(sequência daqui) Isto passava-se há 12 anos, quando Chapter 1, o seu álbum de estreia acabava de ser publicado. Seguir-se-ia Cocoon (2017) e, nessa altura, já a sua música, por ângulos vários, havia sido associada às de Björk, Joni Mitchell, Sufjan Stevens, Julia Holter e My Brightest Diamond. Agora, com Come Swim, não esquecendo essa genealogia estética, deveria acrescentar-se Virginia Astley à linhagem, bem como Kate Stables (This Is The Kit) e Rozi Plain, ambas participantes deste álbum, espécie de cinemática aguarela subaquática, feita de violinos, clarinetes, flautas, harpas, sintetizadores e "drum loops", crescendos e transparências.
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02 March 2024
23 July 2019
O litopédio é um fenómeno raro que ocorre quando, durante uma gravidez ectópica, o feto morre mas – sendo demasiado volumoso para ser reabsorvido –, em consequência de uma reacção de corpo estranho, calcifica. Evita o risco de infecção mas pode não ser diagnosticado durante décadas. Pelo menos, tão improvável e imprevisível é Jesca Hoop ter escolhido para título do quinto álbum a designação popular que lhe é atribuída, Stonechild, que, como um espectro, paira sobre as 11 canções e assombra de ângulos vários a própria ideia de maternidade. “Uma 'stonechild' é algo que carregamos connosco. Um segredo. Um fardo. Em cada canção, alivio-me de um peso”, explicou Hoop ao “Discussions Magazine”. E, após declarar que vive “obcecada com o poder da religião”, anuncia desejar “participar activamente na dissoluçao do regime patriarcal”. Uma a uma, é precisamente para esses alvos que cada peça de Stonechild aponta.
Logo a começar por "Free of the Feeling” (“When the ringing bell falls deaf, we go look for dark, where no flag is waving red, we look for dark, past the grave and Vicar's House, people packed in bars, all the chaste and junkies raising hands to God”), litania folk coral reclinada sobre "drone" electrónico. Aí mesmo, as regras do jogo ficam estabelecidas: tudo decorrerá da acentuação do processo de despojamento sonoro iniciado em Memories Are Now (2017), agora comandado pelo ubíquo John Parish – “Foi um colaborador gentil até ao momento em que em que assassinou uma das minhas bem amadas canções. Nunca tinha sido tão brutalmente editada. Não medi as palavras para lhe dizer o que sentia. Respondeu-me: ‘Vais acabar por perdoar-me’. E, de facto, acabei por gostar daquele tratamento que me reduziu ao essencial” – e apoiado nas participações polifónicas de Kate Stables (This is The Kit), Rozi Plain, Jess Wolfe e Holly Laessig (Lucius). É, então, em estado de quase nudez vocal que oferece a horrenda candura maternal de "Old Fear of Father" (“I love my boys more than I love my girl, try not to show it, she knows like I knew, don't look to me to hold you, I shape and mould you so you can get the ring while you're still pretty”), a "lullabye" sem esperança "01" ("I can show you love that's fair, oh, a life that is bearable, so I'll show you how to win Solitaire”), ou a perplexidade infinita de "Shoulder Charge" (“I came out of this world, not into this world, nothing knows a finishing, where nothing begins”). E nem uma partícula precisaria ser-lhe acrescentada.
28 September 2017
06 September 2017
This Is The Kit - "By My Demon Eye"
"'By My Demon Eye' draws on an album by the ethnomusicologist Hugh Tracey who collected African songs and stories through the 1950s" ("Mojo")
16 August 2017
SEM MEDO
De Winchester para Bristol, de Bristol para Paris, o ponto de chegada na trajectória de Kate Stables, aka This Is The Kit, não se limitou a enriquecer-lhe o sentido de humor linguístico – a constatação de que, em França, será sempre irremediavelmente conhecida como Zis Iz Za Kit – mas fê-la igualmente despertar para o mundo à volta, de modo muito mais atento que na plácida Inglaterra: “Sinto que é altura de não ter receio de falar de política em nome da boa educação ou por medo de ofender alguém. Temos de dizer abertamente o que pensamos do mundo, não podemos entregar-nos nas mãos de políticos e milionários que têm feito um trabalho miserável. Uma das coisas, intrinsecamente francesas, que aprendi aqui foi que, se alguma coisa não está bem, sai-se logo para a rua em protesto. Num instante, a Place de La République enche-se de milhares de pessoas manifestando o seu descontentamento”.
