... e o pasquim direitolas online diz que o CEO da Vaticano S.A. é do prog-rock e nasceu antes do PREC, cedo demais para o proto-punk, branco demais para ser do rap (a crítica musical direitolas, mesmo se realizada por "doutorandos" e "conselheiros", é igualzinha à esquerdolas: a musiquinha será uma merdúncia mas "o que importa é a mensagem")
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25 December 2015
13 February 2015
MISSÃO APOLO
O projecto espacial Apolo, da NASA, cobriu-se de glória ao 11º capítulo quando Armstrong e Aldrin caminharam sobre a Lua, a 20 de Julho de 1969, mas não foi além do 17º, em Dezembro de 1972, ocasião em que Harrison Schmitt, o primeiro geólogo a pousar no vale de Taurus-Littrow, aí recolheu 110 quilos de amostras. Outro lugar existiu, porém, onde a missão Apolo chegou mais longe: a avenida Júlio Dinis, em Lisboa, morada do Drugstore (posteriormente Centro Comercial) Apolo 70, inaugurado, como é de regra, com um ano de atraso sobre o nome, a 26 de Maio de 1971. Não foi o primeiro do género – esse chamou-se Sol A Sol, na Avenida da Liberdade, e data de 1967 – mas poderá, de agora em diante, reivindicar uma relevância histórica ainda maior que restabelece a ligação com a origem mítica do nome: um quinteto de jovens criaturas lusas, em demanda da Constituição Portuguesa de 1976 (uma obra de ficção) no computador da livraria local, prime, por engano “o botão encarnado” e, instantaneamente, o centro converte-se numa imponente "mothership" que os empurra para o que só poderá ser encarado como uma 2015 – Odisseia no Espaço.
Na verdade, o documento áudio da homérica expedição deverá ser oficialmente designado por A Viagem dos Capitães da Areia A Bordo do Apolo 70 e nele, encadernado numa réplica "low cost" da capa de Sgt Peppers, se descobrirão os formidáveis encontros, aventuras e sobressaltos que, de planeta em galáxia, de sistema solar em asteróide, os fazem confrontar-se com singularidades cósmicas e entidades de horror, assombro e mistério como José Cid, Capitão Fausto, Tiago Guillul, Samuel Úria, Rui Pregal da Cunha, Toy, Tiago Bettencourt, Bruno Aleixo, Tiago Pereira, as Adufeiras de Monsanto, Miguel Ângelo ou Manuel Fúria. É o género de "space oddity" em que os major Tom residentes se sentem menos inclinados a estabelecer contacto com o "ground control" do que a encetarem debates sobre minudências linguísticas e a grandeza conservada sob rotações no espaço tridimensional, em decorrência da isotropia (isto é, o momento angular aplicado às bicicletas), pretexto para um portentoso álbum conceptual de loja do chinês, genuína sci-fi em "happy hour", primeiro épico de vão de escada e manifesto inaugural do surrealismo de quiosque.
Labels:
Beatles,
Bowie,
capas de discos,
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cidades,
cinema,
Heróis do Mar,
José Cid,
Lisboa,
livrarias,
política,
Samuel Uria,
sci-fi,
teoria e praxis musicais portuguesas,
Tiago Guillul,
Tiago Pereira
26 December 2010
CAÍDOS NO CHÃO DA SALA DE MONTAGEM (I)





Nicotine’s Orchestra - Ghosts And Spirits
Tal como The Legendary Tigerman, a orquestra barreirense de Nick Nicotine é um exercício peculiar de encenação em território luso de uma narrativa musical, social e cultural integralmente importada, peça por peça, dos EUA: soul, country, rock’n’roll, com todos os adereços e marcas de origem devidamente autenticadas e irrepreensivelmente reconstituídas. Ou “the ghosts and spirits of Christmas past”.
Mice Parade - What It Means To Be Left-Handed
Adam Pierce, aliás, Mice Parade, detém o record mundial para títulos de álbuns em português oriundos de músicos novaiorquinos: Obrigado Saudade (2004) e Bem-Vinda Vontade (2005). Eram tão excelentes cadinhos de electrónica/pós-rock quanto este é um inclassificável e omnívoro concentrado de pop, tropicalismo, kora africana, "shoegaze", vozes Swahili e versões dos Lemonheads.
Efterklang - Magic Chairs
Algo como um Sufjan Stevens mais disciplinado, uns Arcade Fire sem peneiras, uns Blue Nile espartanos. Todos esses, discípulos compenetrados de Steve Reich e com o estrito programa de converter o somatório desses idiomas à quadratura pop, sem abdicar da complexidade de um lado nem abrir mão da concisão do outro. Abrigam-se sob o rótulo "indie-electronica-classical-experimentalists" e são óptimos músicos dinamarqueses.
Balla - Equilíbrio
Miguel Esteves Cardoso e Pedro Mexia nos textos, Samuel Úria oferecendo a voz, Luís Varatojo dedilhando guitarra portuguesa, Rui Reininho como mestre de cerimónias no "booklet", um sample dos UHF (sim, sim) como esqueleto de uma canção e Armando Teixeira/Balla a lubrificar os circuitos desta pop mais leve que o ar, em jeito de espumante sonoro.
Lali Puna - Our Inventions
"Easy listening" para Holiday Inns de Saturno, painéis sonoros de meditação destinados a fãs dos Kraftwerk, Valium-light refrigerante, espirais de vapor dentro de um aquário de cristal, toques de telemóvel para mosteiros zen, "synth-poetry" entoada por vozes digitais e outras suaves beatitudes tecnológicas com a marca Morr Music a quem devemos também os Notwist e Tied & Tickled Trio.
(2010)
Labels:
Arcade Fire,
Balla,
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The Blue Nile,
The Notwist,
Tied and Tickled Trio
24 May 2010
DERRUBAR AS MURALHAS DE JERICÓ
Quase dois anos após o vírus FlorCaveira - aquela peculiar combinação de “religião & panque roque” que apresentou à sociedade Tiago Guillul, João Coração, B Fachada, Samuel Úria, Diabo na Cruz e os Pontos Negros - ter contaminado praticamente toda a imprensa, estou, de novo, na Igreja Baptista de S. Domingos de Benfica, perante Tiago Guillul, locomotiva editorial e teológica da conspiração, à beira de publicar (em vinil e CD) o novo álbum V. E, agora que o contingente FC já, definitivamente, não compete na categoria “new kids on the block”, só lhe posso perguntar se isso, para ele(s) é uma desgraçada fatalidade ou um alívio: “Estamos felizes por o pó ter assentado. Há um lado que eu diria cavaquista que é o de que mostrámos trabalho. Independentemente do fenómeno real, na medida em que se falou dele, foi também um fenómeno muito circunscrito à imprensa. A minha vida continua tão anónima como antes”.
Sim, Tiago Cavaco/Guillul assegura que ainda não é perseguido nas ruas por jovens fãs tresloucadas: “Eu também tenho pouco perfil para isso, pai de filhos e tal... quem tem mais esse perfil na FlorCaveira é o Samuel Úria, aquele ar mais romântico. Mas, se pensarmos no que se passou depois desse momento de descoberta, toda a gente continuou a gravar, apareceu o Diabo na Cruz... quem achava que aquilo seria, necessariamente, um fogacho, não acertou. É nesse sentido que eu digo que foi uma resposta um bocado cavaquista: dissemos ‘deixem-nos trabalhar’ e nós trabalhámos. Espero que não seja só o Portugal do betão mas estradas onde as pessoas possam andar e dizer que valeu a pena”.
O balanço mais interessante deste tempo terá sido, entretanto, o facto de a percepção que se tinha desta associação de exegetas bíblicos, praticantes de “roque enrole” e “compagnons de route” vários, ter saltado as fronteiras de apenas um grupo de gente "cool" mas oriunda de uma religião “exótica”: “Parece-me que há muitas pessoas a descobrir-nos independentemente desse fenómeno de imprensa. Reparei especialmente nisto a propósito do teledisco que fizemos para o ‘Sete Voltas’. De repente, o 'Record' quer falar comigo porque uns amigos criaram um grupo no Facebook a anunciar que esta devia ser a música oficial da selecção para o Mundial!... A culpa é minha porque eu fiz uma piada com isso (a canção, na verdade, é sobre o episódio bíblico das muralhas de Jericó) e, se calhar, o problema deste país é que ninguém pode fazer piadas porque as pessoas não percebem a ideia. Mas com o Samuel Úria, com o Diabo na Cruz e com este efeito do teledisco, sinto que há, de facto, pessoas novas a descobrir-nos”.
A verdadeira questão, no entanto, é: perdida essa aura de cristãos-militantes-nas-catacumbas-de-Roma, não correrão o risco de começar a haver quem pense “you’re no fun anymore?” “Reconheço que, como este é um país tão pouco tocado pela diversidade religiosa, por mais que nos apeteça que falem de outra coisa, isto irá continuar a ser jornalisticamente forte. Mas, mesmo quando as pessoas se aperceberam do nosso lado ‘National Geographic’, apesar de tudo, falaram da música. Isso, para mim, é um alívio. Na verdade, continuar a sobrevalorizar esse aspecto do ‘exotismo’ religioso será um caso de ‘it’s no fun anymore’. Isso já é notícia, seguramente, de 2008. Até porque, às vezes, a melhor maneira de encenarmos tolerância ou civilização é termos uns espécie de bobos da corte que era como, se calhar, a FlorCaveira aparecia”. Neste V, na realidade, o segundo álbum de Guillul para o mundo, que só o descobriu com o IV (“Isto, agora, é uma categoria um pouco kierkegaardiana... e a piada é essa. Ir assumindo números que, aos olhos da maior parte das pessoas, são virtuais”), a grande maioria das canções é construída sobre “uma amostra de” – batidas rítmicas, excertos de outras músicas... afinal, uma estratégia de auto-defesa:
“Se me armasse em grande cantor ou grande tocador e chamasse uma banda para servir as minhas canções, não funcionaria. Também por ser, simbolicamente, a primeira vez que iria trabalhar canções minhas em estúdio, tentei arranjar balizas para arrepiar caminho. E boa parte das balizas foi criada ou roubando excertos de batidas ou – apenas em dois casos – de música de bandas evangélicas portuguesas dos anos 80 e 90. Senti-me confortável ao pensar que, se ia gravar um disco em estúdio, e se reconhecia que não iria conseguir fugir ao feeling anos 80, ao menos, levoava migalhas da música que me permitiu chegar aqui. Umas vezes, o processo já estava quase concluído e era só um argumento rítmico para juntar; outras, o argumento rítmico estimulava-me a inventar a canção. Por outro lado, é a minha maneira humilde (ou falsamente humilde, também existe esse risco) de invocar outras vozes na hora de trazer a minha”. A excepção é uma canção “construída sobre a indignação resultante de declarações de Mário Soares”: “Se os evangélicos, coitados, não têm grande voz perante um gigante da nossa democracia como o dr. Mário Soares, na minha maneira patética, achei que me devia pronunciar. Numa palestra, ele referiu-se ‘às novas religiões que nos chegam’, falou em ‘evangélicos fanatizados’, aquele eterno clima de suspeição... o Mário Soares não precisa de ser católico para, na estranheza perante as confissões socialmente rebaixadas, numa atitude, de facto, racista, insinuar que não devemos ter nada a ver com essa classe média-baixa dos brasileiros, africanos e ciganos que chegam cá com essa ‘balbúrdia’ de cultos”.
E, a emprestar uma tonalidade comum a todo o disco... uma peculiar forma de pornografia: “Sim, é verdade, há clichés dos anos 80 por todo o lado. Sem querer sociologizar demais, as nossas fronteiras de pudor com o passado, quando estamos numa fase em que precisamos de muita auto-estima – que são, tipicamente, os anos da universidade –, mais tarde, desaparecem. E, aí, pensamos: quais foram as canções que, quando era miúdo, me marcaram? Por isso, é que há esta sede pela nostalgia. Numa canção, eu digo que é a nova pornografia, porque é uma luta espiritual minha e passa por ir ao YouTube procurar os anúncios que via quando era pequeno e que assume um poder idólatra e mentiroso em relação ao passado”.
(2010)
01 January 2010
MÚSICA 2009 - PORTUGUESES

