Showing posts with label Richard Reed Parry. Show all posts
Showing posts with label Richard Reed Parry. Show all posts

28 November 2019

ACABAR


Dias antes de morrer, em You Want It Darker, Leonard Cohen parecia mais distante do que nunca da tradição judaica (e, se quisermos, cristã) em que praticamente todos os seus 82 anos de vida tinham sido moldados. Numa última entrevista à “New Yorker”, sem rodeios nem floreados, e plenamente consciente do pouco tempo de vida que lhe restava, por gentileza, admitia “poder ter ainda um segundo fôlego” mas sem quaisquer ilusões: “Não me atrevo a agarrar-me a estratégias espirituais, não me atrevo a tal. Tenho trabalho para fazer. Assuntos para tratar. Estou pronto para morrer. Espero que não seja demasiado desconfortável. Por mim, é tudo”. E, sobretudo nas canções, dir-se-ia que fazia gala em contrariar e inverter tudo o que, as supostamente sagradas escrituras, desde há séculos, prescreviam. “To turn the other cheek, sounded like the truth, seemed the better way, sounded like the truth, but it's not the truth today”, cantava em "Seemed The Better Way” e ouvi-lo dizer – de facto, muito mais dizer do que cantar – “Steer your way past the ruins of the altar and the mall, steer your way through the fables of creation and the fall, steer your heart past the truth that you believed in yesterday, such as fundamental goodness and the wisdom of the way, (...) and please don't make me go there, though there be a god or not” ("Steer Your Way"), “I'm so sorry for that ghost I made you be, only one of us was real and that was me” e “I've seen you change the water into wine, I've seen you change it back to water, too, I sit at your table every night, I try but I just don't get high with you” ("Treaty"), fazia suspeitar se, à beira do fim, a verdade de ontem já não era, de todo, a de hoje e se uma semente de agnosticismo – “though there be a god or not” – não teria começado a germinar no cérebro do velho sacerdote "kohen". 


 
Durante a entrevista com David Remnick, a sensação acentuava-se quando, recordando os tempos na ilha de Hidra, confessava que “Sentado no meu terraço, tomei ácidos uns atrás dos outros, à espera de ver Deus. Geralmente, acabava com uma enorme ressaca”. Regressando ao presente, reconhecia que “a grande diferença é a proximidade da morte. Sou um fulano organizado. Se puder, gosto de deixar tudo arrumado. Se não puder, também não faz mal. Mas o meu impulso natural é para acabar as coisas que comecei”. Uma delas era uma canção ingénua, "Hummingbird", que trauteou – “Listen to the hummingbitd whose wings you cannot see, listen to the hummingbird, don’t listen to me”. “Não me parece que vá conseguir acabá-la. Mas, quem sabe?...” Três anos depois, tal como acontecera já com You Want It Darker, pela mão do filho, Adam, ficou concluída. Essa e mais outras oito que – com as contribuições de Beck, Bryce Dessner (The National), Richard Reed Parry (Arcade Fire), Damien Rice, Leslie Feist, Daniel Lanois, Javier Mas, Dustin O’Halloran, a Stargaze Orchestra, o coro de Berlim Cantus Domus e o coro da sinagoga Shaar Hashomayim de Westmount –, em Thanks For The Dance, oferecem o discretíssimo pano de fundo sonoro sobre o qual a frágil mas sempre intensa voz de Cohen vai recitando amargos sarcasmos (“German puppets burnt the Jews, Jewish puppets did not choose”), elegantes insolências (“I was selling holy trinkets, I was dressing kind of sharp, had a pussy in the kitchen and a panther in the yard, in the prison of the gifted I was friendly with the guard, so I never had to witness what happens to the heart”), e aterradoramente tranquilos desfechos (“I move with the leaves, I shine with the chrome, I’m almost alive, I’m almost at home”). Não tens que agradecer, Leonard.

10 September 2014

CONTEMPORÂNEOS 


Pode dizer-se que tudo terá começado num ponto algures entre o surgimento, na década de 60, dos minimalistas norte.americanos – La Monte Young, Steve Reich, Terry Riley e Philip Glass – e a constituição do Kronos Quartet (1973). Ignorando o interdito que amaldiçoava o regresso ao tonalismo na música contemporânea – Boulez explicou-o enquanto resultado do primitivismo e deseducação do público americano e Elliott Carter comparou-o à propaganda hitleriana –, uma nova geração de compositores e intérpretes (essencialmente, em "ensembles" de câmara), até hoje, não mais parou de reconfigurar a expressão musical, integrando e assimilando todos os vocabulários, do Renascimento, ao Barroco, aos vários modernismos, ao rock e ao jazz. De ambos os lados do Atlântico, fomo-nos apercebendo das diversas vias propostas por Michael Nyman, Regular Music, Lost Jockey, Andrew Poppy, Penguin Cafe Orchestra, Gavin Bryars, Soft Verdict, Brian Eno, Balanescu Quartet, yMusic, Brodsky Quartet, Bang On a Can e inúmeros outros. 


