(sequência daqui) Na verdade - entre programas de rádio, televisão, conferências e quase-academismos afins - Jarvis nunca deixou de ter uma agenda generosamente preenchida. O que, de certo modo, é impossível não reparar neste novíssimo More que, tal como já acontecia com This Is Hardcore e We Love Life (apesar da produção de Scott Walker...), se apresenta como um sólido e, aqui e ali, impressionante trabalho de marcenaria mas nunca na qualidade de algo capaz de fazer abanar os alicerces do artesanato contemporâneo. Claro que se, apesar disso, no vaudeville de subúrbio de Hardcore..., os textos apontando sibilinamente em várias direcções não escasseavam ("I am not Jesus though I have the same initials, I am the man who stays home and does the dishes, a man told me to beware of thirty-three, he said 'It was not an easy time for me', but I'll get through, even though I've got no miracles to show you"), em More, Jarvis Cocker, Candida Doyle, Nick Banks e Mark Webber continuam a ser capazes de desenhar maravilhosos instantes de deboche ("Screwing in a charity shop on top of black bin bags full of donations, the smell of digestive biscuits in the air", 'Tina') envoltos em aromas de feira.
18 January 2024
14 June 2022
28 March 2022
29 July 2021
22 April 2021
Quando, em 1980, Ivo Watts-Russell e Peter Kent fundaram a 4AD, o plano era manter-se em actividade durante 10 anos e, no último dia de 1990, fechar as portas. Ainda esse dia estava longe de chegar e já Watts-Russell – o mais novo de oito irmãos de uma linhagem aristocrática arruinada –, na segunda metade dos anos 80, confessava ser incapaz de virar costas às bandas (Cocteau Twins, This Mortal Coil, Dead Can Dance, Clan of Xymox, Bauhaus, Modern English, Birthday Party, Xmal Deutschland, Colourbox, The Wofgang Press, Momus/The Happy Family...) que haviam transformado a editora num dos mais luminosos faróis da cena "indie" britânica. Segundo Martin Aston, autor de Facing The Other Way: The Story Of 4AD (2013), o sucesso da 4AD assentou no desprendimento comercial de Ivo Watts-Russell – que, logo em 1981, ficaria sozinho à frente da editora – e numa inclinação estética que privilegiava “sentimentos e segredos ocultos, sonhos ansiosos e medos sufocados, esperança e raiva, criados por uma trupe de 'beautiful freaks' que não desejavam ser vistos”.
O horizonte alargar-se-ia até à outra margem do Atlântico onde iriam descobrir os Pixies, Throwing Muses e Breeders mas, em 1999, Ivo venderia a sua quota da editora à Beggars Banquet – para a qual, desde o início, a 4AD fora pensada como incubadora de novas bandas – e exilar-se-ia até hoje no deserto do Novo México. A partir de 2007 com Simon Halliday no comando das operações, sem abdicar significativamente do perfil original, o catálogo foi-se diversificando e alargando (Mountain Goats, TV On The Radio, The National, Scott Walker, Beirut, Bon Iver, Tune-Yards, St. Vincent, Efterklang, Grimes, Future Islands, U.S. Girls, Holly Herndon, Aldous Harding, Big Thief), chegando, agora, o momento de celebrar quatro décadas de existência com a publicação de Bills & Aches & Blues (primeiro verso de "Cherry-Coloured Funk", dos Cocteau Twins) uma espécie de recuperação actualizada do conceito This Mortal Coil no qual bandas actuais revisitam temas dos “clássicos” 4AD. (daqui; segue para aqui)
01 March 2021
29 April 2020
31 March 2020
20 March 2020
19 February 2020
25 April 2019
We came riding through like warriors from afar
Our black horses danced upon the graves of yesterday's desires
Haunted by our visions framed in fire
I greet you, for you still believe in what's behind a door
You've seen the children freeze upon their knees
And praying to the wind
Descend their grey madonnas back again
Fire the guns, and salute the men who died for freedom's sake
And we'll weep tonight, but we won't lie awake
Gazing up at statues dressed in stars
We won't dream, for they don't come true for us
Not anymore
They've run afar to hide in caves
With haggard burning eyes
Their icy voices tear our hearts like knives
We came through
Like the Gothic monsters perched on Notre Dame
We observe the naked souls of gutters pouring forth mankind
Smothered in an avalanche of time
And we're giants
As we watch our kings and countries raise their shields
And Guevara dies encased in his ideals
And as Luther King's predictions fade from view
We came through
We came through
We came through
We came riding through
01 April 2019
04 December 2018
01 September 2016
A modéstia será genuína mas, por muito ligeiras e irónicas que as canções dos Divine Comedy pareçam, ninguém se atreveria a classificá-las como “foolish pop”. Coisa fácil de compreender, aliás, na recente e assaz reveladora entrevista à Boundless, na qual, sem máscaras, desenha a sua genealogia musical: a Electric Light Orchestra, de Roy Wood e Jeff Lynne (“Goste disso ou não, a ELO é a minha mais profunda influência. Na minha música, podem identificar-se tiques da ELO por todo o lado. Posso estar a pensar nos Walker Brothers mas o que sai é ELO”), Scott Walker e “a lot of French stuff” (“No fim da adolescência, andava obcecado com a pop orquestral dos anos 60 e com as canções francesas. Em grande parte, isso deve-se a Scott Walker e às suas interpretações de Jacques Brel. Era tão brutalmente honesto e poético... claro que daí até Gainsbourg e Piaf foi só um salto. E como tambám gostava de cabaret alemão e bandas sonoras de filmes, tudo acabou por se combinar”), e Michael Nyman (“Quando comecei, era uma epítome do puto indie dos anos 80: antes de mais, era fã absoluto dos R.E.M. e dos Pixies e de alguns 'shoegazers' mais obscuros – Pale Saints, Chapterhouse, Ride... mas, quando vi os filmes do Peter Greenaway, fui completamente abalado pelo modo intenso e punk como o Michael Nyman fazia soar um quarteto de cordas. Afastei-me cada vez mais da ideia do quarteto básico de rock. Por volta do meio dos anos 90, tentei articular um pouco as duas coisas”).
Não é preciso lupa para confirmar que, se não surge, realmente, nada de surpreendentemente novo em Foreverland, os traços essenciais da música dos Divine Comedy mantêm-se intactos. A última meia década terá servido para apurar e decantar o estilo mas quem como o diminuto Hannon seria capaz de desenhar, em cinemascope, um auto-retrato em "Napoleon Complex" (“Who pulls the strings, who makes the deals, stands five foot three in Cuban heels?”), fazer transportar (em portentosa música e vídeo mock-Greenaway) o 1.60m para a corte de Catarina da Rússia e, em 3’12”, incluir aula de História e declaração de amor (com “Ekaterina Alexeyevna” como texto da "bridge") ou criar uma BSO de recorte exótico para potencial thriller em "Desperate Man#? Apenas o mesmo Neil Hannon que deixou "Other People" tal qual a gravara no telemóvel, num quarto de hotel, "a cappella", pronta a deixar-se raptar, em voo orquestral, para um céu de Hollywood.