OqueStrada - Tasca Beat – O Sonho Português
Amélia Muge - Uma Autora – 202 Canções
Cristina Branco – Kronos
Samuel Úria – Nem Lhe Tocava
João Coração - Muda Que Muda
Os Quais - Meio Disco
B Fachada – B Fachada (+ Um Fim de Semana no Pónei Dourado)

Real Combo Lisbonense - Real Combo Lisbonense

AbZTRAQT SiR Q - Qorn Pop Garden
(2010)
OqueStrada - Tasca Beat – O Sonho Português
Amélia Muge - Uma Autora – 202 Canções
Cristina Branco – Kronos
Samuel Úria – Nem Lhe Tocava
João Coração - Muda Que Muda
Os Quais - Meio Disco
B Fachada – B Fachada (+ Um Fim de Semana no Pónei Dourado)
Real Combo Lisbonense - Real Combo Lisbonense
AbZTRAQT SiR Q - Qorn Pop Garden
(2010)
27 December 2009
DEPOIS DA CORRIDA AO OURO

B Fachada - B Fachada

Samuel Úria - Nem Lhe Tocava
Um ano depois de o petardo mediático FlorCaveira/Amor Fúria rebentar, ter-se-à tudo esfumado como acontece, regularmente, com as modas sazonais, ou haverá estilhaços valiosos para recolher? Quando, por essa altura, Tiago Guillul declarava “Há um sentido de desgosto, de não identificação com a maior parte das coisas que a geração à minha volta está a fazer. Quando ninguém nos ouvia, tínhamos a profunda consciência de que éramos pessoas que ninguém ouvia. É preciso que alguém se sinta, às vezes, enojado para conseguir fazer alguma coisa. Há pessoas que não gostam de nós e não gostam por boas razões: 'Estes gajos têm a mania que são espertos!' E, nesse sentido, temos, de facto, a mania que somos espertos em relação ao resto, aquilo embaraça-nos”, estava apenas a tirar partido dos megafones que lhe eram colocados à frente ou, durante os doze meses seguintes, justificou – por obras, além de palavras – aquilo que afirmava?

Dos manifestos da Amor Fúria (“Surge um exército de rapazes e raparigas de caras e almas pintadas, pronto a transformar as emoções colectivas num momento partilhável pelas multidões. Apresentam cantigas, planeiam o fim deste mundo e o início de um novo tempo onde as canções substituam as janelas fechadas dos automóveis, as conversas dentro dos edifícios, as filas de espera para os autocarros, os desesperos solitários”), emergiram, de facto, destacamentos poéticos armados, de carne e osso? Será que o que Samuel Úria escreveu acerca de B Fachada (“Alguém que se julga um povo não pode estar bom da cabeça. Eu não sei o que é que o B Fachada se julga, mas lá que se etnografa a si próprio, etnografa. Giacomette-se consigo mesmo, não pode estar bom da cabeça. Graças a Deus”) teve consequências práticas? O que o próprio Úria confessou sobre si mesmo (“já nasci depois do PREC, tarde demais para proto-punk, branco demais para ser do rap") eram só "soundbytes" rimados ou confirmou-se?

