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04 November 2012

DIGESTÃO DIFÍCIL



Ariel Pink’s Haunted Graffiti - Mature Themes 

Não é preciso apertar muito com ele. Ariel Marcus Rosenberg (aliás, Ariel Pink) confessa logo tudo de bom grado: “Quando se gosta da música dos anos 60, vivemos dentro dela para sempre. Vivemos num momento em que aqueles que estamos a escutar deixavam crescer o cabelo pela primeira vez. Olhamos para as imagens e sentimos que podíamos, de facto, viver ali. A minha geração [Ariel tem 34 anos] nem sequer existia ainda. Mas ‘vivemos lá’. Não temos nenhum conceito do tempo”. A sua obsessão é “preservar algo que se está extinguir” e assegura que aprendeu tudo o que sabe desde os 5 anos, grudado à MTV, a sua verdadeira "baby-sitter". E, mesmo hoje, pelo meio das ocasionais birras em palco, jura que se recusa a ouvir música nova, só sai do apartamento por obrigação e não quer saber do que, por aí, se escreve. Estaríamos, então, perante um exemplo típico de eremita antissocial irremediavelmente engatado em marcha-atrás, daqueles que encheram as páginas de Retromania, de Simon Reynolds, se não se desse o caso de Reynolds, embora, naturalmente, embaraçado, se ter deixado embalar pelo seu suposto tempero “retrolicious” (“retro” + “delicious”): qualquer coisa como o ingénuo fascínio infantil, sem preconceitos, perante um brinquedo colorido com o qual os pais e os avós já se divertiram mil vezes mas que aparenta ser sempre novo ou, noutro registo, uma tentativa de diálogo, à beira do psicótico, com o passado. 


 
Na realidade, a ementa de Ariel Pink não é assim tão restritiva: tanto se serve do psicadelismo sessentista como do prog e do glam dos 70s, não diz que não ao synthpop xunga de 80 e, vendo bem, qualquer pedaço de lixo que lhe passe por perto é bem-vindo. Mature Themes – segundo volume da discografia para a 4AD após Before Today (2010) que o transformou em "next big whatever", e um par de publicações domésticas na Paw Tracks, dos Animal Collective – documenta-o bem: dos Byrds ("Only In My Dreams") a Rod Stewart ("Pink Slime"), de Bowie enrolado com o Julian Cope da fase mais neurologicamente problemática ("Kinski Assassin"), aos Devo ("Is This The Best Spot?"), aos Neu! ("Nostradamus & Me") ou aos Visage ("Symphony Of The Nymph") – tudo em variante de karaoke baratucho onde o imitador de outro imitador procura recordar-se de como seria o original –, nenhum se escapa a picar o ponto no reportório. A digestão, já de si difícil, do objecto (há uma diferença entre a irreprimível atracção de alguém pelo lixo e prostrarmo-nos em êxtase perante a flatulência provocada pela sua deglutição) complica-se por via do, chamemos-lhe assim, imaginário poético do artista, matéria de fixação "teen" em “testicle bombs”, “blowjobs of death”, pontos G (“G spot! H bomb! Let’s go!”) e arrebatamentos líricos do género de “The bad breath of a cross-eyed goat eating children for a Monday morning”. O golpe de misericórdia, porém, é desferido pelo próprio, numa entrevista ao “Guardian”: quando interrogado porque usava o cabelo pintado de cor-de-rosa, candidamente, respondeu “Dirijo-me a adolescentes, tenho de me resignar a isso. Não posso parecer um avozinho resmungão”. E lá se vai o tolinho da aldeia "naïf" deslumbrado com a memória pop... 

17 July 2010