Hieronymus Bosc - O Jardim das Delícias Terrenas (detalhe, 1504)
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23 October 2023
12 February 2021
O PAÍS DAS COCANHA
É nos Carmina Burana – essa gloriosa colecção de poemas e canções de Goliardos, libérrimos monges devassos da Idade Média – que surge a primeira referência ao País de Cocanha: uma terra imaginária de liberdade e abundância, onde se prestava culto ao prazer e ao ócio, e o trabalho e a velhice eram desconhecidos. Algo como um jardim do paraíso pagão, livre da fome e das guerras, atravessado por rios de vinho e leite. Foi cartografado, em 1250, no Fabliau de Coquaigne e, em 1567, Pieter Bruegel pintou-o: um padre, um cavaleiro e um camponês – iguais no langor e na opulência – dormem à sombra de uma árvore envolvida por uma mesa repleta de iguarias.
Os Flamengos chamavam-lhe “o país das doces guloseimas” e, hoje, no Sul de França, o Pays de Cocagne reune três comunas na região da Occitânia. Em occitano – herdeiro da "langue d’oc" medieval cujo parente actual mais próximo é o catalão –, “puput” é o nome dado à poupa, um passaroco de longo bico e penacho eréctil, que as Cocanha (Lila Fraysse, Maud Herrera e Caroline Dufau, occitanas de Toulouse) promoveram enquanto símbolo e estandarte contra a misoginia e a indiferença social, oferecendo-lhe a capa e o título do seu segundo álbum. (daqui; segue para aqui)
26 May 2020
O AZUL DISTANTE
Quando, no dia seguinte a ter estado presente numa reunião da Socialist League, William Guest acorda, descobre-se, inesperadamente, num mundo maravilhoso onde não existem propriedade privada, sistema monetário, tribunais, casamentos, prisões, nem autoridade, e toda a estrutura social assenta na propriedade comum dos meios de produção. Porém, tal estado de felicidade não se atingira através da industrialização e do progresso tecnológico que libertaria a humanidade do pesado fardo do trabalho mas pelo regresso a uma idílica sociedade agrária respeitadora da natureza, na qual toda a actividade deveria ser livre, criativa e fonte de prazer. Durante a sua deslumbrada viagem de barco pelas águas límpidas do Tamisa, vai descobrindo igualmente que a Hammersmith Bridge que sempre conhecera feita de aço fora substituida por outra, em pedra, mais bela que a Ponte Vecchio de Florença, o barqueiro que o conduz veste-se à maneira do século XIV, a fétida Manchester fora apagada do mapa, e, de um modo geral, tudo à sua volta se parecia com uma tela de Bruegel.
Muito resumidamente, é este o enredo, situado em 2102, de News From Nowhere (1890), o romance de ficção política do escritor, socialista e figura central do movimento Arts & Crafts, William Morris, que, em Electric Eden, Rob Young cita, observando: “A mente britânica, até certo ponto, não parece ser capaz de imaginar o futuro senão sob a forma do passado”. Justamente aquilo que poderia dizer-se acerca de The Weight of the Sun, terceiro tomo do quarteto Modern Studies. O que, no caso, não é sequer depreciativo: essencialmente pastoral e bucólico, o álbum da banda de Emily Scott, Rob St. John, Joe Smillie e Pete Harvey (gente com pedigree do conservatório, ao rock, à folk, e à "sound art"), gerado entre o Lancashire e a Escócia, não fecha as portas ao presente mas, na sua equação de “classicismo e experimentalismo com uma canção pop no meio”, escutam-se distintamente ecos dos Fairport Convention (revistos pelos Stereolab), dos Velvet Undergound ("Sweet Jane" a viver numa eterna "Sunday Morning") ou do "chiaroscuro" dos Elysian Fields e Mazzy Star. Uma folk de câmara, outonal e suavemente psicadélica, impressionista e de harmonias tangenciais, a dar corpo às palavras de Rebecca Solnit que, em "The Blue Of Distance", evocam: “The world is blue at its edges and in its depths. This blue is the light that got lost”.
