelhança", a Divindade passaria a ser, inevitavelmente, "de carne e osso" (com uma subtileza conceptual: em vez de sangue, é o Espírito Santo que lhe circula nas veias), todos os Mormons - desde que devotos, rectos e cumpridores -, após a morte, se transformarão também em Deuses e migrarão para o planeta Kolob (?) onde o Pai da Vida, naturalmente, reside, e a poligamia (correcção oficial: o "casamento plural" ou "poliginia") é uma necessidade óbvia, num mundo onde há mais fêmeas do que machos e a proliferação de "almas santas" é urgente. A sociedade americana da época não estava, porém, preparada para tanta originalidade (politeísmo, poligamia, heresias várias) e, como seria de esperar, de Nova Iorque até ao vale do Grande Lago Salgado, no Utah, os convertidos Mormons foram perseguidos como perigosos malfeitores. A isso chamariam eles o "Great Trek From The East", uma longa marcha em busca do Paraíso do "Zion prometido" que se confundia com o lendário "Oeste" por explorar.
Nos dias de hoje, uma viagem de turismo religioso aos "lugares sagrados" de Salt Lake City (não confundir com os balneários da equipa de basquetebol dos Utah Jazz que compete com os Mormons em popularidade), oferece uma visão algo branqueada desta história. Por entre visitas ao Museu da Igreja, à Genealogical Society Of Utah ou ao Joseph Smith Memorial Building, é obrigatória a visão de Legacy, uma grande produção cinematográfica em 70 mm, que narra a saga Mormon num formato que combina com enorme pertinência a estética familiar Disney com a dos imortais "westerns" clássicos: Joseph Smith, "o profeta", é um moço bem apessoado que faz lembrar Tom Cruise, o converso britânico emigrado em missão evangélica para a América daria um bom duplo de Erroll Flynn e, pelo meio de inúmeros episódios em que a fé, inevitavelmente, vence as cruéis adversidades (particularmente tocante é a sequência onde um discurso inflamado de religiosidade convence uma vaca recalcitrante a carregar a carruagem até à Terra Prometida), não se fica a compreender muito bem por que motivo gente tão genuinamente boa, generosa e fidelíssima é acossada por inimigos tão ferozes.
Com os Mormons no papel politicamente correcto do "Bom Selvagem" habitualmente reservado aos índios, estranhamente, o único argumento explicativo da perseguição — os pioneiros Mormons seriam anti-esclavagistas — parece ter pouca correspondência com a realidade histórica: não só o "profeta Brigham Young" - sucessor de Joseph Smith, entretanto assassinado durante a grande caminhada por dissidentes que não viam com bons olhos a ideia da poligamia -, no seu "Journal Of Discourses", teria defendido a escravatura como doutrina bíblica, como, já em 1966, o "Apóstolo Bruce R. McKonkie" justificaria a não ordenação de negros pela Igreja em virtude das suas "intrínsecas restrições espirituais".
Nada que o espírito prático Mormon, no entanto, não fosse capaz de solucionar. Tal como, em 1890 (quando o Utah estava cercado por tropas federais que pretendiam pôr fim à fantasia poligâmica),"o profeta Wilford Woodruff" teve uma oportuna "revelação" que determinou o fim oficial dos "casamentos plurais", também, em 1978, outro "profeta", Spencer W. Kimball, foi fulminado por mais uma iluminação que lhe demonstrou como era necessário que os afro-americanos fossem admitidos na Igreja. Por mera coincidência, como hoje explica o amabilíssimo Don Lefevre com inacreditável candura, "no preciso momento em que a Igreja se expandia no Brasil e nas Caraibas".
A "revelação", aliás, é um método de misticismo pragmático que exemplifica bastante bem o estilo Mormon de lidar com as relações entre Deus e os homens. Joseph Smith, ele mesmo, foi abençoado em toda a sua curta vida terrestre com 112 revelações, das quais, 88 incidiam especificamente sobre assuntos fiscais.
