Showing posts with label Peter Gabriel. Show all posts
Showing posts with label Peter Gabriel. Show all posts

21 December 2025

LIMPAR O PÓ AOS ARQUIVOS (C
 
(com a indispensável colaboração do R & R

(clicar na imagem para ampliar)
 
(Lonely Is An Eyesore, na íntegra aqui)
Womad - Talking Book Volume Three: An Introduction To Europe, na íntegra aqui)

22 December 2023

18 December 2023

 
(sequência daqui) E sobre que deseja, afinal, Peter Gabriel falar-nos? Está praticamente tudo sintetizado em "i/o", a faixa-título: "So we think we really live apart, because we’ve got two legs, a brain, and a heart, we all belong to everything, to the octopus' suckers and the buzzard’s wing, to the elephant’s trunk and buzzing bee’s sting, stuff coming out, stuff going in, I'm just a part of everything, I’ll be laid to rest in a proper place, in the roots of an old oak tree, where life can move freely in and out of me". Uma espécie de panteísmo pagão serenamente eco-militante que, no vídeo que a apresenta no site oficial de Gabriel, ele desenvolve como se tivesse acabado de ler L'Extase Matérielle, de Le Clézio: "Imagino que, quanto mais velho me tornei, não terei ficado, provavelmente, mais esperto. Mas aprendi algumas coisas prestando atenção ao que escuto e observo. E, para mim, faz todo o sentido pensar que não somos aquelas ilhas independentes que julgamos ser. Somos parte de um todo. Nascemos, num piscar de olhos, do encontro entre um espermatozóide e um óvulo mas, essencialmente, somos apenas uma colecção de átomos e moléculas que absorvem e expulsam matéria. Intelectualmente também. Quando morremos, estes átomos não desaparecem, serão encaminhados para outros fins. É uma forma suave de nos encararmos como indivíduos certamente confusos mas, ainda assim, parte de um todo. Penso que o futuro tem ecos no presente e, por vezes, se estivermos atentos, identificamo-los". Em "So Much", sobre melodia e arranjo limpidamente clássicos, reflecte sobre o limitado prazo de validade de gentes e planeta ("So much unfinished business, all sticky with desire, raking through the empty shells, of all the rockets we fired, set the navigation for the Earth all warm and wet, and as the longing drops away, the compass is reset, oh, there’s so much to live for, so much left to give, this edition is limited") e "The Court" disseca o cadáver da justiça ("We lost the line between the good and bad, we lost the line between the sane and the mad, used to draw the line across the writing pad, the line of conscience that we never have had, and the court will rise, while the pillars all fall"). A linguagem é sempre elegantemente poliglota - música de câmara, art-pop, minimalista, cinemática, R&B, experimental, impressionista -, (im)puríssimo Gabriel vintage.

15 December 2023

 
(sequência daqui) De outro ângulo e duplicando o poder de fogo, Mark 'Spike' Stent e Tchad Blake contributiram com uma mistura de cada canção ("Bright-Side Mixes" de Stent e "Dark-Side Mixes" de Blake), como explicaria Gabriel, numa estratégia de fuga ao desperdício: "Em vez de escolher apenas uma mistura para publicação, decidi que as pessoas deveriam ter a possibilidade de conhecer o trabalho fantástico que ambos realizaram. O Tchad e o Spike são dos melhores na sua área de actividade e, sem dúvida, atribuem às canções um carácter diferente. O Tchad é mais um escultor, construindo uma experiência dramática e sonora. O Spike adora o som e a composição de imagens. É mais um pintor". Extra-musicalmente (ou, talvez, não) cada canção seria acompanhada de uma obra de arte visual encomendada a Ai Weiwei, Nick Cave, Barthélémy Toguo, Olafur Eliasson, Annette Messager, Antony Micallef, Henry Hudson, Megan Rooney, Cornelia Parker,Tim Shaw, David Spriggs e David Moreno. (segue para aqui)