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18 December 2019
FÁBULA MENTIROSA
Ouvir Bid explicar pormenorizadamente a génese de Fabula Mendax é um divertido exercício de humor e perplexidade. No qual, ao contrário do que é hábito, o humor reside na imensidade de informação histórica – supostamente séria e inédita – que nos oferece e a perplexidade resulta do facto de, a rematar cada jacto de erudição, o fundador e motor criativo dos Monochrome Set não ser capaz de evitar uma gargalhada escarninha. Por outras palavras, embora ninguém consiga arrancar-lhe a confissão de que este episódio medieval apenas existiu na sua fertilíssima imaginação, toda a narrativa é desmontada pela forma como a apresenta. Queiram, então, travar conhecimento com a nobre donzela Armande de Pange, pseudónimo conveniente de uma jovem guerreira de Metz, na Lorena, cuja fuga – por motivos ainda não decifrados – da casa paterna a leva a cruzar-se com Joana D’Arc em cujo exército de apoio à causa anti-inglesa de Carlos VII se alistaria. Adicionalmente, deverá saber-se também que tal relato foi descoberto em preciosos e secretos manuscritos do século XV, à guarda da antiquíssima família da mulher de Bid (originária de Metz), que jamais nos autorizará a consultá-los.
É sabido que os Smiths nunca esconderam a sua admiração pelos Monochrome Set mas é pouco provável que estes, em troca, tenham ido, agora, inspirar-se naquela estrofe de "Bigmouth Strikes Again" em que Morrissey, referindo-se âs alucinações auditivas da "pucelle d’Orléans" (que não a levaram a ser internada mas canonizada), cantava “And now I know how Joan of Arc felt, now I know how Joan of Arc felt, as the flames rose to her Roman nose and her hearing aid started to melt”. Não é, igualmente, de supor que tenham lá chegado através do fogo de Leonard Cohen lançado sobre o gelo de Nico em "Joan of Arc", e muito menos por efeito do pastelão sonoro de Madonna, na canção homónima. Aceite-se, pois, a versão-manuscrito de Metz levedada pela neuroescrita automática de Bid pós-aneurisma de 2010 – que já lhe rendeu 6 álbuns em 7 anos – e imprima-se a lenda: a “fábula mentirosa” é um sobreexcelente álbum de pop em estado de graça, coisa de supremo requinte de confecção, onde medievalismos ibéricos se cruzam com a sombra de um Morricone inesperadamente gótico, Jacques Brel e David Bowie partilham as mesmas cordas vocais e, por entre o desfile de um elenco de figuras de Bruegel, se escuta uma "Chanson de la Pucelle" de recorte vagamente mariachi talhada à medida para um filme de Disney.
"
16 January 2018
VIDEOCLIPS
Interessa muito pouco saber se Twin Peaks: The Return foi o melhor filme de 2017 ou “apenas” uma série de televisão que fez explodir tudo aquilo que, até aqui, supúnhamos serem os traços definidores das séries de televisão. O que verdadeiramente importa é que nos obrigou, inevitavelmente, a reflectir sobre isso. E que, curiosamente, coincidiu com um ano em que, no universo audiovisual, a região demarcada dos videoclips, contrariando os repetidos rumores de “music videos are dead”, demonstrou precisamente o oposto: não teremos reentrado na Idade de Ouro dos Corbijn, Mark Romanek, Chris Cunningham e Jonathan Glazer mas, se a "old-school" – essencialmente sustentada pela exposição televisiva – foi definitivamente substituída pela presença no YouTube, Vimeo e demais plataformas, isso não impediu que, enquanto forma de expressão artística, o videoclip tenha continuado a ser uma vibrante área de experimentação na qual as fronteiras com as “curtas” cinematográficas se dissolvem.