Nada como fazer o balanço: um belíssimo devaneio estival de João Coração (Muda Que Muda); vários EP, compilações e elucubrações artesanais a ensaiar sementeiras diversas; duas ou três estreias com índices de acerto no alvo variáveis (Pontos Negros, Smix Smox Smux, Os Golpes); uma colecção de polaróides de figurões urbano-rurais de B Fachada (Um Fim-de-Semana no Pónei Dourado); um EP de “seis canções que rockam-popam-dançam em cima do tempo” (Meio Disco, de Os Quais); e uma longa pausa de Tiago Guillul que, ainda assim, não o impediu de, aqui e ali, ir opinando com imponderável sabedoria (exemplo: “Sempre os mesmos acordes. Sempre os mesmos xilofones sentimentais. Sempre as mesmas capas péssimas em subtis variações de auto complacência. Sempre os mesmos optimismos insufláveis ianques. Sempre as mesmas queixinhas de classe média. Sempre a mesma coisa. Bruce Springsteen não sabe fazer maus discos"). Chega, agora, o momento em que os piores receios de Guillul (“Irrita-me muito pensar ‘será que isto é o próximo passo, este grau de respeitabilidade crítica em que as pessoas andam todas a dar palmadinhas nas costas umas às outras?...’ O nosso rastilho é um certo prazer em fazer inimigos”) se irão concretizar: Nem Lhe Tocava, de Samuel Úria, e B Fachada (apesar de publicado pela Mbari e já não pela incubadora FlorCaveira), irão fazer muitos amigos e a respeitabilidade crítica está a bater-lhes à porta.
Por mui óptimas razões, aliás: se, nem um nem outro perderam aquela faceta de artesãos que preferem lidar com materiais recolhidos no quintal das traseiras ou em que tropeçaram, acidentalmente, numa investida pelo sótão, tudo atingiu já, um grau mínimo de perfeição de acabamentos que, sem tresandar a produto industrial, também não é, decididamente, apenas coisa de amador jeitoso. Fachada é o diletante que respiga na tradição e a evapora ("Responso Para Maridos Transviados"), quase incorpora o espírito do primeiro Kevin Ayers ("Tempo Para Cantar"), joga ao toca-e-foge com o ié-ié tal como Rui Reininho, em dia de folga, o pratica ("Estar à Espera Ou Procurar"), gainsbourgiza-se levianamente ("Setembro" e "A Bela Helena"), pisca o olho a Vitorino, Cesariny e (no grafismo da capa) aos Trovante e, de tudo isso, constrói uma personagem inteiramente singular de quem não esperamos senão que debite aforismos como “É bom ter má fama, dá para ter vazia a cama, e nesta solidão de Kant, é bom ter de fundo o que anda nas bocas do mundo” e mais uma mão cheia de outros de igual quilate.
Nem Lhe Tocava é um sinuoso, virtuoso e vertiginoso exercício de mimetismo em que, sobre uma camaleónica pele inconfundivelmente lusa, se projectam as sombras do tango, do blues, de Elvis Presley, Johnny Cash, caricaturas de Prince e daquele género de soul gingada nos arraiais de Verão, revisteirices de coreto, sobras da mesa do rock português de 80, e por tão repetidas e rápidas sobreimpressões, transpira nacos de língua em estado de graça nos quais, Úria se confessa (“Pôr sal nas minhas feridas e acordes nos meus brados, derramar mel nas saudades, verter choros sincopados”), se desenha (“Eu nunca fui do prog-rock, sou neo-retro-redneck, nasci num antro só de Enters, já nem sei carregar num Rec”) e, no ultra-waitsiano "Batuta e Batota", abre completa e magnificamente o jogo: “Ou em berço de ouro, ou em disco de prata, brotei já artista ou fiz-me pirata? Um Messias pop, freewheelin com dono, se me biografo ou revisiono”.
(2009)
B Fachada - B Fachada
Samuel Úria - Nem Lhe Tocava
Um ano depois de o petardo mediático FlorCaveira/Amor Fúria rebentar, ter-se-à tudo esfumado como acontece, regularmente, com as modas sazonais, ou haverá estilhaços valiosos para recolher? Quando, por essa altura, Tiago Guillul declarava “Há um sentido de desgosto, de não identificação com a maior parte das coisas que a geração à minha volta está a fazer. Quando ninguém nos ouvia, tínhamos a profunda consciência de que éramos pessoas que ninguém ouvia. É preciso que alguém se sinta, às vezes, enojado para conseguir fazer alguma coisa. Há pessoas que não gostam de nós e não gostam por boas razões: 'Estes gajos têm a mania que são espertos!' E, nesse sentido, temos, de facto, a mania que somos espertos em relação ao resto, aquilo embaraça-nos”, estava apenas a tirar partido dos megafones que lhe eram colocados à frente ou, durante os doze meses seguintes, justificou – por obras, além de palavras – aquilo que afirmava?
Dos manifestos da Amor Fúria (“Surge um exército de rapazes e raparigas de caras e almas pintadas, pronto a transformar as emoções colectivas num momento partilhável pelas multidões. Apresentam cantigas, planeiam o fim deste mundo e o início de um novo tempo onde as canções substituam as janelas fechadas dos automóveis, as conversas dentro dos edifícios, as filas de espera para os autocarros, os desesperos solitários”), emergiram, de facto, destacamentos poéticos armados, de carne e osso? Será que o que Samuel Úria escreveu acerca de B Fachada (“Alguém que se julga um povo não pode estar bom da cabeça. Eu não sei o que é que o B Fachada se julga, mas lá que se etnografa a si próprio, etnografa. Giacomette-se consigo mesmo, não pode estar bom da cabeça. Graças a Deus”) teve consequências práticas? O que o próprio Úria confessou sobre si mesmo (“já nasci depois do PREC, tarde demais para proto-punk, branco demais para ser do rap") eram só "soundbytes" rimados ou confirmou-se?
Nada como fazer o balanço: um belíssimo devaneio estival de João Coração (Muda Que Muda); vários EP, compilações e elucubrações artesanais a ensaiar sementeiras diversas; duas ou três estreias com índices de acerto no alvo variáveis (Pontos Negros, Smix Smox Smux, Os Golpes); uma colecção de polaróides de figurões urbano-rurais de B Fachada (Um Fim-de-Semana no Pónei Dourado); um EP de “seis canções que rockam-popam-dançam em cima do tempo” (Meio Disco, de Os Quais); e uma longa pausa de Tiago Guillul que, ainda assim, não o impediu de, aqui e ali, ir opinando com imponderável sabedoria (exemplo: “Sempre os mesmos acordes. Sempre os mesmos xilofones sentimentais. Sempre as mesmas capas péssimas em subtis variações de auto complacência. Sempre os mesmos optimismos insufláveis ianques. Sempre as mesmas queixinhas de classe média. Sempre a mesma coisa. Bruce Springsteen não sabe fazer maus discos"). Chega, agora, o momento em que os piores receios de Guillul (“Irrita-me muito pensar ‘será que isto é o próximo passo, este grau de respeitabilidade crítica em que as pessoas andam todas a dar palmadinhas nas costas umas às outras?...’ O nosso rastilho é um certo prazer em fazer inimigos”) se irão concretizar: Nem Lhe Tocava, de Samuel Úria, e B Fachada (apesar de publicado pela Mbari e já não pela incubadora FlorCaveira), irão fazer muitos amigos e a respeitabilidade crítica está a bater-lhes à porta.
Por mui óptimas razões, aliás: se, nem um nem outro perderam aquela faceta de artesãos que preferem lidar com materiais recolhidos no quintal das traseiras ou em que tropeçaram, acidentalmente, numa investida pelo sótão, tudo atingiu já, um grau mínimo de perfeição de acabamentos que, sem tresandar a produto industrial, também não é, decididamente, apenas coisa de amador jeitoso. Fachada é o diletante que respiga na tradição e a evapora ("Responso Para Maridos Transviados"), quase incorpora o espírito do primeiro Kevin Ayers ("Tempo Para Cantar"), joga ao toca-e-foge com o ié-ié tal como Rui Reininho, em dia de folga, o pratica ("Estar à Espera Ou Procurar"), gainsbourgiza-se levianamente ("Setembro" e "A Bela Helena"), pisca o olho a Vitorino, Cesariny e (no grafismo da capa) aos Trovante e, de tudo isso, constrói uma personagem inteiramente singular de quem não esperamos senão que debite aforismos como “É bom ter má fama, dá para ter vazia a cama, e nesta solidão de Kant, é bom ter de fundo o que anda nas bocas do mundo” e mais uma mão cheia de outros de igual quilate.
Nem Lhe Tocava é um sinuoso, virtuoso e vertiginoso exercício de mimetismo em que, sobre uma camaleónica pele inconfundivelmente lusa, se projectam as sombras do tango, do blues, de Elvis Presley, Johnny Cash, caricaturas de Prince e daquele género de soul gingada nos arraiais de Verão, revisteirices de coreto, sobras da mesa do rock português de 80, e por tão repetidas e rápidas sobreimpressões, transpira nacos de língua em estado de graça nos quais, Úria se confessa (“Pôr sal nas minhas feridas e acordes nos meus brados, derramar mel nas saudades, verter choros sincopados”), se desenha (“Eu nunca fui do prog-rock, sou neo-retro-redneck, nasci num antro só de Enters, já nem sei carregar num Rec”) e, no ultra-waitsiano "Batuta e Batota", abre completa e magnificamente o jogo: “Ou em berço de ouro, ou em disco de prata, brotei já artista ou fiz-me pirata? Um Messias pop, freewheelin com dono, se me biografo ou revisiono”.
(2009)
03 February 2009
O NOSSO PASTOR BAPTISTA PREFERIDO *
(ou, in his own words , "esse Padre Borga versão dois ponto zero")
* (que, por acaso, escreveu uma "review" do álbum do Springsteen quase tão boa como a minha: "Sempre os mesmos acordes. Sempre os mesmos xilofones sentimentais. Sempre as mesmas capas péssimas em subtis variações de auto complacência. Sempre os mesmos optimismos insufláveis ianques. Sempre as mesmas queixinhas de classe média. Sempre a mesma coisa.
Bruce Springsteen não sabe fazer maus discos" - aqui)
ps 1 - mrs. Guillul é gira
ps 2 - mas não leiam só os trechos hippies do Good Book... os naughty bits também são, como dizer?... filhos de deus.
(2009)
(ou, in his own words , "esse Padre Borga versão dois ponto zero")
* (que, por acaso, escreveu uma "review" do álbum do Springsteen quase tão boa como a minha: "Sempre os mesmos acordes. Sempre os mesmos xilofones sentimentais. Sempre as mesmas capas péssimas em subtis variações de auto complacência. Sempre os mesmos optimismos insufláveis ianques. Sempre as mesmas queixinhas de classe média. Sempre a mesma coisa.
Bruce Springsteen não sabe fazer maus discos" - aqui)
ps 1 - mrs. Guillul é gira
ps 2 - mas não leiam só os trechos hippies do Good Book... os naughty bits também são, como dizer?... filhos de deus.
(2009)
28 December 2008
FUTURO AQUI?
Enquanto o mundo, primeiro, invisivelmente, depois, de forma estrondosa, assegurava que, de uma vez por todas, atribuíssemos o verdadeiro sentido a “It’s The End Of The World As We Know It” (sem que, no entanto, fossemos capazes de, imperturbavelmente, lhe pronunciar o anexo “and I feel fine”...), uma canção dos R.E.M. com 21 anos, no admirável universo da música era apenas “business as usual”. Um “business” que, sem dúvida, “as we knew it”, caminha, inexoravelmente, para o seu declínio – a queda nas vendas de fonogramas físicos aprofunda-se, muito insuficientemente compensada pelas vendas legais “online” e em gigantesca devantagem face aos “downloads” ilegais – mas que nem assim se sentiu verdadeiramente estimulado para, perante a hecatombe, mudar radicalmente de processos. Enquanto indústria e enquanto manifestação estética, em 2008, a música pareceu continuar a viver estranhamente isolada no interior de uma bolha impermeável aos abalos externos, reciclando-se infinitamente, rapando o último fundo aos catálogos, persistindo em métodos de uma idade bem anterior à emergência da Internet, continuando a publicar-se belíssima música (e, naturalmente, também excremento sonoro em abundância) mas nada a partir de onde se pudesse enxergar sinais de futuro. Negro ou luminoso, mas, pelo menos, futuro.
Curiosamente, num cenário onde, entre legiões de melancólicos aspirantes a descendentes de um “one night stand” de Woody Guthrie com June Carter numa cabana das Apalaches e sucessivos e vertiginosos revivalismos, o único fenómeno genuinamente inesperado – a relativamente nova “cena de Brooklyn”, dos Vampire Weekend aos High Places, parece ter potencial renovador mas Nova Iorque sempre foi terreno reconhecidamente fértil –, deste ponto de vista onde nos situamos, foi o que eclodiu nos subúrbios de um diminuto lugar periférico, à beira de mais outra fatal depressão. A saber, Portugal, de Queluz a S. Domingos de Benfica, das caves de Igrejas Baptistas para um circuito alternativo ao alternativo, compondo, em português, “panque-roque” e tosco “folque” artesanal, com epicentro em editoras como a FlorCaveira e AmorFúria e protagonistas de nome Tiago Guillul, Pontos Negros, Samuel Úria, João Coração ou B Fachada. Pop “povera” e a que repugnam os “valores de produção”, vivendo de um excesso de convicção e, por aí mesmo, sinal dos tempos e matéria de proclamações, provocações e manifestos. Por uma vez, se surpresas houve, nasceram aqui e não sabemos como evoluirão. E isso é muito bom. Porque o destino de quase todo o resto não poderia ser mais previsível.
(2008)
Enquanto o mundo, primeiro, invisivelmente, depois, de forma estrondosa, assegurava que, de uma vez por todas, atribuíssemos o verdadeiro sentido a “It’s The End Of The World As We Know It” (sem que, no entanto, fossemos capazes de, imperturbavelmente, lhe pronunciar o anexo “and I feel fine”...), uma canção dos R.E.M. com 21 anos, no admirável universo da música era apenas “business as usual”. Um “business” que, sem dúvida, “as we knew it”, caminha, inexoravelmente, para o seu declínio – a queda nas vendas de fonogramas físicos aprofunda-se, muito insuficientemente compensada pelas vendas legais “online” e em gigantesca devantagem face aos “downloads” ilegais – mas que nem assim se sentiu verdadeiramente estimulado para, perante a hecatombe, mudar radicalmente de processos. Enquanto indústria e enquanto manifestação estética, em 2008, a música pareceu continuar a viver estranhamente isolada no interior de uma bolha impermeável aos abalos externos, reciclando-se infinitamente, rapando o último fundo aos catálogos, persistindo em métodos de uma idade bem anterior à emergência da Internet, continuando a publicar-se belíssima música (e, naturalmente, também excremento sonoro em abundância) mas nada a partir de onde se pudesse enxergar sinais de futuro. Negro ou luminoso, mas, pelo menos, futuro.
Curiosamente, num cenário onde, entre legiões de melancólicos aspirantes a descendentes de um “one night stand” de Woody Guthrie com June Carter numa cabana das Apalaches e sucessivos e vertiginosos revivalismos, o único fenómeno genuinamente inesperado – a relativamente nova “cena de Brooklyn”, dos Vampire Weekend aos High Places, parece ter potencial renovador mas Nova Iorque sempre foi terreno reconhecidamente fértil –, deste ponto de vista onde nos situamos, foi o que eclodiu nos subúrbios de um diminuto lugar periférico, à beira de mais outra fatal depressão. A saber, Portugal, de Queluz a S. Domingos de Benfica, das caves de Igrejas Baptistas para um circuito alternativo ao alternativo, compondo, em português, “panque-roque” e tosco “folque” artesanal, com epicentro em editoras como a FlorCaveira e AmorFúria e protagonistas de nome Tiago Guillul, Pontos Negros, Samuel Úria, João Coração ou B Fachada. Pop “povera” e a que repugnam os “valores de produção”, vivendo de um excesso de convicção e, por aí mesmo, sinal dos tempos e matéria de proclamações, provocações e manifestos. Por uma vez, se surpresas houve, nasceram aqui e não sabemos como evoluirão. E isso é muito bom. Porque o destino de quase todo o resto não poderia ser mais previsível.
(2008)
17 December 2008
PRENDAS & COISO

