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05 February 2024

 
(sequência daqui) Uma pequena correcção: dos armários não sairam apenas as guitarras mas, principalmente, aquilo a que, carinhosamente, Carlos Guerreiro chama "os meus trecos". A saber, entidades sonoras do Além que dão pelos nomes de caixofone, turuta, carretofone, cadeireta, canarion, cabeçadecompressorofone, tubarões, sanfonocello, serpentalho e túbaros de Orfeu, saídas da sua mente de "luthier" de Belzebu. Como, sem um pingo de modéstia fingida, ele explica, "O que fez aqui a grande diferença foi a introdução dos meus trecos - só de olhar para eles, ninguém dá nada por aquilo, parecem lixo - em música a sério. Isto é um velho sonho: quando comecei a construir os primeiros instrumentos com os Gaiteiros, na altura, lançámo-nos a fazer as primeiras partes dos concertos da Setima Legião. O Ricardo Camacho adorava aqueles instrumentos e passava a vida a dizer-me 'Sampla isso!' Aquela proposta para mim era um ultrage: nunca na vida, porque eu queria... 'a verdade do destempero'! Acabei por deixar-me convencer e fiz imensos 'samples'. A coisa que me deu mais gozo foi perceber que aquilo, timbricamente, muda um bocado a temperatura das coisas e isso condicionou todo o processo". (segue para aqui)

18 June 2012

O SILÊNCIO E O ESPAÇO

Em Fevereiro de 1999, Ricardo Camacho, numa conversa numerologicamente peculiar a propósito de O Sexto Sentido (sexto – incluindo o live, Auto de Fé, de 1994 – e último álbum da Sétima Legião), travada num sexto andar da Rua de Campolide entre seis interlocutores, garantia que “este e o primeiro álbum são, provavelmente, os nossos dois discos mais homogéneos”. E defendia-o explicando que “no fundo, é como se todo o disco fosse uma música só. A ironia é que, contra a vontade colectiva (deve ser uma das poucas coisas que nos unem), acabámos por chegar ao álbum conceptual!”. Camacho – que, para além de médico, já fora também crítico de música e confessava, por vezes, compor a partir de textos críticos sobre discos que não ouvira – não poderia fazer uma autoavaliação mais acertada: se a totalidade da discografia da Sétima Legião deve ser classificada no patamar superior da pop portuguesa da segunda metade do século XX, A Um Deus Desconhecido (1984) e O Sexto Sentido são as duas colunas sobre que assenta tão elegantíssima ogiva. E, agora que a obra integral de estúdio do grupo volta a estar disponível, não haverá mais oportuno pretexto, não apenas para a fazer conhecer junto de desatentos e infiéis, como para lhe traçar mais nitidamente o perfil.

A verdade é que tanto o álbum de estreia como o derradeiro – que, por muito boas razões, esteve para se chamar “Nações Unidas” –, ainda que de forma absolutamente diferente, acabaram por obedecer a um mesmo princípio: abdicar de tudo o que fosse inútil e supérfluo e guardar apenas o estritamente essencial. Daí que, embora a ambição que gerou O Sexto Sentido fosse enorme (edificar um quase cinemático painel sonoro em torno de uma ficção sobre o universo da tradição popular portuguesa construída sobre samples de recolhas etnográficas de Michel Giacometti, apontamentos avulsos de flauta do sultanato de Omã, atmosferas de medinas árabes e meia dúzia de compassos de Wagner), o método tenha sido implacável: “Nas primeiras experiências, queria incluir tanta coisa na mesma música que acabava por soar mal, era excessivo e não existia um fio condutor. Conseguia uma voz daqui, outra dacolá, e soavam todas bem umas com as outras mas a coisa em si não chegava a existir. Muito do trabalho final foi limpar as misturas, deitar fora, para chegar à forma definitiva que acabou por ser muito minimal” (Ricardo Camacho). 

