11 November 2021
02 May 2021
27 October 2020
A CASA DAS MIL GUITARRAS
Bruce Springsteen tinha 22 anos e precisava de contar as moedas de cêntimo, uma a uma, até perfazer o modesto dólar necessário para pagar a portagem do Lincoln Tunnel, no trajecto de New Jersey a Nova Iorque. Mas, nessa altura, já tinha conseguido ser recebido por John Hammond, o lendário “descobridor” de Billie Holiday, Aretha Franklin, Count Basie, Bob Dylan, Leonard Cohen, Robert Johnson, Arthur Russell ou Benny Goodman, que – conta na autobiografia, Born To Run (2016) –, ao escutar "It’s Hard To Be A Saint In The City", lhe disse “Tens de assinar pela Columbia Records. Foi maravilhosa. Toca outra”. Procurando recompor-se (“Senti o coração a subir por mim acima, partículas misteriosas a dançarem-me sob a pele e estrelas distantes a fazerem disparar as minhas terminações nervosas”), tocou 'Growin’ Up' “e, depois, uma coisa chamada 'If I Was The Priest'. Ele adorou os elementos católicos, sublinhou a ausência de clichés e disse que tinham de tratar das coisas para que o Clive Davis (então, o presidente da Columbia) me ouvisse. (...) Tinha subido aos céus e falado com os deuses que me disseram que cuspia trovões e lançava raios. Estava a acontecer!”. A divindade Clive Davis deixou-se também seduzir mas, como recorda agora Springsteen no filme de Thom Zimny que acompanha a publicação do novo Letter To You, não resistiu a comentar que as canções estavam sobrecarregadas de palavras, “se não tiveres cuidado, acabas por esgotar a totalidade da língua inglesa. Essas coisas são para o Bob Dylan!”. Bruce tomou nota mas, interiormente, não deixou de as sentir como um enorme elogio: “Bob Dylan inspirou-me e deu-me esperança. Apontou correctamente o Norte e fez as vezes de farol para nos ajudar a descobrir o caminho por entre o novo caos em que a América se tornara. Ele hasteou uma bandeira, escreveu as canções, cantou as palavras essenciais à época e, naquele momento, à sobrevivência emocional e espiritual de muitos jovens americanos”, escreveria também em Born To Run.
"If I Was The Priest" – mas também "Janey Needs a Shooter" e "Song For Orphans" –, no entanto, não encontrariam lugar na estreia, Greetings From Asbury Park, N.J. (1973), e teriam de esperar quase meio século até que, agora que a ninguém passa pela cabeça crismá-lo como “o novo Dylan”, ele próprio se sente à vontade para libertar o Zimmerman que houve (e ainda há) em si. Foi quando vasculhava os arquivos em busca de pepitas para o sucessor de Tracks (1998) – um álbum de inéditos e outtakes exumados da sua arca sem fundo – que Springsteen tropeçou nas três canções e decidiu retomá-las: “De onde essas vieram, ainda há mais umas quantas. Não há nenhuma intenção especial nisso. Apeteceu-me cantar o que habitava a cabeça daquele miúdo, com a minha voz e a minha banda actuais. Pareceu-me uma combinação interessante e acho que resultou bastante bem. Foi um divertimento enorme, os textos dessas canções são completamente loucos” explicou ele durante uma Zoom session para a América do Sul, Portugal e Espanha. Surreal e dylaniamente loucos, sem dúvida, embora os “elementos católicos” que John Hammond adorou sejam, afinal pouco menos do que heréticos (“Sweet Virgin Mary runs the Holy Grail saloon, for a nickel she'll give you whiskey and a personally blessed balloon, and the Holy Ghost is the host with the most, he runs the burlesque show, where they'll let you in for free and they hit you when you go, Mary serving Mass on Sunday and she sells her body on Monday to the bootlegger who paid the highest price, he don't know he got stuck with a loser, she's a stone junkie what's more she's a user, she's only been made once or twice by some kind of magic”). Mas a entrada de "Janey Needs a Shooter" é puríssimo "Like A Rolling Stone" em grande ecrã, e a ansiosa enunciação do jorro de palavras de "Song For Orphans" (“Cheerleader tramps and kids with big amps sounding in the void, high society vamps, ex-heavyweight champs mistaking soot for soil”) confirmam a ideia de que o que, então, emergia não era apenas um talentoso discípulo de Bob Dylan mas sim alguém a caminho de ser um seu igual.
