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10 August 2015

PARA QUINZE PESSOAS 

 
Deverá haver quem, por esta altura, imagine que Momus terá já metido os papéis para a reforma. Não que, mesmo quando, na segunda metade dos anos oitenta, publicou Circus Maximus, The Poison Boyfriend, Tender Pervert e Don’t Stop The Night, se tenha sequer aproximado do final do corredor que dá acesso à transição de personagem de culto segredado para candidato a pop star. De onde em onde, alguém achava apropriado atribuir importância aquela espécie de síntese improvável entre Cohen, Brel, Bowie, Weill, Gainsbourg e, a partir de certa altura, Pet Shop Boys, capaz dos mais requintados jactos de sarcasmo (“If you get no joy from music hall, remember there is always alcohol, and if you get no joy from gin, here is the abyss: jump in!”), minuciosas explorações devassamente antropológicas (“What is the cultural meaning of coming in a girl's mouth?”) ou a entomologia social de tipos como o “maoist intellectual” (“My downfall came from being three things the working classes hated: agitated, organised and over-educated”). Mas nada que lhe garantisse, ao menos, o lugar de assessor do bem mais famoso discípulo, Jarvis Cocker. 

 
Na verdade, Momus, aliás, Nicholas Currie, criador do lema distorcidamente warholiano, “In the future, everyone will be famous for fifteen people", nunca parou: nomadeando entre o Reino Unido, Paris, Nova Iorque, Berlim e Tóquio – seria aqui que, realmente, se tornaria “big in Japan”, em plena onda Shibuya-kei, a dos Pizzicato 5, Cornelius e Kahimi Karie, para quem comporia diversas canções –, editou, no total, 30 álbuns, colaborou com a “Wired”, “New York Times” e “Art In America”, deu aulas de sound-art na Universidade de Hokkaido, participou em conferências, foi “unreliable tour guide” no Whitney Museum, na Schrin Kunsthalle, de Frankfurt, e no Museu Nobel, de Estocolmo, publicou quatro livros, teorizou e polemizou na blogocoisa. E, este ano, após ter lançado o triplo Turpsycore, anuncia o novo Glyptothek e o romance Herr F (Everything Living Forever is Screaming Forever), uma variação sobre o tema de Fausto. Naturalmente, com o miserável número de caracteres que me resta até bater no fundo desta coluna (que terá, inevitavelmente, sequência), apenas adiantarei que o 2º e 3º CD de Turpsycore são dedicados a David Bowie e Howard Devoto, o misantropo pós-punk, ávido de Kafka e Dostoievsky. (continua aqui)

29 April 2007

VELHO E JOVEM MESTRES


Burt Bacharach é o compositor favorito de Brian Wilson. Frank Zappa elogiou-o publicamente pela invulgar sofisticação musical que as suas canções introduziram nas tabelas de vendas de discos de todo o mundo. Ira Gershwin autografou-lhe uma partitura com a dedicatória "Para Burt, o 5º 'B': Beethoven, Brahms, Berlin, Bach e Bacharach". John Zorn por pouco não chegou a vias de facto com um proeminente crítico de jazz que se atreveu a pôr reticências à ideia de um músico da vanguarda "downtown" de Nova Iorque abordar a música do autor de "I Say A Little Prayer". Marlene Dietrich — para quem, entre 58 e 61, Bacharach trabalhou como director musical —, apresentava-o como "meu acompanhador, meu arranjador e, desejaria poder dizê-lo, meu compositor, mas, infelizmente, não é verdade. Ele é o compositor de todos os cantores". Sammy Cahn descreveu-o como "o único escritor de canções do Brill Building que não se parecia com um dentista".



E, dos Oasis a Aretha Franklin, Tony Bennett, Dionne Warwick, Massive Attack, Dusty Springfield, Fred Frith, Pizzicato Five, Sandie Shaw, Stereolab, Walker Brothers, Bill Frisell, R.E.M., Shirelles, Eric Matthews, Frank Sinatra, Erasure, Drifters, Combustible Edison ou Ani Di Franco, todos o reclamam como um dos seus ou, no mínimo, já interpretaram uma canção assinada por ele.
Não admira, por isso, que Elvis Costello — o "príncipe do punk" — tenha visto com muito bons olhos a ideia de se lhe juntar para a composição, a quatro mãos, de um álbum inteiro de canções, Painted From Memory. Stan Getz, McCoy Tyner ou Zorn já lhe haviam dedicado álbuns inteiros de homenagem e, ele, Bacharach, discípulo de Darius Milhaud (que lhe ensinou a nunca ter receio de uma boa melodia), Martinu e Henry Cowell, fanático confesso de Charlie Parker, Thelonious Monk, Dizzy Gillespie, Debussy e Ravel, aos setenta anos, era, de novo, indiscutivelmente "cool".


