Showing posts with label Pentangle. Show all posts
Showing posts with label Pentangle. Show all posts

15 September 2025

MELANCOLIA BRITÂNICA 

Quando, a 3 de Julho de 1969, Five Leaves Left foi publicado, não teve direito a passadeira vermelha nem nada muito próximo disso. Na verdade - sem que sequer a presença dos "Thompson twins" Richard (dos Fairport Convention) e Danny (Pentangle) o pudesse contrariar -, a recepção crítica foi pouco mais do que morna: uma "tonalidade demasiado melancólica e uniforme", uma "atmosfera introspectiva excessivamente obscura e depresiva", e "ausência de dinamismo" foi o que, do "Melody Maker" ao "New Musical Express", ao "Daily Telegraph" e ao "Disc and Music Echo", se opinou, nunca indo além da classificação de "interessante", considerando as canções "incertas e indirectas", e o álbum "melodicamente monótono". Apenas Gordon Coxhill no "NME", admitia que Drake possuía um "considerável talento", mas o disco "carecia de diversidade", e a voz recordava-lhe a de Peter Sarstedt (a "one hit wonder" de "Where Do You Go To My Lovely?" que, em 2007, acabaria por ser ressuscitada por Wes Anderson para os filmes Hotel Chevalier e Darjeeling Limited) mas sem a sedução e profundidade deste. Um pouco mais simpático, porém, do que, parecia ser a opinião corrente na cave do nº 49 da Greek Street londrina onde, de 1964 to 1972, funcionou o clube folk Les Cousins e Drake era "aquele jovem nervoso que punha o público a dormir"... (daqui; segue para aqui)

25 February 2025

"Arrows"
 
(sequência daqui) Aconteceu a 21 de Novembro passado quando, na sua conta do Facebook, exclamou: "The Hank Dogs estão de volta! Uma das minhas bandas preferidas da Hannibal Records, em silêncio há quase 25 anos, têm um novo álbum - Fiveways - na Scratchy Records e é fantástico". Na verdade, os Hank Dogs haviam publicado Bareback (1998) e Half Smile (2002) pela Hannibal mas, perante o desinteresse do pouco respeitável mercado, cessariam a actividade. Antes, porém, gravariam um álbum que nunca sairia da gaveta, este agora, enfim lançado, Fiveways. O "pedigree" do trio era tudo menos previsível numa banda de raiz folk: Andy Allan fora o suplente de Sid Vicious nos Sex Pistols, Lily Ramona era filha de Allan e de uma das Slits e o pai de Allan fora o inventor do programa de TV "Ready Steady Go!". Fiveways é, contudo, puríssimo folk-rock de perfil minimalista, uma imponderável filigrana de transparências, algo como uns Pentangle severamente austeros.

20 September 2023

 

"Messenger Birds" (álbum integral aqui)

(sequência daqui) Por essa altura, na verdade, as duas meninas ainda adolescentes, já se haviam irremediavelmente extraviado do caminho da salvação e iriam travando conhecimento com diversos enviados das forças do mal: o belíssimamente discreto guitarrista David Williams, o baixo sinuosamente melódico de Frank Boylan e a inventividade rítmica do baterista Will Murray. Em conjunto, descobririam afinidades com os melhores da colheita da época: Sandy Denny/Fotheringay (em "Messenger Birds"), Steeleye Span (em "Dan The Wing"), Pentangle (em "Break Your Token"), Fairport Convention ainda seriamente contaminados pelos Jefferson Airplane (em "The Poet And The Witch" e "Lonely Man") e, de um modo geral, todas as mais cristalinas águas da corrente folk-rock convergiriam para Swaddling Songs (1972). Exemplar único - e, por isso, ainda mais precioso - de uma via que se manteria para sempre aberta.

