Showing posts with label S. Martinho. Show all posts
Showing posts with label S. Martinho. Show all posts

11 November 2022

Só para recordar que, hoje, não deverá celebrar-se o "dia de S. Martinho" mas sim o Dia do Urso, superior divindade pagã
 

11 November 2007

DEFESA PAGÃ DO URSO POR RAZÕES DE CALENDÁRIO - COMO AQUI SE CONFIRMA E MELHOR SE ESCLARECE - INTEIRAMENTE JUSTIFICADAS (III)


(sequência daqui) "A ideia principal era a do encontro entre o homem de Deus e o rei dos animais, entre a ordem divina e a ordem natural e selvagem. Ideia que se descobre em todas as histórias pondo em contacto urso e santo, desde a época merovíngia até ao coração da Idade Média: o santo domina a fera; domina a sua violência, dá-lhe ordens, faz-se obedecer por ela, obriga-a a trabalhar, transforma-a em animal doméstico, quando não mesmo em autêntico companheiro; por vezes, converte-a à religião de Cristo. (...)

S. Martinho abandona a vida de cavalaria, de Simone Martini
(sec. XIV)

Na Gália, em diversas dioceses, os bispos, em vez de celebrar a festa do urso, propõem desde o século V a celebração de S. MARTINHO, enorme santo, por vezes qualificado de décimo-terceiro apóstolo, evangelizador dos campos, fundador de numerosas paróquias, futuro padroeiro da monarquia francesa. (...) Era necessário todo o prestígio de Martinho, dos seus milagres e da sua lenda para pôr fim a uma festa ursina particularmente resistente. Esta escolha foi especialmente pertinente porque o santo estabelecia diversas relações com o animal: (...) Martinho, de partida para Roma, obrigou um urso a carregar as bagagens de S. Maximino, substituindo o burro que a fera devorara; o nome "Martinus" associa-se a outras palavras que designam o urso em diversas línguas indo-europeias (a raiz "art-"), nomeadamente nas línguas célticas. (...) Esta lenda pode ajudar a compreender por que motivo, nas tradições medievais, muitos ursos receberam o nome "Martinho".

A Caridade de S. Martinho, de Jean Fouquet
(sec. XV)

(...) Progressivamente, o exemplo da Gália foi imitado em boa parte da Europa Ocidental: o 11 de Novembro, antiga festa celebrando a hibernação do urso, transformou-se praticamente em todo o lado no "dia de S. Martinho", data-chave do calendário hagiográfico, económico e popular. (...) Pouco a pouco, foi-se, assim, estruturando uma imensa rede de festas cristãs que recobriu na totalidade os antigos calendários romanos e bárbaros. Isto permitiu à igreja abafar - e quase erradicar - a maioria dos cultos prestados às divindades pagãs, às criaturas mitológicas, aos astros, às forças da natureza e, sobretudo, aos animais. Gradualmente, em cada diocese, em cada paróquia, uma festa decidida e consagrada pela igreja sobrepôs-se a uma antiga festa bárbara e acabou por a substituir". (L'Ours/Histoire d'un Roi Déchu - Michel Pastoureau, La Librairie du XXIème Siècle/Seuil, 2007)

(2007)
DEFESA PAGÃ DO URSO POR RAZÕES DE CALENDÁRIO
 - COMO, AGORA MESMO, SE COMPREENDERÁ - INTEIRAMENTE JUSTIFICADAS (II)


(sequência daqui) "Desde os primeiros séculos do cristianismo, diversos autores tinham classificado o urso entre os animais perniciosos e, retomando uma frase enigmática de Plínio, tinham visto nele uma criatura particularmente maligna. (...) Mas foi na viragem do século IV para o século V que foi dado o passo decisivo, e, como muitas vezes aconteceu, foi Santo Agostinho quem pronunciou a sentença decisiva, aquela em torno da qual se iria construir durante vários séculos toda a simbologia cristã acerca deste animal: "URSUS EST DIABOLUS!" (...) Pôr em cena homens de Deus mais fortes que os animais selvagens (...) e capazes de se fazer obedecer por eles ou de empregar de modo útil a sua força ou a sua astúcia natural, terá certamente contribuído para enfraquecer a devoção que era prestada a este animal por populações recente e superficialmente convertidas à religião cristã.

Em relação ao urso, porém, isso não era, de todo, suficiente e a igreja da Alta Idade Média teve de ir mais longe nas suas estratégias hagiográficas para eliminar os últimos santuários dos antigos cultos que lhe eram dedicados. Para o conseguir, desde o início, certos prelados tiveram a ideia de utilizar o calendário: nos diferentes momentos do ano em que se desenrolavam cerimónias e rituais pagãos relacionados com a admiração votada a esta fera invencível, foram planeadas festas dedicadas a grandes santos ou a santos mais locais e regionais mas tendo todos, de uma ou de outra forma, relação com o urso.

