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29 October 2025

Contributo para a lei da nacionalidade

 
“Vim ao mundo, por acaso, em Portugal, não tenho pátria, sou sozinho e sou da cama dos meus pais, sou donde vos apetecer, sou do mar e sou do corpo das mulheres estranguladas nos canais” ("Descansa A Cabeça", Sérgio Godinho)

02 December 2024

"Sem Deus Nem Senhor"

(sequência daqui) JL - Em que medida te apercebeste ainda do Zé Mário anterior que não gostava de fado e tinha mesmo um preconceito contra o fado? 

    C - Já não existia. Aliás, nessa altura, ele tinha já até escrito uns fados para o Carlos do Carmo. E o Sérgio Godinho, o Janita, também já tinham feito esse mesmo trajecto. O Zé Mário adorava fado tradicional. A nossa relação nunca foi política. Era fado. 

    JL - Como é que essa vossa colaboração se foi desenvolvendo? 

    C - Eu pegava, por exemplo, em poemas do David Mourão Ferreira ou do Fernando Pessoa e colocava-os nos fados tradicionais. Oferecia-lhe várias opções para ele poder escolher, em relação aquela poesia, qual o fado tradicional que lhe assentava melhor e conseguia transmitir o registo emocional daquele poema. Os fados tradicionais são imensos. Quando se canta um poema, é preciso que a música daquele fado o queira acolher. Ele criou uma sonoridade para o meu fado que tinha (e tem) muito a ver com tudo isto. Neste espectáculo de homenagem ao Zé Mário, estão os fados que ele escreveu para mim, fados inéditos que, hoje, são considerados fados tradicionais. Mais cinco músicas do reportório dele que nunca tinha cantado. 

    JL - Quando foi publicado o teu primeiro álbum (Uma Noite de Fados,1995), escrevi algo que se colaria para sempre à tua e à minha pele quando anunciei que a "nova Amália é um homem e chama-se Camané"... 

    C - (risos) Achei piada. Tinha a ver com o contexto da época, andava-se sempre à procura da nova Amália... Claro que ela teve uma enorme importância na minha vida e no que eu gosto de fazer. Por exemplo, na busca de poesias capazes de serem integradas no reportório do fado. Com a ajuda do Zé Mário e da Manuela de Freitas, também consegui ir por esse caminho. Havia muito quem dissesse que o Fernando Pessoa não era um poeta cantável. E eu cantei muitos fados com poemas dele sobre fados tradicionais - o "fado Rosita", o "fado Isabel", o "fado Alfacinha". Poetas e poemas que não eram normalmente utilizados no fado. Tem que se escolher muito bem e identificar o registo emocional de cada poema. (segue para aqui

01 April 2024

EXPLORAÇÃO DO(S) MUNDO(S)
Zeca Afonso, Sérgio Godinho, Fausto, José Mário Branco. Mas também Portishead, Björk, Laurie Anderson. E ainda os lendários novaiorquinos Silver Apples, a banda de Simeon Oliver Coxe III que empilhava 9 osciladores audio e comandava 86 controlos com as mãos, pés e cotovelos mas nunca aprendeu a tocar piano. Todos estes figuram no panteão privado de Ana Lua Caiano que não só aprendeu a tocar piano aos 6 anos como frequentou durante 4 anos a escola do Hot Clube de Portugal. E passou por workshops de música concreta e cursos de adufe. Ela fala disto tudo quando lhe digo que, num primeiro contacto, a música que se descobre nos seus dois EP (Cheguei Tarde a Ontem, 2022, e Se Dançar É Só Depois, 2023) e, agora, no primeiro álbum, Vou Ficar Neste Quadrado, faz pensar no que poderia ter sido a estética sonora de pele e osso de uns Young Marble Giants nascidos à beira do Tejo, umas décadas mais tarde. (daqui; segue para aqui)
 
"O Bicho Anda Por Aí"