É bem capaz de ser disso que ela fala em "Bullet Proof" (“To be patient and awake, there are things to learn here, Kate“), a primeira faixa de Moonshine Freeze, distintíssimo sucessor do óptimo Bashed Out (2015). E que, em "Easy On The Thieves" aplica (“People want blood, and blood is what they've got; suckers feeding, you could feel them wheedling, once you had some space, now you've got panicking, that's just how they work, exactly how they win, first they dope you up, and then they dope you in”), justificando: “Não somos nós quem rouba nem somos os corruptos mas, se fingirmos que nada vemos, seremos também responsáveis. E não esqueçamos o venenoso papel dos media que nos intoxicam e manipulam com notícias falsas”. É, então, Moonshine Freeze o álbum “de protesto” de Kate Stables? Não afunilemos a escuta: se pode dizer-se que “Everything we broke today, needed breaking, anyway” é, eventualmente, generalizável, não haveria perdão para quem não prestasse toda a atenção à infinita riqueza de pormenores urdida pela produção de John Parish (depois de We Dissolve, de Chrysta Bell, outro prodígio de subtileza electroacústica), pelas espirais de guitarra-nos-interstícios de Aaron Dessner, mas, sobretudo, pela voz, pelas melodias e palavras de uma discípula dos Dylan – Thomas e Bob – (“e dos Sleaford Mods!”, acrescenta ela, veementemente), “viciada em aliterações e na magia da linguagem para além dos dicionários”.
29 November 2016
“Repent, repent, sweet England, for dreadful days are near”, escreveu, em 1580, Thomas Deloney por ocasião do grande terramoto que então sacudiu Londres. Ralph Vaughan Williams recolheu-a, em 1909, e, agora, aos 82 anos, Shirley Collins escolheu-a para abertura de Lodestar, improvável regresso aos discos após quase quatro décadas de ausência. O álbum de homenagem, Shirley Inspired..., de 2015 –, no qual intervinha gente de tão diversas proveniências como Lee Ranaldo, Meg Baird, Rozi Plain, Bonnie Prince Billy ou Graham Coxon – oferecia uma esclarecedora visão da imensa ressonância que, mesmo após tão prolongada ausência, Collins continuava a possuir. Ela que, em 1959, nos primórdios do "folk revival", viajara com o folclorista Alan Lomax até ao Sul dos EUA para o registo de espécimes musicais de blues, bluegrass e folk, e que, a seguir, com a Albion Band, Watersons, Young Tradition, o Early Music Consort, de David Munrow, foragidos dos Fairports e Steeleye Span, e a irmã, Dolly, publicaria preciosidades da dimensão de Anthems In Eden (1969) Love, Death And The Lady (1970), No Roses (1971), ou o colectivíssimo Son Of Morris On (1976), descobriu-se emudecida, desde 1978, em consequência de uma disfonia.
Agradeçamos, pois, os bons ofícios de David Tibet (Current 93) que a persuadiu a não desistir e, inesperadamente, a aceder em gravar Lodestar. Produzido por Ian Kearey, da Oysterband, pode dizer-se que se trata da matriz, em estado de natureza, das Murder Ballads, de Nick Cave: reunindo peças do século XVI ao XX, num tremendo painel gótico de uma "olde weird England" – com desvio cajun pela América – onde até uma festiva e pagã cantiga de Maio não abdica de encerrar com a ameaça “and when you are dead and you're in your grave, you're covered in the cold, cold clay, the worms they will eat your flesh, good man, and your bones they will waste away”, imperial, por entre sanfonas, concertinas, dulcimers, violoncelos, rabecas e orgãos de tubos, a voz de pergaminho de Shirley Collins, faz desfilar personagens e cenas de horror, vingança, negríssimo humor e inquietante "nonsense", com a deliciosa ligeireza amoral da tradição capaz até de tornar cativantes palavras como “There was blood in the kitchen, there was blood in the hall, there was blood in the parlor where the lady did fall”.