12 December 2023

 
(sequência daqui) 6 de Janeiro de 2023, enfim. 21 anos depois de Up, o mundo fica a saber que, começando nesse mesmo dia, em cada lua-cheia dos 12 meses do ano, será dada a conhecer uma das novas canções do longamente concebido i/o (significando "input/output" mas também o nome de uma das luas de Júpiter, Io), a publicar na íntegra na lua-cheia de 1 de Dezembro. Ajudando ao parto então iniciado, haviam entrado em estúdio o baterista Manu Katché, o baixista Tony Levin e o guitarrista David Rhodes, núcleo duro mas infinitamente maleável do universo sonoro de Gabriel ("Sempre gostei da combinação high tech/artesanato em que articulamos o futuro com algo físico do passado") a quem se juntariam o Soweto Gospel Choir, o coral masculino sueco Orphei Drängar, a New Blood Orchestra dirigida por John Metcalfe e o precioso Brian Eno (produção, sintetizadores, guitarra manipulada, ukulele, "vermes eléctricos", programação rítmica, electrónica e "sound design"): "Foi muito bom que ele pudesse ter vindo e tocado connosco. É um mestre na possibilidade de criar uma atmosfera utilizando um mínimo de matéria sonora. Estivemos com ele durante três dias peneirando o material e acrescentando-lhe umas partículas de Eno". (segue para aqui)

08 December 2023

ECOS DO FUTURO 


Preparem-se porque vai tratar-se de uma longa viagem de quase 30 anos. Mais ou menos pela mesma altura (1995) na qual Peter Gabriel iniciara a gravação de Up - publicado em 2002 -, havia já embriões de ideias para o que lhe deveria suceder. E data marcada para isso: 2004. Candidatas a figurar em Up, em diversos estados de evolução, existiam mais de 130 canções das quais 10 passariam todos os testes. Acerca das que restavam, Gabriel planeava virem a integrar um álbum com o título i/o (que fora provisoriamente o de Up). Com diversas digressões, a actividade da sua editora de world music "Real World", o envolvimento em múltiplos projectos de âmbito político/social, a gravação de bandas sonoras e dos álbuns de versões Scratch My Back (2010) e New Blood (2011) pelo caminho, 2004 ficara lá para trás. Mas, um ano depois, existia um caldeirão de 150 canções que, com o engenheiro de som Richard Chappell e o percussionista Ged Lynch, ia fazendo borbulhar: "Tenho escrito principalmente sobre o nascimento e a morte, com sexo pelo meio", diria ele, então, à "Rolling Stone". Um salto de 8 anos e, à mesma publicação, confessaria que tinha cerca de 20 canções no forno: "Provavelmente, as coisas não têm acontecido tão rapidamente quanto desejaria. As canções ainda cá estão, embora queira regravar algumas. E há sempre outras novas a aparecer". Mais uma pausa de 6 anos (com problemas de saúde familiares pelo meio) e, finalmente, em 2019, anuncia que desta vez é que é: há 50 ideias prontas a eclodir e até ao final do ano tudo deverá estar concluído. Interrupção dramática para alerta de Covid e comunicado oficial informando que "o lockdown atrasou-nos um pouco" mas "há canções suficientes para gravar um álbum de que me possa orgulhar". (daqui; segue para aqui)

Peter Gabriel - "i/o (Bright-Side Mix)"

14 September 2022

LIMAR AS ARESTAS
 

Quando alguém se lembrou de chamar a Elizabeth Fraser “a voz de deus”, poderemos ter, enfim, ficado a conhecer o género do poder supremo mas isso nunca seria atenuante suficiente para um insulto que ela, de todo, não merecia. Porém, repetindo talvez a certidão de óbito nietzschiana de 1882, em 1997, os Cocteau Twins imobilizaram-se para sempre e “a voz de deus” calou-se. Não de forma realmente total mas apenas os de muita fé terão reparado nas meteóricas aparições – à boleia dos Massive Attack, Peter Gabriel, Sam Lee, Oneohtrix Point Never, duas ou três bandas sonoras, um ou dois singles quase confidenciais e outro realmente confidencial (e inédito: “All Flowers in Time Bend Towards the Sun”, com Jeff Buckley) – que, em 2012, passariam pelo palco do London Meltdown Festival. Com o companheiro e co-conspirador Damon Reece (Massive Attack, Spiritualized, Echo & the Bunnymen, Lupine Howl) aí apresentaria quatro quintos do que, três anos antes, ao “Guardian”, havia revelado “poder vir a ser um álbum”, embora a precisar ainda de “ser muito polido”. (daqui; segue para aqui)

"Underwater"

21 February 2022

AFINAL, O QUE É UMA HISTÓRIA?
 