09 February 2024

 
(sequência daqui) Se Gaiteiros de Lisboa, Deolinda ou Naifa "foram laboratórios muito importantes, chegámos aqui com a mochila bem carregada" para a construção do álbum, passo a passo, peça a peça, houve, inevitavelmente, que ajustar hábitos e métodos, procurando pontos de equilíbrio entre ditadura sanguinária e democracia radical. "Nos Gaiteiros mando eu, aqui, não mando nada. Limitei-me a entregar as minhas coisas que, depois, foram escolhidas por eles. Há uma confiança artística entre nós", confessa Carlos Guerreiro, detalhando a seguir os mistérios ocultos da composição: "Nos Gaiteiros, eu não faço canções. Na verdade, não sei o que é que faço. Tentei encarar aquilo como canções e não conseguia. De facto, são mais... exercícios sonoro-musicais do que propriamente canções. As únicas canções foram aquelas que o José Manuel David compôs sobre letras da Amélia Muge. É o que mais se assemelha a canções". E, recuando muito até ao lugar das origens, "Começámos por divinizar a música tradicional. O Michel Giacometti era um deus, era todo um universo, um manancial a descobrir, era a minha música. Ouvi aquilo tudo em pescadinha, sabia tudo de cor. Chegávamos a reproduzir as imperfeições da recolha. Foi um processo que acabou por atingir um impasse. Quando chegou a altura dos Gaiteiros, eu já tinha perdido o respeitinho pela música portuguesa mas, ao mesmo tempo, sentia-me mais rico porque aquilo tinha-se ido transformando dentro de mim. A consequência disso foi ter ganhado uma grande liberdade e ter começado a sentir a necessidade de criar sons. E isso passaram a ser os meus instrumentos. Depois de samplados, passei a tê-los num teclado". Se, algures no Big Bang que desencadeou todo este processo, se encontrava presente José Mário Branco tutelando a gestação dos Gaiteiros, é, agora, altura de escutar Sérgio Godinho que sobre os Cara de Espelho lança publicamenteo seu selo de aprovação: "Coloca-se a fasquia alta, sem medos de falhar, de ser apenas uma vírgula no tempo. E se for, não valerá ela por si mesma, pelo prazer comum de criar algo de perene num momento, de partilhar entre si e entre nós o simples prazer da música, o entusiasmo da música, a cadência, a inventividade, outra forma de energia? Como se cumpre então as expectativas? Precisamente cumprindo. Parece uma redundância, mas é apenas o pôr em prática de uma realidade moderna e já antiga. Ver a nossa cara particular no espelho comum. Missão desde logo bem executada, digo eu. E nisso estou de acordo comigo, como por certo muita gente estará".

01 February 2024

TRANSFUSÃO DE SANGUE

Título: Cara de Espelho; Personagens: Pedro da Silva Martins (autor e compositor dos Deolinda, mas também para António Zambujo), Carlos Guerreiro (Gaiteiros de Lisboa, José Afonso, Fausto, GAC), Nuno Prata (baixista dos Ornatos Violeta), Luís J. Martins (Deolinda, António Zambujo, Cristina Branco), Sérgio Nascimento (das bandas de Sérgio Godinho e David Fonseca, antes dos Peste & Sida, um dos membros dos Humanos) e Mitó (voz de A Naifa e Señoritas); Sinopse (feita, de um fôlego, por Carlos Guerreiro): "Um dia, ia a passar à porta dos correios da Av de Roma e encontrei o Sérgio Nascimento que já não via há algum tempo. Estivemos a falar e tal, e adeus. À noite, telefona-me e desafia-me para fazermos alguma coisa em conjunto. Uma daquelas conversas que se tem muitas vezes e depois não dão em nada. Não sei se foi ele que sugeriu que falássemos com o Pedro Martins (o Pedro é, como o Zeca Afonso chamava ao Vitorino, "uma vaca parideira"). A partir daí, a coisa fugiu-nos do controlo e ganhou vida pópria". Neste ponto, é indispensável esclarecer que, em causa, está um álbum - Cara de Espelho, também o nome adoptado pelo sexteto - capaz de, logo no primeiro mês do ano, actuar como poderosa transfusão de sangue destinada a fortalecer a assaz anémica música portuguesa dos últimos tempos. (daqui; segue para aqui)

"Dr. Coisinho" (ver também aqui, aqui e aqui)

