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30 July 2024

POR PROCURAÇÃO

Ex-aluno de Richard Hamilton - pioneiro britânico da pop art - na universidade de Newcastle, Bryan Ferry sentia muito pouca afinidade com a austeridade visual da estética "prog" no início da década de 70. O que o fazia vibrar era a sofisticação, a sensualidade e o brilho das estrelas de Hollywood das décadas anteriores, acima de todas, Rita Hayworth. Por isso, quando, em 1972, chegou o momento da gravação e publicação do primeiro álbum dos Roxy Music (nome de sala de cinema escolhido pela ressonância de "faded glamour") a responsabilidade pela imagem da capa do LP recairia sobre Karl Stoecker - fotógrafo norte-americano inspirado pelas inúmeras ilustrações de "pin-ups" de Alberto Vargas para a "Esquire" - e sobre a série de imagens que realizara com a modelo de origem norueguesa, Kari-Ann Muller. Vestida pelo estilista Anthony Price que, confessava desejar vê-la , estirada sobre cetins, "como um gelado napolitano" azul, cor-de-rosa e branco, de sombra azul carregado nas pálpebras, seria, desde então, um dos exemplos clássicos - embora não exactamente justo - do triunfo do estilo sobre a substância. (daqui; segue para aqui)

Kami Thompson - "Solitary Traveller"

21 June 2018

O BAÚ BRANCO


Olha-se, de relance, a capa do duplo CD e a primeira sensação é que José Mário decidiu tirar partido do nome de família e, evocando uma outra distinta genealogia, publicar o seu “álbum branco”. Observando com um pouco mais de atenção, descobre-se, porém, que não, não se trata, de todo, de uma réplica da capa de Richard Hamilton para os Beatles: sob o nome do autor, em cinzento pálido, pode ler-se Inéditos 1967 – 1999. Se, por algum acaso, no entanto, se começasse a escuta do disco pela segunda metade do CD2, não seria impossível que a dúvida regressasse: "Fim de Verão (à maneira dos Conchas)" é uma cançoneta pop estival exumada por José Mário Branco da memória dos anos 60 – com todos os rigores de reconstituição histórica ao cuidado dos Ena Pá 2000 – para Agosto, filme de 1988, de Jorge Silva Melo. Não é o único exemplo de peça “de época” com essa origem: "Le Cafard" é “à maneira de Eddy Mitchell” (o cantor dos lendários Chaussettes Noires), e "Sotto Il Sole, Sulla Spiaggia", "Trompete Slow" e "Dô-Yô" são, respectivamente, "pastiches" de Adriano Celentano, Helmut Zacharias e The Shadows. 



Talvez não se tivesse noção disso mas JMB escreveu consideravelmente para o cinema: estão aqui também as belíssimas "Cantar da Viúva de Emigrante" (de Gente do Norte, Leonel Brito, 1975) e "Fuga do Mar" (de O Ladrão do Pão, Noémia Delgado, 1979), mas também "Alma Herida", outra composição “à maneira de”, no caso, o bolerista cubano, Antonio Machin (A Raiz do Coração, Paulo Rocha, 1999), de entre as quase duas dezenas de filmes – de Luís Galvão Teles, César Monteiro, João Canijo, António-Pedro Vasconcelos, Solveig Nordlund... – para que compôs. Não se resume, naturalmente, a isto a abertura (nao exaustiva) do riquíssimo baú: ordenadas cronologicamente, de entre maquetes restauradas a partir das bobines originais, singles e temas que, há muito tempo, exigiam ser recuperados, há que ouvir (ou reouvir), obrigatoriamente, as fundadoras "Cantigas de Amigo" (incluindo "Mar de Vigo", de Martim Codax, excluída do EP original... por falta de espaço), as militantes "Mãos Ao Ar!", "Le Proscrit de 1871" (sobre texto do "communard" Eugène Châtelain) e a versão kurtweilliana de "Remendos e Côdeas", as duas exuberantes marchas populares, "Fim de Festa" e "São João do Porto" e, sobretudo, os três andamentos da completamente inédita "Fantaisie Languedocienne". para flauta, guitarra, violoncelo e piano.

06 March 2018

12 FUTUROS


Richard Hamilton já tinha exibido a colagem Just What Is It That Makes Today's Homes So Different, So Appealing? (1956) que o transformaria num dos pioneiros da Pop Art, cuja definição, aliás, estabeleceu: “popular, transient, expendable, low-cost, mass-produced, young, witty, sexy, gimmicky, glamorous, and Big Business". Fora também o responsável pela capa do White Album, dos Beatles (1968), em radical contraste com a do igualmente pop, Peter Blake, para Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, no ano anterior. Mas foi após ter conhecido a obra dos Roxy Music que não hesitou em declarar Bryan Ferry, seu antigo aluno na universidade de Newcastle, como a sua “maior criação”. Em 2009, dois anos antes da morte de Hamilton, Ferry recordá-lo-ia: “Ele transformou a arte numa parte tão importante da minha vida que influenciava tudo o que eu fazia. Pretendia que os Roxy Music, estilisticamente, fossem muito ecléticos e, quando comecei a escrever canções, todas as influências surgiram. Foi então que a concepção hamiltoniana da colagem me ocorreu, retirando elementos daqui, dali, de todo o lado, e, a partir deles, criando algo novo. Ele foi o nosso Warhol e Duchamp”.