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22 December 2015
MÚSICA 2015 - INTERNACIONAL (III)
(iniciando-se, de baixo para cima *, de um total de 25)
* a ordem é razoavelmente arbitrária...
09 July 2015
PEGADAS
Shirley Collins tinha 24 anos quando, em 1959, acompanhou, o folclorista norte-americano, Alan Lomax (desde 1950 exilado em Londres devido à caça às bruxas mccarthysta), numa expedição aos EUA para recolha e gravação de música tradicional – blues, bluegrass, folk –, através da Virginia, Arkansas, Kentucky, Alabama e Mississippi. A atmosfera familiar proletária, em Hastings, tinha-a educado no gosto pelo conhecimento e interpretação do reportório folk britânico mas seria após essa viagem e a verificação in loco de como as formas tradicionais se transformavam na travessia do Atlântico, que Shirley se lhe entregaria, por inteiro. Primeiro com o lendário guitarrista Davy Graham (Folk Roots, New Routes, 1964), depois, com a irmã, Dolly, e músicos do Early Music Consort, de David Munrow, em Anthems In Eden (1969) e Love, Death And The Lady (1970), e, em No Roses (1971), acompanhada por elementos dos Fairport Convention, Albion Band, Watersons e Young Tradition, tornar-se-ia figura central do "folk revival" e, a seguir, do felicíssimo matrimónio entre tradição, “música antiga” e rock eléctrico.
Retirada desde 1978 quando começou a sofrer de disfonia, isso não impediu que se mantivesse activíssima enquanto "folk scholar" nem que tenha sido, regularmente, “redescoberta” por músicos de gerações posteriores. Shirley Inspired..., álbum triplo, comprova-o mais uma vez: destinado a financiar um documentário sobre Collins – The Ballad Of Shirley Collins –, reúne 45 músicos e bandas dedicados a reinterpretar parte substancial do seu reportório e, como seria inevitável em tamanho baú, nem tudo são pedras preciosas. Mas, na impossibilidade de referir todas, há que puxar devidamente o lustro aos contributos de Lee Ranaldo, Meg Baird, Sally Timms &The Mini Mekons, Rozi Plain e Bonnie Prince Billy, exemplos superiores da arte da desconfiguração, fazer vénia perante os melhores alunos da turma, Trembling Bells, Owl Service, Ulver, Johnny Flynn e Graham Coxon, e recordar as palavras de Shirley ao “Guardian”: “Cantar estas canções é-me tão essencial como caminhar pela paisagem do Sussex onde as pegadas dos nossos antepassados estão por todo o lado. São a história indiscutivelmente bela e poderosa de uma comunidade”.
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28 May 2015
NEO-PRIMITIVISMO
É bem possível que tenha falhado desastradamente o alvo quando, há semanas, procurando explicar o pequeno milagre que é Bashed Out, dos This Is The Kit, escrevi “realmente decisivo foi o apadrinhamento de Aaron Dessner, dos National, na qualidade de produtor”. É verdade que, com a sua própria banda e também com Sharon Van Etten, Dessner poderá reivindicar uma boa mão cheia de medalhas, mas o mesmo não poderá dizer-se dos feitos junto dos Local Natives, Luluc, Lone Bellow ou, mais recentemente, acerca da colaboração com os precocemente normalizados Mumford & Sons. Acontece, entretanto, que dados novos obrigam, agora, a encarar sob outra perspectiva o caso TITK. A saber, Friend, de Rozi Plain, também cantora e baixista nos TITK, de Kate Stables, e, como ela, natural de Winchester. A lógica do "small circle of friends" predomina – em Friend, participam Stables, Jamie Whitby-Coles (TITK), Amaury Ranger, Gérard Black (François & The Atlas Mountains), a harpista/"songwriter" Serafina Steer (autora do óptimo The Moths Are Real, de 2013, produzido por Jarvis Cocker) e o Hot Chip, Alexis Taylor, tudo gente-lá-de-casa – e é dela que, natural e algo artesanalmente, resulta um álbum que poderia, facilmente, escutar-se como indispensável "companion piece" de Bashed Out... sem nenhuma necessidade de intervenção dessneriana.
