Showing posts with label Scott Walker. Show all posts
Showing posts with label Scott Walker. Show all posts

11 June 2025

"Grown Ups"

(sequência daqui) Na verdade - entre programas de rádio, televisão, conferências e quase-academismos afins - Jarvis nunca deixou de ter uma agenda generosamente preenchida. O que, de certo modo, é impossível não reparar neste novíssimo More que, tal como já acontecia com This Is Hardcore e We Love Life (apesar da produção de Scott Walker...), se apresenta como um sólido e, aqui e ali, impressionante trabalho de marcenaria mas nunca na qualidade de algo capaz de fazer abanar os alicerces do artesanato contemporâneo. Claro que se, apesar disso, no vaudeville de subúrbio de Hardcore..., os textos apontando sibilinamente em várias direcções não escasseavam ("I am not Jesus though I have the same initials, I am the man who stays home and does the dishes, a man told me to beware of thirty-three, he said 'It was not an easy time for me', but I'll get through, even though I've got no miracles to show you"), em More, Jarvis Cocker, Candida Doyle, Nick Banks e Mark Webber continuam a ser capazes de desenhar maravilhosos instantes de deboche ("Screwing in a charity shop on top of black bin bags full of donations, the smell of digestive biscuits in the air", 'Tina') envoltos em aromas de feira.

18 January 2024

(sequência daqui) "A música folk é História preservada. Conta a história de uma classe que nunca deteve o poder. Que nunca escreveu os livros. Penso ter sido Frank Harte quem disse: 'Quem tem o poder escreve a História, quem sofre escreve as canções'. Continuar a cantar estas canções é mantermo-nos em contacto com a história das classes trabalhadoras e manifestar-lhes solidariedade no presente", disse também Flynn a "The Thin Air". E isso poderia ser integralmente transposto para abordar CYRM, dos ØXN, colecção de 6 canções maioritariamente sob uma perspectiva feminina e retratando uma espécie de eternas trevas mentais medievais, nas quais a selvajaria exercida sobre mulheres supostamente possuídas por demónios ou outras entidades malignas é regra. Fruto da maravilhosa promiscuidade estética de Dublin, a banda é constituída por Radie Peat (voz dos Lankum), Eleanor Myler (Percolator), Katie Kim e John ‘Spud’ Murphy (produtor dos Lankum). ØXN designa uma variedade de touros castrados usados como bestas de carga na velha Irlanda e CYRM um maligno encantamento feminino. Reforçando a faceta das coincidências significativas, o grupo teve origem no fatídico dia 6 de Janeiro de 2021, quando, ao mesmo tempo que, em Washington DC, uma multidão de bárbaros enfurecidos assaltava o Capitólio, Peat, Kim e Myler celebravam o Nollaig na mBan (Natal das Mulheres irlandês) actuando na mesma torre militar de vigia debruçada sobre o Atlântico onde os Lankum gravaram False Lankum. "Cruel Mother", "The Trees They Do Grow High", e "Love Henry" injectam o soro de misoginia, vingança, perda e assombração de raiz tradicional e "The Wife of Michael Cleary" (de Maija Sofia) e "The Feast" (inspirado pelo romance de Nick Cave, And The Ass Saw The Angel), são a demonstração concreta da linha contínua que une o Mal de todas as épocas. Os 13 arrasadores minutos finais de "Farmer in the City", extraída de Tilt, de Scott Walker (1995), não autorizam espaço nem tempo para que um único soluço possa ocorrer.
 

14 June 2022

NA SOMBRA, ENTRE O BEM E O MAL
 

Em 2012, após 17 anos de prolongadíssima pausa, os Monochrome Set voltaram, inesperadamente, à actividade. Um ano antes, Bid, dínamo criativo de uma banda pela qual já circularam quase duas dezenas de músicos, havia sido vítima de um aneurisma. Submetido a cirurgia que lhe colocaria espirais de platina nas artérias cerebrais, narraria todo o processo em Platinum Coils, um “musical sobre um internamento hospitalar” e tiro de partida para um surto criativo que, nos últimos 10 anos, deu origem a 7 álbuns. Por altura do último Fabula Mendax (2019), confessava-nos que “Agora, não consigo parar de escrever. Não vem do subconsciente, não tem nada a ver com a consciência mas com uma entidade diferente dentro de mim. (...) Essa criatura é uma entidade criativa que emerge através da parte do cérebro que lida com o pensamento lateral”. Nesse álbum, ocupar-se-ia da história – alegadamente inspirada por um manuscrito medieval – de Armande de Pange, uma obscura seguidora de Joana D’Arc.