A este respeito, é exemplar o caso de S. MARTINHO, cuja festa principal, inicialmente em data flutuante, foi definitivamente fixada a 11 de Novembro, suposto dia da morte do santo arcebispo de Tours, em 397. Esta data não foi escolhida ao acaso. Com efeito, nesse dia, numa grande parte da Europa temperada, os camponeses festejavam o momento em que o urso sentia os primeiros frios do Inverno, regressava à toca e começava o seu longo período de hibernação. A data era, por outro lado, no mundo rural, a altura em que as actividades exteriores começavam progressivamente a cessar e em que cada camponês recolhia o gado e armazenava os cereais, antes de ele próprio se abrigar com a família. O comportamento do urso que partia para a hibernação, simbolizava este momento forte do calendário: a passagem do exterior para o interior, a passagem da vida para a morte. Essa a razão porque numerosos ritos e cerimónias associavam o urso às diferentes festas do Outono. Ritos pagãos, certamente ruidosos, violentos, transgressivos, por vezes perigosos e sexuais, feitos de danças, disfarces e mascaradas que só podiam aterrorizar os clérigos e os prelados".
 (segue para aqui)
 
(L'Ours/Histoire d'un Roi Déchu - Michel Pastoureau, La Librairie du XXIème Siècle/Seuil, 2007)

(2007)

10 November 2007

DEFESA PAGÃ DO URSO POR RAZÕES DE CALENDÁRIO - COMO, LOGO A SEGUIR, SE COMPREENDERÁ - INTEIRAMENTE JUSTIFICADAS (I)

"Carlos Magno foi o maior inimigo do urso que a Europa conheceu? O historiador tem o direito de o perguntar, tantos foram os massacres desta fera que tiveram lugar durante o seu reino. Na Germânia, tiveram mesmo um carácter sistemático: por duas vezes, em 773 e em 785, de cada vez após uma série de campanhas vitoriosas contra os Saxões. (...) A bem dizer, os inimigos dos ursos não são tanto Carlos Magno e as suas tropas mas sim os prelados e os clérigos que os rodeiam. Foram eles quem declarou guerra ao mais forte de todos os animais presentes no solo europeu e decidiu o seu extermínio, pelo menos em terras germânicas.

Para isso, existiu uma razão precisa: no fim do século VIII, em todo o Saxe e nas regiões circunvizinhas, o urso é muitas vezes venerado como um verdadeiro deus e é objecto de cultos que podem assumir formas frenéticas e demoníacas, nomeadamente entre os guerreiros. É absolutamente necessário erradicá-los para converter estes povos bárbaros à religião de Cristo. Tarefa difícil, quase impossível, uma vez que estes cultos não são nem recentes nem superficiais. (...) Mais forte que todos as outras feras, ele é o rei da floresta e de todos os animais. Os guerreiros procuram imitá-lo e investir-se da sua força no decurso de rituais particularmente selvagens. Os chefes e os reis, pelo seu lado, fazem dele o seu atributo preferido e tentam apropriar-se dos seus poderes através das armas e dos emblemas. No entanto, a veneração dos germânicos pelo urso não se fica por aí. Aos seus olhos, ele não é apenas um animal invencível nem a encarnação da força bruta: é também um ser à parte, uma criatura intermediária entre o mundo dos animais e o dos homens, e mesmo um antepassado ou um parente do homem. Assim, é rodeado de numerosas crenças e objecto de diversos tabus que têm a ver, nomeadamente com o seu nome.

Além disso, o urso macho tem fama de ser atraído por mulheres jovens e de as desejar carnalmente: frequentemente, procura-as, por vezes, rapta-as, viola-as e dá origem a seres semi-homens, semi-ursos que são sempre guerreiros indomáveis ou mesmo os fundadores de linhagens ilustres. (...) Aos olhos da igreja cristã, tudo isto é absolutamente aterrador. Especialmente, porque esta devoção pela grande fera não se limita unicamente ao mundo germânico. Observa-se igualmente entre os Eslavos e, em menor grau, entre os Celtas. (...) Com efeito, na época carolíngia, em grande parte da Europa não-mediterrânica, o urso aparece ainda como uma figura divina, um deus ancestral, cujo culto reveste diversos aspectos mas permanece solidamente enraízado e impede a conversão dos povos pagãos. Por todo o lado ou quase, dos Alpes ao Báltico, o urso perfila-se como rival de Cristo. Para a igreja, é indispensável declarar-lhe guerra, combatê-lo por todos os meios, fazê-lo descer do seu trono e dos seus altares". (seque para aqui)

(L'Ours/Histoire d'un Roi Déchu - Michel Pastoureau, La Librairie du XXIème Siècle/Seuil, 2007)

(2007)