22 October 2021

"Descansa a Cabeça"  

(sequência daqui) Em qualquer dos casos, porém, não era, então, habitual nem inócuo escutar canções em que se cantava “Vim ao mundo, por acaso, em Portugal, não tenho pátria, sou sozinho e sou da cama dos meus pais, sou donde vos apetecer, sou do mar e sou do corpo das mulheres estranguladas nos canais” ("Descansa A Cabeça", Sérgio Godinho) ou, inesperada e quase wildeanamente (“All art is quite useless”), se admitia a inconsequência dos propósitos: “Quanto a nós, nós cantores da palidez, nosso canto nunca fez filhos sãos a uma mulher, nem sequer passa o mel nos nossos ramos, pois a abelha que cantamos será mosca até morrer” ("Cantiga Para Pedir Dois Tostões", José Mário Branco). Quatro anos mais tarde, já integrado no GAC (Grupo de Acção Cultural – Vozes na Luta), um colectivo de “militantes, agitadores e propagandistas políticos”, José Mário – em pleno PREC, um cantor de muito menor “palidez” – ensaiaria uma actualização da antiga corrente dos "nacionalismos musicais", de Bela Bartok a Fernando Lopes Graça, e, no programa estético-político do grupo, para além de sublinhar a “riquíssima herança da arte popular espontânea”, reflectiria sobre "a unidade da política e da arte" e sobre o erro que consistia em identificar "o conceito de ‘conteúdo’ com o nível ‘literário’ da arte (seja o texto de uma canção, seja o texto de uma banda desenhada ou de uma peça de teatro), esquecendo que as artes plásticas têm também o seu próprio conteúdo", simétrico daquele outro equívoco que associa "o conceito de ‘forma’ com o suporte plástico de um discurso literário, esquecendo que a música, o desenho ou o jogo dramático são linguagens significantes por si mesmas, mesmo quando, aparentemente, servem ‘só’ de suporte a um discurso literário". Tudo tinha mudado para sempre.

19 October 2021

(Mudam-se Os Tempos, Mudam-se As Vontades - álbum integral aqui)
 
(sequência daqui) Numa noite de 1969, em Paris, José Afonso e José Mário Branco haviam-se conhecido quando este, que cantava numa associação popular dos arredores, teve notícia de que Afonso iria actuar no Foyer International des Étudiants, no Boulevard Saint Michel, e não quis perder a oportunidade de se encontrar com ele. Foi o instante zero: Zeca Afonso passaria a actuar como pombo-correio entre Branco e a editora Sassetti (que publicaria Mudam-se Os Tempos, Mudam-se As Vontades em Novembro de !971) e Zé Mário seria responsável pela produção de Cantigas do Maio (saído um mês depois). Ao mesmo tempo, este e Sérgio Godinho colaboravam nos álbuns um do outro e, pelo caminho, iam encontrando respostas para a questão “o que é uma canção e para a descoberta desse “objecto novo” e dessa “linguagem diferente”. Respostas inevitavelmente diferentes também. Embora tendo como pivot natural José Mário Branco (produtor dos três álbuns), se Godinho filigranava os textos e não escondia a francófila contaminação pela "chanson" em simultâneo com a respiração pop/rock/folk anglo-americana, Zé Mário, naquilo a que, mais tarde, chamaria “a luta de fundo contra os limites da forma da canção”, iniciava a ofensiva contra “os ‘clichés’, quase todos subprodutos da harmonia temperada de Bach” e atirava-se a um “conjunto de desafios criativos que partem sempre de uma referência ao mais antigo que há e que nos parece sempre moderníssimo, inventado ontem”. Por diversas vias, tudo isso se derramaria no disco de José Afonso, escancarando-lhe as portas para o período musicalmente mais rico da sua discografia. (segue para aqui)

15 October 2021

Cantigas do Maio (álbum integral)
 
