07 May 2023
03 June 2021
04 March 2010
09 February 2008
Essencialmente autodidacta (embora tenha estudado violino, viola de arco, piano, orgão, harmonia e cantado no coro da Iowa School For The Blind), considerava-se "um europeu no exílio, cuja alma e coração estão na Europa, fundamentalmente um clássico na forma, conteúdo e interpretação. Sinto-me como se tivesse um pé na América e outro na Europa ou um no presente e outro no passado. Ritmicamente, sinto-me no presente, mesmo 'avant garde', enquanto que, melódica e harmonicamente estou verdadeiramente no passado. Mas o presente transforma-se em passado tal como o futuro virá a ser o presente...". É exactamente isso que a quase totalidade da sua obra, agora finalmente reeditada (até aqui, só uma miraculosa aparição na banda sonora de The Big Lebowski o recordava) documenta. Moondog (que reune Moondog, de 1969, e Moondog 2, de 1971) assinala o início registado da lenda quando este "clochard" novaioquino que frequentava os clubes de Manhattan na companhia de Charlie Mingus, Miles Davis, Benny Goodman, Buddy Rich ou Charlie Parker conseguia (como?) gravar música orquestral que, inspirando-se na "early music" da tradição europeia — cânones, "grounds", "ostinati", "chaconnes", "rounds", "passacailles", madrigais —, desde 1952, iria inspirar os, então jovens, Philip Glass ou Steve Reich. Escutando hoje este extraordinário álbum (recheado de improváveis dedicatórias e homenagens a Tchaikovsky, Benny Goodman e Charlie Parker, partituras para Martha Graham e sinfonias para mitológicas figuras como "Thor The Nordoom, Emperor Of Earth") pode descobrir-se que também Michael Nyman ou toda a "escola de Canterbury" e adjacências ainda um dia lhe deverão reconhecer uma considerável dívida
"Clandestinamente" emigrado para a Europa, sob convite da editora Kopf, gravaria, a partir de 1976, In Europe, H'art Songs e A New Sound Of An Old Instrument, colecções de deliciosas miniaturas musicais que, tanto celebravam o lançamento da sonda espacial americana Viking para Marte em "scherzi" para celesta, como inventavam valsas impossíveis, se divertiam com o "nonsense" puro daquele tipo de canções em que Robert Wyatt ou Kevin Ayers se haveriam de especializar ou combinariam o contraponto no orgão barroco da igreja de Oberhausen com desenhos rítmicos supostamente ameríndios ou com fantasias sobre a Grécia clássica. Elpmas e Sax Pax For A Sax (respectivamente, de 1991 e 1994) representariam, o primeiro, um protesto ecológico contra os maus tratos inflingidos à natureza e aos povos nativos, sob a forma de requintados cânones minimalistas para marimbas, balafones, violas de gamba, banjos e amplos exercícios de contraponto "ambiental" e, o segundo, uma magnífica e extravagante comemoração do 100º aniversário da morte de Adolphe Sax que Moondog aproveitou inventar o conceito de "ZAJAZ" — jazz em duas direcções — que lhe permitiria divertir-se com enxertos de linguagem barroca sobre matriz swing e infinitos outros vice-versas para o que contribuiriam nomes como Peter Hammil, o saxofonista de Michael Nyman, John Harle, Danny Thompson ou o Apollo Saxophone Quartet. Nunca é tarde para descobrir um "maverick" com uma interessantíssima história para contar. (2000)
19 September 2007
1975, Cleveland, Ohio: David Thomas - inspirado na personagem criada por Alfred Jarry – inventa os Pere Ubu. E, instantaneamente, oferece aos teóricos darwinistas do história do rock o Santo Graal há muito procurado: o elo perdido entre os Velvet Underground e o punk. O patriarca da crítica musical norte-americana, Greil Marcus, definiu-os assim, em Mystery Train: “Os Pere Ubu saltam para um comboio que atravessa uma nação moderna como se se tratasse de um território antigo, apenas feito de ruínas e portentos, profecias e decadência. E, assim, o comboio transforma o território familiar em algo de estranho, nunca visto, novo”. A pedra fundadora deu pelo nome de The Modern Dance e, até hoje, sob a designação jarryana ou socorrendo-se dos heterónimos David Thomas & The Pedestrians, Two Pale Boys ou Pale Orchestra, as enciclopédias registam mais de três dezenas de publicações.
Evidentemente, porque em tal ecologia cultural as coisas nunca são simples, existe uma outra paradoxal afinidade entre Thomas/Ubu e o prog/art/rock. Pelo que, para efeitos de simplificação no que respeita à identificação da singularidade cósmica, há quem veja alguma vantagem em falar-se de avant-garage. Seja. E anote-se que, entre uma miríade de cúmplices, há que referir obrigatoriamente Anton Fier, Peter Hammill, Richard Thompson, Chris Cutler, Eric Drew Feldman, Linda Thompson, Andy Diagram ou Mayo Thompson. Todos (e cada um individualmente) a merecerem um capítulo à parte nas lendas contemporâneas.
Mirror Man (A Geography Of Sound in 2 Acts) também não facilita no que toca à arrumação nas gavetinhas mais familiares: ópera híbrida neo-“beat”, oratório, ciclo de canções assombrado, “theatre vague”... Inspirado em Spoon River Anthology, uma colecção de poemas de Edgar Lee Masters publicada em 1915, na qual os 244 residentes no cemitério de uma cidade de província contam a história das suas vidas, resultou de uma encomenda da South Bank de Londres e foi estreado em 3 de Abril de 1998 no festival David Thomas: Disastodrome!. O primeiro acto intitula-se “Jack & The General” e alude a Jack Kerouac e ao general Eisenhower. Este construiu o sistema rodoviário norte-americano, Kerouac escreveu a história daqueles que viajaram através dele em busca do sonho que a América prometia: alegoria do fim do mundo sob o néon vermelho e amarelo de um McDonald’s, irrisão do Jardim do Éden transformado em Disneyworld, objectos, detritos e humanos à deriva numa “interzone” entre a memória e o pesadelo do futuro. Do outro lado (no outro acto), fica “Surf’s Up In Bay City”, o fim da jornada. Em que “fim” é a palavra-chave. Qualquer coisa como Zappa em ácido sulfúrico, Burroughs com demasiadas peças perdidas no puzzle, Captain Beefheart submetido a terapia de electrochoques. E a ossada ressequida dos blues e da country. E uma caricatura patética de polka. Como uma miragem turva e parda onde, provavelmente apenas por efeito de inércia, velhos engenhos ainda continuam em movimento. (2005)