"Really In The Wrong Town"

Acerca do anterior, Maisieworld (2018), explicava que “Maisie, a vossa anfitriã, guiar-vos-á através de uma sucessão de canções que iluminam a natureza volátil, caprichosa e, essencialmente, instável dos Monochrome Set (...), nestes esgotos sonoros onde as guitarras saltam como cimitarras ferrugentas”. No novo Allhallowtide, a misteriosa “entidade criativa” conduziu-o a crer que os últimos dois anos de vida no mundo foram palco de um combate na sombra entre o Bem e o Mal (aliás, os Illuminati), no qual (apertem os cintos!) Trump é um dos “good guys”. “Just assume I’m mad”, diz ele numa entrevista a “Life Elsewhere”. Não precisava fazê-lo. Naquele singularíssimo registo entre o Music Hall britânico, o pós-punk, a "film music" e Scott Walker, a música dos Monochrome Set continua próxima da perfeição. Mas alguém deveria ver com muito cuidado se está tudo bem com as espirais de platina. (daqui)

28 March 2022

"Bernice Bobs Her Hair" (de Liberation, na íntegra aqui)
 
(sequência daqui) Com os dois colegas em fuga à penúria, refugiou-se no sótão da casa dos pais no Ulster e escreveu, escreveu, escreveu, compôs, compôs, compôs (“Sofreram muito os meus país, sofreram mesmo”). Keith Cullen acabaria por contactá-lo e, perante a desconcertante pergunta “Então, vais fazer alguma coisa ou é para esquecer?”, atirou “Tenho o álbum aqui prontinho! É o novo Sgt. Pepper! Quando posso começar a gravá-lo?” Foi assim que, num estúdio baratucho de Londres, com um engenheiro de som acumulando com a função de baterista e Neil responsável por todos os outros instrumentos, surgiu Liberation: “O mais espantoso é ter havido algumas pessoas que o compraram. Os franceses, em especial, gostaram bastante dele. Já tínhamos um ponto de apoio nessa frente”. Seria por essa altura que começaria a compreender aquela que se tornou a sua regra de ouro: “Há apenas dois ingredientes indispensáveis para quem pretende criar música interessante: conhecimento e ignorância. O conhecimento é importante porque é necessário sentir que possuimos alguma coisa que desejamos transmitir. Mas a ignorância é, pelo menos tão importante porque, ao falhar na busca de uma certa sonoridade ou na imitação da nossa banda preferida, algo de original acontece nesse processo. Se tivéssemos a noção de quão pouco sabíamos no princípio, talvez nunca conseguíssemos reunir a coragem suficiente para sequer tentar”. Nesse percurso de imitação/aprendizagem, passou por Scott Walker (“Ele foi incrivelmente importante, embora isso nem sempre seja evidente na minha música. Foi quando me mudei pela primeira vez para Londres que vi, na televisão, ‘The Best of Scott Walker and the Walker Brothers’ e ouvi aquela voz... fiquei apanhado. Era o mais espantoso som que já tinha ouvido a sair da boca de alguém. No dia seguinte, fui comprar logo a cassete e escutei-a até ao vómito. Tudo nela abalroou o meu mundo”.
(segue para aqui)

29 July 2021

 
 
(sequência daqui)  Discípulo confesso (e brilhante) de Scott Walker mas também eclético adepto de Sandy Denny, Magazine, The Pop Group, Martin Carthy, Sinatra, Jim O’Rourke, Bill Evans, Brecht e Planxty, em Song of Co-Aklan, tanto assume o registo de agitador inflamado (“Feeling affronted? Blame the unwanted!” e “There’s aliens for blaming and poor folks for defaming”) como o de niilista friamente amargo (“Time will erase us, scene by scene, gone like the fragments of a dream“), mas assegura não ter pretendido criar “um álbum didactico nem pregar coisa nenhuma: não desejo agredir ninguém com o monopólio da verdade. Vejo-me mais como um parasita do que se passa no mundo do que como um influenciador”. O que não foi, de todo, impeditivo de – na companhia de veteranos dos Mansions, Microdisney e Scritti Politti mas também do inclassificável Luke Haines – ter gravado algo como uma sinistra visão de John Cale enquadrada pela elegância cinemática de David Lynch.

