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20 June 2018

O MOMENTO ANTES DE DISPARAR A SETA  (II)



    (sequência daqui) Pegando neste disco dos Inéditos, o projecto das cantigas de amigo medievais, tinha também a ver, nos teus primórdios, com uma ideia de identidade, de procura de uma raiz? 

Acho que é mesmo uma fruta do tempo. Coincidiram ali vários aspectos que talvez ajudem a perceber porque comecei por ir por aí... Zeca Afonso, movimento dos “baladeiros”... tínhamos discussões de caixão à cova entre nós por causa daquela prótese criativa que existia na altura e que era pegar nos livros dos poetas e fazer canções. O debate – que chegou a levar a cortes de relações – era sobre o que é uma canção. Uma canção não é uma poesia servir de auto-colante para uma música qualquer, é um objecto novo, uma linguagem diferente. É filha, mesmo no sentido genético, da música e da palavra. Não há hipótese de fugir a isso e eu insurgia-me contra essa mania dos livros de poemas (ainda por cima, coisas neo-realistas), e fazer canções a metro com dois, três acordes, primeira-segunda-e-marcha-atrás, uma melodização extremamente pobre e, frequentemente, contraditória com o sentido das palavras. Nem a música nem a poesia precisam de muletas para nada. São duas artes importantíssimas que existem por si. Depois, acontecem esses encontros e isso já é outra coisa. Desde a minha adolescência, existia uma ligação quase tão importante, da minha parte, à música como à poesia. À música enquanto música e à poesia enquanto poesia. 

    Que música ouvias enquanto adolescente? 

Tudo, ouvia tudo. Aliás, o meu primeiro emprego remunerado foi na rádio, aos 16, 17 anos. Só o simples facto de ir às discotecas escolher os discos que teria de passar contribuía para isso. A música erudita anterior ao século XX através do meu pai, quando estudei piano e violino... mas a música contemporanea, do século XX para cá, foi na Parnaso, com o Fernando Correia de Oliveira que era um compositor serial dodecafónico, completamente schoenberguiano, e com o Luís Monteiro que, a par dessa paixão pela etnomusicologia, tinha também uma grande paixão pelas novas músicas do século XX. Foi através dele que eu conheci o Webern, o Boulez, a “música concreta” do Pierre Schaeffer e do Pierre Henry, o Dallapiccola, o Luigi Nono, o Stockhausen, o Penderecki... fiquei com uma grande paixão pelos pós-impressionistas porque fazem um bocado a ponte, o Poulenc, o Fauré, o Satie e um bocado também o Ravel, os pós-Debussy. 

    Mas, voltando ao princípio... 

Voltando ao princípio, estávamos em 65, 66, um período em que os militantes daquele grupo político da primeira dissidência maoísta do PCP (o Francisco Martins Rodrigues, o João Pulido Valente, o Rui d’Espiney, o Manuel José Claro...) a que eu estava ligado em Paris – sempre me liguei a grupos políticos por confiar em pessoas, o Chico Martins, quando foge de Praga, do secretariado do PC, aterra em minha casa, em Paris, e viveu lá uns tempos, foi uma coisa muito orgânica – vêm para Portugal e são presos. E aquilo que havia desagrega-se em grupinhos, grupelhos, com pequenos caciques por todo o lado. E eu desinteressei-me, fiquei metido em casa, entre 65 e 68. Em 68, foi a transfusão de outro género. Talvez tenha havido isso que disseste, uma necessidade de ir às raízes. Foi a conjunção destas coisas todas que fez com que, quando tomei conhecimento destas adaptações linguísticas da Natália Correia dos textos medievais, fiz as sete canções baseadas em cantigas de amigo.


    Do ponto de vista musical, não pretendias soar “medieval”... 

Não. Eu conhecia a música medieval, "die Alte Muzik"... nas interpretações fidedignas da Deutsche Grammophon e, sobretudo, da Archiv. Não queria soar medieval. Mas aquelas palavras puxam um pouco, inevitavelmente, para a época. No entanto, são músicas populares de caracter moderno, e até com influências francesas notórias: Ferré, a canção poética francesa do pós-guerra. 

    Quando, há pouco dizias que, na música popular tradicional, os textos tinham-se deixado uniformizar sem grande evolução, pelo menos, evoluiu o suficiente para ter conduzido à mais extraordinária canção de sempre em língua portuguesa, "A Morte Nunca Existiu", com texto de um poeta popular, o António Joaquim Lança, e música tua... 