É, talvez, essa a verdadeira razão pela qual os Mormons, de entre todos os cultos americanos oriundos do século XIX, foram o único capaz de edificar um fabuloso empreendimento económico que, hoje, no "ranking" das grandes empresas, os coloca ligeiramente abaixo da Union Carbide e do Paine Webber Group mas claramente à frente da Nike e da Gap. O maior rancho de gado mundial - o Deseret Cattle & Citrus Ranch, em Orlando, cujo exclusivo valor imobiliário se cifra em 858 milhões de dólares - é propriedade da Igreja tal como o são a AgReserves (a mais importante produtora de oleaginosas da América), a cadeia de rádio Bonneville International Corp. e a Beneficial Life Insurances, com um activo de 1.6 mil milhões de dólares. Adicione-se a isto um rendimento anual de 5.9 mil milhões proveniente do dízimo oferecido pelos fiéis, uma rede de televisão própria, um jornal, uma cadeia de trinta livrarias, três universidades em Provo (Utah), no Havai e em Jerusalém e uma participação de 52% na ZCMI (a maior rede de armazenistas do Utah) e não restarão grandes dúvidas em relação à afirmação da edição da "Time" de Agosto de 1997 segundo a qual, "nos EUA, não existe Igreja mais economicamente activa nem com tanto êxito 'per capita' como a Igreja dos Santos dos Ultimos Dias".
Claro que uma empresa desta dimensão cujo produto começou por ser a fé, terá alguma dificuldade em explicar aos seus parceiros económicos (mesmo que a economia seja agnóstica) que, desde o século I d.C., todas as Igrejas entraram em apostasia e corromperam os ensinamentos cristãos fundamentais ("Prostituta de Babilónia" e "Grande Igreja Abominável" foram os insultos mais leves que os Mormons lançaram sobre as outras confissões religiosas), que Joseph Smith foi o profeta finalmente designado, em 1821, para restaurar a verdadeira Igreja de Deus na Terra e que, possuindo a certeza absoluta de que a segunda vinda de Cristo não apenas está iminente como terá obviamente lugar em Jackson County, nos EUA (outra revelação...), se apressou a adquirir aí 14.465 acres de terreno. Embora também isso demonstre o mesmo essencial espírito prático que os conduz a manter permanentemente cheio em Salt Lake City um silo de 9 000 toneladas de trigo capaz de alimentar a cidade durante seis meses (convém não esquecer que o Juizo Final está para breve e não é por acaso que são eles os Santos dos Ultimos Dias...), não dá muito jeito dirigir-se à porta de um cristão "normal" com o intuito de o recrutar, sendo obrigado a explicar-lhe todos os detalhes de uma fé tão exótica.
Foi justamente por isso que, em 1995, a Igreja contratou a firma de Nova Iorque, Edelman Public Relations, e lhe confiou a elaboração de uma estratégia de mudança de imagem mais "Christ centered". No logotipo, as palavras "Jesus Cristo" passaram a ter um maior destaque e é com visível desconforto que, hoje, quando interrogados, se dispõem a explicar tantas idiossincrasias teológicas.
(antes)
(depois)
É preciso manter o precário equilíbrio entre "ser tão cristão como os outros" e, ainda assim, marcar a diferença. E isso é que é realmente difícil sem cair no estatuto indesejável de "seita". O que explica que, quando, no ano passado, Dennis Rodman, dos Chicago Bulls, se referiu aos Utah Jazz como "those fucking Mormons", aquilo que autenticamente os ofendeu não foram as palavras de Rodman mas sim o pedido de desculpas do treinador dos Bulls ao alegar que o atleta "não sabia que eles eram uma espécie de culto ou seita religiosa". É aí mesmo que entram em acção missões diplomáticas de charme ecuménico como a actual digressão europeia do Mormon Tabernacle Choir, uma verdadeira instituição da cultura americana.