(sequência daqui) Agora que se assinala meio século sobre o lançamento das três gravações que deslocaram decisivamente o centro de gravidade da música popular portuguesa – Mudam-se Os Tempos, Mudam-se As Vontades, Os Sobreviventes (estreias em álbum de José Mário Branco e Sérgio Godinho) e Cantigas do Maio, de José Afonso e produzido por Mário Branco – não é irrelevante recordar como, na atmosfera da época, esse abalo se produziu. Zeca Afonso era já uma figura decisiva no campo da oposição política e cultural – seria preso em Caxias por duas vezes – ao Estado Novo: tinha já gravado Baladas e Canções (1964), Cantares do Andarilho (1968), Contos Velhos Rumos Novos (1969) e Traz Outro Amigo Também (1970) mas não apenas continuava ainda demasiado preso às coordenadas estéticas das baladas de Coimbra – embora, a partir de Contos Velhos..., começasse a alargar o espectro da sua paleta sonora – como, por outro lado, ele que encarava a escrita enquanto “uma espécie de exorcismos ou evocações de vivências populares, com termos e vocábulos que já não existem e que me reportam a uma certa saudade de aspectos de uma vida comunitária que, agora, me ultrapassa (...), uma espécie de estado de semiconsciência em que as palavras vêm à superfície, desligadas de qualquer necessidade lógica”, ver-se-ia acusado dos gravíssimos desvios de “poetismo”, “hermetismo” e de “não compreender a função da música na vida das massas”. Ou, no outro lado da barricada, de excesso de “panfletarismo”. Era um momento em que, à canção popular, pouco mais se exigia do que ser o equivalente musical de uma palavra de ordem ou de uma pichagem, coisa que incomodava seriamente José Afonso (“A canção de protesto está a transformar-se num bem de consumo e num álibi de consciências”) e lhe alimentava o desejo de “matar definitivamente a choradeira das baladas”. (segue para aqui)

12 October 2021

O QUE É UMA CANÇÃO?


“Acho que é mesmo uma fruta do tempo. Coincidiram ali vários aspectos que talvez ajudem a perceber porque comecei por ir por aí... o Zeca Afonso, o movimento dos ‘baladeiros’... tínhamos discussões de caixão à cova entre nós por causa daquela prótese criativa que existia na altura e que era pegar nos livros dos poetas e fazer canções. O debate – que chegou a levar a cortes de relações – era sobre o que é uma canção. Uma canção não é uma poesia servir de auto-colante para uma música qualquer, é um objecto novo, uma linguagem diferente. É filha, mesmo no sentido genético, da música e da palavra. Não há hipótese de fugir a isso e eu insurgia-me contra essa mania dos livros de poemas (ainda por cima, coisas neo-realistas), e fazer canções a metro com dois, três acordes, primeira-segunda-e-marcha-atrás, uma melodização extremamente pobre e, frequentemente, contraditória com o sentido das palavras. Nem a música nem a poesia precisam de muletas para nada. São duas artes importantíssimas que existem por si. Depois, acontecem esses encontros e isso já é outra coisa. Desde a minha adolescência, existia uma ligação quase tão importante, da minha parte, à música como à poesia. À música enquanto música e à poesia enquanto poesia“, foi a resposta de José Mário Branco – na sua última entrevista ao “Expresso”, há três anos, por ocasião da públicação dos Inéditos 1967–1969 –, a uma pergunta sobre se o seu EP Seis Cantigas de Amigo (1969) tinha algo a ver, nesse tempo, com uma ideia de identidade ou de procura de uma raiz. (daqui; segue para aqui)

"Leda M'and'eu"