No pólo oposto (ou, no fundo, talvez não), A Um Deus Desconhecido era, desde o início, osso, nervo e a pura assombração de uma espécie de fado parido na neblina britânica que sufocou Ian Curtis (“Desce um véu, arde a catedral, anjo negro no céu, lá vem o vendaval”), vertido em esquemáticas molduras de guitarra, pontuação de baixo, transparências de teclas e o uivo da gaita de foles de Paulo Marinho que, em instrumentais como "Pois Que Deus Assim O Quis" – afinal, outro modo de dizer “foi por vontade de Deus” –, soprava já a vela épica e trágico-marítima que, qual poster sonoro da memória de um imaginário realismo-socialista arcaicamente medieval, haveria de gerar os três registos – Mar D’Outubro (1987), De Um Tempo Ausente (1989) e o quase-herético em relação ao regime minimal, O Fogo (1992), que alojariam a Sétima nos ouvidos lusos. Eles – Camacho, Marinho, Rodrigo Leão, Pedro Oliveira, Nuno Cruz, Gabriel Gomes, Paulo Abelho e Francisco Menezes – eram a banda “que nem sequer toca assim tanto” e que achava que “muito mais importante do que fazer um imortal solo de guitarra é poder, mudar, virar, transformar as coisas”. E, também e por isso mesmo, a banda de “Sete Mares”, “Por Quem Não Esqueci”, “Ascensão”, “A Reconquista”, “A Norte do Mundo”, “Noites Brancas” ou “Além-Tejo”. Aquela que, ao contrário do que era a norma claustrofóbica das gravações da época (“enquanto houvesse uma pista livre, tinha de se meter lá alguma coisa”), preferia “gerir o silêncio e o espaço”.

03 May 2012

QUEM NÃO ESQUECEMOS


Sétima Legião - Memória

Nos idos de 80, quando o pop/rock luso, pareceu, por momentos, ir dispor de um futuro farto e próspero, para além de um pequeno enxame de frenéticas abelhas – umas desabridamente mercenárias, outras ferozmente "independentes" e "alternativas" – que a História apenas estatisticamente registará, os campos dividiram-se de modo razoavelmente claro: de um lado, a frente aventureira-experimental dos Mler Ife Dada e Pop Dell’Arte; do outro, a pop mais ou menos literário-conceptual dos Heróis do Mar e GNR; no centro, a oficina roqueira dos Xutos & Pontapés; por fim, sozinha no seu universo privado, a Sétima Legião. Sim, é simplificação, mas bastante menos abusiva do que possa parecer. E, agora que se celebram os trinta anos da fundação da banda de assombrosa estreia em álbum com A Um Deus Desconhecido (1984), mais óbvio se torna o espaço absolutamente singular (e fértil) que ela ocupou.



Com o ADN da Factory nos genes mas rapidamente mestiçada pelo contágio com as tradições populares portuguesas, galegas, irlandesas (mais pelo eixo-Pogues do que por outros), tão “nacionalista” e “trágico-marítima” quanto os Heróis mas muito menos caricatural, não só deixou uma imaculada discografia de estúdio em seis volumes (obrigatórios: o primeiro e o último, Sexto Sentido, 1999) como dela, em diversas direcções, e com vário sucesso estético, emergiriam os Madredeus, Gaiteiros de Lisboa e, a solo, Rodrigo Leão. Como todas as colectâneas, esta persegue a síntese impossível mas, no caso da Sétima, particularmente dificultada pela uniformemente superior qualidade da obra. Tudo o que aqui está é muito bom, tudo o que ficou de fora também. E o DVD que regista o concerto no Pavilhão Carlos Lopes, de 29 de Dezembro de 1990 (mais 8 videoclips), é o diamante na coroa. (amanhã, no Coliseu de Lisboa, às 21.30)