O lema da empresa é agora "somos cristãos mas diferentes: não bebemos alcool nem café, não fumamos, temos uma saúde de ferro, reservamos a segunda feira para a família e detestamos homosexuais" e tudo o resto são originalidades arcaicas de que é melhor não falar na busca de uma relação menos conflituosa com as outras igrejas. Em suma, uma variante particular de cristianismo radicalmente higiénico que transforma Salt Lake City (com 70% de adeptos Mormons) na cidade mais asséptica do mundo ocidental. Em rigor, só os últimos dos "homeless" são vistos a fumar (tabaco, estamos a falar de tabaco), descobrir um bar ou um restaurante onde se beba alcool é como procurar o Santo Graal e juntar as duas coisas é praticamente uma missão impossível. Ainda que com esforço, muito esforço, lá se acabe por encontrar um ou outro antro de perdição. Entretanto, no Temple Square de Salt Lake City, entre "elders" e "sisters" ávidos de mostrarem a história e as realizações da Igreja, a vida prossegue com monótona normalidade à beira do enorme Tabernáculo e do Grande Templo, no interior do qual (apenas reservado aos fiéis mas visível em fotografias) existe uma sala decorada em requintado estilo kitsch que pretende oferecer uma antevisão de como será o Paraíso.
(Eles já não são polígamos, elas vestem à
maneira-dos-primos-da-província-que-nos-envergonham, mas todos
(americanos, franceses, russos, filipinos, búlgaros, brasileiros,
latino-americanos...) imaginam a Salvação ao alcance da mão. É, talvez,
isso que confere ao "centro histórico" da cidade a atmosfera de um
daqueles restaurantes onde os empregados são demasiado solícitos: é
obrigatório sorrir de dois em dois minutos, garantir que estamos muito
felizes por estarmos vivos e aceder com amabilidade ao convite para uma
visitinha ao edifício onde nos farão descobrir a nossa árvore
genealógica. Mera curiosidade? De modo nenhum. Os nossos antepassados
não têm culpa nenhuma de que "a verdadeira Igreja de Cristo" só tenha
sido "restaurada" no século XIX e, se os desejamos salvar baptizando-nos
em seu nome, precisamos de saber quem eram, onde viviam e como se
chamavam. Para isso, os Mormons dispôem, então, do maior registo mundial
de genealogias, o equivalente microfilmado de sete milhões de livros de
300 páginas. A empresa é séria, competente, rigorosa e não brinca em
serviço. Precisamente as qualidades que, segundo Joel Kotkin, "dada a
escala do actual revivalismo religioso e os formidáveis recursos da
Igreja, oferecem aos Mormons a possibilidade de emergir como a proxima
tribo global, concretizando, como eles crêem, as antigas e modernas
profecias". (1998)
QUEM ESCREVEU O LIVRO DE MORMON?
Um razoável número de pessoas (na realidade, todos os não-Mormons) parece pouco inclinado a acreditar que, em 1823, o "anjo Moroni" tenha revelado a Joseph Smith o "Livro de Mormon" gravado num conjunto de placas de ouro em "egípcio reformado" e que ele, jovem rural pouco instruido, fosse capaz de o traduzir para inglês em tempo recorde, por desígnio divino. Em especial, quando se sabe que as famosas placas, uma vez traduzidas, foram transportadas de volta para o céu por Moroni e nunca mais ninguém as viu. A interrogação que, inevitavelmente, se levanta é: quem escreveu então o "Livro de Mormon"? E isso torna-se tanto mais interessante quanto — encarado sob essa perspectiva — esse "Outro Testamento de Jesus Cristo" é, de facto, uma fabulosa contrafacção que, num outro contexto, com novas personagens e uma intriga renovada, inventa uma ficção alternativa que continua e desenvolve o argumento original da Bíblia judaico-cristã no Novo Mundo, conservando-lhe o estilo e o recorte literário originais. Ao contrário do que se poderia supôr (decerto muita gente se terá já dedicado a levantar o véu dessa prodigiosa conspiração), a procura de uma pista não é simples nem imediata. Mas, entre buscas na Internet e nas bibliotecas disponíveis, é possível chegar pelo menos a duas teorias viáveis. Obriga a muitas horas de puro trabalho de detective dado que a imensa literatura apologética e de confirmação da legitimidade da obra suplanta claramente os detractores mas, com persistência, descobrem-se a "Ethan Smith theory" e a "Solomon Spaulding theory".