22 April 2021

SEGREDOS, SONHOS E MEDOS

Quando, em 1980, Ivo Watts-Russell e Peter Kent fundaram a 4AD, o plano era manter-se em actividade durante 10 anos e, no último dia de 1990, fechar as portas. Ainda esse dia estava longe de chegar e já Watts-Russell – o mais novo de oito irmãos de uma linhagem aristocrática arruinada –, na segunda metade dos anos 80, confessava ser incapaz de virar costas às bandas (Cocteau Twins, This Mortal Coil, Dead Can Dance, Clan of Xymox, Bauhaus, Modern English, Birthday Party, Xmal Deutschland, Colourbox, The Wofgang Press, Momus/The Happy Family...) que haviam transformado a editora num dos mais luminosos faróis da cena "indie" britânica. Segundo Martin Aston, autor de Facing The Other Way: The Story Of 4AD (2013), o sucesso da 4AD assentou no desprendimento comercial de Ivo Watts-Russell – que, logo em 1981, ficaria sozinho à frente da editora – e numa inclinação estética que privilegiava “sentimentos e segredos ocultos, sonhos ansiosos e medos sufocados, esperança e raiva, criados por uma trupe de 'beautiful freaks' que não desejavam ser vistos”.

O horizonte alargar-se-ia até à outra margem do Atlântico onde iriam descobrir os Pixies, Throwing Muses e Breeders mas, em 1999, Ivo venderia a sua quota da editora à Beggars Banquet – para a qual, desde o início, a 4AD fora pensada como incubadora de novas bandas – e exilar-se-ia até hoje no deserto do Novo México. A partir de 2007 com Simon Halliday no comando das operações, sem abdicar significativamente do perfil original, o catálogo foi-se diversificando e alargando (Mountain Goats, TV On The Radio, The National, Scott Walker, Beirut, Bon Iver, Tune-Yards, St. Vincent, Efterklang, Grimes, Future Islands, U.S. Girls, Holly Herndon, Aldous Harding, Big Thief), chegando, agora, o momento de celebrar quatro décadas de existência com a publicação de Bills & Aches & Blues (primeiro verso de "Cherry-Coloured Funk", dos Cocteau Twins) uma espécie de recuperação actualizada do conceito This Mortal Coil no qual bandas actuais revisitam temas dos “clássicos” 4AD. (daqui; segue para aqui)

01 March 2021

CAVALGADA CEGA
 

Dá muito jeito quando, no "press-release" de um álbum, se declara, preto no branco: “Inspirado por Van Dyke Parks (Song Cycle), Scott Walker (3 e 4), Moondog (Elpmas), White Noise (An Electric Storm) e Beach Boys (Smile)”. O que, aos especialmente catalogadores e arquivistas, poupa logo o esforço de procurar as coordenadas daquilo que irão, a seguir, ouvir. Excepto nos casos em que isso – a menos que se trate de maliciosa manobra de diversão – apenas poderá fazer algum sentido para quem o concebeu mas pouco ou nenhum em relação ao par de tímpanos que o irá escutar. 
 

 
Excerpts from Chapter 3: The Mind Runs a Net of Rabbit Paths, terceiro álbum dos holandeses Rats On Rafts, apesar do que anuncia, com os 3º e 4º volumes de Scott Walker não revela o menor parentesco, e de Moondog e dos Beach Boys, nem um rasto de pegadas. Quanto a Van Dyke Parks e aos vetustos pioneiros da electrónica, White Noise, se, de um, com boa vontade, poderá reconhecer-se o conceito de "song cycle", dos outros, só resta supôr que alguma informalidade e experimentalismo "noise" ter-se-ão derramado para aqui. Nada de grave. (daqui; segue para aqui)

