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13 February 2012

PÔR A RENDER



Vários - Fado Património Imaterial da Humanidade (4 CD)

Não é absolutamente indispensável ser vidente para enxergar que, por muito que se exaltem as virtudes do pastel de nata como via redentora da economia lusa, nos próximos tempos, o que irá, inevitavelmente, ser posto a render será o fado. A canonização pela UNESCO não assinalará, sem dúvida, o princípio do fim da crise (ainda que, pelo soar das trombetas, em Novembro, quase parecesse que sim), mas, por ela devidamente estimulada, não haverá editora ou distribuidora grande, pequena ou média, que não trate de engendrar um qualquer esperançoso plano de publicações – com ou sem a aposição do selinho “Fado Património da Humanidade”, mas, de preferência, com -, fruto de escavações arqueológicas em catálogos próprios ou alheios, dedicado ao superior desígnio nacional que, sob o alto patrocínio de futebolistas e outros académicos, nos intima a “orgulhar-nos”. No estado actual das coisas, será um pouco como aquelas pessoas que gostam de repetir que “lá na terra, éramos oito irmãos, andávamos andrajosos e descalços e só havia uma sardinha para dividir por todos, mas... tenho muito orgulho na minha aldeia!”. Sendo assim, mais vale, então, orgulharmo-nos de uma edição como esta que – ao contrário da desastrosa anterior Fado Portugal/200 Anos de Fado – oferece um panorama compreensivo (e compreensível) do género: dois CD de clássicos (de Marceneiro e Amália a Carlos Ramos e Teresa de Noronha, com passagem por José Afonso), outro dedicado à guitarra portuguesa (de Armandinho a Paredes e Ricardo Rocha) e um último aos novos (Camané, Cristina Branco, Carminho, Ana Moura...). Não menos interessante é o texto de José Alberto Sardinha onde expõe a tese sobre as raízes do fado no romanceiro tradicional, desenvolvida no seu livro de 2010, A Origem do Fado.

08 February 2010

A REGRA, O CÓDIGO, A SINTAXE



Ricardo Rocha - Luminismo

Que se pode esperar da música de um executante/compositor de guitarra portuguesa que repete obsessivamente que não tem nenhuma paixão pela guitarra, que – à excepção das tentativas de Carlos Paredes e Caldeira Cabral – nunca existiu nem existe nenhuma linguagem musical para ela no século XX, que “já não é possível fazer nada de diferente numa grelha de doze sons”, que “abomina” o seu tempo e que “gravar é completamente inútil”? Provavelmente, algo como este Luminismo (quase um segundo volume do anterior Voluptuária), brilhante e virtuosíssimo exercício interpretativo de temas próprios e de Paredes e Cabral, no primeiro CD, e, no segundo, colecção de peças para o piano de Ingeborg Baldaszti, algures entre o simbolismo místico de Scriabin e a ponte que ele lançou (e Ricardo atravessa decididamente) para o território do serialismo, aqui cavado de silêncios, minuciosamente filigranado, como que uma sucessão de gestos arrebatadamente românticos mas severamente disciplinados pela regra, pela obediência aos códigos idiomáticos e à racionalidade da sintaxe.

(2010)