(sequência daqui) Em pouco tempo de instantânea actividade dos Lovin' Spoonful, haviam colonizado as tabelas de vendas norte-americanas e dado resposta convincente à British Invasion. Mas, bem mais importante do que isso, nos 4 anos de existência da banda (1965-1969), num percurso com raízes no revivalismo folk de Greenwich Village, vitaminado pelo rock, os blues, e o espírito das jug bands, The Lovin’ Spoonful ocupariam um espaço de experimentalismo que, à época, à excepção dos Beatles, mais ninguém ousara reivindicar. "Do You Believe In Magic", "You Didn’t Have To Be So Nice", "Daydream", "Did You Ever Have To Make Up Your Mind?" ou "Summer In The City" são os títulos que mais depressa ocorrem. A missão da caixa de 7 CD What A Day For A Daydream - The Complete Recordings 1965-1969 é, porém, demonstrar, de uma vez por todas, por que motivo os Spoonful eram a banda à qual Neil Young sonhava pertencer, a quem Woody Allen encomendou a banda sonora da sua estreia What's Up, Tiger Lily? (1966) e que Robert Forster (Go-Betweens) considerou um dos 4 pilares sobre os quais assenta o seu álbum de 2025, Strawberries.
19 May 2026
19 December 2025
MÚSICA 2025 - INTERNACIONAL (II)
(iniciando-se, de baixo para cima *, de um total de 20)
Emma Swift - The Ressurection Game
06 August 2025
05 August 2025
03 August 2025
31 July 2025
22 October 2022
18 August 2021
16 August 2021
ELES JÁ ESTÃO A MUDAR MUITO
Há três anos, Louis, o filho, garantira: “Às vezes, vêm ter comigo e fazem-me perguntas sobre um disco ou sobre uma determinada canção e chega a ser embaraçoso porque, de facto, nunca os escutei. Tenho sempre de pedir imensa desculpa e dizer que não faço ideia do que estão a falar”. Um ano depois, em Lisboa, Robert, o pai, comentara: “O Louis disse-me que foi incorrectamente citado. É verdade que não ouvíamos muito os nossos discos em casa mas ele estava presente quando eu escrevia as canções”. Agora mesmo, voltando ao assunto, Louis corrige o tiro: “É verdade, na casa onde cresci havia sempre muita música, toda a gente estava sempre a tocar alguma coisa. A minha mãe toca. A minha irmã toca. E, de uma forma muito prática, sem grandes discussões filosóficas para que não tenho jeito nenhum, todos falávamos acerca do que estávamos a fazer”. Em causa estava saber se, do pai, Robert Forster – fundador dos mui-amados Go-Betweens –, algo decisivo revertera para The Goon Sax, a banda do filho, Louis Forster.
E foi Robert quem, reconhecendo como, tarde mas justamente, à banda que fundara, em Brisbane, com Grant McLennan e Lindy Morrison é hoje atribuída a devida importância (“Nos últimos 10 ou 15 anos, tenho reparado que há cada vez mais gente a apreciar os Go-Betweens e a dizer que esta ou aquela banda tem algo de nós. Claro que é agradável ler isso. É um pouco como acontecia no final dos anos 70 quando alguém dizia que um grupo fazia lembrar os Byrds e nós íamos a correr tentar descobrir de que estavam a falar. Recordo-me bem de como isso era importante para mim quando era jovem”), rectificou a história: “O processo de constituição dos Goon Sax foi muito natural. Por volta dos 14 ou 15 anos, o Louis tinha estado noutra banda com o James Harrison. Eles os dois começaram os Goon Sax e uma amiga, a Riley, disse-lhes que estava a aprender bateria e perguntou se podia tocar com eles. Foi apenas isso. Claro que faz pensar nos Go-Betweens mas foi apenas uma coincidência. Houve uma altura em que o Louis dizia que, embora a banda soasse muito bem, queria tocar com quatro músicos em vez de apenas com aqueles dois para que não lhe viessem dizer que estava a imitar a banda do pai. Mas desistiu dessa ideia. Seja como for, eles têm apenas 20 anos e, de certeza, vão ainda mudar muito”. (daqui; segue para aqui)
22 September 2020
A NOITE E A CHUVA
No poema “Old Marx”, o polaco Adam Zagajewski escreveu: “He couldn’t concentrate, rewrote old work, reread young Marx for days on end, and secretly admired that ambitious author. He still had faith in his fantastic vision, but in moments of doubt, he worried that he’d given the world only a new version of despair; then he’d close his eyes and see nothing but the scarlet darkness of his lids”. Foi a frase “in moments of doubt, he worried that he’d given the world only a new version of despair” que, há cinco anos, por pouco não impediu Peter Milton Walsh de publicar No Song, No Spell, No Madrigal, o sublime álbum de regresso dos Apartments, após quase duas décadas de ausência. “Esse poema assombrou-me durante imenso tempo. As canções são como janelas – às vezes, alçapões –, as memórias entram a galope e temos de ser capazes de lidar com elas”, disse ele, na altura, a propósito dessa gravação consagrada ao luto pelo filho, Riley.
As “new versions of despair” de Peter Milton Walsh não eram coisa nova. Robert Forster descrevia-o como “um homem que deixa suspiros e queixas no seu rasto” e Grant McLennan (o outro Go-Between, banda da qual, fugazmente, Walsh também fez parte) comparava: “Ele é a noite, nós somos o dia. Nós somos o sol, ele é a chuva”. Poucos soldados do escasso exército de sombras que é a sua rede de seguidores dispersos pelo planeta esperariam já esse ressurgimento. E menos ainda apostariam que fossem necessários apenas cinco anos para que Peter Milton Walsh – ele que assegura dedicar grande esforço ao desenvolvimento dos seus “sitting still and keeping quiet talents”, algo que lhe parece “demasiado menosprezado neste mundo” – voltasse a reanimar o tresmalhado ensemble de câmara que lhe serve de alter ego. E, no entanto, com epicentro em Sydney e ramificações em Paris e Londres, eis In And Out Of The Light, belíssimos oito quadros de impressionismo "noir", ensaio de fuga (“Write your way out of town, write your way out of sorrow”) e exercício de aproximação audeniana (“Oh you were so unlike the rest, my North, my South, my East and West, you were so unlike the rest”), que, se, confessadamente, se abeira daqueles “sobre quem toda a vida desabou”, não resiste a cuspir o veneno que tanto intoxica quem o expele como aqueles que atinge: “I like living without you, can’t you see I’m getting by? Except when I’m dreaming or drinking, breathing or sleeping, walking or talking, I don’t give a fuck about you anymore”.