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13 August 2015

 Livre de Poche/TripAdvisor


"Em 1501, confiante no sucesso das suas primeiras edições, Aldus, em resposta aos pedidos dos leitores, publicou uma colecção de livros de bolso in-octavo - metade do tamanho de um in-quarto - impressos com elegância e meticulosamente editados. (...) O resultado foi um livro que parecia muito mais simples do que os manuscritos ornamentados típicos da Idade Média, um volume de elegante sobriedade. (...) Pode ver-se um sinal da sua popularidade na Lista de Preços das Prostitutas de Veneza de 1536, um catálogo das piores e melhores damas de má nota, no qual o viajante é avisado de que uma tal Lucrezia Squarcia 'finge adorar poesia e traz consigo um Petrarca de bolso, um Virgílio e, por vezes, até um Homero'" (Alberto Manguel, Uma História da Leitura)

15 April 2015

BRAVA ELEGÂNCIA


Um dia destes, ainda teremos de prestar a devida homenagem a Sir Charles William Somerset Marling, 5º baronete de Marling: se já lhe devíamos o facto de ter sido ele, mal a filha, Laura, tinha completado 6 anos, a ensinar-lhe o essencial da técnica da guitarra acústica na bucólica atmosfera de Eversley, no Hampshire, agora, caso os tempos fossem outros, poderia ser considerado responsável por um novo momento-Dylan-Judas. Sim, a Laura dos vários Petrarcas da suposta "nu folk scene" londrina de há pouco menos de dez anos, (ou)viu a luz de uma guitarra eléctrica e a culpa disso deverá ser atribuída, outra vez, a Sir Charles que entendeu oferecer-lhe uma Gibson 335 vermelha, neta eventual da Lucille, de BB King. Na realidade, nem a "nu folk" era fundamentalistamente folk (ou, sequer, especialmente folk...) nem poderá dizer-se que Short Movie determine algum tipo de corte radical com a discografia anterior de Laura Marling.



Tudo decorreu, afinal, de, após a publicação de Once I Was An Eagle (2013), Dame Laura, Btss, aos 23 anos, ter atravessado uma precocíssima "midlife crisis" que a conduziu a vaguear pelos EUA, conviver com criaturas perigosamente hippie/new age, sobreviver ao temível Hurricane Sandy, em Nova Iorque, e – tal como já acontecera com Annie Clarck/St. Vincent no último álbum – a desenvolver um preocupante interesse pela obra do cineasta/guru chileno, Alejandro Jodorowsky. Adicione-se a este último ingrediente o do potencialmente explosivo George Gurdjieff, gabiru místico/esotérico da primeira metade do século passado, e teremos "Gurdjieff's Daughter", lista de recomendações do género “Never give orders, just to be obeyed” que, soando a um improvável encontro de Suzanne Vega com os Dire Straits... é surpreendentemente boa. Bem mais electricamente cortantes são "False Hope", "Don’t Let Me Bring You Down" e "Short Movie" – aqui e ali, recordando a PJ Harvey menos recente – mas, em tudo o que sobra, nunca se afasta demasiado da belíssima matriz da Marling descendente (desejavelmente) oblíqua de Joni Mitchell, em moldura folk/bluesy, na qual palavras como “I can’t be your horse anymore, you’re not the warrior I’ve been looking for” assentam com a brava elegância de uma declaração de guerra.

30 August 2013

Emocionada saudação pelo regresso da Morgada e modesto contributo para o debate acerca do "piropo"
 
Morgada! Long time no speak… o clube de fãs estava quase, quase a entrar em greve de fome.

Quanto ao tópico em debate, sempre pensei que o trolha-ó-filha-comia-te-toda e o Petrarca-S’-amor-non-è-che-dunque-è-quel-ch’-io-sento?-Ma-s’egli-è-amor-per-Dio-che-cosa-e-quale? querem dizer exactamente o mesmo. Simplesmente, o trolha não é capaz de escrever sonetos e o Petrarca era.

O trolha merece um bufardo bem aviado no focinho? Claro que merece: a poesia é uma necessidade básica.

23 April 2010

YES, SHE CAN



Laura Marling - I Speak Because I Can

O título do álbum, reparem no título: I Speak Because I Can. Apenas dois anos antes, o primeiro (tinha Laura Marling dezoito recentíssimos anos) chamava-se Alas I Cannot Swim. Exactamente o mesmo período de tempo durante o qual Laura foi a musa para The First Days Of Spring, de Noah & The Whale (leia-se, para a alma, por ela devastada, de Charlie Fink, que, qual Petrarca, se viu obrigado a narrar, poética e musicalmente, a perda da amada), e para Sigh No More, dos Mumford & Sons (aliás, Marcus Mumford, o último fiel depositário dos seus afectos). Se virem bem, está tudo na forma do mesmo verbo, na passagem da negativa para a afirmativa: "I cannot" e "I can". Agora, ela diz que sim, fala "porque pode" e, de agora em diante, muito difícil será calar esta voz daquilo que – em queda da coisa "free-folk" –, é capaz de ser bem mais sensato, porque sim, porque podemos, chamar (é só mais um rótulo, este, medianamente aceitável), "nu-folk".



Pelo único motivo de que só poderá haver uma relação entre a matriz do que o primeiro Donovan (oiçam “Made By Maid” e “Ballad Of A Crystal Man”) e o Dylan fundador de "It’s Alright Ma" (escutem "Devil’s Spoke") têm a dizer sobre o assunto. Convoquem-se outros como Nick Drake, os espectros iluminadores de Sandy Denny, Joni Mitchel ou Richard Thompson e imaginem que outra matriz – autêntica, sem outro cálculo que não tenha sido o da digestão da necessária aprendizagem – poderia ter estado na origem de canções como as que cospem palavras tais que “no hope in the air, no hope in the water, not even for me, your last serving daughter” ou “Why fear death, be scared of living, hearts are small and forever thinning”. Com quase todos os Mumford & Sons na tripulação e alguns Noah & The Whale incluídos como troféus do saque. A jovem diva comanda as operações, decide quando ser Mumford-épica ou apenas acusticamente terra a terra e escolher a ocasião para enviar recados como “the weak need to be lead, and the tender I’ll carry to their bed, and it’s a pale and cold affair, I’ll be damned if I’ll be found there”. Amem-na muito.

(2010)