Ai é?... Aquilo é um tratado de filosofia de um poeta popular analfabeto. Quando entraste, estava ao telefone com o meu cunhado, o Alexandre Alves Costa, um arquitecto do Porto, que foi quem levou um primeiro grupo de gente de cerca de 16 anos, a Peroguarda, nas férias da Páscoa. Tenho essa imagem viva na minha cabeça do Lança, pastor de cabras, velho, alto, esguio, sentado com o cajado, num calhau à beira da estrada, a dizer os poemas dele. De cor, não lia nem escrevia. Quem acabou por gravar isso tudo foi o António Reis, poeta e cineasta. E estava a falar com o Alexandre para saber quem terá essas transcrições que eu tive em Paris, daí a canção. Esse poema foi uma coisa evidente. Tenho três versões dela: no Margem de Certa Maneira, no Ser Solidário, em que eu já meti as marteladas nos pregos do caixão, e outra ao vivo, em 97. 

    Nesta recolha de inéditos foi um pouco como se tivesses ido ao fundo do baú e publicar tudo o que não havia sido editado... 

E foi tirado muito mais, tínhamos quase três horas de música. O critério de selecção foi: coisas em vinil que nunca tinham passado ao digital; músicas diegéticas utilizadas em filmes, e que são experiências com uma coisa que foi sempre muito importante no meu trabalho a que eu chamo esgrimir com o cliché: se o cliché é uma forma de nivelar e aplastar a educação do gosto do grande público, podes esgrimi-lo também de forma a puxar o gosto um bocadinho para cima – o que se passa com o fado, com as marchas populares... as “músicas à maneira de”, recuperando tiques “de época”, instrumentos, estilos; e o ineditismo puro e duro da “Fantaisie Languedocienne”, uma encomenda da cidade de Montpellier, de um quarteto instrumental que foi tocado ao vivo, uma única vez, há 30 anos, no Instituto Franco-Português. 


    Tencionas continuar no modo de funcionamento em que trabalhas e compões quase exclusivamente por encomenda ou encaras ainda a possibilidade de voltar aquela coisa antiga de conceber e publicar um álbum inteiro de canções por iniciativa própria? 

Há poucos anos, comecei a sentir-me mal no palco. Não porque as canções não sejam boas ou interessantes, não porque não tivesse gosto em cantá-las, não porque não existisse interesse para o público, pelo contrário, mas comecei a sentir que estava ao serviço de qualquer coisa passadista. O mundo estava a mudar muito e deixei de me sentir bem em palco. Acho que toda a arte é autobiográfica, o artista não inventa nada, fala da própria vida e da vida e do mundo à volta dele. Mas, no caso da minha obra, até, talvez, pelo facto de serem poucos discos, nota-se bastante que aquilo é autobiográfico, tenho sempre que dar explicações. “O Zé Mário, tens de voltar, precisamos de ti!”... O artista não modifica a sociedade, fala das modificações da sociedade, o que é diferente. Há sempre a mania de ver as coisas ao contrário: o artista como líder, como homem que traça caminhos e perspectivas, que explica...  

    No tempo do GAC não era muito diferente disso... 

Havia uma encomenda social óbvia. Havia um discurso e um projecto mas não fomos nós que inventámos o discurso. Estávamos a dar um recado: faz-se assim, faz-se assado, isto é bom, aquilo é mau, estávamos a contar uma historinha que não foi escrita por nós. O artista não é o autor do futuro, é um resultado do futuro. Seja nas canções, seja o Picasso, o Mozart ou o Shakespeare. Ser de esquerda, para mim, é, cada vez mais o arco tenso com a seta colocada, mas antes de disparar a seta. Esta tensão entre o que está e o que talvez possa ser. O reverso do conservadorismo. Reparo que o arco é feito de madeira e de uma tripa que vêm da conservação, da tradição. Só que estão a ser usados para apontar para outra coisa. Não embarco na ideia do fim da história. Nos anos 80 e 90, o pós-modernismo foi a versão cultural do neo-liberalismo. Nós aprendemos a criar em cima de um tripé: a estética (a busca da beleza), a técnica (a oficina da arte, o saber fazer) e a ética (não há criação fora de um contexto comunitário). Se faltar um dos pés, o tripé cai. O que realiza fisicamente uma obra é a sua partilha. O que o pós-modernismo nos vem dizer é que essa parte da ética não interessa para nada, não há compromisso. Que, na arte, pode haver neutralidade, não haver relação com uma comunidade. É mentira. Há sempre um compromisso. Mesmo que o compromisso seja afixar um não-compromisso.