01 March 2009

TERRA (QUASE) INCÓGNITA

Né Ladeiras - Essência: Os Anos Valentim de Carvalho 1982–1983
Por esta altura, deverá começar a ficar cada vez mais nítida a ideia de que foi no último terço do século XX que a música popular portuguesa conheceu aquilo que se costuma designar por “anos de ouro”. Após décadas do chamado “nacional-cançonetismo” (no qual, em consequência da associação automática aos tempos do Estado Novo, uma boa mão cheia de standards dignos de figurar em qualquer songbook de pergaminhos ilustres foi, durante demasiado tempo, bastante mal amada), de proletarismos de Parque Mayer, de folclorismos de propaganda oficial, da lenta mutação da matriz do fado e do caricatural “yé-yé” paleolítico – com a desejavelmente esquecível baladeirice “de protesto” em fugaz interregno –, no final dos anos 70, fruto do impacto em terreno local dos estilhaços da explosão punk e do arejamento com que as gravações de José Mário Branco e Sérgio Godinho haviam despoluído a atmosfera, iniciou-se claramente uma nova era. O cânone dos clássicos de então – dos GNR, Pop Dell’Arte e Mler Ife Dada aos Xutos, Variações e Sétima Legião – está suficientemente estabelecido mas, ainda assim, restam ainda uma ou duas zonas obscuras que, no processo de reavaliação, foram ficando, descuidadamente, esquecidas.
 
 

A discografia de Né Ladeiras, dos mais recentes Da Minha Voz (2001), Todo Este Céu (1996, dedicado às canções de Fausto) e Traz-os-Montes (1994, em torno da tradição do Nordeste) aos primeiros álbuns a solo, após a participação em registos da Brigada Vitor Jara e da Banda do Casaco, é um desses territórios virtualmente ignorados que apenas sobrevivem na (melhor) memória de quem, na altura, os escutou. Se Corsária (1989, acto de veneração perante a lendária Greta Garbo, produzido por Luís Cília) ainda foi confidencialmente publicado em CD, o EP Alhur (agora, em Essência, reunido ao mini-LP de 1983, Sonho Azul, que também já conhecera meteórica existência digital), continuou, durante vinte e sete anos, ausente em parte incerta, no limbo do vinil. Dificilmente se poderia ter cometido maior delito por omissão: nas suas quatro faixas (“Húmus Verde”, “Holoteta”, “Essência” e “Alhur”), redescobre-se, agora, o intrigante lugar onde – com produção de Ricardo Camacho, textos de Miguel Esteves Cardoso e mão-de-obra instrumental dos Heróis do Mar – os ecos da música tradicional portuguesa se deixam devorar pelo fantasma de uma Nico gentilmente rústica e as polifonias vocais serranas fazem sobrenatural raccord com a claustrofobia sonora da estética Martin Hannett/Joy Division. 
 
 

Um ano depois, Sonho Azul mudava radicalmente de cenário: entre a reinvenção da canção "easy/lounge" e uma amabilíssima dance music de salão, com pontes imaginárias lançadas para os vetustos universos do swing e da "torch song" ligeira, os oito temas escritos a quatro mãos por Pedro Ayres de Magalhães e Né (em especial, “Os Sinos”, “Em Coimbra Serei Tua” e “Sonho Azul”) e cinzelados por Mário Laginha, Carlos Martins, Tomás Pimentel, António Emiliano e Ricardo Camacho eram um exercício de estilo deliciosamente frívolo que, lamentavelmente, não deixou descendência. Verdadeiramente digna de medalha no 10 de Junho – para além da reedição integral do que falta repor em circulação – seria a exumação do mítico "lost album" da cantos populares religiosos começado a produzir por Hector Zazou em 1999, na igreja de Montemor-o-Velho, e abruptamente interrompido devido às proverbiais “divergências”. Qualquer que fosse o estado de finalização, mesmo enquanto work in suspended progress, faria, decerto, a felicidade de muitos. (2009)