Quando, em 2011, Leonard Cohen recebeu o prémio Principe das Astúrias das Letras, contou pela primeira vez como tudo o que, na guitarra, viriam a ser os alicerces da sua música, tinha aprendido com um jovem guitarrista de flamenco espanhol com quem, por acaso, se cruzara num parque de Montreal e que, após três aulas informais, nunca mais voltaria a encontrar, acabando por saber que ele se suicidara. Na génese de Letter To You, existem também um guitarrista esquivo e uma guitarra mágica: “Há, pelo menos, seis ou sete anos, que não escrevia canções para a banda. Tinha outros projectos (o álbum e filme Western Stars, os espectáculos na Broadway durante mais de um ano e a autobiografia). Mas não tinha desistido da ideia de um álbum com a E Street Band e, se fosse capaz, um álbum de rock. Uma noite, quando saía da Broadway, um jovem, suponho que italiano, dirigiu-se a mim com uma guitarra na mão. Pensei que pretendia que eu a autografasse mas não, queria oferecer-ma. Era, realmente, uma guitarra bonita de um fabricante que desconhecia. Agradeci-lhe e levei-a para casa onde, durante meses, ficou esquecida na sala. Um amigo, George Theiss, que tinha sido quem me convidara para a minha primeira banda, The Castiles, estava muito doente, com poucas semanas de vida. Fui visitá-lo e, quando num breve espaço de tempo ele morreu, dei-me conta de que, naquela altura, eu era o único sobrevivente da banda da minha adolescência. Foi então que, em Abril do ano passado, peguei na tal guitarra e escrevi a primeira canção, "Last Man Standing". De repente, a barragem rebentara e, em menos de 10 dias, todas as canções do álbum estavam escritas. Andava pela casa e todos os dias escrevia uma canção, no quarto, no bar, na sala... Nunca mais voltei a ver o rapaz italiano mas tenho de lhe agradecer: foi a guitarra que me ofereceu que esteve na origem deste álbum”.
Theiss e os Castiles (“Knights of Columbus and the Fireman's Ball, friday night at the Union Hall, black leather clubs all along Route 9, you count the names of the missing as you count off time”) não são os únicos fantasmas que assombram Letter To You. Essa poderá ter sido a sua escola de música – “Aprendi praticamente tudo naquela banda, tocávamos Sam & Dave, os Beatles, Bo Diddley, Jimi Hendrix... Foi um momento único para fazer parte de um grupo. Se, em 1966, alguém quisesse contratar uma banda, teria de ser uma mão cheia de putos de 16 anos, não havia gente de 25 anos a tocar. Fosse onde fosse, só podia ouvir-se música tocada por adolescentes...” – mas, ao longo da grande jornada da E Street Band, também já Clarence Clemons (hoje substituido pelo sobrinho, Jake Clemons) e Danny Federici ficaram pelo caminho. São deles as sombras que pairam em "One Minute You’re Here" (“I thought I knew just who I was and what I'd do but I was wrong, one minutе you're here, nеxt minute you're gone”), "Ghosts" (“Old buckskin jacket you always wore, hangs on the back of my bedroom door, boots and the spurs you used to ride, click down the hall but never arrive”) e "I’ll See You In My Dreams" (“I got your guitar here by the bed, all your favorite records and all the books that you read, and though my soul feels like it's been split in the seams, I'll see you in my dreams”). Tudo gravado ao vivo, em quatro dias, no estúdio da quinta de Springsteen em Colts Neck, essa "House Of A Thousand Guitars", porto de abrigo para Bruce, Roy Bittan, Nils Lofgren, Patti Scialfa, Garry Tallent, Steven Van Zandt, Max Weinberg, Charlie Giordano e Jake Clemons, no qual nunca deixa de se invocar “a força da ideia americana de democracia, vergonhosamente abandonada e espezinhada”.