25 November 2022

APENAS "MÚSICA LINDÍSSIMA"

Há 12 anos, preparavam-se Rachel e Becky Unthank para actuar no Olga Cadaval, em Sintra, pareceu-me urgente anunciar a verdadeira dimensão do que iríamos testemunhar: “Desde a era dos Fairport Convention, Steeleye Span, Pentangle, Richard & Linda Thompson e das irmãs Collins – ainda que com valiosíssimos porta-estandartes como June Tabor durante o interregno –, não surgia nenhum grupo na cena folk inglesa capaz de deixar absolutamente clara a ideia de que, no idioma popular tradicional, circulava ainda sangue suficientemente oxigenado e pronto a garantir que ‘os anos de ouro’ nunca seriam apenas uma antiga e saudosa memória. The Unthanks, em três magníficos álbuns – Cruel Sister (2005), The Bairns (2007) e Here’s The Tender Coming (2009) –, mudaram tudo”. Desde então, vários outros notáveis - Kinnaris Quintet, Lankum, Stick In The Wheel, Mànran, Sam Lee – se lhes juntaram. (daqui; segue para aqui)
 
"The Old News"

26 March 2021

Anne Briggs - "Summer's In"
 
(sequência daqui) O período que abrange começa no momento em que, no número 49 da Greek Street, no Soho londrino, abria o folk club “Les Cousins” (nome inspirado pelo filme homónimo de Claude Chabrol) onde, em alternativa à ortodoxia folk de Ewan McColl e "hardliners" afins, uma fresquíssima vaga de gente – Davy Graham, Bert Jansch, John Renbourn, Sandy Denny, The Strawbs, Incredible String Band, The Young Tradition, Anne Briggs, Martin Carthy, John Martyn... – desempoeirava as “sagradas escrituras” e, sem cerimónia, expunha-as a toda a sorte de heresias, do embrionário psicadelismo aos subterrâneos esoterismos lendários da “old, weird Britannia” pagã. Vários deles reencontram-se nestas 60 faixas mas valerá a pena dizer que, com mui honrosas excepções, não é por acaso que alguns nomes (Fairports, Pentangle, Steeleye, Third Ear Band, Young Tradition, Tim Hart & Maddy Prior, Shirley Collins, Mr Fox, todos aqui presentes) mais facilmente se recordam: eles eram incomparavelmente melhores.

01 December 2020

DE BEM VIVA VOZ

 

Após 38 anos sem gravar um disco, a primeiríssima dama da folk britânica, Shirley Collins, regressou, inesperadamente, em 2016, com o belíssimo Lodestar. A disfonia que a afectara aparentemente vencida, reincide, agora, com Heart’s Ease, outra pérola do reportório folk que, aos 85 anos nos oferece, não demasiadamente desconfortável com o confinamento (“Desde há muito que vivo sozinha, já estou habituada”) mas tremendamente furiosa com o rumo que o Reino Unido tomou: “Boris Johnson, que homem horrível! Como é que a Inglaterra pode ter chegado a este ponto! Eu sou europeia!...” 

    Em Electric Eden, Rob Young cita-a: “Sempre soube que esta música tinha nascido em mim. Sabia como cantá-la e nunca me iria afastar daí”. Foi, de facto, assim? 

Durante a 2º guerra mundial, era eu ainda criança, vivíamos em Hastings, na costa Sul de Inglaterra. Havia, frequentemente, raides aéreos e tínhamos de correr a refugiar-nos em abrigos onde os meus avós cantavam para mim e para a minha irmã, Dolly. Só mais tarde percebi que o que nos cantavam eram canções folk, música tradicional. Canções que eles, naturalmente, cantavam e que faziam parte da vida diária. Creio que começou tudo aí: adorava os meus avós, sentia-me segura junto deles, muito cedo essas músicas entraram em mim e nunca mais sairam. 

    No início do folk revival, havia aquela atitude militante de recolha e preservação da “música do povo”, levada extremamente a sério por gente como Alan Lomax (com quem viajou aos EUA numa expedição de recolha) ou Ewan MacColl... Como lidava com isso? 

Até certo ponto, compreendo-a uma vez que se trata de algo importante que deve ser preservado. Mas é uma forma um bocado agressiva de lidar com a música. Prefiro que as pessoas se sintam livres para fazer o que gostam sem necessitarem de regras estabelecidas por outros. O Ewan MacColl foi o pior de todos nessa atitude de ditar aquilo que podia e não podia ser cantado.* Não gostava nada dele, por isso também não liguei muito ao que dizia. Pareceu-me sempre um bocado falso, não era genuíno. Já o Alan Lomax era diferente, tinha consciência da importância de salvar do esquecimento a música tradicional de todos os países e do orgulho que as pessoas deveriam sentir na sua herança musical.