Recentemente, Holly Herndon, Anna Meredith, Jesse Kanda (nos videos para Arca, FKA Twigs e Björk), PJ Harvey com Seamus Murphy ou as Pussy Riot na sua agit-prop metafórica, haviam já deixado claro que muito território havia ainda por explorar. No ano passado, porém, seria demasiada desatenção não ter reparado na extraordinária trilogia de clips de St. Vincent, para o álbum Masseduction ("New York", "Los Ageless" e "Pills"), realizados, respectivamente, por Alex Da Corte, Willo Perron e Philippa Price. Todos cromaticamente saturados e em registo exuberantemente surreal, constituem o exacto tipo de matéria que amplia desmedidamente o leque de sentidos das canções que lhes deram origem. Precisamente o mesmo que poderia dizer-se de "Don’t Go To Anacita" e "A Private Understanding", de Relatives In Descent, dos Protomartyr: se o primeiro, dirigido por Yoonha Park, é uma angustiante variação breugeliana sobre Stairway To Lenin (1990), de Zbigniew Rybczyński, em torno de uma ideia aterradora – “cada novo horror que enfrentamos é parte de um contínuo sem fim” –, o outro (um "lyric video" a encenar um solilóquio, realizado por Tony Wolski e Trevor Naud), com a preciosa participação do veterano actor Marty Smith, é uma exemplar ilustração de “this age of blasting trumpets, paradise for fools”.
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24 October 2017
Comic relief (a propósito)
Christ and the Woman Taken in Adultery - Pieter Bruegel the Younger (1600)
"Jesus came upon a small crowd who had surrounded a young woman they believed to be an adulteress. They were preparing to stone her to death.
To calm the situation, Jesus said: 'Whoever is without sin among you, let them cast the first stone'.
Suddenly, a lady at the back of the crowd picked up a huge rock and lobbed it at the young woman, scoring a direct hit on her head. The unfortunate young lady collapsed dead on the spot.
Jesus looked over towards the lady and said: 'Do you know, mother, sometimes you really piss me off'.
01 July 2016
"Desejos que pareciam repugnantes como a expulsão daquele que é estranho ao nosso clã sobem do cérebro reptiliano até à fronte e ali inscrevem novamente uma brutalidade primitiva que, confessemos, preservou o género humano: o egoísmo da sobrevivência. Pois é a vida, a física e do espírito, o que está a correr um grande risco aqui.
A ironia da História é que podemos fazer tudo o que sempre desejámos, manifestar, falar, votar e debater, respeitar o diferente, instituir os cuidados gratuitos, isto é, ser cidadão num Estado de confiança e representação. Festejámos demais, dançámos muito, os que estavam na classe dos criados passaram num abuso para os salões?
Dizem que fomos nós, os preguiçosos, os gulosos do Sul, quem fez gorar o projecto da coisa. Por mim, pequena portuguesa, dou o exemplo: vou buscar o esfregão e a vassoura, antes que algum refugiado mos cobice" (Hélia Correia)
Pieter Bruegel, o Jovem (1564 - 1638)
10 May 2015
Não prestem demasiada atenção ao obviamente notório “melhor preparados”: reparem, sim, na superior elegância da forma como "o domínio de capacidades básicas tais como o raciocínio lógico e a capacidade de comunicação em língua portuguesa" desagua em "são transversais à lecionação de todas as disciplinas"; apreciem a descomprometida desenvoltura frásica de "sendo a qualidade da docência fundamental para a qualidade do sistema educativo e, por conseguinte, do sucesso na aprendizagem dos alunos"; aplaudam, enfim, a suave agilidade com que "à medida que se renovem" ocupa o lugar de "à medida que se renovam" e "inscrever-se a mais do que uma prova" despeja amavelmente o, quiçá, obsoleto "inscrever-se em mais do que uma prova"!