01 February 2018
15 January 2018
05 June 2015
23 October 2014
15 October 2014
18 November 2012
Mas lembro-me bem que, quando escutei The Trinity Session pela primeira vez, com toda aquela rarefacção sonora, os enormes espaços vazios e a Margo pairando sobre tudo aquilo como uma Vénus de Botticelli... aquilo não era country!
O sucesso dele surpreendeu-vos?
Totalmente. E, todos estes anos depois, ainda nos surpreende que as pessoas escutem The Trinity Session e continuem a reagir de uma forma tão apaixonada.
Uma característica também muito vossa é o facto de terem sempre gostado de realizar versões de canções de outros autores. Como seleccionam essas canções de que decidem apropriar-se?
28 April 2012
Jack White - Blunderbuss
01 February 2009
Bruce Springsteen - Working On A Dream
Conforme narra uma lenda da tradição popular contemporânea, Barack Obama, rapaz de preferências musicais "mainstream", porém, assaz decentes – à “Rolling Stone” confessou admirar, acima de todos, o Stevie Wonder "vintage" de Talking Book, Fulfillingness’ First Finale, Innervisions e Songs in the Key of Life, mas admitiu abrigar também no seu iPod, Howlin’ Wolf, Yo-Yo Ma, Coltrane, Miles Davis, Charlie Parker, Jay-Z, Sheryl Crow (consideremos que se tratou de um lapso na transcrição de Jann S. Wenner que lhe recolheu as declarações…) e “cerca de trinta canções de Bob Dylan” –, terá afirmado durante a sua campanha que apenas decidiu candidatar-se à presidência dos EUA quando, finalmente, concluiu que nunca poderia ser Bruce Springsteen. A lenda não refere se Springsteen, nos últimos meses, sonhou ser Obama mas não só o apoiou explicitamente como, quando lhe foi sugerido que, na cerimónia de tomada de posse, ao lado de Pete Seeger, cantasse “This Land Is Your Land”, de Woody Guthrie, certamente, deverá ter respondido “Yes, we can!”.
A verdade é que toda esta mudança de “clima” se pressente (e muito) na transição dos anteriores Devils & Dust (2005) e Magic (2007) – amargos painéis hiperrealistas de uma América devastada – para o actual (a começar pelo próprio título) Working On A Dream: o estado de espírito que anima todo o álbum é, notoriamente, de alívio e, por vezes, ficamos mesmo com a sensação de que Bruce Springsteen somente não deixa escapar um “all you need is love” porque… é Bruce Springsteen e não um rastejante "freak-folker" qualquer. Sim, a atmosfera é de euforia e celebração, mas já não a dos fugitivos dos "lost highways" à beira de mil abismos de Born To Run ou Darkness On The Edge Of Town: as personagens de Working On A Dream perdem-se de amores por meninas da caixa de supermercado (“As I lift my groceries into my cart, I turn back for a moment and catch a smile that blows this whole fucking place apart”), unem-se em torno de festas de aniversário domésticas e medem a passagem do tempo pela deslocação da luz no rosto da amada (“I don’t see the summer as it wanes, just the subtle change of light upon your face”).
E, em tempo de hipotética refundação da Terra Prometida e de renovada procura matricial da felicidade, a invocação dos mitos da antiguidade clássica é inevitável: "Life Itself" e "Surprise, Surprise" saíram, completas e perfeitas, do cancioneiro dos Byrds, "Tomorrow Never Knows" é vénia grata a Bob Dylan, "This Life" chama por Brian Wilson, "Good Eye" rasgou caminho pela ferrugem das cordas da guitarra de Robert Johnson, "Outlaw Pete" abre cinematograficamente o plano sobre a América tal como Leone e Morricone a reescreveram para o resto do mundo (com "sample" da harmónica de Once Upon a Time in The West incluído) e "You’re My Lucky Day" é a exuberância incontida e redescoberta de um autor, Bruce Sprinsteen, que há mais de vinte anos não encontrávamos em momento de tão exaltada emoção. De certo (e duplo) modo, uma "period piece".