Subtilíssimo manifesto de uma espécie de neo-primitivismo sofisticado que abre com as palavras “It will be reported to be a difficult year, a tumultuous year” entoadas sobre uma dissimulada alusão ao ostinato de "Tom’s Diner", faz pensar muito no que poderia surgir de uma ideia – só uma ideia – do que restaria da essência da folk se fosse possível traduzi-la para o tipo de psicadelismo pastoral a que só os Young Marble Giants poderiam dedicar-se. Isso ou, então, uma variação aquática e "naïve" sobre a destilação do "krautrock" operada pelos Stereolab, mas com a suavemente alucinada Clare Grogan, dos Altered Images, no lugar de Laetitia Sadier. Não excluindo, evidentemente, a hipótese de se tratar, aqui e ali, de uma visão-Playmobil do "afrobeat" tal como David Byrne e Brian Eno o escutaram e uma orquestra de robots infantis o interpretaria: “struggling to leave from a place you don’t know how to be in”.
22 April 2015
UNIVERSO PERPENDICULAR
A catedral de Winchester, no Hampshire (dedicada a St. Swithun, grande especialista do muito apreciado milagre rural da reconstituição de cestas de ovos partidos), teve origem num velho mosteiro do século VII mas a sua estrutura e configuração definitivas – possui a nave mais longa e o maior comprimento total de qualquer catedral gótica da Europa – só cerca de 1528 seriam atingidas, descontando reparações e ampliações menores posteriores. Kate Stables agarra-se à História e argumenta que “a grande arte precisa de tempo: Winchester, o lugar onde nasci, costuma ser definido como uma cidade medieval romano-saxónica. A catedral começou a ser construída há mais de mil anos e, desde então, têm continuado a trabalhar nela”. O intuito é, afinal, justificar o motivo pelo qual This Is The Kit, banda surgida em 2006, só agora publica o terceiro álbum, Bashed Out, e apresentar atenuantes para o facto de os anteriores (Krulle Bol, 2008, e Wriggle Out the Restless, 2012) terem passado praticamente indetectados pela maioria dos radares.
Tenha sido ou não importante o grande escultor de Yourcenar, realmente decisivo foi o apadrinhamento de Aaron Dessner, dos National, na qualidade de produtor, que, para Bashed Out, além da geometria mais ou menos variável dos TITK – Stables, compositora, voz, banjo e guitarra; Jesse D Vernon, baixo, guitarra e violino; Jamie Whitby-Coles, bateria; Rozi Plain, voz e guitarra –, cuidou de recorrer a doadores sonoros oriundos dos Walkmen e Beirut, e ao irmão, Bryce. A presença dos gémeos Dessner e acólitos poderá, sem dúvida, contribuir para a sensação de estarmos perante o que, num universo perpendicular, seria um (óptimo) álbum dos National em declive folk: tela impressionista atravessada por rastos líquidos de guitarra, delicados remoinhos de joalharia electroacústica, estojos de sopros e cordas resguardando melodias astrais, algo como uma tapeçaria de lullabies lunares em fio de seda, murmúrio de fundo para a aproximação de silenciosas tempestades (“we’ve been getting most mightily filthy, mud marks up to our necks”). Ou, então, se calhar, apenas o eco distante de uma Sandy Denny wittgensteiniana que, do fundo da ábside de uma catedral, fosse capaz de clarissimamente enunciar “blessed are those who see and are silent”.
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