Os Mirones
O dia entra na noite. A noite entra no dia. E os relógios observam isto, excitados e silenciosos, como os velhos mirones atrás das dunas.
Amor Platónico
Para passar o tempo, Platão decidiu divertir-se à custa da sensibilidade de certos poetas. Pois bem, o que fez Platão? Inventou o amor platónico. Depois, aborrecido com a própria invenção, saiu de casa e foi às putas.
Maçã
Um homem decide plantar-se no meio dos campos, à espera de dar fruto.
Durante muito tempo nada acontece.
(Tempo durante o qual nada acontece)
Um dia, uma prodigiosa laranja irrompe de um dos lados da cabeça. O homem dá a laranja a comer a um crítico de laranjas. O crítico explica ao homem que aquele fruto não é uma laranja mas um pêssego e que, infelizmente, ele é alérgico a pêssegos. O homem repara então que a laranja, na verdade, não passa de um limão. E ele não gosta de limões. Decide acabar com aquilo. Desfaz em pedaços a maçã prodigiosa que tinha nascido da sua cabeça. E desta vez tudo se torna claro a seus olhos. E levantando a voz diz: "Então era isso!"
Jogo
Didius Kysarcius nunca tinha jogado na vida. Aos sessenta e tal anos, descobriu o prazer dos jogos verbais. As coisas começam muitas vezes assim. Tornou-se um jogador compulsivo. Em pouco tempo, esbanjou todos os seus recursos em apostas infelizes. Perdeu tudo. Morreu abraçado a um advérbio de modo. O último que lhe restava. (Rui Manuel Amaral, Caravana, ed. Angelus Novus)
(2009)