10 August 2020

FÁBULAS DO INFERNO

  
Há 11 anos, por altura da publicação de Um Fim de Semana no Pónei Dourado, evocando, muito provavelmente, o camiliano anjo caído, Calisto Elói de Silos e Benevides de Barbuda, nascido na aldeia de Caçarelhos, B Fachada dizia: “Se eu vivesse em Caçarelhos, não era autor e cantava o Romanceiro. Na cidade, tenho esta pressão ocidental, estúpida, para ser original e para criar”. Uma dúzia de EP e álbuns depois, supõe-se que – embora com pausas, por vezes, prolongadas – até não se tenha dado demasiado mal com a “pressão ocidental”. Dir-se-ia mesmo que os esquemas mentais com que triangulava a matéria prima (“Eu divido a música em três: a erudita, a tradicional e a pop. A erudita e a tradicional são artes e a pop é artesanato. A erudita e a pop têm autores individuais e a tradicional tem um autor colectivo. Estou no meio deste triângulo a ser puxado para um lado e para o outro”) deixaram de ser tão inflexíveis: aquele que, então, se via como “o pagão da FlorCaveira”o meteórico conglomerado de gentes que, no início do novo século, por insondáveis designos teológicos e sob o alto patrocínio do papa antipapista, Tiago Guillul, se reuniu para, agarrar pelas tripas a música portuguesa –, sempre abençoado pelos santos tutelares Fausto, Afonso e Godinho, parece ter descoberto o lugar geométrico onde os três eixos se confundem e geram outros sentidos.



Rapazes e Raposas, o sucessor de B Fachada (2014), prossegue o minucioso estudo antroposanfoneiro dos espécimes que povoam o pedaço, observados a partir de Mértola, de Março a Maio de 2020 DC (“Durante o Confinamento”). E, por entre chulas-punk, enlevos pastoris e teclados de feira, desfilam profetas apocalípticos (“A cada mais cem anos que hão de vir, hão de vir mais maldades e agonia, hão de vir mais injustiças e azar, nunca vão faltar o desgosto e abandono”), proclamam-se manifestos anti-tudo (“Sou anti-Freud, sou anti-Marx, não há truque semiótico, eu sou anti-patriótico, faço o direito em cepa torta, sou anti-basta e anti-corta”), glosa-se a “horrorosa Natureza pseudo-mãe” (“A noite é negra, o vento só ajuda os predadores à matança, à luz das estrelas piam todas as corujas, às escuras dormem as crianças”) e, mesmo “sem a graça do Camilo, sem as barbas do Antero” e com engarrafamentos silábicos (“A baleia ainda tem duvidas quanto ao sobrenatural, mas nunca foi mais indiferente às questões de identidade nacional”), o cenário destas fábulas não é de deixar ninguém descansado: “o Inferno está tão cheio que até o Diabo se mudou”.

30 January 2018

SOLIDÃO PARTILHADA

  
Os dois primeiros versos de “A Portuguesa” estão praticamente esgotados enquanto matéria para reciclagem: depois dos Heróis do Mar (banda) e, agora, deste Nação Valente, de Sérgio Godinho, resta só o “nobre povo” – misturar povo e nobreza é capaz de não ser a melhor ideia – e o muito duvidoso “imortal”. Seja como for, o Godinho que, em Tinta Permanente (1993), cantava “Os hinos são frutos perversos crescendo no ramo dos versos, roubando o vento e a luz à folha, os hinos cegam quem os olha”, na canção-título, não resistiu a apropriar-se da gabarolice lusitana que, inevitavelmente (qual a nação que não se acha valente?), se reflecte no texto de Henrique Lopes de Mendonça, para, ainda que com um travo irónico de alívio pós-troika (“Não quero por-te numa gaiola, de mão estendida por esmola, não quero ter-te acorrentada, sofrendo por tudo e por nada”) e um balanço muito pouco marcial, apelar: “Há-de haver outra solução para esta tão valente nação, há que ir em frente, nação valente”


Não é a única coisa de que Sérgio se apropria no álbum que, com sete anos de intervalo, é o sucessor de Mútuo Consentimento. Na verdade, num total de dez canções, apodera-se das melodias de seis autores desafiados a compor para ele – David Fonseca, Helder Gonçalves (duas), José Mário Branco, Nuno Rafael, Filipe Raposo e Pedro da Silva Martins –, inventa-lhes outros tantos textos, e, muito pouco cerimoniosamente, chama-lhes completamente suas. O método, embora em registos e modalidades diferentes, não é novo: em Coincidências (1983) colaborara com Milton Nascimento, Ivan Lins, João Bosco, Novelli e Chico Buarque; Domingo no Mundo (1997) contara com as participações e arranjos de Kalu (Xutos & Pontapés), Carlos Guerreiro (Gaiteiros de Lisboa), Manuel Faria, Tito Paris, José Mário Branco, Tomás Pimentel, Rádio Macau, Jorge Constante Pereira e Joáo Aguardela; O Irmão do Meio (2003) convocara Teresa Salgueiro, Clã, Tito Paris, Caetano Veloso, Jorge Palma, Da Weasel, Gabriel o Pensador, Xutos & Pontapés, Rui Veloso, Vitorino, Zeca Baleiro, David Fonseca, Carlos do Carmo, Camané, Milton Nacimento, Gaiteiros de Lisboa e José Mário Branco; e, em 2012, entregou a revisão do álbum de estreia, Os Sobreviventes, a B Fachada, Francisca Cortesão (Minta & The Brook Trout) e João Correia (Julie & The Carjackers)