17 February 2010

DIGESTÃO ERUDITA



Field Music - (Measure)

É praticamente impossível acreditar que chegará um dia em que, de vez, a pop terá esgotado todos os seus recursos e não lhe restará senão repetir-se aborrecida e infinitamente. Porque, às periódicas temporadas de desalento – quando bandas e indústria parecem conspirar em conjunto para não oferecer senão "new waves" de "new waves" de outras "new waves" –, acabam sempre por suceder épocas de descoberta e surpresas.



As melhores são como este (Measure), dos Field Music, coisa tipo-out of nowhere (apesar dos anteriores Field Music, de 2005, e Tones Of Town, 2007): um genuíno tratado de erudição pop em formato duplo, situado no lugar onde, hoje, se poderia relocalizar aquele instante imediatamente anterior ao parto do prog-rock, para onde confluem (pausa para inspiração) os Led Zeppelin, Beatles, Zombies, XTC, Kinks, John Cage, Bela Bartók, Prince, ELO, Erik Satie, Brian Eno, CSN&Y, Blue Nile, Pierre Schaeffer, Roxy Music, Penguin Cafe Orchestra e, se quiséssemos ser verdadeiramente exaustivos, mais todo o resto que ocuparia a totalidade desta página. Integral e genialmente digerido e reconfigurado.

(2010)

14 October 2008

KRAUT-ENCICLOPÉDIA



Vários - Kraftwerk And The Electronic Revolution (DVD)

“Uma das coisas de que estávamos absolutamente conscientes era de que não tínhamos crescido no delta do Mississipi nem em Liverpool. A nossa geração tinha o dever de criar um contraponto a isso”, afirma Karl Bartos (Kraftwerk), logo na abertura desta enciclopédica maratona de três horas que inventaria, recolhe depoimentos, e cita audiovisualmente todos os imprescindíveis marcos do que ficou genericamente conhecido como “krautrock”.


"Kraftwerk, schizophrenic technologies" - doc. de Lionel Bennes no Youtube

Verdadeiro curso intensivo de iniciação, toma os Kraftwerk como eixo de agregação da narrativa histórico-musical mas, simultaneamente, refere antecedentes (Stockhausen, Schaeffer, Pierre Henry, a banda sonora de Forbidden Planet), enumera protagonistas (Can, Neu!, Cluster, Amon Düül, Tangerine Dream, Popol Vuh, Faust, Ash Ra Tempel, Conny Plank), anota interferências e descendência (Eno, Bowie, Cabaret Voltaire, Suicide, Giorgio Moroder, o “disco”), viaja do Zodiac Arts Lab de Berlim para Colónia e Dusseldorf, e concretiza a dupla proeza de despertar o apetite de quem ignora tudo sobre o tema e de, para os outros, apelar à reescuta integral da discografia desta prodigiosa aventura dos anos 60/70 alemães.

(2008)

03 November 2007

ADENDA AO POST ANTERIOR



David Byrne & Brian Eno - My Life In The Bush Of Ghosts

Em 1979 — na mesma altura em que Holger Czukay e os Can se entregavam às suas "Ethnic Forgeries" — , os Talking Heads tinham acabado a digressão de Fear Of Music e David Byrne e Brian Eno encontravam-se para ouvir discos daquilo a que ainda ninguém chamara "world music". Três ideias os orientavam: tornar o "vulgar" interessante, descobrir música onde não é suposto ela existir e modificar o sentido de uma mensagem, recontextualizando-a.



Os antecedentes que, nos textos do "booklet" que acompanha a reedição de My Life In The Bush Of Ghosts (acrescentando de diversos extras e um filme de Bruce Conner), Eno abertamente reivindica, eram Cage, Pierre Schaeffer, Steve Reich, Stockhausen, a música africana, árabe, o funk, o dub e o roots-reggae. Inventando, artesanalmente, o "sampling", sobre um trampolim rítmico denso e minimal, agrafaram vozes "étnicas", de pregadores radiofónicos", "found vocals" avulsos. Por um instante, consideraram a hipótese borgesiana de o editar como testemunho sonoro de uma civilização até aí desconhecida. Acabaram por lhe dar o título de um romance do nigeriano Amos Tutuola que nenhum deles havia lido. Clássico absoluto.(2006)