Vários - A FlorCaveira Apresenta o Advento
Se não podemos livrar-nos do Natal, experimentemos substituir a versão católica por outra protestante-Baptista. Na companhia da trupe FlorCaveira, explicam-nos que “é banal trabalhar para resgatar o Cosmos, resta saber quem nos salvará da Salvação do Mundo”. Tiago Guillul, João Coração, Samuel Úria & Cº num Natal anti-papista ao som de “Come o Papa, Joana, come o Papa”.
Tiago Guillul - IV
Natal Baptista nº 2 ou as “95 Teses” de Tiago Guillul em vinte canções (as quinze da publicação original mais cinco de bónus nesta segunda edição) de panque-roque psicadelicamente evangélico. Se, como garantia Kevin Smith no genérico inicial de Dogma, o ornitorrinco é a demonstração de que Deus possui sentido de humor, é escusado insistir no “Jingle Bells”.
Samuel Úria - Em Bruto
“Gravações caseirinhas”, “evocações variaçónicas”, “sintetizadores manhosos”, “temas marginais e desalinhados”, “guitarras de três contos” e, genericamente, um novo sentido para a designação “lo-fi”, em confissões (“nunca fui do prog-rock, eu já nasci depois do PREC, tarde demais para proto-punk, branco demais para ser do rap") de um Baptista enviado de Tondela.
B Fachada - Viola Braguesa
“Alguém que se julga um povo não pode estar bom da cabeça. Eu não sei o que é que o B Fachada se julga, mas lá que se etnografa a si próprio, etnografa. Giacomette-se consigo mesmo, não pode estar bom da cabeça. Graças a Deus”, escreveu Samuel Úria sobre B Fachada que, de si, revela tocar braguesa, cestas de molas e o dicionário de neerlandês-francês.
(2008)
Vários - A FlorCaveira Apresenta o Advento
Se não podemos livrar-nos do Natal, experimentemos substituir a versão católica por outra protestante-Baptista. Na companhia da trupe FlorCaveira, explicam-nos que “é banal trabalhar para resgatar o Cosmos, resta saber quem nos salvará da Salvação do Mundo”. Tiago Guillul, João Coração, Samuel Úria & Cº num Natal anti-papista ao som de “Come o Papa, Joana, come o Papa”.
Tiago Guillul - IV
Natal Baptista nº 2 ou as “95 Teses” de Tiago Guillul em vinte canções (as quinze da publicação original mais cinco de bónus nesta segunda edição) de panque-roque psicadelicamente evangélico. Se, como garantia Kevin Smith no genérico inicial de Dogma, o ornitorrinco é a demonstração de que Deus possui sentido de humor, é escusado insistir no “Jingle Bells”.
Samuel Úria - Em Bruto
“Gravações caseirinhas”, “evocações variaçónicas”, “sintetizadores manhosos”, “temas marginais e desalinhados”, “guitarras de três contos” e, genericamente, um novo sentido para a designação “lo-fi”, em confissões (“nunca fui do prog-rock, eu já nasci depois do PREC, tarde demais para proto-punk, branco demais para ser do rap") de um Baptista enviado de Tondela.
B Fachada - Viola Braguesa
“Alguém que se julga um povo não pode estar bom da cabeça. Eu não sei o que é que o B Fachada se julga, mas lá que se etnografa a si próprio, etnografa. Giacomette-se consigo mesmo, não pode estar bom da cabeça. Graças a Deus”, escreveu Samuel Úria sobre B Fachada que, de si, revela tocar braguesa, cestas de molas e o dicionário de neerlandês-francês.
(2008)
14 December 2008
CANÇÕES DE PROTESTO *