Será apenas mais outro “exercício de solidão partilhada”. Mas, excluindo eventualmente O Irmão do Meio, talvez essa partilha nunca tenha sido tão quimicamente intensa, ao ponto de se tornar quase impossível identificar os autores por trás das melodias. Um caso exemplar e uma excepção: "Delicado", de Márcia (a única em que letra e melodia não são assinadas por Sérgio), é, provavelmente, a mais godinhiana das dez; se, nas restantes, Sérgio Godinho, literalmente, canibaliza os seus convidados, em "Mariana Pais, 21 Anos" – mais que perfeito arranjo de cordas, tudo menos óbvio - , é José Mário Branco quem se apossa do corpo, espírito e voz de Godinho, para só o libertar após a cadência final. E não deixa de ser um pequeno prazer adicional escutar Sérgio em modo pop-folqueiro na (exclusivamente sua) "Baralho de Cartas", piscando o olho aos Rolling Stones em "Até Já, Até Já", ou cruzarmo-nos com o "Velho Samurai" reinventando "When I’m Sixty Four", dos Beatles, em "Tipo Contrafacção".

02 December 2014

ANTES DE ABRIL: O INVENTÁRIO 


Com a pontualidade de um relógio suíço, todos os anos, entre o 25 de Abril e o 1º de Maio, somos obrigados a fazer a revisão da matéria que vai (pelo menos) dos últimos estertores do Estado Novo ao parto de risco da recém-democracia. Não se tratando do antropologicamente céptico relógio de cuco de Orson Welles em O Terceiro Homem, televisões, rádios e jornais contam-nos a história da heróica cavalgada antifascista e, na banda sonora, pelo meio de “Grândolas” e Zip Zips, acreditamos ficar a conhecer tudo sobre o que foi a música mais ou menos politicamente empenhada desses tempos. Mas já ouviram falar de António Pedro Braga, companheiro de Fausto e intérprete de Pete Seeger e da poesia de Reinaldo Ferreira? De Daniel, discípulo de Dylan, Phil Ochs e Joan Baez com um fetiche por Marc Bolan? Da irmã Maria do Céu, freira do Sagrado Coração de Maria e alegada Nico portuguesa, elemento, aliás, de um ignoto destacamento de várias outras canoras esposas do Altíssimo? Não é provável. Mas foi, justamente, para ocupar esse lugar vago no conhecimento da história da música popular portuguesa que João Carlos Callixto publicou Canta, Amigo, Canta – Nova Canção Portuguesa (1960-1974), inventário quase exaustivo da música em transformação desse período.

Qual foi o ponto de partida para a concepção deste livro? 
Essencialmente, parte de uma grande paixão pela música portuguesa em geral e, particularmente, pela deste período: a canção de protesto, os cantautores, alguns grupos folk e a nova canção ligeira a partir de finais dos anos 60, com a geração que vinha dos grupos de rock, como o Fernando Tordo, o Paulo de Carvalho ou o Carlos Mendes. Uma geração que, de certo modo, lançou as pedras para o que viria a seguir ao 25 de Abril. Como referência, houve dois autores, para mim, essenciais: o Mário Correia, com Música Popular Portuguesa – Um Ponto de Partida e o José Viale Moutinho, com A Memória do Canto Livre Em Portugal. São referidos no livro 330 discos a que tive acesso em feiras, através de coleccionadores, revistas, lojas de segunda mão, Internet... Como, infelizmente, ainda não há um arquivo de som em Portugal, é impossível fazer-se como na Biblioteca Nacional, para consultar a obra de um conjunto de autores ou de um movimento. A grande maioria do acervo comercial está conservada no arquivo da RDP.