Bryce Dessner (dos National) já havia gravado Aheym (2013) com os Kronos e, agora, num álbum partilhado com a Suite From There Will Be Blood, de Jonny Greenwood (Radiohead), e integrado na Filarmónica de Copenhaga (Deutsche Gramophon), oferece “St. Carolyn By The Sea”, “Lachrimae” e “Raphael”. Se Dessner tanto se reivindica de John Dowland como de Bartók ou Reich, Greenwood invoca Copland, Penderecki e Ligeti. Mas ambos desmontam, em definitivo, o mito do músico de rock como diletante frívolo na arena dos clássicos.


Exactamente o mesmo que deverá dizer-se de Music For Heart And Breath (também da Deutsche Gramophon), de Richard Reed Parry (Arcade Fire), que, com os Kronos, yMusic, os gémeos Dessner, Nico Muhly e estetoscópios no lugar da batuta do maestro, ensaia uma belíssima síntese de Pärt, Reich e Eno e um vasto etc à volta.


Footfall, do Quest Ensemble (qensemble.bandcamp.com), trio de violino (Preetha Narayanan), violoncelo (Tara Franks) e piano (Filipe Sousa), pelo seu lado, da academia – Guildhall School of Music & Drama – para a performance multimedia, viaja entre Vaughn Williams, Reich, o pós-rock, a tradição popular e a "film music", articulando optimamente escrita colectiva, improvisação e o manifesto desejo de integrar o ritmo urbano como matriz de composição.

07 September 2014

A HISTÓRIA DE UMA ANTIGA RELAÇÃO


De que se fala quando se conversa com Bryce Dessner, guitarrista e compositor dos National? Naturalmente, das fantasias para alaúde de John Dowland, de Bach, Schubert e Bartók, das “guerras estilísticas” na música do século XX e do papel que nelas desempenharam John Cage ou Philip Glass, de como Berio e Stockhausen alimentaram a música dos Beatles e Arvo Pärt e Reich fizeram o mesmo pelos Radiohead ou das relações entre o que ele compõe e a obra literária de Kerouac e Frank O’Hara. É verdade que o pretexto para a entrevista era os belíssimos álbuns que registam as suas composições numa variante de ecletismo pós-minimalista do idioma erudito contemporâneo (Aheym, com o Kronos Quartet, de 2013, e St. Carolyn By The Sea / Lachrimae / Raphael, a meias com a Suite From There Will Be Blood, de Jonny Greenwood, com a Filarmónica de Copenhaga, 2014), bem como a sua participação em Music For Heart And Breath (2014), de Richard Reed Parry. Mas, como Bryce explica, para ele que, antes de ser um elemento dos National, já cumprira uma trajectória académica, isso não obriga a esquizofrenias estéticas nem a assumir múltiplas personalidades.

Tem alguma explicação para o facto de, nas últimas décadas, ter surgido um considerável número de músicos de pop/rock com formação musical académica – Shara Worden (My Brightest Diamond), Annie Clark/St. Vincent, Jonny Greenwood (Radiohead), Richard Reed Parry (Arcade Fire), Rostam Batmanglij (Vampire Weekend), Regina Spektor, Sufjan Stevens, Joan Wasser – que, em alguns casos, como o seu, estão activos tanto na música contemporânea como na popular? 
Sempre existiu uma relação entre a música erudita e as formas populares. Nos séculos XV e XVI, compositores como John Dowland tanto escreviam música instrumental para a corte inglesa como compunham canções. Schubert escreveu belíssimas canções e, durante o século XX, o mesmo se passou. Poderiam ser canções mais complexas e exigentes mas não foi algo que tenha surgido apenas com a nossa geração. O que, talvez, tenha acontecido foi uma mudança na indústria musical que permitiu que música mais criativa tenha podido vir à superfície. Por causa da Internet, as grandes editoras e a rádio mainstream já não controlam aquilo que podemos ouvir. Pessoas como eu que tive uma educação clássica, toquei Bach e fundei uma banda de rock... faz tudo parte daquilo que sou, da minha identidade ou das do Johnny Greenwood e do Richard Reed Parry. Já a Annie (St. Vincent) não me parece que esteja muito virada para compor para quartetos de cordas embora tenha uma história semelhante. No fundo, é muito saudável que existam músicos que se permitam uma grande diversidade de experiências.