The Blind Leading the Blind - Pieter Bruegel (1568)
17 January 2015
"Durante séculos, os doutores e os padres segregaram perfumadas essências de santo saber para redimir, através do pensamento daquilo que é alto, a miséria e a tentação daquilo que é baixo. E este livro, justificando como miraculoso remédio a comédia, a sátira e o mimo, que produziriam a purificação das paixões através da representação do defeito, do vício, da fraqueza, induziria os falsos sábios a tentar redimir (com diabólica reviravolta) o alto através da aceitação do baixo. Deste livro derivaria o pensamento que o homem pode querer sobre a terra (...) a própria abundância do país de Cocanha. (...) Disse um filósofo grego (...) que se deve desmantelar a seriedade dos adversários com o riso, e o riso adversário com a seriedade. A prudência dos nossos padres fez a sua escolha: se o riso é o deleite da plebe, que a licença da plebe seja refreada e humilhada, e atemorizada com a severidade" (Umberto Eco, O Nome da Rosa - sequência daqui)
Pieter Bruegel, o Velho - The Land of Cockaigne (1567)
04 January 2009
DÉCIMO PRIMEIRO COMUNICADO DO C.A.L.A.
(Comité de Apoio a Laurinda Alves)

Pieter Bruegel - The Fall Of The Rebel Angels (1562)
A queda de um anjo *
"Era um dia feliz e nada nem ninguém se atreveria a provar o contrário. Poucos chegam aos cinquenta anos de casados e celebram o dia com a família inteira e de boa saúde. Era o caso. A manhã foi passada em arranjos de festa, sempre atenta aos detalhes, a antecipar a hora da tarde em que seria rezada uma missa com todos, para todos. Escolheu uma celebração pública porque é uma mulher que vive para os outros, de coração aberto ao mundo e braços abertos aos que vivem à sua volta. Podia ter tido uma celebração mais íntima e mais exclusiva mas preferiu assim. Fomos todos pela estrada com ela, por ela. E pelo pai, claro. Chegámos antes da hora, com tempo para acertar os últimos detalhes, quem lê o quê, quais as intenções para dizer em alto e quais que se guardam para ler depois de descer do altar. Lá fora chovia e o dia escurecia. As ruas molhadas e vazias pareciam mais tristes mas acho que ninguém reparou. As árvores, tocadas pelo vento, pareciam fazer vénias sucessivas e esse movimento animou o momento. Entrámos na Igreja antes da hora, quando já estava quase cheia, e avançámos pelo corredor de pedra gasta que conduz ao altar. As pessoas foram deixando os guarda-chuvas pousados ao lado dos bancos e a água escorria pela laje antiga. A meio caminho escorregou, caiu desamparada e já não foi capaz de se levantar. A queda parecia banal mas a fractura foi brutal. Ficámos abraçados, debruçados sobre ela até chegar a ambulância para a levar para o hospital. O chão estava frio e de repente o ar ficou gelado. Dizem que a queda dum anjo provoca sempre um arrepio. Acredito". (pensamentos complementares aqui)
* - ou de como, quando a fé é grande e verdadeira, nem pelos descuidos e desatenções de Deus se deixa abalar
(Nota: a sintonia de espírito e pensamento entre a candidata Laurinda Alves e o movimento de cidadania independente que o C.A.L.A. corporiza não poderia ser maior nem mais significativa - confrontar este post com este)
(2009)
(Comité de Apoio a Laurinda Alves)
Pieter Bruegel - The Fall Of The Rebel Angels (1562)
A queda de um anjo *
"Era um dia feliz e nada nem ninguém se atreveria a provar o contrário. Poucos chegam aos cinquenta anos de casados e celebram o dia com a família inteira e de boa saúde. Era o caso. A manhã foi passada em arranjos de festa, sempre atenta aos detalhes, a antecipar a hora da tarde em que seria rezada uma missa com todos, para todos. Escolheu uma celebração pública porque é uma mulher que vive para os outros, de coração aberto ao mundo e braços abertos aos que vivem à sua volta. Podia ter tido uma celebração mais íntima e mais exclusiva mas preferiu assim. Fomos todos pela estrada com ela, por ela. E pelo pai, claro. Chegámos antes da hora, com tempo para acertar