Austin Powers

No filme Austin Powers, aparecera como ícone da sofisticação urbana, as suas canções, em O Casamento do Meu Melhor Amigo, eram tão importantes como os diálogos que Julia Roberts ou Rupert Everett interpretavam, em Doidos Por Mary, o tema "Close To You" desencadeara uma tragicomédia e, para um iconoclasta mas devoto dos clássicos como Costello, a tentação era demasiado grande. O disco contém algumas das melhores canções que qualquer dos dois alguma vez escreveu e, há duas semanas, ambos juntaram-se em Londres para uma conferência de imprensa e uma apresentação no Royal Festival Hall que, por agora, encerrou aquilo que eles, de bom humor, designaram como a sua "extensa digressão mundial de cinco concertos". Com três Óscares, quatro Grammies e um currículo de canções que o planeta inteiro assobia ("What The World Needs Now Is Love", "Walk On By", "Close To You", "The Look Of Love", "Raindrops Keep Falling On My Head", "I'll Never Fall In Love Again", "What's New Pussycat?", "This Guy's In Love With You", "Anyone Who Had A Heart" e, literalmente, dezenas de outras), Burt Bacharach desempenhou o papel de descontraído e experiente mestre de cerimónias enquanto Costello foi o discípulo visivelmente excitado pela proximidade da ilustre companhia.


Ambos contaram, então, como se juntaram para, via telefone e fax, comporem a meias uma canção para o filme Grace Of My Heart ("Tínhamos quatro ou cinco dias para escrever e gravar "God Give Me Strength" entre Dublin e Los Angeles. Nem tivemos tempo para nos preocupar com a ideia de se tudo iria acabar bem ou mal. E saiu muito bem. A princípio, não possuíamos sequer a noção da duração total da música. Quando reparámos que tinha seis minutos, ficámos de boca aberta!") e a forma como, a partir desse início, o conhecimento e a amizade entre os dois se estabeleceu: "Ele — diz Bacharach — conhecia melhor a minha música do que eu a dele. A verdade é que, em relação aos primeiros discos dele (ainda muito influenciados pela insolência punk) não prestei muita atenção... Eu fazia outro tipo de coisas e ouvia mais a música negra urbana de Detroit, Memphis e Filadélfia. O rock parecia-me demasiado simplista. Por isso, se calhar erradamente, não fui reparando nas incursões que ele fazia pela country, pelo jazz ou com o Brodsky Quartet. É, de facto, um aventureiro!".


Elvis Costello - "All This Useless Beauty" (Burt Bacharach's request)

Costello, pelo seu lado, confessa que, embora tenha encontrado em Bacharach alguém capaz de, como ele, ficar absolutamente obcecado pelo trabalho, "nos intervalos, conversávamos muito e, naturalmente, acabámos por ficar amigos. As únicas vezes em que, durante as gravações, parámos, foi para ver as transmissões do Campeonato do Mundo de futebol e, no caso dele, que é um fanático por cavalos, do Kentucky Derby". Mas, acrescenta, "nunca senti que existisse entre nós uma diferença de idades, nunca houve uma relação entre o mais velho e o mais novo. Estabelecemos uma relação de trabalho entre o mestre e o mestre mais jovem sendo ele, evidentemente, o mestre mais jovem!"
Depois, inevitavelmente, vem à conversa o facto de Noel Gallagher, dos Oasis (que colocaram uma imagem de Bacharach na capa do seu primeiro álbum), ter subido ao palco durante um concerto de Burt, em Londres, para interpretar "This Guy's In Love With You" mas este, ainda que reconheça que a experiência "foi divertida" e que "gosta que gostem dele", garante que não se vê "a fazer com ele o mesmo que com Elvis Costello". E, pouco antes de partir apressadamente para quatro horas de ensaio com uma secção de cordas que nunca antes vira as partituras que deveria executar nessa mesma noite, o suposto imperador coroado do "easy listening" não se vai sem primeiro oferecer o seu ponto de vista acerca desse título: "Nunca pensei que a minha música fosse assim tão fácil de escutar. Mas, se as pessoas sentem a necessidade de lhe colocar essa etiqueta, isso também não deixa de constituir um reconhecimento".



