Indo direito ao assunto e para acabar de vez com as indefinições: o que pode um agnóstico/ateu (ou, noutro plano algo diferente, um católico vulgar de Lineu) retirar do “panque roque” criado e gravado por um pastor evangélico baptista que não só não esconde a sua condição como a expõe abertamente nas canções? Tiago Guillul digere mal este tipo de generalização mas, ainda assim, é indispensável dizer que o que ele e restante trupe FlorCaveira – que nem sequer é, confessionalmente, homogénea – produzem não possui o mínimo ponto de contacto estético com aquilo que é, habitualmente, conhecido como “rock cristão” ou com o kit-pronto-a-usar do pseudo-gospel de IURDs, Manás e afins.
A minha (só minha) resposta exige um prévio "disclaimer": na escala-Richard Dawkins (de 1 a 7) de “probabilidade teísta”, situo-me, tal como Dawkins, no 6-a-escorregar-para-o-7, isto é, ateu de facto – “não posso ter a certeza absoluta mas acho Deus muito improvável e vivo assumindo que não existe”. Arrumada a questão, há que reconhecer que, como bom protestante exegeta da Bíblia – essa fantástica compilação de histórias de violência, ódio, paixão, vingança, mistério, acção, fantasia, aventura, ficção científica e pornografia –, Tiago dá-lhe muito melhor uso do que qualquer Saramago comum.
E se, aqui e ali, o pé lhe foge demais para a homilia ("Nem Um Só Cabelo Será Perdido") ou se agarra a metáforas um tanto herméticas ("Roma E Avinhão"), com tão boa matéria-prima seria difícil falhar. E ele não falha: o caldo de cultura poderá ser oitentista mas há também suficiente África, ferrugem e impurezas várias surripiadas, para dar origem a óptimas canções – e escutá-las desprovido de fé só lhes acrescenta um picante suplementar – prontas a receber o testemunho da melhor época dos GNR (Reininho assina o ponto), Pop Dell’Arte e Variações e oferecer-lhe uma sequência inteiramente à altura.
(2010)
27 December 2009
DEPOIS DA CORRIDA AO OURO
B Fachada - B Fachada
Samuel Úria - Nem Lhe Tocava
Um ano depois de o petardo mediático FlorCaveira/Amor Fúria rebentar, ter-se-à tudo esfumado como acontece, regularmente, com as modas sazonais, ou haverá estilhaços valiosos para recolher? Quando, por essa altura, Tiago Guillul declarava “Há um sentido de desgosto, de não identificação com a maior parte das coisas que a geração à minha volta está a fazer. Quando ninguém nos ouvia, tínhamos a profunda consciência de que éramos pessoas que ninguém ouvia. É preciso que alguém se sinta, às vezes, enojado para conseguir fazer alguma coisa. Há pessoas que não gostam de nós e não gostam por boas razões: 'Estes gajos têm a mania que são espertos!' E, nesse sentido, temos, de facto, a mania que somos espertos em relação ao resto, aquilo embaraça-nos”, estava apenas a tirar partido dos megafones que lhe eram colocados à frente ou, durante os doze meses seguintes, justificou – por obras, além de palavras – aquilo que afirmava?
Dos manifestos da Amor Fúria (“Surge um exército de rapazes e raparigas de caras e almas pintadas, pronto a transformar as emoções colectivas num momento partilhável pelas multidões. Apresentam cantigas, planeiam o fim deste mundo e o início de um novo tempo onde as canções substituam as janelas fechadas dos automóveis, as conversas dentro dos edifícios, as filas de espera para os autocarros, os desesperos solitários”), emergiram, de facto, destacamentos poéticos armados, de carne e osso? Será que o que Samuel Úria escreveu acerca de B Fachada (“Alguém que se julga um povo não pode estar bom da cabeça. Eu não sei o que é que o B Fachada se julga, mas lá que se etnografa a si próprio, etnografa. Giacomette-se consigo mesmo, não pode estar bom da cabeça. Graças a Deus”) teve consequências práticas? O que o próprio Úria confessou sobre si mesmo (“já nasci depois do PREC, tarde demais para proto-punk, branco demais para ser do rap") eram só "soundbytes" rimados ou confirmou-se?