  

    Mas essas tradições musicais estavam, realmente, moribundas e necessitavam de ser preservadas?  

Era necessário mantê-las vivas porque estavam a ser exterminadas pela grande máquina da indústria musical que nos atira a mesma música para cima, seja qual for o lugar do mundo onde nos encontremos. Claro que também produz música óptima mas, no seu caminho, esmaga tudo, nada resta das músicas originais que fazem parte da História e das tradições dos povos. É terrível mas não tenciono deixar de lutar. 

    Na viagem aos EUA, com Alan Lomax, sentiu-se um pouco como um Colombo “ao contrário”, indo descobrir na América aquilo que já conhecia em Inglaterra? 

(risos) Sim, sobretudo nas montanhas Apalaches e Ozark, no Kentucky e no Arkansas, onde encontrámos canções originalmente inglesas, irlandesas e escocesas. Era fascinante escutar, em versão americana, canções que eu conhecia das colecções do Cecil Sharp. Evidentemente, ao longo dos anos tinham-se transformado gradualmente. E pude cantar algumas das versões que conhecia que as pessoas de lá receberam com a alegria de constatarem que, como diziam, “back in the old country”, ainda eram conhecidas. 

    Aos seus olhos, Fairport Convention, Steeleye Span, Pentangle, foram bem-vindos? 

Foi fantástico, de um modo geral, foi muito bom. A música era muito bem tocada, eram todos músicos que conheciam bem aquilo com que estavam a lidar, não era uma moda de que, mais tarde, se iriam arrepender. Acreditavam no que estavam a fazer. Era claro que, por exemplo, os álbuns de "morris dances", nunca iriam ser populares. Mas era uma questão de manter viva aquela música, de uma forma fresca e que não a rebaixava nem insultava.


  Como foi a experiência de, com a sua irmã Dolly, colaborar com David Munrow e o Early Music Consort em Anthems In Eden (1969) e Love, Death And The Lady (1970)? 

Devem ter sido os momentos mais emocionantes da minha vida musical! Para além de, como já lhe contei, os meus avós nos ensinarem canções tradicionais, o meu tio Fred fazia-nos ouvir muitos discos de Monteverdi. Aprendi, assim, a adorar também a música antiga. Conheci o David Munrow em Londres, com a Dolly. Fomos ter com ele ao Early Music Center porque adorávamos o trabalho dele, cheio de vida e energia. Passado algum tempo, surgiu a possibilidade de gravarmos Anthems In Eden e o David aceitou interpretar os arranjos da Dolly com o Early Music Consort. Ele era imensamente entusiástico, estar ao pé dele era como estar ligado a uma central eléctrica. Não duvidava que esta música deveria ser tocada e interpretada de uma forma rigorosa. Mas era tão gentil, o género de pessoa com quem nos apetece estar sempre... Eu não lia música (e continuo a não ler), o que, ao entrar para estúdio, me deixou um bocado nervosa. A Dolly tinha partituras para todos e, quando ele me disse que a minha entrada era no sexto compasso, tive de lhe confessar que não lia música. Respondeu-me: “Não há problema. Durante muito tempo, eu também não li música e, quando andei pela América Central, fui apanhando tudo de ouvido!” Era um músico extraordinário e foi o grande responsável da redescoberta e do interesse pela música antiga. A verdade é que tenho tido muita sorte com todos os extraordinários músicos com que me fui cruzando. 

    Também teve sorte por ter conseguido recuperar a voz... 

É verdade. O David Tibet, dos Current 93, veio visitar-me durante o período em que eu tinha deixado de cantar e disse-me que adorava os meus álbuns e que gostava que eu cantasse uma ou duas coisas num álbum dele. Ao fim de anos a tentar convencer-me, falou-me de um concerto que iria dar na Union Chapel de Londres e, depois de tanto tempo a dizer não, disse que sim!... E cantei mesmo. 

    Surpreendeu-se ao descobrir, em Shirley Inspired, que tinha tantos novos fãs como Lee Ranaldo, Meg Baird, Rozi Plain, Bonnie 'Prince' Billy?... 