os últimos detalhes, quem lê o quê, quais as intenções para dizer em alto e quais que se guardam para ler depois de descer do altar. Lá fora chovia e o dia escurecia. As ruas molhadas e vazias pareciam mais tristes mas acho que ninguém reparou. As árvores, tocadas pelo vento, pareciam fazer vénias sucessivas e esse movimento animou o momento. Entrámos na Igreja antes da hora, quando já estava quase cheia, e avançámos pelo corredor de pedra gasta que conduz ao altar. As pessoas foram deixando os guarda-chuvas pousados ao lado dos bancos e a água escorria pela laje antiga. A meio caminho escorregou, caiu desamparada e já não foi capaz de se levantar. A queda parecia banal mas a fractura foi brutal. Ficámos abraçados, debruçados sobre ela até chegar a ambulância para a levar para o hospital. O chão estava frio e de repente o ar ficou gelado. Dizem que a queda dum anjo provoca sempre um arrepio. Acredito". (pensamentos complementares aqui)
* - ou de como, quando a fé é grande e verdadeira, nem pelos descuidos e desatenções de Deus se deixa abalar
(Nota: a sintonia de espírito e pensamento entre a candidata Laurinda Alves e o movimento de cidadania independente que o C.A.L.A. corporiza não poderia ser maior nem mais significativa - confrontar este post com este)
(2009)
05 August 2008
CIMEIRA

Fleet Foxes - Fleet Foxes
Demos como adquirido que, na pop contemporânea, só muito raramente nos defrontaremos com música capaz de provocar em nós aquele sobressalto perante o absolutamente novo e nunca escutado antes. Aceitemos que a persistente enfermidade do insuficiente processo de digestão criativa das referências continua a permitir que, à primeira vista, todas se tornem claramente evidentes. Nessa medida (e apenas nessa medida) saudemos, então, o belíssimo álbum de estreia dos Fleet Foxes, de Seattle, pretexto para uma importantíssima cimeira onde os Beach Boys, The Band, Crosby, Stills, Nash & Young, Fairport Convention e Simon & Garfunkel trocam pontos de vista e partilham experiências.
Sublinhe-se, essencialmente, o contributo dos primeiros participantes referidos, acrescente-se um certo espírito de gospel branco, imagine-se aquilo que, muito imprecisamente, poderíamos designar como “barroco rural” (na verdade, várias das harmonias vocais a quatro partes – a de “White Winter Hymnal”, em particular – empurram-nos bem mais para trás, para o cenário dos Provérbios Flamengos, de Pieter Bruegel, escolhido como capa) interpretado por um coral de Tim Buckleys e Fleet Foxes ficará razoavelmente circunscrito. Tão bom quanto isso tudo, tão suplicantemente devedor de todos eles.
(2008)
Fleet Foxes - Fleet Foxes
Demos como adquirido que, na pop contemporânea, só muito raramente nos defrontaremos com música capaz de provocar em nós aquele sobressalto perante o absolutamente novo e nunca escutado antes. Aceitemos que a persistente enfermidade do insuficiente processo de digestão criativa das referências continua a permitir que, à primeira vista, todas se tornem claramente evidentes. Nessa medida (e apenas nessa medida) saudemos, então, o belíssimo álbum de estreia dos Fleet Foxes, de Seattle, pretexto para uma importantíssima cimeira onde os Beach Boys, The Band, Crosby, Stills, Nash & Young, Fairport Convention e Simon & Garfunkel trocam pontos de vista e partilham experiências.
Sublinhe-se, essencialmente, o contributo dos primeiros participantes referidos, acrescente-se um certo espírito de gospel branco, imagine-se aquilo que, muito imprecisamente, poderíamos designar como “barroco rural” (na verdade, várias das harmonias vocais a quatro partes – a de “White Winter Hymnal”, em particular – empurram-nos bem mais para trás, para o cenário dos Provérbios Flamengos, de Pieter Bruegel, escolhido como capa) interpretado por um coral de Tim Buckleys e Fleet Foxes ficará razoavelmente circunscrito. Tão bom quanto isso tudo, tão suplicantemente devedor de todos eles.
(2008)
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