Laurie Anderson parece já ter feito tudo mas tem sempre alguma coisa por fazer. Após mais de uma dezena de álbuns (e o dobro disso em colaborações com outros artistas – William Burroughs, John Giorno, Peter Gabriel, Lou Reed, Marisa Monte, John Zorn, Kronos Quartet...) e outros tantos filmes, videos e "audiobooks", a criação de espectáculos de música/"spoken word"/"performance art" e exposições, a participação enquanto curadora (e em inúmeros júris) de festivais de cinema, e a criação de instrumentos (o "tape-bow violin" e o "talking stick"), em 2003, aceitou ser a primeira (e, até agora, única) artista residente da NASA, de que resultaria o espectáculo The End Of The Moon: “À superfície, é o meu relatório sobre o período que lá passei. As actividades que mais me interessaram lidavam com grandes extensões temporais, podem levar até 10 000 anos a serem concluídas. Há a tendência para se pensar em intervalos de tempo muito curtos ou para se considerar apenas o futuro e esquecer o imenso passado que temos para trás. Interessaram-me as formas muito diversas como ali o tempo é abordado”, explicou-nos, na altura. Quase duas décadas depois, o Charles Eliot Norton Professorship of Poetry da Universidade de Harvard, convidou-a a ser a responsável de 2021 pelas Norton Lectures, uma iniciativa anual sobre “poesia no sentido mais amplo”, na qual ela iria acrescentar o nome a tão ilustres antecessores como T. S. Eliot, Robert Frost, Igor Stravinsky, Jorge Luis Borges, Leonard Bernstein, Umberto Eco, Luciano Berio ou Agnés Varda. (segue para aqui)

19 February 2020

 AGUARELA INGÉNUA


Gato repetidamente escaldado pelas inúmeras e desavergonhadas campanhas de "hype" à volta de “génios incompreendidos na sua época” que, trazidos à luz, se revelam muito pouco geniais e justissimamente ignorados, teme, naturalmente, a água fria de mais uma “inigualável descoberta” pronta a servir. Foi, pois, inteiramente justificado que, ao ser anunciada a exumação de duas preciosidades do início dos anos 70, desde então remetidas para a clandestinidade, e cujo autor, durante os 40 anos seguintes, se vira obrigado a sobreviver como jardineiro, operário e trabalhador rural, a oferenda tenha sido recebida com os dois pés firmemente colocados atrás. Afinal, por uma vez, o "hype" tinha toda a razão de ser: Bill Fay (1970) e Time of The Last Persecution (1971) – muito especialmente o primeiro – eram o género de peças perante as quais apenas podia pensar-se “Mas como foi possível?...”
 

Entusiasticamente apregoado por Jeff Tweedy, David Tibet, Nick Cave e Jim O’Rourke, era, de todo, impossível não alinhar no coro. E fi-lo: Bill Fay era “coisa da estatura de Goodbye and Hello, de Tim Buckley, dos quatro primeiros de Scott Walker, de American Gothic de David Ackles, ou, do ponto de vista da encenação sinfónica, de Songs Of Love And Hate, de Leonard Cohen”. Provavelmente decisivas eram as orquestrações de Mike Gibbs (jazzman às ordens de Carla Bley, Bill Evans, Peter Gabriel, Marianne Faithfull, e Joni Mitchell) porque, embora também valiosos, Time of The Last Persecution e os dois que gravaria pós-ressurreição (Life Is People, de 2012, e Who Is the Sender?, de 2015), sem a mão de Gibbs, tendiam a aconchegar-se demasiado às ecografias da alma dos velhos  "singer-songwriters". Countless Branches vem confirmar essa ideia: quase só pele e osso de voz e piano com ocasionais pinceladas transparentes de violoncelo e trompete, é uma aguarela intimista de deslumbramento cripto-cristão perante o mundo, a vida e os humanos, talvez excessivamente ingénua – confrontar com Leonard Cohen - para um cavalheiro de 77 anos.

16 May 2019

XENOFILIA

  
David Napier, professor de Antropologia Médica no University College de Londres, publicou, em 2003, The Age Of Immunology no qual explorava e denunciava a aterradora ideia – contrabandeada do âmbito médico para as “ciências” sociais – de que, tal como o organismo se defende e sobrevive através da eliminação de corpos estranhos e microorganismos invasivos, o mesmo deveria ocorrer na sociedade expulsando e combatendo tudo o que, há quase 40 anos, Peter Gabriel designava por “not one of us”. Não é preciso estar excessivamente atento ao mundo para nos apercebermos de que, em década e meia, esse horror ideológico – ele, sim, verdadeiramente infecto-contagioso – se converteu em venenosa pandemia com consequências inquietantemente práticas e que exige resposta rápida e intensamente xenófila. Prontos a usar, os Vanishing Twin e o álbum que cita/homageia David Napier, The Age of Immunology, não poderiam constituir melhor e mais concreta terapêutica: oriundos da Bélgica, Japão, Itália, França e EUA, Phil MFU, Susumu Mukai, Valentina Magaletti, Elliott Arndt e Cathy Lucas convergiram para Inglaterra justamente na altura em que se aproximava o referendo do Brexit. 