No lado oposto da praceta em que se situa a imobiliária Sétimo Céu, Tiago Guillul abre-me a porta e, com uma cortesia quase fora de época, convida-me a visitar as modestas instalações da Igreja Baptista de Benfica - “a vantagem é que todas as outras parecem logo grandes” - onde combinámos encontrar-nos. O local não seria, talvez, o mais aconselhável para isso mas o meu plano era claro: pretendia, essencialmente, conhecer o criador da editora FlorCaveira, responsável pela actual e surpreendente segunda vaga de “música moderna portuguesa” (herdeira directa da que, nos anos 80, praticamente inventara um vocabulário luso para o rock), também autor-compositor de, nas suas próprias palavras, “panque-roque”. A sua condição de pastor/pregador evangélico, essa, desejava bastante colocá-la entre parêntesis, para que a faceta teologicamente “exótica” que tende a ser-lhe associada, não ocupasse o primeiro plano. Porém, ao fim dos primeiros minutos de conversa e após meia dúzia de frases pontuadas por observações do tipo “nós, enquanto protestantes” ou “como projecto português, católico”, tornou-se absolutamente evidente que não haveria modo de lhe fugir. Citei Frank Sinatra em The Man With The Golden Arm - “let's go down and dirty!” - e permiti, então, que Tiago explicasse exaustivamente o punk que há na sua teologia (e vice-versa) e na de companheiros de viagem como Samuel Úria, João Coração, Os Pontos Negros, B Fachada ou na editora-“irmã” (mas católica...) AmorFúria.

“Há, de facto, uma certa tendência para poluir o que se escreve sobre nós com aquela estranheza 'Ah, é um padre protestante...'. Tenho a certeza que há até quem nem sequer nos oiça por causa destas ressonâncias religiosas: as pessoas ficam tão maçadas, com a ideia de ter um pregador a fazer um disco que pode, eventualmente, colher boa crítica, que se recusam a escutá-lo. Reconheço que há um exagero no meu discurso analítico de autovalidação quase-National Geographic desta coisa. Mas, a alguém que cresce como protestante, também é difícil a sua condição não estar perante tudo. No limite, acho que a música deste universo sobrevive por si. Uma das coisas que mais me surpreendeu foi que boa parte das pessoas que têm falado sobre nós fá-lo independentemente das questões religiosas e ideológicas”, começa por dizer. O problema, no entanto, poderia ver-se de outro ângulo: porquê incluir à viva força na equação a questão religiosa, à maneira de John Zorn que, na colecção “Great Jewish Music”, não descansou enquanto não nos fez saber que Burt Bacharach, Marc Bolan ou Serge Gainsbourg eram judeus? Guillul, “motormouth” profissional (“é característica de pregador”), não desarma:

“Independentemente de as pessoas serem ou não católicas em Portugal, a matriz católica atravessa a crença ou não crença de cada indivíduo. No cristianismo não católico, a assunção da diferença está sempre presente. Na cultura americana, onde a diversidade religiosa é vivida como condição inaugural, existe essa capacidade de nos colocarmos uns junto dos outros mas na nossa diferença. Aqui, as pessoas são muito cautelosas em relação aquilo que presumem ser uma diferença. Não estou a fazer um hino à diferença até porque não acredito nela como abstracção. Mas tem um potencial que acho desafiador, interessante e divertido. Há amigos que se irritam comigo quando faço tanta questão de ser suburbano. Mas uma das coisas de que me apercebi quando entrei para a faculdade é que há uma grande diferença entre crescer na Amadora ou em Lisboa. É um clima muito português – eu diria, razoavelmente católico – pensar que 'está tudo bem', uma certa universalidade que se exprime através daquela frase 'no fundo, no fundo, estamos todos a dizer a mesma coisa', quase sempre quando as pessoas estão a discordar!... Depois, calha-nos a nós, aos evangélicos – que são protestantes mais vitaminados –, o papel de exagerar o outro lado”.

Recuo temporal de quinze anos, até 1993 e às primeiras aventuras punk que, após sucessivas encarnações, desembocaram nos Bible Toons (“uma banda de punk-hardcore, muito suburbana e panfletária como o punk-hardcore costuma ser”) que, em Queluz, criou um microfenómeno regional: “É preciso ver que Queluz é um daqueles sítios onde não há espaços para se tocar e, ao fazermos parte de uma igreja Baptista grande, tínhamos sempre sala para dar concertos e ensaiar. A mesma onde, ainda hoje, ensaiam Os Pontos Negros que são uma espécie de segunda vaga do movimento musical a sair de lá. No final do meu curso, essa banda deixa de ser uma coisa tão fechada e começo a fazer coisas menos típicas de um universitário, deixo de ouvir apenas as coisas pelas modas suburbanas, começo a ter pretensões mais intelectuais e oiço, por exemplo, bandas 'fundadoras' como os Clash e os Sex Pistols. Os Bible Toons passam a chamar-se A Instituição e, nessa altura, já procurávamos um pouco - o que ainda terá a ver com muitas coisas que, hoje, fazemos - uma certa ideia de 'música moderna portuguesa', na antiga acepção que a expressão teve com grupos como os Heróis do Mar ou os GNR. A Instituição começa por ser uma banda de hardcore que se tornou mais punk e eu, como pessoa razoavelmente chata e pretensiosa, começo a criar teorias... Com a dissolução d'A Instituição, acaba também um certo sonho de 'banda adolescente'”.

A música, contudo, teima em persistir. Informalmente, a FlorCaveira já existe desde 1999 mas só é levada mais a sério a partir de 2002, quando as suas edições (“essencialmente, os meus discos a solo e nos desdobramentos em colectivo que foram existindo; o Samuel Úria foi a primeira pessoa a chegar que não era de Queluz, embora viesse também de uma igreja Baptista de Tondela”) começam a ser numeradas (“o primeiro foi o meu Fados Para o Apocalipse Contra A Babilónia”). Objectivamente, por essa altura, “são dez ou doze pessoas que se vão gerindo em projectos colectivos e individuais e sem grande capacidade de sair fora desse universo muito em circuito fechado”. Uma página no MySpace, o convite para a gravação de sessões de rádio na Antena 3 e tudo muda: “É o primeiro momento em que nós, que vivíamos na nossa condição de semiartistas incompreendidos, nos apercebemos que, aqui e acolá, começa a haver algum interesse e pessoas do universo da música começam a saber que nós existimos. Os Pontos Negros são a banda que acaba por ser apanhada em apogeu – o Samuel Úria usa uma expressão bastante apropriada para os descrever: 'a FlorCaveira para as massas'. Revejo-me um pouco neles como se, há dez anos, a minha banda adolescente tivesse dado certo. Ensaiam e trabalham de um modo para o qual nunca tivemos muito talento: preparar as músicas e estar lá tudo muito quadradinho e tudo definido. Geraram um pequeno burburinho dentro deste meio”.