Nada como fazer o balanço: um belíssimo devaneio estival de João Coração (Muda Que Muda); vários EP, compilações e elucubrações artesanais a ensaiar sementeiras diversas; duas ou três estreias com índices de acerto no alvo variáveis (Pontos Negros, Smix Smox Smux, Os Golpes); uma colecção de polaróides de figurões urbano-rurais de B Fachada (Um Fim-de-Semana no Pónei Dourado); um EP de “seis canções que rockam-popam-dançam em cima do tempo” (Meio Disco, de Os Quais); e uma longa pausa de Tiago Guillul que, ainda assim, não o impediu de, aqui e ali, ir opinando com imponderável sabedoria (exemplo: “Sempre os mesmos acordes. Sempre os mesmos xilofones sentimentais. Sempre as mesmas capas péssimas em subtis variações de auto complacência. Sempre os mesmos optimismos insufláveis ianques. Sempre as mesmas queixinhas de classe média. Sempre a mesma coisa. Bruce Springsteen não sabe fazer maus discos"). Chega, agora, o momento em que os piores receios de Guillul (“Irrita-me muito pensar ‘será que isto é o próximo passo, este grau de respeitabilidade crítica em que as pessoas andam todas a dar palmadinhas nas costas umas às outras?...’ O nosso rastilho é um certo prazer em fazer inimigos”) se irão concretizar: Nem Lhe Tocava, de Samuel Úria, e B Fachada (apesar de publicado pela Mbari e já não pela incubadora FlorCaveira), irão fazer muitos amigos e a respeitabilidade crítica está a bater-lhes à porta.
Por mui óptimas razões, aliás: se, nem um nem outro perderam aquela faceta de artesãos que preferem lidar com materiais recolhidos no quintal das traseiras ou em que tropeçaram, acidentalmente, numa investida pelo sótão, tudo atingiu já, um grau mínimo de perfeição de acabamentos que, sem tresandar a produto industrial, também não é, decididamente, apenas coisa de amador jeitoso. Fachada é o diletante que respiga na tradição e a evapora ("Responso Para Maridos Transviados"), quase incorpora o espírito do primeiro Kevin Ayers ("Tempo Para Cantar"), joga ao toca-e-foge com o ié-ié tal como Rui Reininho, em dia de folga, o pratica ("Estar à Espera Ou Procurar"), gainsbourgiza-se levianamente ("Setembro" e "A Bela Helena"), pisca o olho a Vitorino, Cesariny e (no grafismo da capa) aos Trovante e, de tudo isso, constrói uma personagem inteiramente singular de quem não esperamos senão que debite aforismos como “É bom ter má fama, dá para ter vazia a cama, e nesta solidão de Kant, é bom ter de fundo o que anda nas bocas do mundo” e mais uma mão cheia de outros de igual quilate.
Nem Lhe Tocava é um sinuoso, virtuoso e vertiginoso exercício de mimetismo em que, sobre uma camaleónica pele inconfundivelmente lusa, se projectam as sombras do tango, do blues, de Elvis Presley, Johnny Cash, caricaturas de Prince e daquele género de soul gingada nos arraiais de Verão, revisteirices de coreto, sobras da mesa do rock português de 80, e por tão repetidas e rápidas sobreimpressões, transpira nacos de língua em estado de graça nos quais, Úria se confessa (“Pôr sal nas minhas feridas e acordes nos meus brados, derramar mel nas saudades, verter choros sincopados”), se desenha (“Eu nunca fui do prog-rock, sou neo-retro-redneck, nasci num antro só de Enters, já nem sei carregar num Rec”) e, no ultra-waitsiano "Batuta e Batota", abre completa e magnificamente o jogo: “Ou em berço de ouro, ou em disco de prata, brotei já artista ou fiz-me pirata? Um Messias pop, freewheelin com dono, se me biografo ou revisiono”.
(2009)
18 December 2008
POESIA DE INSPIRAÇÃO CRISTÃ (II)
Vídeo Maria (Rui Reininho/GNR)Tarde de chuva, a península inteira a chorar Entro numa igreja fria como um círio cintilante Sentada, imóvel, fumando em frente ao altar Silhueta, esboço, a esfinge de um anjo fumegante
Há em mim um profano desejo a crescer Sinto a língua morta e o latim vai mudar Os santos do altar devem tentar compreender O que ela faz aqui fumando Estará a meditar?
Ai, ui, atirem-me água benta Ajoelho-me, benzo-me, arrependo-me, esconjuro-a Atirem-me água fria Por ela assalto a caixa de esmolas Atirem-me água benta Com ela eu desço ao inferno de Dante Atirem-me água fria
Ai, ui, atirem-me água benta Por parecer latina calculo que o nome dela É Maria É casta, eu sei, se é virgem ou não depende Da nossa fantasia
Por parecer latina suponho que o nome dela É Maria É casta, eu sei, se é virgem ou não depende Da nossa fantasia