Sim!...Foi uma grande surpresa ver aquela enorme variedade de músicos pegarem nas minhas canções. Não é uma questão de falsa modéstia mas tenho consciência que a música que faço se destina a um pequeno nicho. 

    Qual a sua opinião sobre gente recente como as Unthanks, Stick In The Wheel?..

Para ser sincera, as Unthanks fazem música lindíssima mas parecem-me demasiado repetitivas, prefiro um pouco mais de substância. E os Stick In The Wheel dão-me a sensação de estarem a cantar sempre a mesma música. Mas adoro os Lankum – a Radie Peat é uma cantora extraordinária! – e o Alasdair Roberts.;

    Tanto em Lodestar como em Heart’s Ease, o processo de selecção do reportório foi o que sempre utilizou? 

Sim, e não foi difícil encontrar as canções. Poderia gravar mais 20 álbuns se fosse necessário. O essencial é que os arranjos nunca se sobreponham â canção. Os músicos com que tenho trabalhado são perfeitos para mim, comprendem instantaneamente o que cada canção pede. São pessoas inteligentes, divertidas... e lêem livros! (risos) Já agora, tenho de dizer-lhe que a minha filha deu-me a conhecer a obra do José Saramago. Comecei por A Jangada de Pedra e, agora, estou a ler o Manual de Pintura e Caligrafia. É extraordinário!
 

* ver aqui e aqui

24 September 2019

UM LONGO CAMINHO

  
Dungeness é um promontório na costa de Kent, no sudeste de Inglaterra, uma reserva natural de Especial Interesse Científico devido à sua particular geomorfologia bem como às ricas fauna e flora. É também o local onde, desde 1983, se ergue uma central nuclear que, apesar de, diversas vezes, ter apresentado problemas graves, só tem o encerramento previsto para 2028. Foi, justamente, aí que Derek Jarman – cineasta, encenador, pintor, escritor, poeta e activista pelos direitos gay –, imediatamente após ter sido dignosticado HIV-positivo em 1986, comprou uma velha casa de pescadores em torno da qual foi plantando um jardim, “cujas fronteiras eram o horizonte”. No diário que, entre 1989 e 1990, escreveria sob a assombração da central (“Vê-se um por-do-sol ameaçador por trás da central nuclear: amarelos lívidos e negros de tinta com um profundo golpe escarlate. À medida que as sombras se adensam, a paisagem torna-se cinzenta; o céu sorveu todas as cores”), registaria todas as espécies botânicas cultivadas e as experiências de jardinagem no solo infértil de cascalho enquanto capítulos vitoriosos de uma guerra irremediavelmente perdida (“Não desejo morrer... ainda. Gostaria de ver o meu jardim ainda mais alguns verões”). O último verão foi o de 1993 e o título do diário, Modern Nature


Foi depois de uma visita ao jardim de Jarman que Jack Cooper sentiu não apenas o desejo de explorar um lugar de ambiguidade entre bucolismo pastoral e tensão urbana como achou o nome da banda que sucederia aos extintos Ultimate Painting: ele, Will Young (Beak>), o saxofonista Jeff Tobias (Sunwatchers), e o violoncelista Rupert Gillett chamar-se-iam Modern Nature. Escutando How To Live, apetece dizer que foi necessário percorrer um longo caminho até chegarmos a tão magnífico destino: Cooper revela, voluntariamente, alguns dos locais de paragem – Richard Thompson, Kraftwerk, Robert Wyatt, Brian Eno, Morton Feldman, Talk Talk, Shirley Collins, Pentangle, Simon Fisher Turner, Jonny Greenwood, Krzysztof Komeda – mas, à extensa lista, poderia ainda acrescentar-se (não tanto pela música em si, mas pelas atmosferas que evoca), It’s Immaterial, Blue Nile ou Young Marble Giants. Num video dividido entre paisagem rural e marítima e fragmentos de "morris dancing", leia-se um discreto manifesto de serena perplexidade: “Modern nature, great failure, tired and broken old creator, grand space race, find a new place, high above the barren fixed state (…) hide my eyes, my ears, away to nature”.