29 April 2020

OS BRAVOS DE DOKKUM

  
A Frísia situa-se no extremo norte da Holanda e Dokkum no extremo norte da Frísia. Sobre a Frísia podemos saber que o idioma local é a língua continental mais próxima do Old English medieval e que foi nela que a holandesa Nynke Laverman – natural de Leeuwarden, na Frísia – gravou dois álbuns de fado. Acerca de Dokkum, é esta a altura certa para travarmos conhecimento com os prodigiosos Elias Elgersma (guitarra), Jaap Van der Velde (baixo) e Erik Woudwijk (bateria), aliás, The Homesick, três dos 12 500 habitantes da cidade onde São Bonifácio, no século VIII, após ter tentado em vão converter os frísios ao cristianismo, por mais que, segundo a lenda, se defendesse brandindo uma Bíblia, não evitou ser assassinado. Seria infinitamente justo que, a partir de agora, o mundo, em vez do bonifacial episódio, passasse a recordar-se de Dokkum pelos bravos feitos de Elgersma, Van der Velde e Woudwijk: The Big Exercise – segundo álbum do trio depois da estreia, Youth Hunt (2017) – é o tipo de proeza musical ao alcance de muito poucos. 



Eles juram que não seriam o que são se não tivessem escutado Meredith Monk e Joan La Barbara e encaram o título do disco, retirado de uma passagem da biografia de Scott Walker, Deep Shade Of Blue, como uma vénia perante o mestre. Mas a verdade é que, neles, tudo soa muito mais a reinvenção e enérgica dilatação da veia sonora antes explorada pelos XTC, Wire, Animal Collective e Field Music: o microscópico trabalho de relojoaria das guinadas harmónicas, rítmicas e melódicas, o enlace e desenlace de nós cegos, da estridência para o pós-punk de câmara, as piruetas dos hoquetus vocais para os vertiginosos riffs em movimento circular, o pano de fundo tão barrocamente exuberante quanto disciplinadamente austero, o incansável dínamo da bateria de Woudwijk, tudo aponta nesse sentido. Ou, então, como eles dizem, será apenas uma questão de conduzir o experimentalismo tão longe quanto possível, camuflado sob a aparência de subordinação aos protocolos pop. Que continuem a fazê-lo por muito tempo.

31 March 2020

POEMA PARA BEATRIZ
 

Maria McKee? Não deve ser exactamente uma multidão o número daqueles a quem, por esta altura, esse nome fará tocar uma ou duas campainhas. Por motivos bastante concretos: da valquíria "cowpunk" que, desde 1982, aos 18 anos, à frente dos Lone Justice (e integrando o mesmo destacamento a que pertenciam Jason & The Scorchers, Beat Farmers, Long Ryders, Rank & File ou Meat Puppets), assinou o óptimo Lone Justice (1985) e o menos notável Shelter (1986) e, posteriormente, a solo, nos seduziu o ouvido com Maria McKee (1989), You Gotta Sin To Get Saved (1993), Life Is Sweet (1995) e High Dive (2003), não havia notícias há 13 anos. Pelo caminho, deixara o único tema original – "If Love Is A Red Dress (Hang Me In Rags)" – da banda sonora de Pulp Fiction e trepara até pelas tabelas de vendas com "Show Me Heaven", do trambolho cinematográfico Days of Thunder

 
Só por essa lomga ausência, a publicação de La Vita Nuova seria já um acontecimento assinalável. Mas é-o muito mais ainda na medida em que se trata, verdadeiramente, de uma segunda vida para Maria Luisa McKee: anunciando-se renascida como “a pansexual, polyamorous, gender-fluid dyke” e activista dos direitos LGBT, "a queer leftist witch” iniciada numa loja da Hermetic Order of the Golden Dawn de Yeats e Crowley, e – jura – em comunicação espiritual com Bryan MacLean (o irmão mais velho já falecido, fundador dos lendários Love), mudou-se dos EUA para Inglaterra e aí mergulhou na música de Scott Walker, Vaughan Williams, Bowie, John Cale e Sandy Denny, e nas obras de Keats, Swinburne, Dickens, Blake e Dante. Foi a este que tomou de empréstimo o título do álbum acerca do qual teríamos bastas justificações para recear o pior. Nada de mais errado: La Vita Nuova, gravado com uma orquestra de 19 elementos, é uma avassaladora obra-prima com aquela patine “antiga” que evoca a Sandy Denny mal-amada de Like an Old Fashioned Waltz e Rendez Vous, mas também, aqui e ali, Joni Mitchell, e toda a constelação de divindades tutelares que a si quis chamar para este imenso poema à sua Beatriz.

