10 August 2015
29 April 2007
"In The Darkest Place" (álbum integral aqui)
À noite, no palco da sala da Southbank, ficaria bem visível o grau de cumplicidade que Costello e Bacharach atingiram. Num espectáculo milimetricamente planificado, houve espaços comuns para a totalidade das canções de Painted From Memory, lugar para "medleys" de temas de Bacharach sozinho com orquestra e côro, e oportunidade para Elvis (com o ex-Attractions, Steve Nieve, incorporado no "ensemble") rever temas do seu reportório pessoal e oferecer a sua versão daquelas peças do mestre — "desta vez, com os acordes correctos...", como ironicamente observou — que particularmente venera. Todas interpretadas com o mais absoluto rigor (conseguido, quem adivinharia, no ensaio de uma tarde) a sublinhar a extraordinária elegância, subtileza e sofisticação dos arranjos de Bacharach. A Costello ficaram entregues as apresentações das canções de "love gone right and then gone wrong" dedicadas ao "clube dos sedutores melancólicos", a explicação dos assuntos mais difíceis ("Esta canção, 'The Long Division', trata de um tema terrívelmente adulto para que os franceses possuem uma expressão com que não vos irei incomodar" foi a forma que ele encontrou para não dizer "ménage à trois") e o reconhecimento público da invulgaridade de tocar guitarra eléctrica envergando um "smoking". A ocasião, de facto, era solene. Burt Bacharach, esse, estava de fato azul claro e camisa de colarinho desabotoado, sem gravata. (1998)
15 February 2007
Pizzicato Five - Playboy & Playgirl
Das Shonen Knife a Kahimi Karie ou aos Plastic Fantastic Machine (e restante equipa de prodigiosos espíritos mutantes da editora Bungalow), o que é realmente extraordinário é a forma absolutamente séria como esta ala ultra-retro-moderna da pop japonesa se recusa terminantemente a levar-se a sério. Se estivesse em dia de me apetecer fazer uma conferência sobre a influência do budismo zen sobre a pop contemporânea, explicaria como qualquer um dos seus discos tem muito mais a ver com isso do que mil declarações místicas de David Sylvian.
Mas posso, ainda assim, citar aquele sábio que afirmava que o zen é apenas "comer quando se tem fome, beber quando se tem sede e dormir quando se tem sono". Ou, acrescento eu, fazer os discos que nos apetece, como nos apetece e quando estamos para aí virados sem termos de perder um segundo com justificações.
Por outras palavras, se houver quem lhe apeteça imaginar que Tokyo é Londres no ano 2065 (por sinal, muito parecido com 1965), que o Festival da Eurovisão (qual NATO esquecida de que a sigla se refere ao Atlântico Norte) não só passou a acolher também o Japão como se transformou na Salzburgo do futuro e que o facto de nada disso fazer o menor sentido é absolutamente irrelevante, por favor, estejam à vontade.
Não terão, possivelmente, reparado mas, neste último período, descrevi quase por completo Playboy & Playgirl, dos Pizzicato Five.
Não desprezando o factor exótico de, aos nossos pobres ouvidos ocidentais, ser sempre muito sedutor escutar um disco que abre com uma voz de gueixa a sussurrar "Kinokiita otoko no ko, koko shibaraku deawanai" (que, já agora, com mais outros quantos fonemas acrescentados, se traduz, em inglês, para "Good boys, I don't find them lately, a sweet, cute, rich boy"), o que fica para além disso também não é nada de deitar fora.
Quero dizer, não é todos os dias que se tem a oportunidade única de se fazer uma viagem ao passado guiado por quem nunca o viveu (e, se o tivesse vivido, nem sequer o reconheceria mesmo que ele lhe mordesse), traduzido para uma língua e uma cultura completamente diferentes e radicalmente reimaginado sem a mais pequena preocupação de fidelidade histórica. Isto, claro, sou eu a especular porque eles, naturalmente, não pensaram em nada disso.
Misturaram simplesmente o que viram (ou julgaram que viram) e ouviram de Blow Up com James Bond, Os Vingadores, Audrey Hepburn, Sandie Shaw, O Santo, Twiggy, Carnaby Street, Knightsbridge e a "nouvelle vague" (reparem como aqui há muito mais imagens do que sons e, depois, verifiquem como isso se reflecte na música), tropeçaram em quatro ou cinco compilações de Burt Bacharach, da série "Top Of The Pops" e uma ou duas bandas sonoras de John Barry, viveram em casa dos disciplinadíssimos pais e, depois, começaram a gravar discos.
Aqui chegados, façam o favor de prestar atenção ao efeito "time warp" — acrescentado do inevitável "cultural warp" — e abram bem as orelhas para a total ausência de "self consciousness" (é como eu dizia, eles nem sequer pensaram nisso) que distingue radicalmente tudo isto da opereta britpop. Ou seja (olá zen, outra vez), eles divertem-se (e divertem-nos), mas nada daquilo é a sério.
E ai de quem disser o contrário! Os títulos — "La Dépression", "Rolls Royce", "Concerto", "Week-End", "La Règle Du Jeu", "Magic Twin Candle Tale", "Playboy Playgirl" — explicam quase tudo o que não há para explicar e, pelo meio de treze "lollipops" sonoros de coloridíssimo açúcar, não deixemos escapar um ou outro haiku como "Yasashii asa no chocola no nioi honno sukoshi hayaku okita aki no hi", isto é, "Scent of chocolate in one charming morning, waking up a little bit early in one Autumn morning". "Aki no hi" para si também. (1999)