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09 January 2018

PORTO DE ABRIGO

   
“Valparaíso, qué disparate eres, qué loco, puerto loco, qué cabeza con cerros, desgreñada, no acabas de peinarte, nunca tuviste tiempo de vestirte, siempre te sorprendió la vida, te despertó la muerte, en camisa, en largos calzoncillos con flecos de colores, desnudo con un nombre tatuado en la barriga” escreveu Pablo Neruda na “Ode a Valparaíso”, acerca do porto chileno que Joris Ivens e Chris Marker também filmaram (...À Valparaíso, 1963) e que Sergio Larrain, em 1991, fotografou. Foi da confluência de tudo isto – mas, em particular, a obra de Larrain que a fotógrafa Charlotte Krebs deu a conhecer a Hervé e Thierry Mazurel – que surgiu o nome e o conceito para o colectivo Valparaíso: “Esse lendário ponto de encontro de viajantes e marinheiros, porto de abrigo para piratas nos confins do mundo, lugar de exilados e desenraizados e de todas as mestiçagens, o imaginário do bas-fonds combinado com o exotismo do longínquo”, como explica Hervé Mazurel.



Na realidade, existia já um antecedente de recorte idêntico: The Fitzcarraldo Sessions (banda nascida das cinzas dos Jack The Ripper), que, em 2009, publicara We Hear Voices! e que, aos primos Mazurel, juntava Stuart Staples (Tindersticks), Joey Burns (Calexico), Blaine Reininger (Tuxedomoon), Craig Walker (Archive) e Phoebe Killdeer (Nouvelle Vague). Na reencarnação enquanto Valparaíso, entretanto, descobre-se uma outra variante da aristocracia indie franco-internacional: Dominique A, Howe Gelb (Giant Sand), Shannon Wright, Josh Haden (Spain), Rosemary Standley (Moriarty), de novo Phoebe Killdeer, as ondas Martenot de Christine Ott e, decisivamente, John Parish (produtor, guitarrista e cantor). 



Sim, é absolutamente necessário falar dele: produtor de boa parcela da discografia de PJ Harvey, de um total de 157 álbuns (segundo o Discogs) em que desempenhou essa função, nomeadamente, dois dos melhores do ano passado – Moonshine Freeze, de This Is The Kit, e We Dissolve, de Chrysta Bell –, Parish é o género de controlador de qualidade que não faz questão de impor o seu carimbo sonoro, "à la" Martin Hannett ou Brian Eno. Atitude que, contudo, o confunde: “Levou-me bastante tempo a reconhecer que tinha uma estética própria. Dizia que me limitava a contribuir para que os discos soassem como os autores desejavam mas, após ter produzido tantos, não posso deixar de admitir que existem traços comuns”. Exactamente aqueles – o gosto pelos contrastes entre limpidez e aspereza, detalhismo e imperfeição, a admiração por Morricone, Nino Rota ou John Barry – que transformam Broken Homeland numa cinemática “invitation au voyage”, mas também uma espécie de intenso "western" fantasmático, em 13 episódios, numa Valparaíso imaginária.

20 February 2012

ELOGIO DA DISLEXIA


















Camille - Ilo Veyou

Tal como certas personagens que adoramos odiar, Camille Dalmais inscreveu-se em Sciences-Po, em Paris. Mas rapidamente se apercebeu do seu tremendo erro, arrepiou caminho e – ao contrário de outros – decidiu reinserir-se socialmente, optando pela música. Conhecemo-la através dos Nouvelle Vague, esse divertimento de "easy-listening" chique entregue à missão de tropicalizar e reconfigurar para o "french-touch" algum reportório punk e new wave que se punha mais a jeito. Era dela a voz que escutámos a amaciar insolentemente "In A Manner Of Speaking" (Tuxedomoon), "Guns Of Brixton" (Clash), "Too Drunk To Fuck" (Dead Kennedys) e "Making Plans For Nigel" (XTC). Não foi a única pérola a ser gerada no interior da ostra-NV: devemos-lhe, igualmente, a óptima Phoebe Killdeer (& The Short Straws) de Weather’s Coming.