19 February 2020

 AGUARELA INGÉNUA


Gato repetidamente escaldado pelas inúmeras e desavergonhadas campanhas de "hype" à volta de “génios incompreendidos na sua época” que, trazidos à luz, se revelam muito pouco geniais e justissimamente ignorados, teme, naturalmente, a água fria de mais uma “inigualável descoberta” pronta a servir. Foi, pois, inteiramente justificado que, ao ser anunciada a exumação de duas preciosidades do início dos anos 70, desde então remetidas para a clandestinidade, e cujo autor, durante os 40 anos seguintes, se vira obrigado a sobreviver como jardineiro, operário e trabalhador rural, a oferenda tenha sido recebida com os dois pés firmemente colocados atrás. Afinal, por uma vez, o "hype" tinha toda a razão de ser: Bill Fay (1970) e Time of The Last Persecution (1971) – muito especialmente o primeiro – eram o género de peças perante as quais apenas podia pensar-se “Mas como foi possível?...”
 

Entusiasticamente apregoado por Jeff Tweedy, David Tibet, Nick Cave e Jim O’Rourke, era, de todo, impossível não alinhar no coro. E fi-lo: Bill Fay era “coisa da estatura de Goodbye and Hello, de Tim Buckley, dos quatro primeiros de Scott Walker, de American Gothic de David Ackles, ou, do ponto de vista da encenação sinfónica, de Songs Of Love And Hate, de Leonard Cohen”. Provavelmente decisivas eram as orquestrações de Mike Gibbs (jazzman às ordens de Carla Bley, Bill Evans, Peter Gabriel, Marianne Faithfull, e Joni Mitchell) porque, embora também valiosos, Time of The Last Persecution e os dois que gravaria pós-ressurreição (Life Is People, de 2012, e Who Is the Sender?, de 2015), sem a mão de Gibbs, tendiam a aconchegar-se demasiado às ecografias da alma dos velhos  "singer-songwriters". Countless Branches vem confirmar essa ideia: quase só pele e osso de voz e piano com ocasionais pinceladas transparentes de violoncelo e trompete, é uma aguarela intimista de deslumbramento cripto-cristão perante o mundo, a vida e os humanos, talvez excessivamente ingénua – confrontar com Leonard Cohen - para um cavalheiro de 77 anos.

25 April 2019

Scott Walker - "We Came Through"



We came through
We came riding through like warriors from afar
Our black horses danced upon the graves of yesterday's desires
Haunted by our visions framed in fire
I greet you, for you still believe in what's behind a door
You've seen the children freeze upon their knees
And praying to the wind
Descend their grey madonnas back again

Fire the guns, and salute the men who died for freedom's sake
And we'll weep tonight, but we won't lie awake
Gazing up at statues dressed in stars
We won't dream, for they don't come true for us
Not anymore
They've run afar to hide in caves
With haggard burning eyes
Their icy voices tear our hearts like knives

We came through
Like the Gothic monsters perched on Notre Dame
We observe the naked souls of gutters pouring forth mankind
Smothered in an avalanche of time
And we're giants
As we watch our kings and countries raise their shields
And Guevara dies encased in his ideals
And as Luther King's predictions fade from view

We came through
We came through
We came through
We came riding through

04 December 2018

VENTO, TERRA, FOGO, ÁGUA


Em Double Trouble: Bill Clinton and Elvis Presley In a Land of No Alternatives (2001), Greil Marcus conta como o plano inicial de David Thomas para os Pere Ubu era ’gravar um artefacto’ que ‘lhes desse acesso à Fraternidade dos Desconhecidos que se ia constituindo por todo o lado, nas lojas de discos em segunda mão’. A ideia era actuar e depois desaparecer, ser esquecido, e, algures no futuro, talvez mesmo depois de morto, ser descoberto e, só então, começar a transformar o mundo”. Praticamente as mesmas palavras poderiam ser aplicadas a um outro “artefacto” gravado em 2001: The Opiates, assinado Anywhen, na realidade, apenas um "nom de plume" para o sueco Thomas Feiner acompanhado pela Orquestra Sinfónica de Varsóvia. Literalmente esmagado e não poupando as palavras, na altura, descrevi-o como “O melhor disco de Jeff Buckley. O melhor disco de David Sylvian. O melhor disco de John Cale. O melhor disco dos Tindersticks. O melhor disco de Scott Walker. O melhor disco dos Blue Nile. O melhor disco dos Divine Comedy”. Não me arrependo de nenhuma dessas comparações (arrependo-me só de não lhes ter acrescentado os Triffids).