O programa estético estava bem patente – a começar pelo título, "Re-Make/Re-Model" – na primeira canção do álbum de estreia: 26 segundos de colagem sonora "concrète" de uma "cocktail party", explosão rock’n’roll de guitarra, piano, baixo, sax, e bateria perfurada pelos uivos atonais do sintetizador VCS3 de Brian Eno, o texto estranguladamente cantado por Ferry (“I tried but I could not find a way, looking back all I did was look away, next time is the best we all know, but if there is no next time, where to go?”) cujo refrão é uma matrícula de automóvel (“CPL593H”), e os micro-solos finais em que o baixo de Graham Simpson cita "Day Tripper", dos Beatles, a guitarra de Phil Manzanera macaqueia "C’mon Everybody", de Eddie Cochran cruzada com "Peter Gunn" de Duane Eddy, e, à maneira de King Curtis, o sax tenor de Andy MacKay atira-se às Valquírias, de Wagner. Em "Ladytron", Ferry era um cowboy a tocar castanholas numa paisagem lunar à sombra de Prokoviev, "The Bob (Medley)" constituia-se de 7 diferentes secções e 8 mudanças de andamento em menos de 6 minutos, e todo o álbum – agora reeditado em caixa "deluxe" de 3 CD + DVD –, sob o signo da "pin-up", Kari-Ann Muller, era uma extravagante e gloriosa colisão de futurismo e nostalgia. Ou, como diria Brian Eno, “Em 1972, os Roxy Music continham 12 futuros diferentes para o rock”. E 12 diferentes passados.

03 June 2008

OS GESTOS NECESSÁRIOS



Vinil – Gravações e Capas de Discos de Artistas,
Museu de Serralves (10 de Maio a 13 de Julho)

Originalmente publicado em 1986, desde então transformado em obra de referência e, há três anos, reeditado pela Yale University Press, The Recording Angel, de Evan Eisenberg, analisa o modo como as tecnologias de gravação sonora transformaram a cultura do século XX e a forma de nos relacionarmos com ela. A certo ponto, Eisenberg afirma: “Uma vez mais, uma invenção mecânica respondera à necessidade do capitalismo de recriar toda a vida à sua imagem. A catedral da cultura convertera-se num supermercado. Éramos todos Próspero, capazes de invocar músicos invisíveis que tocavam e cantavam para o nosso prazer. (...) O ouvinte de discos é um filho do supermercado. A sua forma de se exprimir é quase inteiramente uma questão de seleccionar entre diversas embalagens que outros conceberam. E ele pensa que estas embalagens esgotaram todas as possibilidades”.


capa de Robert Longo para The Ascension, Glenn Branca

É, justamente, o invólucro externo dessas embalagens que constitui o objecto de estudo, investigação e devoção da colecção Vinil – Gravações e Capas de Discos de Artistas, em exibição no Museu de Serralves. E, de certa maneira, contrariando o ponto de vista de Eisenberg, Guy Schraenen (o coleccionador e curador da exposição), na introdução ao catálogo, defende a tese segundo a qual a maioria destas peças se integra no movimento que, desde o final dos aos 50, “com o surgimento da arte ‘inter-media’ deu origem a uma mudança radical na concepção e na recepção das obras de arte: performances, instalações, happenings, trabalhos de vídeo, filmes de artistas e ‘soundworks’ proliferaram”, enumerando todos os movimentos artístcos – Cobra, Fluxus, arte conceptual, Letrismo, “sound poetry” e Novo Realismo – que recorreram aos discos de vinil e utilizaram as suas capas como suporte para criações visuais “directamente relacionadas com o conteúdo dos discos, numa justaposição de som e imagem”. Se a deambulação pelas salas de Serralves face a face com exemplares originais de capas como a célebre “da banana” de Warhol para os Velvet Underground, a do “álbum branco” concebida por Richard Hamilton para os Beatles, as de Gerhard Richter ou Raymond Pettibon para os Black Flag e Sonic Youth e inúmeras outras para álbuns de “spoken word”, minimalistas e experimentalistas vários, peças sonoras e/ou visuais de Duchamp, Beuys, Hans Arp, Burroughs, Hermann Nitsch, Orson Welles ou Satie constitui o verdadeiro encontro imediato com a lenda, não menos fascinante é folhear o catálogo e, em especial, o glossário.


capa de Raymond Pettitbon para Goo, Sonic Youth

Aí, logo à terceira página, se traça uma linha de fronteira (“Compact disc: (...) o seu formato não permite as relações subtis e complexas entre aspectos visuais sonoros que eram uma característica específica dos discos de vinil produzidos por artistas visuais apesar das numerosas tentativas para superar esta dificuldade”) se recenseiam fetichismos (“a relação táctil entre indivíduo e objecto, o som que é próprio da escuta de um disco de vinil, os gestos necessários”), se historiam os passos desde o “phonoautograph” de Leon Scott (1858) até ao instante em que “a história parou” (“1978: a Philips anuncia a invenção do compact disc”), se inventariam casos particulares (o “flexidisc”, o “picture disc”, o “disco-objecto”) e, a pretexto do estabelecimento de uma “paternidade” (é o título da própria entrada no glossário), se desenha algo como uma imaginária ordem de precedência entre artes visuais e arte musical: “Do final dos anos 50 em diante, o desenvolvimento da arte contemporânea e das experiências musicais, tal como as novas técnicas de gravação, deram aos artistas o ímpeto para explorar novas vias. Enquanto para os músicos esta experimentação se situava firmemente no interior da tradição musical, aos artistas visuais, livres de constrangimentos, permitiu-lhes ignorar todas a regras”.



(2008)