A pesquisa e a recolha de material foram orientadas ou, à medida que ia avançando, ia tropeçando em pistas novas e inesperadas? 
Foi um trabalho cruzado. Posso dizer que o ponto de partida foram os dois autores que citei. Desde finais dos anos 90, comecei a construir uma base de dados para conseguir ter alguma ideia do que saiu e em que data. Depois, o facto de ter colaborado com a professora Salwa Castelo Branco na Enciclopédia da Música em Portugal, em 2002/2003, permitiu-me reunir muitos elementos sobre a música editada dos anos 50 para a frente. Consultei publicações como “O Mundo da Canção”, a “Flama”, até a “Plateia” que, apesar de ser mais comercial, continha muita informação que deveria ser encarada com um olhar crítico. Tentámos conferir ao máximo as fontes, falar com os músicos e editores embora, muitas vezes, eles também não tivessem a noção exacta dos anos em que tinham saído os discos. A datação foi, por isso, um trabalho difícil. 

Porque circunscreveu o trabalho a este período de 15 anos? 
1960 foi o ano de lançamento do primeiro vinil do José Afonso, o EP A Balada do Outono (deixei de fora dois discos de 78 rotações anteriores) que é um disco que, de certo modo, procura já transformar a canção de Coimbra a partir de dentro e também um primeiro passo para a renovação da canção portuguesa. O final em 74 decorre, obviamente, do 25 de Abril. Tinha de o fechar de alguma maneira; mesmo assim, o livro ficou com 240 páginas, com 103 cantores e grupos e 330 discos. Depois porque, eventualmente, gostaria de fazer uma continuação deste livro que fosse desde 74 até... ainda não me decidi... talvez até à entrada de Portugal na CEE ou até à queda do Muro de Berlim... porque há alguns nomes que aqui figuram que prosseguiram carreiras até aos dias de hoje, como o Sérgio Godinho, o Fausto ou o José Mário Branco. 


Há um fenómeno peculiar em que nunca tinha antes reparado: as freiras cantoras... 
É engraçado porque já o Mário Correia as incluía. A irmã Maria Humberta cantava “O Menino do Bairro da Lata”... na sequência da abertura do concílio Vaticano II, houve elementos ligados à igreja que também intervieram através da canção. Uma outra freira, a irmã Maria do Céu, gravou um primeiro disco só acompanhada à guitarra. Em 65/66, foi fazer uma licenciatura a Paris e gravou um segundo disco com gente do rock e o José Cid a produzir. Há tempos, estava a ouvir uma das faixas desse disco e um amigo meu dizia-me que lhe parecia a Nico produzida pelo John Cale, uma espécie de Marble Index português em miniatura. 

Há uma presença considerável de nomes que, mesmo a maioria das pessoas que se interessam pela música portuguesa, deverão desconhecer em absoluto... 
Muitos deles também só ao ouvir o disco ou ao ler o artigo é que os descobri. Há personagens curiosas como o Carlos Bastos que gravou o "Hey Jude", dos Beatles, com o António Chaínho a tocar guitarra portuguesa. 


Durante a organização do livro, houve alguma surpresa especialmente forte, do género “mas de onde é que isto saiu que eu nunca tinha ouvido”?
Antes de responder directamente a isso, há uma surpresa que é a pessoa e a obra do Luís Cília. Claro que já o conhecia mas não tinha a noção exacta da incrível quantidade de discos que gravou, tanto antes como depois de 74. É inexplicável o desconhecimento da obra dele, hoje em dia. Como é possível que alguém que gravou tanto e que, musicalmente, evoluiu como ele evoluiu, actualmente, apenas tenha no mercado uma colectânea que saiu em França que junta os três discos da Poesia Portuguesa de Hoje e de Sempre? O Deniz Cintra foi uma surpresa. São apenas três discos mas é curioso como alguém ligado ao meio académico, como vários outros nomes, grava, tão novo ainda com nomes do rock como o Filipe Mendes, dos Chinchilas. Outro foi o Daniel, um tipo que gravou cinco discos e, tendo participado num Festival da Canção, dizia que queria usar uma capa como o Marc Bolan, dos Tyrannosaurus Rex, ainda não T. Rex.