Mas por que motivo essas trocas entre música clássica e formas populares terão corrido bastante melhor agora do que na idade das trevas dos Emerson, Lake & Palmer e afins? 
(risos) Nem tudo foi tão tenebroso, no passado... "Revolution 9", dos Beatles, era uma peça bastante sofisticada e vanguardista para fita magnética, inspirada por Luciano Berio e Stockhausen. Mas, no meu caso, esta é a música em que me movo desde muito antes de ter começado a tocar com uma banda de rock. Não se trata de "crossover". Acho, aliás, que a maioria dos músicos que mencionou se sentiriam insultados caso o seu trabalho fosse qualificado como "crossover". Poderá ser necessário um período maior de amadurecimento para compor música contemporânea instrumental que é mais complexa e polifónica do que para escrever uma canção de rock. Mas, evidentemente, isso também se transmite no sentido oposto: se escutarmos uma banda como os Radiohead, é óbvio que têm muito mais em comum com Arvo Pärt ou Steve Reich – nos arranjos, nos encadeamentos harmónicos, no tratamento da percussão – do que com o rock tradicional. Tudo coisas que provêm dessa atitude aberta e criativa. No caso dos National, isso não será tão óbvio e pronunciado mas é, certamente, uma parte importante da nossa música. Parte do que fazemos é procurar ampliar os limites da canção, abrirmo-nos a formas musicais diferentes. 

Mas, quando compõe, por exemplo, para um quarteto de cordas, fá-lo com uma atitude mental diferente da que teria se estivesse a pensar nos National? 
Se componho para um quarteto ou uma orquestra, concentro-me mais na sonoridade. Com os National também mas apenas no momento em que entramos em estúdio. Na música contemporânea, preocupo-me com as propriedades acústicas dos instrumentos. É um pouco como se se tratasse de música electrónica: explorar técnicas que possam revelar combinações sonoras interessantes. Mas não sinto que me transforme numa pessoa diferente. A verdade é que sou muito mais eu próprio quando lido com a música contemporânea. Nos National, toco guitarra, tudo tem a ver com as relações entre nós, é um processo muito mais colaborativo.



Nos seus discos de música contemporânea, reconhece modelos musicais e referências que o tenham orientado? 
Já lhe falei de John Dowland. A minha formação foi em guitarra clássica e a maioria do reportório é Dowland ou Bach. As fantasias que compôs para alaúde são dos primeiros exemplos de peças escritas como pura música instrumental. Não possuem uma forma definida e isso atrai-me muito. St Carolyn By The Sea é também inspirado no Big Sur, de Jack Kerouac. Interessava-me, do mesmo modo, traduzir musicalmente muito do que os poetas de Nova Iorque dessa era – como Frank O’Hara – realizaram, do ponto de vista formal, com a linguagem. Mas o meu compositor preferido é, provavelmente Béla Bartók, também devido a ter sido muito influenciado pela música popular tradicional. O que nos faz voltar à sua pergunta inicial acerca das relações entre música erudita e popular. É algo que já vem de longe. Mais recentes, há também compositores como Steve Reich e Philip Glass com quem já trabalhei e gravei o que foi uma experiência bastante estimulante. 

A verdade é que, apesar das relações entre formas populares e eruditas não serem uma coisa de agora, após a longa viagem da história da música do tonalismo para o atonalismo e o serialismo e de volta ao tonalismo (com os 4’33” de Cage pelo meio a abrirem todas as portas), só agora aparecem compositores como o Bryce capazes de atribuirem um sentido estético viável ao desfecho desse percurso... 
Nas guerras estilísticas do século XX, o que gente como John Cage ou Steve Reich fez foi desbravar o caminho de acesso a um imenso território que permitiu que músicos como nós existissem e nos sentíssemos livres para determinar o nosso rumo, independentemente do estilo, do género musical ou do facto de tocarmos guitarra ou qualquer outro instrumento. Há uma sensação de liberdade que é muito revigorante. 

É impossível não lhe perguntar: Trouble Will Find Me foi publicado em Maio do ano passado. Há alguma data prevista para um novo álbum dos National? 
Decidimos parar, pelo menos, durante um ano. Vamos, de certeza, gravar um novo álbum mas, entre Trouble Will Find Me e esse, haverá, no mínimo, uma pausa de dois anos. Já temos algumas canções novas mas nada que nos sintamos prontos para assegurar que está ali o embrião do próximo álbum.