16 August 2019

TEMPOS DE VIRAGEM


Um tipo que se chama Karl Frederick em homenagem a Karl Marx e Friedrich Engels e cujos pais, no dia em que nasce, o inscrevem no Independent Labour Party – uma formação política da esquerda trabalhista britânica – tem, de certo modo, o destino traçado. Não foi, assim, muito surpreendente que Karl Dallas (1931 – 2016), activista pela paz desde os oito anos, enquanto jornalista, tivesse colaborado militantemente com o “Daily Worker”/”Morning Star” (jornal do Parido Comunista Britânico) e participado em inúmeras iniciativas de carácter anti-fascista. O que já não seria tão previsível é que Dallas – também "songwriter" com canções gravadas por Ewan MacColl e June Tabor – viesse a tornar-se o pai-fundador do jornalismo folk-rock britânico, essencialmente, nas páginas do “Melody Maker” (mas também no “Times” e “Independent” e nas suas próprias revistas “Folk News” e “Folk Music”) e em tomos como The Cruel Wars: 100 Soldiers' Songs From Agincourt to Ulster (1972), One Hundred Songs of Toil: 450 Years of Workers' Songs (1974) e The Electric Muse: The Story of Folk into Rock (1975). Foi a propósito da morte de Sandy Denny que, em Maio de 1978, na “Folk News”, Dallas recordou “aqueles gloriosos dias de Verão, no Soho, quando Paul Simon, Ralph McTell, Jackson C. Frank, Anne Briggs, Al Stewart, Beverley, Roy Harper, The Young Tradition, Bert Jansch, John Renbourn, (…) e um miúdo judeu chamado Dylan deambulavam pelo West End”.

Karl Dallas
 
É essa história e a imediata sequência dela que se resume em Strangers In The Room: A Journey Through The British Folk Rock Scene 1967-73 – mais um volume do precioso arquivismo histórico da Cherry Red – que, não por acaso, começa logo por citar Karl Dallas (do “Melody Maker”, Janeiro de 1970): “Há dois anos, folk rock era uma espécie de palavrão. Os adeptos da folk não compreendiam por que motivo tantos dos seus heróis electrificavam a sua música e os do rock recusavam-se a escutar tudo o que não soasse como o trovejar de uma manada. Hoje, graças aos Fairport Convention, a palavra pode tornar-se respeitável. Porque, se o que eles tocam não é folk rock, então o termo não significa nada”. Na verdade, a viragem começara um pouco mais atrás quando, em 1965, praticamente em simultâneo, os Byrds gravaram uma versão eléctrica de ‘Mr Tambourine Man’, de Bob Dylan, e este concluía as sessões de estúdio de Bringing It All Back Home, em cujo lado A era acompanhado por uma banda de rock. Duas páginas à frente no "booklet", Maddy Prior oferece a sua versão da história: “Na realidade, foi um casal americano que me fez interessar pela música inglesa. Andei a conduzi-los durante um ano por Inglaterra e, às tantas disseram-me: “Tens de parar de cantar música americana. Não tens jeito nenhum para isso. Porque é que não experimentas música inglesa?”



Nas 60 faixas da caixa de três CD, podem descobrir-se os clássicos lendários (Steeleye Span, Fairport Convention, Sandy Denny, Pentangle, Shirley Collins, Strawbs, Incredible String Band, Matthews Southern Comfort, Albion Country Band), os imerecidamente não tão na ponta da língua (The Woods Band, Trader Horne, Michael Chapman, Trees, Mike Hart, Bill Fay, Third Ear Band, Horslips, Ralph McTell, Mr Fox, Spirogyra, Bridget St. John) e algumas pérolas obscuras (Dando Shaft, Jade, Prelude). Para um primeiro passo no conhecimento mais completo da indispensável obra dos Steeleye Span, a Cherry Red propõe outra caixa de 3 CD, All Things Are Quite Silent: Complete Recordings 1970-71 que reune a fundamental trilogia inicial Hark! The Village Wait (1970), Please To See The King e Ten Man Mop or Mr. Reservoir Butler Rides Again (ambos de 1971), lugares onde a profunda erudição folk anglo-irlandesa acolhe e dilata as experiências eléctricas que Ashley Hutchings – agora acompanhado por Maddy Prior, Peter Knight, Tim Hart e uma posterior multidão de outros – havia iniciado quando ainda a bordo dos Fairport Convention, aqui elevadas a um patamar de apuro vocal e instrumental que estabeleceria o padrão face ao qual tudo o que viria a seguir haveria de ser comparado.