Simplesmente, enquanto imaginava que, inevitavelmente, pelo menos uma parcela do mundo civilizado iria ajoelhar perante tanta grandeza... nada aconteceu. Intimidadas pelas implacáveis proclamações (“Here come greetings from the fires of dusk, from all the places you never dared to walk, you never saw the silent battle zones beneath your towers and beneath your gardens") as gentes passaram de lado e Feiner, sem o saber, acabara de ser iniciado na Brotherhood of the Unknown. Em 2008, The Opiates seria remasterizado para a Samadhisound, de David Sylvian (Thomas Feiner & Anywhen: The Opiates – Revised), houve notícias avulsas de publicações em mp3, um website lacónico que, relutantemente, deixava escapar parca informação sobre colaborações com Steve Jansen e vagas bandas sonoras. Na Wikipedia, uma única página. Em português. Até que, de súbito, há semanas, sob a designação Exit North (Feiner, Jansen, Charles Storm e Ulf Jansson), surge Book Of Romance And Dust. Apetece repetir, sílaba por sílaba, tudo o que foi dito sobre The Opiates. Podendo talvez acrescentar-se – errando – que, agora, Ryuichi Sakamoto teria sido convocado para o deslumbre onde um translúcido impressionismo electrónico se infiltra por entre as palavras e as dissolve, “to hear the world, the void, the sound it makes, the wind, the earth, the fire, high water”.

01 September 2016

APURAR E DECANTAR

  
Segundo Neil Hannon, aparentemente, o assunto deixa-se esclarecer em poucas palavras: “Suponho que Foreverland foi inspirado pela minha história pessoal dos últimos seis ou sete anos e por documentários de História da BBC4”. Com que andou, então, Hannon ocupado desde que, em Maio de 2010, publicou Bang Goes The Knighthood? Na verdade, toda uma carreira paralela: com Thomas Walsh, dos irlandeses, Pugwash, inventou The Duckworth Lewis Method, cujo primeiro álbum homónimo (2009) era "a kaleidoscopic musical adventure through the beautiful and rather silly world of cricket”, e o segundo, Sticky Wickets (2013), reinvestia na mesma modalidade; no ano seguinte, dedicou-se à escrita de um musical, Swallows and Amazons, a partir de uma série de romances dos anos 30, de Arthur Ransome; em 2012, sobre os Sevastopol Sketches, de Tolstoy, criou a sua primeira ópera, Sevastopol, e, logo a seguir, In May, teatro-musical de câmara com libreto de Frank Alva Buecheler, sob a forma de 24 canções para a voz de Leentje Van de Cruys, o piano de Fredrik Holm, e as cordas do Ligeti Quartet; por fim, há dois anos, estreou To Our Fathers In Distress, uma peça para o orgão recém-restaurado do Royal Festival Hall, côro e ensemble de cordas, dedicada ao pai, bispo da Church Of Ireland e doente de Alzheimer. “With my background in foolish pop, it's still a surprise and an honour to be asked to do such things”, confessaria ele, na altura. 