Camille, entretanto, gravou Le Sac des Filles (2002), Le Fil (2005) e Music Hole (2008), etapas preparatórias onde aqueceu os motores da experimentação vocal e da contenção instrumental – com tirocínio por peças de Benjamin Britten e presença na banda sonora de Ratatouille – que haveriam de desembocar neste magnífico Ilo Veyou, espécie de dislexização de “I Love You”. É fácil imaginá-la como uma Björk com os pés um pouco mais assentes na terra (mesmo que do ponto de vista do marciano que, em "Mars Is No Fun", prefere abandonar o seu planeta e “wander all afternoon in the shopping mall of Milton Keynes”), dedicada a "lullabies" imponderáveis, deliciosas paródias de patrioteirismo-Piaf (“La Suisse attire les comptes en banque, les anglais ont un humour exquis, le Nicaragua produit la cocaïne et la revend au meilleur prix, la France, la France des photocopies”), pseudo-exotismos minimalistas, bizarrias de "kindergarten" surreal. Mas Camille é única e irrepetível.

(2012)

19 October 2008

DE VIAGEM



Lonely Drifter Karen - Grass Is Singing

Se, num maravilhoso universo paralelo, tivesse passado pela cabeça de François Truffaut convidar Tom Waits para, a meias com Björk, compor a banda sonora de um filme musical seu – avisando-os, porém, que as partes vocais deveriam ser interpretadas, à vez, por Jolie Holland, Lhasa de Sela e Doris Day (sim, sim) –, o resultado final, muito provavelmente, não andaria assim tão longe de Grass Is Singing.



Neste menos maravilhoso universo, há que contar a história da austríaca Tanja Frinta que, de viagem entre Viena e Barcelona, via Gotemburgo, se cruzou com o teclista maiorquino Marc Sobrevias e com o percussionista italiano Giorgio Menossi, constituindo um trio baptizado com o nome de uma personagem de Os Idiotas, de Lars Von Trier. Como, de certo modo (mas de modos diferentes), acontecia também nos óptimos álbuns de Jesca Hoop, Hanne Hukkelberg e Phoebe Killdeer, somos instantaneamente capturados por uma suave vertigem onde “chanson”, cabaret, “nursery rhymes”, Wurlitzers, “film noir” e a Boadway coexistem no interior do espírito de uma Mary Poppins delicadamente demente e nem por um único instante nos apetece tão cedo sair de lá.

(2008)

08 June 2008

OSSADAS E FANTASMAS



Phoebe Killdeer & The Short Straws - Weather’s Coming

Quantos “songwriters” conhecem capazes de declarar sem pestanejar que são fãs da música de Tom Waits desde... os oito anos? Phoebe Killdeer afirma-o e sobram as razões para a admirarmos por isso. Em primeiro lugar, porque, em situação idêntica – publicação de um álbum de estreia que transpira Waits por todos os poros –, o reflexo industrialmente condicionado da maioria seria negar a pés juntos que alguma vez lhe tivesse passado pelos tímpanos a música de tal personagem. Ou, no máximo, que “sim, é uma influência entre outras mas nada do outro mundo”.



Depois, e mais importante, porque sendo esse, obviamente, o modelo, ninguém, até hoje, conseguiu fazê-lo literalmente seu de uma forma tão entranhadamente individual. Weather’s Coming, após os primeiros ensaios com os Basement Jaxx e Nouvelle Vague, é, seguramente, a mais assombrosa estreia musical de 2008 do que, em rigor, se deverá descrever como PJ Harvey incorporando a alma de Tom Waits e levando de arrasto os também reivindicados Nick Cave, Carmen McRae e Yma Sumac: canções como desmazeladas teias de aranha que capturaram um ou dois despojos de ossadas rítmicas, meia dúzia de fantasmas de jazz esquartejado e cacos sortidos de banjos, tubas, ondas Martenot, vibrafones e guitarras epilépticas. Mais, já!



(2008)