O contágio, entretanto, acontece: “O Manuel Fúria conheceu-nos através do MySpace e a FlorCaveira, de certo modo, surgiu como inspiração para o projecto da AmorFúria”. Embora - e ei-lo, de novo, lançado - “enquanto projecto português, católico, seja um projecto megalómano. Coisa com que nós não temos nada a ver. Até porque, como protestantes, uma das coisas que nos marca um bocado é uma certa incapacidade de nos encontrarmos na cultura popular do país. Quando começa o plano da Amor Fúria é logo para dominar o país todo, para ser uma canção pop que chegue a toda a gente, é um projecto ultravitaminado de um católico que se sente à vontade para acreditar. Nós sempre achámos que a nossa coisa era muito evangélica, estamos aqui nas caves, não temos catedrais, tem a ver com a cultura protestante, o espírito de livre iniciativa. A FlorCaveira é feita de uma certa tendência protestante para não procurar legitimidades externas, não temos 'imprimaturs'”.

Foi este “excesso de convicção” que acabou por determinar a forma e a substância do programa estético e ideológico: “Se não fosse isso (passando, obviamente, pela questão da religião), creio que nunca levaria as coisas tão a sério e com aquela atitude do tipo chato que olha para a música quase como uma agenda. Quer no início, com o punk, quer, depois, no desencanto mais pós-moderno da coisa, com a recuperação da ideia de 'música moderna portuguesa'. A utilização da língua portuguesa sempre foi, para nós, uma questão ideológica. Já se zangaram comigo quando se tem esta conversa de como é que se olha para a língua. Se não houvesse este exagero, acho que a FlorCaveira não existia. É este ataque filosófico que permite insuflar as outras coisas de uma convicção para além dos contextos. Há um sentido de desgosto, de não identificação com a maior parte das coisas que a geração à minha volta está a fazer. Quando ninguém nos ouvia, tínhamos a profunda consciência de que éramos pessoas que ninguém ouvia. Mas sempre foi claro que não estava a ser ouvido porque, se calhar num exagero de 'self-righteousness', não fazia parte de uma coisa com a qual não me identificava. É preciso que alguém se sinta, às vezes, enojado para conseguir fazer alguma coisa. Há pessoas que não gostam de nós e não gostam por boas razões: 'Estes gajos têm a mania que são espertos!' E, nesse sentido, temos, de facto, a mania que somos espertos em relação ao resto, aquilo embaraça-nos. Isto são pequenas novelas, paroquialíssimas, do país que somos, mas a maioria das reacções vem de algumas pessoas da música alternativa e independente, porque se apercebem de que, vindo nós do mesmo contexto, nunca estivemos nas capelas onde as coisas aconteciam e sempre as desprezámos. Isto não é treta: sempre achei que a FlorCaveira tinha mais a ver com a música ligeira dos artistas que vendem nas feiras que funcionam, de facto, em sistema de música independente, do que com as supostas bandas punk que faziam um barulho parecido com o nosso”.

Por esta altura, já tinha confessado a Tiago Guillul o meu agnosticismo com uma costela ateia em vigoroso desenvolvimento (ainda que leitor compulsivo de livros sobre religião). O que, certamente, limita consideravelmente o meu conhecimento desse peculiar fenómeno do “rock cristão” que, no entanto, sempre me pareceu algo de severamente betinho, enjoativamente FM, penteadinho e asséptico. Adjectivos que nunca me passaria pela cabeça aplicar às edições da FlorCaveira. Mais uma daquelas originalidades portuguesas? “Um dos meus amigos mais antireligiosos diz que faz todo o sentido que, em Portugal, alguma coisa interessante tivesse de nascer à custa da religião! Eu diria que se trata de sentido de humor divino... de facto, alguma coisa com alguma energia ser obrigada a sair da cave de uma igreja é, sem dúvida, uma grande ironia. Mas há que dizer que a maioria das pessoas das nossas igrejas nunca gostou muito da nossa música e sempre a achou um pouco desviante. Na minha igreja, das poucas pessoas que lêem jornais, volta e meia, uma ou outra diz ‘Olha, o Tiago anda a aparecer nos jornais!...’ As pessoas não fazem a mínima ideia do que está a acontecer. Isto para dissipar aquele receio de que os evangélicos são um braço armado qualquer, que isto é um plano de dominação! Antes pelo contrário: o pai do Silas – um dos Pontos Negros – está preocupadíssimo com o filho. No nosso meio, sempre fomos olhados com alguma desconfiança. Nesse sentido, é verdade que a nossa música tem muito pouco a ver com o cliché do ‘rock cristão’. A maior parte é um pastiche muito desinteressante, tanto a nível musical como lírico é muito pobre”.

Insisto na questão das opções estéticas: a faceta “lo-fi”, artesanal e amadora, é deliberada, desejada, ou apenas consequência da penúria? Se o editor e produtor Tiago Guillul tropeçasse numa mala forrada de dinheiro, a identidade sonora da FlorCaveira sofreria alterações radicais? “Sou uma pessoa que se deslumbra facilmente. É uma luta pessoal até em relação à minha fé. Há uma certa vaidade na pobreza mas também nos vendemos rapidamente pelo prato de lentilhas. Eu não demonizo a alta-fidelidade. Quando produzi o disco dos Pontos Negros, ia até um pouco amedrontado para os estúdios da Valentim de Carvalho, cheios de história... eu que não tinha experiência nenhuma. Sou, sobretudo, o gajo que tem a mania que é intelectual e tem teorias sobre a música. Mas, embora o álbum dos Pontos não seja nada de genial a nível de produção, acho que ter lá estado protegeu-o de muita coisa que poderia ter acontecido. A minha relação com a música sempre foi demasiado urgente, sempre quis gravar logo e encerrar capítulos, sem pensar em regravar mais tarde quando houvesse melhores condições técnicas. Se calhar, isto é excesso de poetização mas, quando vou ouvir o que gravei num quatro-pistas, com relativa baixa-fidelidade e sem grande domínio sobre os meios técnicos, há uma surpresa relativamente à minha música: tinha uma ideia vaga de como poderia ser mas aquilo é ainda outra coisa. Isso continua a seduzir-me muito. Porque, tecnicamente, sempre fui um desastre, abandono-me um bocado ao que acontece. Hoje, é mais fácil as pessoas ouvirem isto embora ainda haja quem diga ‘O quê? Este disco está à venda na FNAC? Nem sequer foi masterizado...’ Claro que é uma espécie de vaidade, ‘Toma lá que nem masterizado foi!...’, especialmente agora que as bandas gastam rios de dinheiro a enviar as gravações sabe-se lá para onde, para as masterizações... No início, pode ser uma questão de meios mas, depois, há um lado talvez menos interessante porque já não é tão inocente (embora o interesse da inocência seja, provavelmente, perdê-la...). Quando comecei a ouvir o Tom Waits dos anos 80, foi uma espécie de validação à posteriori para o que eu, sem querer, tinha começado a fazer. Mesmo o Dylan que, de alguma maneira, sempre tinha transportado os erros para a sua música. A determinada altura, há um encontro entre não haver meios e um desencantamento com o que acontece quando os meios existem. Sinto que precisava de dominar muito bem o estúdio para achar que valeria a pena. Aquilo tem uma certa frieza com que não me dou bem, a pessoa parece que vai fazer um electrocardiograma... as coisas estão lá, está a ouvir-se tudo mas, do outro lado, falta aquele excesso de narrativa que continua a agradar-me. Não estou para gastar dinheiro em estúdio, o que se esbanja é uma loucura. Ainda por cima, hoje em dia, já não há justificação”.