23 February 2017

MÁFIA DE GUITARRAS 


Thurston Moore não poupa nas palavras: “Michael Chapman esfarrapa uma guitarra acústica da mesma forma que Kandinsky uiva com um pincel. A sonoridade do feedback que ele extrai de uma guitarra de caixa foi sempre o meu modelo quando faço improvisação noise”. Isto diz ele acerca de um tipo de 76 anos que, apesar de – com Roy Harper, Bert Jansch, John Martyn, Martin Carthy ou Davey Graham – ter sido um dos faróis do folk/blues britânico e ostentar um CV com quase cinco dezenas de álbuns, só agora, após anos demais confinado a um estatuto de culto excessivamente confidencial, com 50, se vê publicamente aclamado como há muito era devido, regiamente produzido por Steve Gunn (que inclui Chapman, juntamente com La Monte Young, John Fahey e Robbie Basho, na sua lista privada de gurus) . 

    O Michael Chapman foi uma das figuras importantes do "british folk/blues revival" dos anos 60. Que memória guarda dessa época? 
    Era um ambiente muito sociável, apenas um grupo de amigos com experiência de tocar em clubes de folk, tudo gente nada académica. Divertíamo-nos muito, viajávamos pelo país todo. Para mim, era tudo muito novo, antes disso, nunca tinha sido músico profissional. Aprendíamos a tocar com músicos como o John Renbourn, o Bert Jansch ou o Davey Graham que ampliavam os limites daquilo que era possível fazer com uma guitarra acústica. 

    No ínicio, quais eram os seus modelos musicais? 
    O primeiro é capaz de ter sido o Big Bill Broonzy, E o segundo o Django Reinhardt. Na verdade, a minha raiz não era a folk mas sim o jazz. 

    Esse grupo de que fazia parte ao qual poderíamos acrescentar, por exemplo, o Richard Thompson, constituía como que uma espécie de fraternidade musical, apesar das diversas origens musicais? 
    Éramos uma espécie de máfia da guitarra acústica! (risos) 



    Tem ideia de por que motivo, de um tão rico conjunto de guitarristas – embora todos se tenham tornado músicos de culto –, praticamente nenhum atingiu o estatuto popular de "guitar hero" como aconteceu com Jimmy Page, Eric Clapton ou Jimi Hendrix? 
    Suponho que tenha sido porque nenhum de nós alguma vez desejou ser encarado desse modo. Ser famoso não era aquilo de que andávamos à procura. Os Pentangle chegaram a ser famosos e, até certo ponto, poderíamos dizer que o John Martyn também... mas tínhamos a noção do valor daquilo que fazíamos e bastáva-nos isso. Quem toca guitarra acústica prefere não o fazer em salas demasiado grandes. Eu gosto de poder ver o tipo que está na última fila. E, se houver oportunidade, beber um copo com ele. Numa sala com 5000 pessoas não se pode beber com todas... embora possa tentar-se! (risos) 

    Segundo a lenda, tudo começou para si em 1966, numa noite de chuva na Cornualha, quando, para pagar a entrada num clube, se ofereceu para tocar. É mesmo verdade? 
    É verdade, é. Estava uma tempestade terrível e eu tinha decidido que ia dormir no carro. Mas apercebi-me que, com o ruído da chuva, nunca iria conseguir. Então, entrei nesse clube de folk e propus-lhes tocar durante meia hora. Acabei por aceitar uma contraproposta de tocar seis noites por semana durante todo o Verão. Nem olhei para trás: era mais dinheiro do que o que ganhava como professor de fotografia no Lancashire. Sem ter sido necessário tomar qualquer grande decisão, completamente por acaso, tornei-me músico profissional. 