A modéstia será genuína mas, por muito ligeiras e irónicas que as canções dos Divine Comedy pareçam, ninguém se atreveria a classificá-las como “foolish pop”. Coisa fácil de compreender, aliás, na recente e assaz reveladora entrevista à Boundless, na qual, sem máscaras, desenha a sua genealogia musical: a Electric Light Orchestra, de Roy Wood e Jeff Lynne (“Goste disso ou não, a ELO é a minha mais profunda influência. Na minha música, podem identificar-se tiques da ELO por todo o lado. Posso estar a pensar nos Walker Brothers mas o que sai é ELO”), Scott Walker e “a lot of French stuff” (“No fim da adolescência, andava obcecado com a pop orquestral dos anos 60 e com as canções francesas. Em grande parte, isso deve-se a Scott Walker e às suas interpretações de Jacques Brel. Era tão brutalmente honesto e poético... claro que daí até Gainsbourg e Piaf foi só um salto. E como tambám gostava de cabaret alemão e bandas sonoras de filmes, tudo acabou por se combinar”), e Michael Nyman (“Quando comecei, era uma epítome do puto indie dos anos 80: antes de mais, era fã absoluto dos R.E.M. e dos Pixies e de alguns 'shoegazers' mais obscuros – Pale Saints, Chapterhouse, Ride... mas, quando vi os filmes do Peter Greenaway, fui completamente abalado pelo modo intenso e punk como o Michael Nyman fazia soar um quarteto de cordas. Afastei-me cada vez mais da ideia do quarteto básico de rock. Por volta do meio dos anos 90, tentei articular um pouco as duas coisas”).


Não é preciso lupa para confirmar que, se não surge, realmente, nada de surpreendentemente novo em Foreverland, os traços essenciais da música dos Divine Comedy mantêm-se intactos. A última meia década terá servido para apurar e decantar o estilo mas quem como o diminuto Hannon seria capaz de desenhar, em cinemascope, um auto-retrato em "Napoleon Complex" (“Who pulls the strings, who makes the deals, stands five foot three in Cuban heels?”), fazer transportar (em portentosa música e vídeo mock-Greenaway) o 1.60m para a corte de Catarina da Rússia e, em 3’12”, incluir aula de História e declaração de amor (com “Ekaterina Alexeyevna” como texto da "bridge") ou criar uma BSO de recorte exótico para potencial thriller em "Desperate Man#? Apenas o mesmo Neil Hannon que deixou "Other People" tal qual a gravara no telemóvel, num quarto de hotel, "a cappella", pronta a deixar-se raptar, em voo orquestral, para um céu de Hollywood.

09 March 2016

DESCONFORTO

  
A 10 de Fevereiro passado, no blog Atalho de Sons, Luís Peixoto, a propósito da actual revisitação de Music For A New Society, de John Cale, pelo próprio autor, escrevia: M:FANS, embora partindo das mesmas canções, é outra coisa muito diferente. Quem sabe, talvez um dia me sinta suficientemente confortável para sobre ele dissertar”. Quase um mês depois de o ter recebido, também eu fui adiando esse momento e continuo a sentir-me tudo menos confortável para redigir meia dúzia de linhas acerca dele. Por um claríssimo motivo: quando deparamos com alguém que não descobriu melhor ocupação do que a de estropiar obra-prima alheia, é fácil recorrer aos piores instintos e crucificar impiedosamente o profanador. Mas, se este é o criador original da peça violentada, tudo se torna demasiado problemático. Music For A New Society (1982), como, da mesma dimensão, Songs Of Love And Hate, de Leonard Cohen, é não só uma das mais avassaladoras colecções de canções de sempre, mas, igualmente, um daqueles exercícios de funambulismo existencial com o precipício em fundo – aqui, poderá juntar-se-lhe The Drift, de Scott Walker – que, irremediavelmente, marcam a fogo quem se lhes atravesse no caminho. 



Dele, Cale diria: “Foi uma agonia. Um acto de loucura. Deixei-me arrastar. Tornou-se uma espécie de terapia, um exorcismo pessoal. Não me agrada a ideia de encarar a música de uma forma descontraída mas ter de chegar a tais extremos foi, realmente, excessivo”. Implacável canto fúnebre endereçado aos ainda vivos, estertor final só residualmente catártico – tantos e tais demónios não se deixam expulsar sem encarniçada resistência – Music For A New Society era tudo menos aquilo a que se poderia chamar “uma obra do seu tempo”. Ou de qualquer tempo. Inexplicavelmente, M:FANS ambiciona ser de 2016: o que no álbum de 1982 era esparso, meras sombras de outras sombras despenhando-se sobre um cenário de destroços, agora, obedecendo a uma obsessão de preencher todos os espaços vazios em prol do "updating" e do "enhancing", recorre a uma despropositada sobrecarga de efeitos de produção que nem do ridículo "auto-tune" abdica. Ignoro o que, sobre mim, isto dirá mas a minha opinião é idêntica à do “Financial Times”: “na melhor das hipóteses, apenas uma curiosidade”