Segundo reza a lenda (ainda uma pequena lenda doméstica que se agigantará ou não), da primeira vez que, numa gélida noite de Novembro, na Southbank de Londres, os percussionistas Nick Mulvey e Duncan Bellamy se entregaram à mui nobre e vetusta arte do busking – isto é, a de músicos de rua – a aventura rendeu-lhes oitenta libras. Uma fortuna comparada com o miserável fiver que Milo Fitzpatrick (o contrabaixista) e Jack Wyllie (saxofonista) recolheram, numa esquina próxima. Mais importante, no entanto, seria a reunião dos quatro sob a designação de Portico Quartet que, em dois álbuns – a estreia, Knee-Deep In The North Sea, de 2007, e, agora, este Isla –, os conduziria do "trottoir" (sem ofensa) londrino à shortlist do Mercury Prize.
Coisa não exactamente habitual numa banda que se reclama do legado musical de Reich e Glass, obliquamente, de um jazz tão livre quanto polidamente “moderno” (aqui, a referência mais imediatamente próxima só poderá ser a Cinematic Orchestra) e de uma multiplicidade de referências mais ou menos “étnicas”, dos gamelãs do Bali às estruturas cíclicas de alguma música africana. Papel central, segundo os próprios, desempenhará o "hang", um híbrido de "steel-drum" e gamelã de origem suiça e recentíssima, embora de modo muito menos vincado em Isla. Encontra-se, sem dúvida, presente e, em diversos momentos, é-lhe, de facto, confiado o papel de reorientador e ordenador da arquitectura sonora mas, pelo menos tão decisivo, é o evidente desejo de explosão combinada do sax de Wyllie e das percussões, alimentados pelo desenho tenso e sinuoso das cordas de Fitzpatrick, em momentos de libérrima improvisação. É esse o melhor Portico. Porque, quando apaziguado, cinematicamente decorativo, burguesmente “ambiental”, o quarteto escorrega, facilmente, para a "coffee-table-music".
22 March 2010
DA RUA AO PÓS-JAZZ
Começaram como "buskers", músicos de rua, e acabaram – por agora – na shortlist do Mercury Prize: “Não havia, de todo, nenhum plano. Apetecia-nos fazer música, dava jeito ganhar uns trocos e, como nenhum de nós tinha casa própria, era muito conveniente encontrarmo-nos na rua para tocar”. Convidados para actuar em Itália num festival ao ar livre, num dia de mau tempo, foram obrigados a abrigar-se sob um pórtico e, daí, retiraram o nome por que passariam a ser designados: Portico Quartet. O percurso musical, porém, não poderia ter sido mais informal: “Inicialmente, não tínhamos um reportório definido, era tudo muito improvisado. Mas não foi difícil descobrir uma estrutura na música que fazíamos, isolar os elementos que funcionavam e trabalhar a partir deles. Não existe, ainda hoje, no entanto, um processo de criação estabelecido. No primeiro álbum, partimos de ciclos rítmicos, sequências harmónicas, e compusemos de uma forma texturada sobre eles. Agora, estamos a tentar proceder de uma forma um pouco mais visual, romper com algumas rotinas e experimentar outras ideias. Por exemplo, peças sem qualquer padrão estrutural que persigam uma linha única de desenvolvimento”.
Tendencialmente catalogados no interior daquela cena musical londrina a que se convencionou chamar pós-jazz (“é um conjunto de bandas que faz música fora da tradição reconhecida do jazz, como os Polar Bear ou Acoustic Ladyland, com influências do rock, do punk e de música electrónica. Arrumaram-nos aí também. Mas não nos encaramos, realmente, como músicos de jazz, não nos vemos como parte desse continuum”), poderiam também, facilmente, entender-se como a derradeira descendência de uma pequena genealogia de bandas britânicas da década de 80, influenciadas por Philip Glass, Steve Reich e pela "systems music" em geral – Regular Music, Lost Jockey (ambas com Andrew Poppy na tripulação), os passos iniciais de Michael Nyman – que, de caminho, prestou atenção à Cinematic Orchestra e tropeçou no "hang drum", o instrumento em torno do qual estruturariam a sua personalidade musical: “Foi decisivo. Não é possível imaginar como teria sido a nossa música na ausência dele. Esteve presente desde o início e actuou como uma espécie de ressoador dos nossos interesses colectivos. Encorajou-nos a desenvolver uma forma de tocar cíclica, repetitiva e hipnótica. Como, na altura, também ouvíamos muita música africana, Steve Reich e Philip Glass, foi um encontro feliz que nos permitiu encontrar uma via onde tudo isso se poderia articular com um certo ângulo jazzy”.
Apesar de, aparentemente muito “escrita” e bastante estruturada, a música que se pode escutar nos dois álbuns do quarteto – Knee-Deep In The North Sea (2007) e Isla (2009) – nasce de um modo bastante livre: “Improvisamos em colectivo e é-nos muito fácil – com o "hang" a desenhar padrões repetitivos no baixo e o trabalho melódico entregue ao saxofone – descobrir um rumo. Pode dizer-se que o "hang" é um primo do "steel-drum": foi inventado há cerca de dez anos, na Suiça, por uma empresa, a Panart, que procurou combinar características dos gamelãs, da Indonésia, com os "steel-drums". Levaram imenso tempo a conceber um novo tipo de aço, muito duro mas, ao mesmo tempo, bastante fino e reactivo”. Sem formação instrumental propriamente académica (o saxofonista, Jack Wyllie, e o contrabaixista, Milo Fitzpatrick, tocaram na Southampton Youth Jazz Orchestra e os outros, entre art-colleges vários, a School of Oriental and African Studies e o Goldsmith's College, estudaram arte e etnomusicologia), os Portico são, enfim, os primeiros a reconhecer que, se têm como matriz o vocabulário reich-glassiano, a hibridização que lhe imprimem só pode jogar a seu favor: “De certo modo, pode dizer-se que partimos dessas linguagens musicais mas não nos restringimos a elas. Escutamos outras músicas – rock, hip-hop – e acabamos por aglutinar tudo isso. E, de facto, não seria fácil ver um álbum de Reich nomeado para o Mercury Prize”.