Concluído o livro, ficou com a ideia de ter conseguido reunir todo o material desta época ou tem a sensação de ainda lhe terem escapado alguns discos e autores? 
Tive a intenção de ser o mais inclusivo possível. Suponho que inventariei mais de 95% do que existiu neste âmbito. Mas isto é sempre um trabalho em construção. Não incluí, por exemplo, a actriz Elisa Lisboa que era quem tinha sido originalmente escolhida para cantar a ‘Desfolhada’ no Festival da Canção de 1969 mas que, devido a ter uma estreia de uma peça, teve de desistir duas semanas antes. Ela gravou um EP com uma música, ‘Mulher Mágoa’ que, depois, a Mísia gravaria também e mais duas canções em francês. Só gravaria mais um single, em 1975, com o Quarteto 1111, com um poema do José Régio. Deveria tê-la incluído? Não sei. Mas não me parece que tenha ficado muita coisa importante de fora. 

05 September 2014

Hoje é o dia nacional dos Godinhos (Sérgio excluído): este "é PS e pró-Costa convicto, mas vota Cavaco e gostava de ver Marcelo Rebelo de Sousa na Presidência", ex-administrador não executivo do BES-mau, e durante "seis anos, entrava mudo e saía calado" - Portugal numa casca de noz (XV)

01 May 2014

A TRANSPARÊNCIA DAS FORMIGAS 


Gravado em Londres no final de 1974 mas só publicado em 1975, Coro dos Tribunais foi o primeiro álbum de José Afonso surgido após o 25 de Abril. A última estrofe da canção-título era profética – “Se o criminoso se escondeu, nada de novo aconteceu, a recompensa ao punho que matou, uma fortuna a quem roubou, guarda o teu roubo guarda-o bem, dentro de um papel a lei” – mas, para o que, agora, importa, foi ao tema que o encerra, "A Presença das Formigas", que um grupo de gente dada às músicas tradicionais e muito mais coisas à volta pediu de empréstimo o nome. Assenta-lhes bem não só pela declaração de princípios final do texto (“Liberdade, liberdade, quem disse que era mentira, quero-te mais do que à morte, quero-te mais do que à vida”) como pela surreal passagem secreta que a ela conduz: “A presença das formigas nesta oficina caseira, a regra de três composta às tantas da madrugada, Maria que eu tanto prezo e por modéstia me ama, a longa noite de insónia, às voltas na mesma cama.”.



Porque, logo desde o óptimo disco de estreia, Ciclorama (2011), a matriz da música do grupo era também um pouco essa via de entrada e saída constantes de lugares reconhecíveis para outros menos prováveis, algures entre raízes aprumadas locais e rizomas transnacionais, duas ou três vénias aos cantautores clássicos e várias outras a gente menos facilmente detectável, dos Gaiteiros aos Gentle Giant e Jethro Tull. Pé de Vento, por acaso ou não, editado no 40º aniversário do momento – mais mês, menos mês – em que "A Presença das Formigas", possivelmente, estaria a ser escrita, mantém a banda no mesmo perímetro estético mas, de modo algo inesperado, parece aproximá-la mais das suas fontes do que antes: a circulação das correntes atmosféricas entre Europa do Oeste e Mediterrâneo permanece intensa, os vestígios da proximidade do Norte de África são residuais mas não irrelevantes e o fado não desapareceu do radar. Porém, à transparência, com muito maior nitidez do que em Ciclorama, aparecem claramente recortadas as figuras de Sérgio Godinho e Fausto Bordalo Dias (particularmente este, também produtor do álbum de Afonso) ou, sejamos justos, Fausto Godinho e Sérgio Bordalo Dias. É bonito e correcto saudar os mestres mas, à primeira tentativa, a homenagem era desejavelmente mais implícita.