A primeira, defendida por Fawn Brodie na biografia de Joseph Smith "No Man Knows My History", argumenta que, apesar de quase iletrado, Smith possuia suficiente inteligência, imaginação e conhecimentos para, pelos seus próprios meios, ter utilizado a obra "View Of The Hebrews" escrita por Ethan Smith em 1823 como base para o "Livro de Mormon". Embora claramente devedora de publicações anteriores como "History of The American Indians" de James Adair, "View Of The Hebrews" partilha com os Mormons a tese de que os Índios americanos descendem dos Hebreus, refere-se a documentos escondidos em escrita hieroglífica e ambos se referem à aparição de uma divindade branca - Cristo ou Quetzalcoatl - no continente americano.
Os indícios que apontam para Solomon Spaulding (curiosamente colega e amigo de Ethan Smith no Dartmouth College onde ambos se licenciaram e Smith terá dado a ler a Spaulding o esboço do seu livro) são, contudo, bastante mais convincentes. Académico e erudito, possuia um conhecimento profundo dos clássicos, tanto da Bíblia como de Plutarco, Cícero, Virgílio, Heródoto, Platão, Descartes, Rousseau, Josefus, Santo Agostinho, Beda, Geoffrey de Monmouth, as lendas do Santo Graal e os mitos celtas e judaicos. Nos arredores da cidade de Conneaut, no Ohio, onde vivia, erguiam-se diversas construções primitivas de pedra que eram à epoca correntemente associadas aos povos primordiais que teriam habitado a região e que despertaram em Spaulding o desejo de escrever um romance histórico em estilo bíblico sobre as origens míticas da América. Enquanto o ia redigindo, tinha por hábito ler passagens do texto (que intitulou "Manuscript Found") a familiares e amigos que, acerca delas, lhe transmitiam as suas opiniões e comentários.
Nunca publicado na sua primeira versão mas tendo chegado a ser enviado para um editor e dono da tipografia Patterson que lhe sugeriu a introdução de diversas modificações, grande foi o espanto de alguns habitantes de Conneaut quando, em 1832 (já Spaulding havia morrido), um missionário Mormon leu passagens do "Livro de Mormon" numa reunião pública: o que escutavam não eram senão excertos do "Manuscript Found" de Spaulding que vários deles conheciam bem. Os nomes, os factos e a história eram os mesmos e, em Agosto do ano seguinte, oito familiares, amigos e sócios de Solomon Spaulding assinaram testemunhos escritos em favor da tese do plágio do "Manuscript Found", inopinadamente convertido em "Livro de Mormon". Qual, pois, a chave do mistério?
Ela chamar-se-à Sidney Rigdon, empregado da tipografia Patterson, proximo de Joseph Smith e futuro alto responsável da congregação Mormon que, durante o período em que o manuscrito de Spaulding permaneceu na tipografia, o terá desviado, copiado e, com ou sem a colaboração directa de Smith, adaptado aos seus fins de criação de raiz de uma nova religião baseada numa outra Bíblia. Em apoio desta tese, entre muitos outros, vem um curioso episódio posterior: após a morte de Joseph Smith, em 1844, Rigdon reivindicou o seu direito à chefia da Igreja mas foi rejeitado em favor de Brigham Young. A 3 de Setembro, Rigdon declarou a Young que detinha mais poder e autoridade do que qualquer outro dos Apóstolos e ameaçou-o de que "poderia falar alto e revelar todos os segredos da Igreja". Lamentavelmente, acabaria por nunca o fazer... (1998)