(2009)
28 November 2007
28 January 2007
Já antes, em Invisible Republic (1997), Greil Marcus caracterizara a ebulição criativa de Dylan que daria origem às Basement Tapes gravadas com a Band como "uma das mais intensas irupções do modernismo no século XX", associando-o a Joyce, Eliot ou Yeats. Agora, nas quase trezentas páginas do recém publicado Like A Rolling Stone - Bob Dylan At The Crossroads (ed. PublicAffairs), não hesita em colocar no mesmo plano os dezasseis minutos de "Highlands" (do álbum Time Out Of Mind, 1997) e a trilogia de Philip Roth, Pastoral Americana, Casei Com Um Comunista e A Mancha Humana. Sim, porque Marcus — um dos muito raros "scholars" da cultura pop que não se circunscreve ao "biografismo" mas toma cada assunto como mero pretexto para a mais larga e fascinada especulação — escreve como Altman ou Paul Thomas Anderson filmam: se, em Mystery Train (1975), onde pintava um imenso painel da América a partir das músicas de Presley, Robert Johnson, Randy Newman, The Band e Sly Stone, confessava que "já não era capaz de ruminar sobre Elvis sem pensar em Herman Melville" e, em Lipstick Traces (1989), traçava a genealogia do punk recorrendo aos surrealistas, dadaístas, situacionistas e aos heréticos medievais da Irmandade do Livre Espírito, também, desta vez, o instante fundador de "Like A Rolling Stone" é apenas uma via de acesso, por exemplo, ao Highway 61 — Highway 61 Revisited, o álbum onde "Like A Rolling Stone" figuraria, seria editado pouco depois, a 30 de Agosto de 65 — que percorre os EUA, do Golfo do México à fronteira canadiana, atravessando o delta do Mississipi, local "sagrado" de passagem, vida ou morte de Bessie Smith, Muddy Waters, Charley Patton, Son House, Elvis ou Martin Luther King: "O Highway 61 corporiza uma América tão mítica e real como aquela América construída em Paris a partir de velhos discos de blues e jazz pelos expatriados sul-americanos do romance de Julio Cortazar de 1963, Rayuela —, um romance no qual, como numa autoestrada, podemos entrar onde queremos".
Porta aberta também para a bizarra história de Mrs. Sarah L. Winchester, viúva do inventor da espingarda Winchester que, muito naturalmente, desaguará numa sessão do concurso televisivo "American Idol" onde um patético desfile de imitadores reproduz os estereótipos "dylanianos" tal como a grosseira percepção do "público" os reteve. Ou ainda para a versão de "Go West", dos Village People, pelos Pet Shop Boys (sim, sim, e faz todo o sentido). Todas, afinal, em "Like A Rolling Stone", desencadeadas por aquele coice inicial da bateria de Bobby Gregg ("um disparo que não acontece no terceiro acto mas mal o pano sobe"), pela irada descarga de vómito verbal ("há bombas a rebentar por todo o lado e cada bomba é uma palavra: 'DIDN'T', 'STEAL', 'USED', 'INVISIBLE', fazem parte da história mas, pela forma como são cantadas — declamadas, marteladas, atiradas do cimo da montanha para rebentarem aos pés da multidão —, cada palavra é também a própria história"), pela assombrada atmosfera sonora ("Enquanto som, a canção é uma caverna. Entramos às escuras; a pouca luz que existe desenha sombras incertas nas paredes que, à medida que as observamos, parecem mover-se ritmadamente. Começa a parecer-nos que podemos adivinhar que flash se seguirá ao anterior. Mas, quanto mais olhamos, mais vemos e menos fixo tudo nos parece"). Um ano depois, em conversa com o crítico de jazz, Nat Hentoff, Bob Dylan diria: "As minhas canções antigas, para dizer o mínimo, eram acerca de coisa nenhuma. As novas são sobre o mesmo — apenas observadas no interior de algo maior, chamado, talvez, lugar nenhum". (2005)