Entretanto, com a crescente projecção dos diversos músicos e bandas da FlorCaveira/AmorFúria, uma terrível ameaça espreita: a da respeitabilidade crítica. Tiago não a ignora, já se apercebe dos primeiros sinais e... teme-a: “A respeitabilidade crítica é uma coisa tipicamente portuguesa. Quer dizer, se calhar, também não é só cá, nunca vivi lá fora...Uma pessoa grava um disco e, logo ao segundo, chama toda a gente para participar. Eu gosto do Jorge Palma mas, se pusessem uma bomba no videoclip do 'Encosta-te a Mim', a música portuguesa morria ali, estão lá todos! Isto é enjoativo, sempre detestei esta coisa do 'somos todos amigos e, agora, vou gravar uma harmónica no teu disco'. Gosto da música dele mas acho o Sérgio Godinho um chato. É um chato com a desvantagem de ter talento, o que acontece volta e meia. É o cantor português respeitado pelos antigos e pelos novos. É como os rappers a dizer bem do Carlos do Carmo. Também gosto do Carlos do Carmo mas esta coisa de dizer 'o Carlos do Carmo é um senhor!'... É o que dizia o O'Neill, 'é um país que se assoa à gravata'. Irrita-me muito pensar ‘será que isto é o próximo passo, este grau de respeitabilidade em que as pessoas andam todas a dar palmadinhas nas costas umas às outras?...’ O nosso rastilho – e, aí, tenho novamente de insistir que é uma coisa um bocado protestante – é um certo prazer em fazer inimigos”.
* (versão integral da entrevista publicada no "Actual"/"Expresso" de 13.12.08)
(2008)
No lado oposto da praceta em que se situa a imobiliária Sétimo Céu, Tiago Guillul abre-me a porta e, com uma cortesia quase fora de época, convida-me a visitar as modestas instalações da Igreja Baptista de Benfica - “a vantagem é que todas as outras parecem logo grandes” - onde combinámos encontrar-nos. O local não seria, talvez, o mais aconselhável para isso mas o meu plano era claro: pretendia, essencialmente, conhecer o criador da editora FlorCaveira, responsável pela actual e surpreendente segunda vaga de “música moderna portuguesa” (herdeira directa da que, nos anos 80, praticamente inventara um vocabulário luso para o rock), também autor-compositor de, nas suas próprias palavras, “panque-roque”. A sua condição de pastor/pregador evangélico, essa, desejava bastante colocá-la entre parêntesis, para que a faceta teologicamente “exótica” que tende a ser-lhe associada, não ocupasse o primeiro plano. Porém, ao fim dos primeiros minutos de conversa e após meia dúzia de frases pontuadas por observações do tipo “nós, enquanto protestantes” ou “como projecto português, católico”, tornou-se absolutamente evidente que não haveria modo de lhe fugir. Citei Frank Sinatra em The Man With The Golden Arm - “let's go down and dirty!” - e permiti, então, que Tiago explicasse exaustivamente o punk que há na sua teologia (e vice-versa) e na de companheiros de viagem como Samuel Úria, João Coração, Os Pontos Negros, B Fachada ou na editora-“irmã” (mas católica...) AmorFúria.
“Há, de facto, uma certa tendência para poluir o que se escreve sobre nós com aquela estranheza 'Ah, é um padre protestante...'. Tenho a certeza que há até quem nem sequer nos oiça por causa destas ressonâncias religiosas: as pessoas ficam tão maçadas, com a ideia de ter um pregador a fazer um disco que pode, eventualmente, colher boa crítica, que se recusam a escutá-lo. Reconheço que há um exagero no meu discurso analítico de autovalidação quase-National Geographic desta coisa. Mas, a alguém que cresce como protestante, também é difícil a sua condição não estar perante tudo. No limite, acho que a música deste universo sobrevive por si. Uma das coisas que mais me surpreendeu foi que boa parte das pessoas que têm falado sobre nós fá-lo independentemente das questões religiosas e ideológicas”, começa por dizer. O problema, no entanto, poderia ver-se de outro ângulo: porquê incluir à viva força na equação a questão religiosa, à maneira de John Zorn que, na colecção “Great Jewish Music”, não descansou enquanto não nos fez saber que Burt Bacharach, Marc Bolan ou Serge Gainsbourg eram judeus? Guillul, “motormouth” profissional (“é característica de pregador”), não desarma:
“Independentemente de as pessoas serem ou não católicas em Portugal, a matriz católica atravessa a crença ou não crença de cada indivíduo. No cristianismo não católico, a assunção da diferença está sempre presente. Na cultura americana, onde a diversidade religiosa é vivida como condição inaugural, existe essa capacidade de nos colocarmos uns junto dos outros mas na nossa diferença. Aqui, as pessoas são muito cautelosas em relação aquilo que presumem ser uma diferença. Não estou a fazer um hino à diferença até porque não acredito nela como abstracção. Mas tem um potencial que acho desafiador, interessante e divertido. Há amigos que se irritam comigo quando faço tanta questão de ser suburbano. Mas uma das coisas de que me apercebi quando entrei para a faculdade é que há uma grande diferença entre crescer na Amadora ou em Lisboa. É um clima muito português – eu diria, razoavelmente católico – pensar que 'está tudo bem', uma certa universalidade que se exprime através daquela frase 'no fundo, no fundo, estamos todos a dizer a mesma coisa', quase sempre quando as pessoas estão a discordar!... Depois, calha-nos a nós, aos evangélicos – que são protestantes mais vitaminados –, o papel de exagerar o outro lado”.
Recuo temporal de quinze anos, até 1993 e às primeiras aventuras punk que, após sucessivas encarnações, desembocaram nos Bible Toons (“uma banda de punk-hardcore, muito suburbana e panfletária como o punk-hardcore costuma ser”) que, em Queluz, criou um microfenómeno regional: “É preciso ver que Queluz é um daqueles sítios onde não há espaços para se tocar e, ao fazermos parte de uma igreja Baptista grande, tínhamos sempre sala para dar concertos e ensaiar. A mesma onde, ainda hoje, ensaiam Os Pontos Negros que são uma espécie de segunda vaga do movimento musical a sair de lá. No final do meu curso, essa banda deixa de ser uma coisa tão fechada e começo a fazer coisas menos típicas de um universitário, deixo de ouvir apenas as coisas pelas modas suburbanas, começo a ter pretensões mais intelectuais e oiço, por exemplo, bandas 'fundadoras' como os Clash e os Sex Pistols. Os Bible Toons passam a chamar-se A Instituição e, nessa altura, já procurávamos um pouco - o que ainda terá a ver com muitas coisas que, hoje, fazemos - uma certa ideia de 'música moderna portuguesa', na antiga acepção que a expressão teve com grupos como os Heróis do Mar ou os GNR. A Instituição começa por ser uma banda de hardcore que se tornou mais punk e eu, como pessoa razoavelmente chata e pretensiosa, começo a criar teorias... Com a dissolução d'A Instituição, acaba também um certo sonho de 'banda adolescente'”.
A música, contudo, teima em persistir. Informalmente, a FlorCaveira já existe desde 1999 mas só é levada mais a sério a partir de 2002, quando as suas edições (“essencialmente, os meus discos a solo e nos desdobramentos em colectivo que foram existindo; o Samuel Úria foi a primeira pessoa a chegar que não era de Queluz, embora viesse também de uma igreja Baptista de Tondela”) começam a ser numeradas (“o primeiro foi o meu Fados Para o Apocalipse Contra A Babilónia”). Objectivamente, por essa altura, “são dez ou doze pessoas que se vão gerindo em projectos colectivos e individuais e sem grande capacidade de sair fora desse universo muito em circuito fechado”. Uma página no MySpace, o convite para a gravação de sessões de rádio na Antena 3 e tudo muda: “É o primeiro momento em que nós, que vivíamos na nossa condição de semiartistas incompreendidos, nos apercebemos que, aqui e acolá, começa a haver algum interesse e pessoas do universo da música começam a saber que nós existimos. Os Pontos Negros são a banda que acaba por ser apanhada em apogeu – o Samuel Úria usa uma expressão bastante apropriada para os descrever: 'a FlorCaveira para as massas'. Revejo-me um pouco neles como se, há dez anos, a minha banda adolescente tivesse dado certo. Ensaiam e trabalham de um modo para o qual nunca tivemos muito talento: preparar as músicas e estar lá tudo muito quadradinho e tudo definido. Geraram um pequeno burburinho dentro deste meio”.