Cantado nos idiomas de origem de cada um deles e gravado em diversas circunstâncias e com recursos pouco vulgares – num iPhone, em palco, na ilha de Krk, na Croácia, num moinho abandonado em Sudbury –, tanto se reclamam do espírito Dada e da Bauhaus, como vasculham os arquivos de "library music" mas também as esquinas menos frequentadas de Jean-Claude Vannier, Morricone e Piero Umiliani, as tangentes funk à BSO sci-fi de Planète Sauvage, o krautrock, ou o psych-jazz astral de Sun Ra. Não é, seguramente, uma coincidência que, neste labirinto, todas as setas apontem indisfarçavelmente na direcção dos mais recentes Stereolab e Broadcast. Os territórios, de facto, intersectam-se mas, neste ensaio sonoro acerca de “um mundo que, a cada dia, se torna mais irreal na sua estranheza e dissimulação, e que, nos constrange a auto-regular a imaginação ao serviço dos poderes” (Cathy Lucas), ponto de partida para uma banda sonora primitiva e futurista sobre a instável realidade e a ambiguidade identitária, o exercício de permanente e aquático "shapeshifting" musical desenrola-se frente a um cenário de exuberantes reflexos e cintilações, utópico e festivo. Como confessa também Lucas, “É um desejo profundo vir a ser, um dia, cidadã da Federação Planetária Unida”.

19 July 2016

TALHADO NA ROCHA


Mick Blake, "singer-songwriter" de Leitrim – na margem do “broad majestic Shannon”, como diria Shane MacGowan –, há dois anos, publicou no YouTube, "Oblivious", uma canção que, embora referindo-se muito especificamente à realidade irlandesa, se traduzida para português, nunca adivinharíamos que pudesse ter tido outra origem. Dedicada a “those suffering from blind allegiance or apathy”, é uma amável "folk ballad", a transbordar de amargura e revolta: “When they give all that you treasure away for a pittance, or banish your children to toil on a rich foreign shore, when they prey on the weakest and bow to the ones that have plenty, they know that you'll follow blindly as you did before (…) What will it take to make you angry? Where is the spark to light your flame? We've been sold out, taken in, yet blindly you do it all again, fuel that gravy train, oblivious, it's like we’re oblivious”. Já em 2012 – sempre exclusivamente via YouTube –, "Leitrim (A Brief History)" traçava uma arrepiante diagonal entre a Grande Fome de 1845/1852 (que dizimou um milhão de irlandeses e obrigou à emigração de outros tantos) e o tremendo colapso bancário de Setembro de 2008 (do qual a gravação das conversas entre administradores do Anglo Irish Bank, revelada pelo “Irish Independent”, poria um pacifista a sonhar com guilhotinas). 


Christy Moore não estava desatento. Ele, “Irish national treasure” a comemorar 50 anos de carreira, fundador dos prodigiosos Planxty e Moving Hearts, orgulhoso autor de canções proibidas (por “subversivas”) na rádio e, em 2004, ao abrigo do Prevention of Terrorism Act, detido e interrogado pelo Special Branch britânico acerca dos textos que cantava, ele, Christy Moore, apadrinhou "Oblivious" e "Leitrim" e incluiu-as no seu reportório. A primeira surge, agora, em Lily, último álbum de Moore. E, transportada por aquela voz que se diria talhada na rocha de Benbulben, dificilmente se encontraria terapia mais poderosa contra a “blind allegiance” e a “apathy”. Algo que a intensa versão de "Wallflower", de Peter Gabriel (sobre os prisioneiros políticos), aprofunda e, com "The Ballad of Patrick Murphy", se converte em centro de gravidade de uma impressionante colecção de nove canções e uma assombração "spoken word" - "The Lost Tribe Of The Wicklow Mountains" – a partir de um poema de Dave Lordan.