28 December 2021
16 April 2021
(sequência daqui) A verdade é que tanto Merrill como Nate são um verdadeiro caldeirão cultural. Ele, devoto de “Red Hot Chili Peppers, George Clinton, Bootsy Collins… o meu pai era um pouco snob musicalmente e preferia jazz e Beethoven, a minha mãe ouvia Beatles, Michael Jackson, Earth Wind & Fire”; ela, fã de “Deerhoof mas também David Bowie, Laurie Anderson, gente que integrava a 'performance art' na música. Em termos especificamente musicais, Joni Mitchell, as Zap Mama, pela forma como exploravam a voz como um instrumento rítmico, Bobby McFerrin, e os Beatles, pela riqueza e complexidade que injectaram na canção pop”. Tudo isso, porém, submetido à norma de nunca pisar a linha proibida: “É muito importante e desejável que os músicos se influenciem uns aos outros mas, actualmente, não é, de todo, possível continuar a fingir que ignoramos como as pessoas negras são tratadas. Não somos uma banda famosíssima mas não queremos alinhar nesse fingimento. O que vivemos não pode ser aceite como normal”. A normal anormalidade dos quatro intermináveis anos do pesadelo Trump, “uma agonia perante a rejeição dos outros assente na mitologia de quem somos ‘nós’ e quem são ‘os outros’. Os músicos brancos podem sempre refugiar-se naquele lugar comum de que a música é uma linguagem universal. Mas não podem fingir que não reparam – aqui como na Europa – que as nossas sociedades serão cada vez menos brancas. Se não formos capazes de lidar com essa interiorização do pensamento racista sobre a forma como se encara a diferença, irão existir mais erupções de violência como as actuais”.
Sketchy é, entretanto, um reflexo exuberante, ritmicamente arrebatado e multicolorido de tudo isto: “Fazemos música e uma parte importante disso é um convite à alegria e a movimentarmos o corpo, o que é tanto uma celebração da vida como um exame de tudo o que temos estado a falar. Quando eu e o Nate nos juntámos quisemos redescobrir o prazer primordial de fazer música. As cores garridas da capa deste álbum representam um pouco esse desejo de continuar a olhar para o sol embora saibamos que ele nos pode cegar”. O que, contudo, nunca a impedirá de observar e desmontar cirurgicamente a sapiência dos mestres como acontece, logo a abrir, em "Nowhere, Man", quando canta “Seems like Jesus and Dylan got the whole thing wrong, if you cannot hear a woman then how can you write her song?”. "Just Like A Woman"? (risos) “Anda toda a gente a tentar descobrir quem é essa ‘woman’. Mas podem ser muitas... essa, a de ‘Lay Lady Lay’, a de ’Like A Rolling Stone’... o meu pai era um enorme fã do Bob Dylan e aí eu reflicto sobre como a minha história enquanto mulher teria já sido escrita nessa altura. E como essa percepção do que uma mulher é foi escrita por quem nunca viveu num corpo de mulher”.
29 August 2008
Sigur Rós - með suð í eyrum við spilum endalaust
Nenhuma banda que se preocupe realmente a sério com o sucesso comercial publica, sucessivamente, quatro álbuns cujas canções são vertidas num idioma imaginário que nem um só fã, de isqueirinho na mão, consegue reproduzir. Nenhuma banda com planos megalómanos de dominar o mundo e enxotar a concorrência de U2, Coldplays e quejandos cai na asneira de intitular um disco (). Nenhuma banda que sonhe trepar pelo que resta dos top-tens do universo, no exacto instante em que, mal disfarçadamente, se murmura que “desta é que vai ser”, se decide a trocar o tal linguajar exótico pelo quase tão hermético islandês e a baptizar o suposto álbum do definitivo “breakthrough” como með suð í eyrum við spilum endalaust. Muito em particular, quando se descobre que, na tradução inglesa, isso significa “with a buzz in our ears we play endlessly”, o que, no caso em apreço dos Sigur Rós, poderia muito facilmente ser uma caricatura sarcástica da identidade sonora do grupo. Claro que tudo isto faria imensamente sentido no interior de uma ética/estética “indie” ortodoxa que tivesse como objectivo último garantir a existência de uma modesta rede de células de fãs clandestinas, esparsamente alojadas entre os sótãos de Reykjavik, os albergues de juventude do Lake District e as garagens de Telheiras.
O que resultou, no entanto, de tal opção? Uma corte de fãs que inclui Brad Pitt, Madonna, Tom Cruise, Natalie Portman, David Bowie, os Metallica, Red Hot Chili Peppers, Foo Fighters, Radiohead e... Coldplay; uma auspiciosa carreira paralela como arquivo potencial de bandas sonoras, na variante-algodão doce, para cinema e televisão; e uma discografia que continha, até agora, o género de música que fundia a estética 4AD reciclada, uma espécie de My Bloodless Valentine e aquilo que se deverá ter escutado nos céus de Aqaba, quando Moisés dividiu as águas do Mar Vermelho. Alguém disse “indie”? Se disse, até pode voltar a repeti-lo agora. Porque með suð, num ensaio razoavelmente conseguido de iludir as expectativas, quase inverte a percepção que tínhamos dos Sigur Rós: muito detalhismo sonoro acústico na descendência directa do que se observava no DVD Heima, uma alma quase pop aqui e ali, a aproximação (em “Gobbledigook”) ao pequeno caos de “kindergarten” dos Animal Collective e (tinha de ser...) ainda um pouco de Moisés-no-Mar-Vermelho em “Festival” e “Ara Bátur” – um épico de nove minutos em versão “thinking man’s Andrew Lloyd Weber”. Prevê-se engarrafamento na “guest-list” de fãs “mainstream”.
(2008)