"In The Darkest Place" (álbum integral aqui) 

À noite, no palco da sala da Southbank, ficaria bem visível o grau de cumplicidade que Costello e Bacharach atingiram. Num espectáculo milimetricamente planificado, houve espaços comuns para a totalidade das canções de Painted From Memory, lugar para "medleys" de temas de Bacharach sozinho com orquestra e côro, e oportunidade para Elvis (com o ex-Attractions, Steve Nieve, incorporado no "ensemble") rever temas do seu reportório pessoal e oferecer a sua versão daquelas peças do mestre — "desta vez, com os acordes correctos...", como ironicamente observou — que particularmente venera. Todas interpretadas com o mais absoluto rigor (conseguido, quem adivinharia, no ensaio de uma tarde) a sublinhar a extraordinária elegância, subtileza e sofisticação dos arranjos de Bacharach. A Costello ficaram entregues as apresentações das canções de "love gone right and then gone wrong" dedicadas ao "clube dos sedutores melancólicos", a explicação dos assuntos mais difíceis ("Esta canção, 'The Long Division', trata de um tema terrívelmente adulto para que os franceses possuem uma expressão com que não vos irei incomodar" foi a forma que ele encontrou para não dizer "ménage à trois") e o reconhecimento público da invulgaridade de tocar guitarra eléctrica envergando um "smoking". A ocasião, de facto, era solene. Burt Bacharach, esse, estava de fato azul claro e camisa de colarinho desabotoado, sem gravata. (1998)

15 February 2007

ULTRA-RETRO-MODERNOS



Pizzicato Five - Playboy & Playgirl



Das Shonen Knife a Kahimi Karie ou aos Plastic Fantastic Machine (e restante equipa de prodigiosos espíritos mutantes da editora Bungalow), o que é realmente extraordinário é a forma absolutamente séria como esta ala ultra-retro-moderna da pop japonesa se recusa terminantemente a levar-se a sério. Se estivesse em dia de me apetecer fazer uma conferência sobre a influência do budismo zen sobre a pop contemporânea, explicaria como qualquer um dos seus discos tem muito mais a ver com isso do que mil declarações místicas de David Sylvian.



Mas posso, ainda assim, citar aquele sábio que afirmava que o zen é apenas "comer quando se tem fome, beber quando se tem sede e dormir quando se tem sono". Ou, acrescento eu, fazer os discos que nos apetece, como nos apetece e quando estamos para aí virados sem termos de perder um segundo com justificações.
Por outras palavras, se houver quem lhe apeteça imaginar que Tokyo é Londres no ano 2065 (por sinal, muito parecido com 1965), que o Festival da Eurovisão (qual NATO esquecida de que a sigla se refere ao Atlântico Norte) não só passou a acolher também o Japão como se transformou na Salzburgo do futuro e que o facto de nada disso fazer o menor sentido é absolutamente irrelevante, por favor, estejam à vontade.



Não terão, possivelmente, reparado mas, neste último período, descrevi quase por completo Playboy & Playgirl, dos Pizzicato Five.
Não desprezando o factor exótico de, aos nossos pobres ouvidos ocidentais, ser sempre muito sedutor escutar um disco que abre com uma voz de gueixa a sussurrar "Kinokiita otoko no ko, koko shibaraku deawanai" (que, já agora, com mais outros quantos fonemas acrescentados, se traduz, em inglês, para "Good boys, I don't find them lately, a sweet, cute, rich boy"), o que fica para além disso também não é nada de deitar fora.



Quero dizer, não é todos os dias que se tem a oportunidade única de se fazer uma viagem ao passado guiado por quem nunca o viveu (e, se o tivesse vivido, nem sequer o reconheceria mesmo que ele lhe mordesse), traduzido para uma língua e uma cultura completamente diferentes e radicalmente reimaginado sem a mais pequena preocupação de fidelidade histórica. Isto, claro, sou eu a especular porque eles, naturalmente, não pensaram em nada disso.



Misturaram simplesmente o que viram (ou julgaram que viram) e ouviram de Blow Up com James Bond, Os Vingadores, Audrey Hepburn, Sandie Shaw, O Santo, Twiggy, Carnaby Street, Knightsbridge e a "nouvelle vague" (reparem como aqui há muito mais imagens do que sons e, depois, verifiquem como isso se reflecte na música), tropeçaram em quatro ou cinco compilações de Burt Bacharach, da série "Top Of The Pops" e uma ou duas bandas sonoras de John Barry, viveram em casa dos disciplinadíssimos pais e, depois, começaram a gravar discos.



Aqui chegados, façam o favor de prestar atenção ao efeito "time warp" — acrescentado do inevitável "cultural warp" — e abram bem as orelhas para a total ausência de "self consciousness" (é como eu dizia, eles nem sequer pensaram nisso) que distingue radicalmente tudo isto da opereta britpop. Ou seja (olá zen, outra vez), eles divertem-se (e divertem-nos), mas nada daquilo é a sério.



E ai de quem disser o contrário! Os títulos — "La Dépression", "Rolls Royce", "Concerto", "Week-End", "La Règle Du Jeu", "Magic Twin Candle Tale", "Playboy Playgirl" — explicam quase tudo o que não há para explicar e, pelo meio de treze "lollipops" sonoros de coloridíssimo açúcar, não deixemos escapar um ou outro haiku como "Yasashii asa no chocola no nioi honno sukoshi hayaku okita aki no hi", isto é, "Scent of chocolate in one charming morning, waking up a little bit early in one Autumn morning". "Aki no hi" para si também. (1999)