O contágio, entretanto, acontece: “O Manuel Fúria conheceu-nos através do MySpace e a FlorCaveira, de certo modo, surgiu como inspiração para o projecto da AmorFúria”. Embora - e ei-lo, de novo, lançado - “enquanto projecto português, católico, seja um projecto megalómano. Coisa com que nós não temos nada a ver. Até porque, como protestantes, uma das coisas que nos marca um bocado é uma certa incapacidade de nos encontrarmos na cultura popular do país. Quando começa o plano da Amor Fúria é logo para dominar o país todo, para ser uma canção pop que chegue a toda a gente, é um projecto ultravitaminado de um católico que se sente à vontade para acreditar. Nós sempre achámos que a nossa coisa era muito evangélica, estamos aqui nas caves, não temos catedrais, tem a ver com a cultura protestante, o espírito de livre iniciativa. A FlorCaveira é feita de uma certa tendência protestante para não procurar legitimidades externas, não temos 'imprimaturs'”.
Foi este “excesso de convicção” que acabou por determinar a forma e a substância do programa estético e ideológico: “Se não fosse isso (passando, obviamente, pela questão da religião), creio que nunca levaria as coisas tão a sério e com aquela atitude do tipo chato que olha para a música quase como uma agenda. Quer no início, com o punk, quer, depois, no desencanto mais pós-moderno da coisa, com a recuperação da ideia de 'música moderna portuguesa'. A utilização da língua portuguesa sempre foi, para nós, uma questão ideológica. Já se zangaram comigo quando se tem esta conversa de como é que se olha para a língua. Se não houvesse este exagero, acho que a FlorCaveira não existia. É este ataque filosófico que permite insuflar as outras coisas de uma convicção para além dos contextos. Há um sentido de desgosto, de não identificação com a maior parte das coisas que a geração à minha volta está a fazer. Quando ninguém nos ouvia, tínhamos a profunda consciência de que éramos pessoas que ninguém ouvia. Mas sempre foi claro que não estava a ser ouvido porque, se calhar num exagero de 'self-righteousness', não fazia parte de uma coisa com a qual não me identificava. É preciso que alguém se sinta, às vezes, enojado para conseguir fazer alguma coisa. Há pessoas que não gostam de nós e não gostam por boas razões: 'Estes gajos têm a mania que são espertos!' E, nesse sentido, temos, de facto, a mania que somos espertos em relação ao resto, aquilo embaraça-nos. Isto são pequenas novelas, paroquialíssimas, do país que somos, mas a maioria das reacções vem de algumas pessoas da música alternativa e independente, porque se apercebem de que, vindo nós do mesmo contexto, nunca estivemos nas capelas onde as coisas aconteciam e sempre as desprezámos. Isto não é treta: sempre achei que a FlorCaveira tinha mais a ver com a música ligeira dos artistas que vendem nas feiras que funcionam, de facto, em sistema de música independente, do que com as supostas bandas punk que faziam um barulho parecido com o nosso”.
Por esta altura, já tinha confessado a Tiago Guillul o meu agnosticismo com uma costela ateia em vigoroso desenvolvimento (ainda que leitor compulsivo de livros sobre religião). O que, certamente, limita consideravelmente o meu conhecimento desse peculiar fenómeno do “rock cristão” que, no entanto, sempre me pareceu algo de severamente betinho, enjoativamente FM, penteadinho e asséptico. Adjectivos que nunca me passaria pela cabeça aplicar às edições da FlorCaveira. Mais uma daquelas originalidades portuguesas? “Um dos meus amigos mais antireligiosos diz que faz todo o sentido que, em Portugal, alguma coisa interessante tivesse de nascer à custa da religião! Eu diria que se trata de sentido de humor divino... de facto, alguma coisa com alguma energia ser obrigada a sair da cave de uma igreja é, sem dúvida, uma grande ironia. Mas há que dizer que a maioria das pessoas das nossas igrejas nunca gostou muito da nossa música e sempre a achou um pouco desviante. Na minha igreja, das poucas pessoas que lêem jornais, volta e meia, uma ou outra diz ‘Olha, o Tiago anda a aparecer nos jornais!...’ As pessoas não fazem a mínima ideia do que está a acontecer. Isto para dissipar aquele receio de que os evangélicos são um braço armado qualquer, que isto é um plano de dominação! Antes pelo contrário: o pai do Silas – um dos Pontos Negros – está preocupadíssimo com o filho. No nosso meio, sempre fomos olhados com alguma desconfiança. Nesse sentido, é verdade que a nossa música tem muito pouco a ver com o cliché do ‘rock cristão’. A maior parte é um pastiche muito desinteressante, tanto a nível musical como lírico é muito pobre”.
Insisto na questão das opções estéticas: a faceta “lo-fi”, artesanal e amadora, é deliberada, desejada, ou apenas consequência da penúria? Se o editor e produtor Tiago Guillul tropeçasse numa mala forrada de dinheiro, a identidade sonora da FlorCaveira sofreria alterações radicais? “Sou uma pessoa que se deslumbra facilmente. É uma luta pessoal até em relação à minha fé. Há uma certa vaidade na pobreza mas também nos vendemos rapidamente pelo prato de lentilhas. Eu não demonizo a alta-fidelidade. Quando produzi o disco dos Pontos Negros, ia até um pouco amedrontado para os estúdios da Valentim de Carvalho, cheios de história... eu que não tinha experiência nenhuma. Sou, sobretudo, o gajo que tem a mania que é intelectual e tem teorias sobre a música. Mas, embora o álbum dos Pontos não seja nada de genial a nível de produção, acho que ter lá estado protegeu-o de muita coisa que poderia ter acontecido. A minha relação com a música sempre foi demasiado urgente, sempre quis gravar logo e encerrar capítulos, sem pensar em regravar mais tarde quando houvesse melhores condições técnicas. Se calhar, isto é excesso de poetização mas, quando vou ouvir o que gravei num quatro-pistas, com relativa baixa-fidelidade e sem grande domínio sobre os meios técnicos, há uma surpresa relativamente à minha música: tinha uma ideia vaga de como poderia ser mas aquilo é ainda outra coisa. Isso continua a seduzir-me muito. Porque, tecnicamente, sempre fui um desastre, abandono-me um bocado ao que acontece. Hoje, é mais fácil as pessoas ouvirem isto embora ainda haja quem diga ‘O quê? Este disco está à venda na FNAC? Nem sequer foi masterizado...’ Claro que é uma espécie de vaidade, ‘Toma lá que nem masterizado foi!...’, especialmente agora que as bandas gastam rios de dinheiro a enviar as gravações sabe-se lá para onde, para as masterizações... No início, pode ser uma questão de meios mas, depois, há um lado talvez menos interessante porque já não é tão inocente (embora o interesse da inocência seja, provavelmente, perdê-la...). Quando comecei a ouvir o Tom Waits dos anos 80, foi uma espécie de validação à posteriori para o que eu, sem querer, tinha começado a fazer. Mesmo o Dylan que, de alguma maneira, sempre tinha transportado os erros para a sua música. A determinada altura, há um encontro entre não haver meios e um desencantamento com o que acontece quando os meios existem. Sinto que precisava de dominar muito bem o estúdio para achar que valeria a pena. Aquilo tem uma certa frieza com que não me dou bem, a pessoa parece que vai fazer um electrocardiograma... as coisas estão lá, está a ouvir-se tudo mas, do outro lado, falta aquele excesso de narrativa que continua a agradar-me. Não estou para gastar dinheiro em estúdio, o que se esbanja é uma loucura. Ainda por cima, hoje em dia, já não há justificação”.
Entretanto, com a crescente projecção dos diversos músicos e bandas da FlorCaveira/AmorFúria, uma terrível ameaça espreita: a da respeitabilidade crítica. Tiago não a ignora, já se apercebe dos primeiros sinais e... teme-a: “A respeitabilidade crítica é uma coisa tipicamente portuguesa. Quer dizer, se calhar, também não é só cá, nunca vivi lá fora...Uma pessoa grava um disco e, logo ao segundo, chama toda a gente para participar. Eu gosto do Jorge Palma mas, se pusessem uma bomba no videoclip do 'Encosta-te a Mim', a música portuguesa morria ali, estão lá todos! Isto é enjoativo, sempre detestei esta coisa do 'somos todos amigos e, agora, vou gravar uma harmónica no teu disco'. Gosto da música dele mas acho o Sérgio Godinho um chato. É um chato com a desvantagem de ter talento, o que acontece volta e meia. É o cantor português respeitado pelos antigos e pelos novos. É como os rappers a dizer bem do Carlos do Carmo. Também gosto do Carlos do Carmo mas esta coisa de dizer 'o Carlos do Carmo é um senhor!'... É o que dizia o O'Neill, 'é um país que se assoa à gravata'. Irrita-me muito pensar ‘será que isto é o próximo passo, este grau de respeitabilidade em que as pessoas andam todas a dar palmadinhas nas costas umas às outras?...’ O nosso rastilho – e, aí, tenho novamente de insistir que é uma coisa um bocado protestante – é um certo prazer em fazer inimigos”.
* (versão integral da entrevista publicada no "Actual"/"Expresso" de 13.12.08)
(2008)
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