    Custou-lhe deixar o ensino da fotografia? 
    Não. Saí na altura certa. Eu queria ensinar da melhor forma que era capaz mas não me deixavam. Colocavam-ne imensas restrições relativamente ao que podia fazer. É uma história longa e aborrecida... e como também namorava com uma aluna e a minha mulher não achava muita graça a isso... (risos) 



    O Michael tem uma discografia enorme... 
     ... é uma estúpidez, não é?... (risos)

     ... mas, ao longo de todos estes anos, tinha consciência de que era objecto de um culto tão grande por parte de músicos mais novos como Thurston Moore ou Steve Gunn? 
    Sim, aconteceu nestes últimos dez anos, especialmente na América. Não fiz de propósito. Fizemos concertos em conjunto e dei-me muito bem e fiz amizade com gente que tem metade da minha idade. É, outra vez, aquela história da máfia das guitarras só que, desta vez, na América. E, embora, na maioria, sejam guitarristas eléctricos, a mim tanto se me faz. Sempre toquei ambas, é-me indiferente.

    Como foi a relação com Steve Gunn que produziu este seu álbum? 
    Conheci-o há cerca de dez anos num festival de guitarras. Tinha ouvido os últimos álbuns dele e achei-os fantásticos. Por isso, quando conversei com ele, disse-lhe que não estava interessado em apenas mais um álbum-de-Michael Chapman, desde há muito desejava gravar com uma banda. Fomos para um estúdio em Nova Iorque e, durante três dias, gravámos uma quantidade de coisas bastante interessantes. Foi aí que me apercebi que poderíamos ir mais longe com aquele grupo de pessoas que não eram só bons amigos mas também grandes músicos. A combinação perfeita. 



    Porque decidiu regravar uma série de canções que já tinha publicado em álbuns anteriores? 
    Até cerca de três meses antes de começarmos a gravar, eu não tinha escrito nenhuma canção nos últimos quatro anos. Quando compus algumas novas para este disco, não imagina como fiquei feliz: estava convencido que nunca mais voltaria a ser capaz de o fazer. E, das antigas, escolhi as que tinham sido incluidas em álbuns nunca publicados na América. 

    Apesar de a música americana ter sido sempre uma referência central na sua, este álbum – porque foi gravado nos EUA e com músicos locais – é apresentado como o seu primeiro “álbum americano”. Na actual situação política deste país, não é um momento particularmente problemático para se fazer essa associação? 
    (risos) O álbum foi gravado já quase há um ano. E queríamos publicá-lo também em vinil. Acontece que a maioria das fábricas de discos de vinil foram desactivadas. Leva praticamente um ano a conseguir que um disco seja prensado. E quando o disco foi concluído a situação política era diferente. Mas compreendo bem aquilo que quer dizer. As coisas estão numa enorme confusão. E, provavelmente, ainda irão ficar pior. Mas não sei... teremos de esperar para ver. Não sei se não deveríamos dar uma oportunidade ao homem... embora, na minha lista de prioridades, isso esteja lá bem no fundo.

10 August 2016

EPIFANIAS


Thurston Moore (ex-Sonic Youth, coleccionador voraz e editor) não tem dúvidas: nunca correremos o risco de não existir mais música por descobrir. E, ao número de Maio passado da “Uncut”, enumera os vastos filões a garimpar: “Archives of dialects, extensive collections of our voices and their nuances, gospel church choirs, obscure Cherokee peace dances, Everglade alligator songs, Maori friendship movements, poet spoken-word treaties, ballads of the Civil Rights era(s), fado cries for sailors, modernist compositions that have had the power to elate or destroy our soul, reggae with a compassion no man has without song”. E, panfletarizando o assunto, acrescenta: “Em lojas de discos bem abastecidas, são todos bem-vindos. Não é refugo para DJs, nem escória de coleccionadores. Estes lugares são bibliotecas. Nunca se esgotarão novos territórios sonoros – poderá apenas haver alguma escassez de ouvidos atentos e de corações prontos a bater”. Entre outros lugares de peregrinação, refere a Honest Jon’s de Portobello Road, em Londres, onde, um dia, após quase insana demanda do Graal, num instante de puríssima epifania para ateus, me foi depositado nas mãos – pelo igualmente extático "Honest" Jon Clare original? – o vinil de Promise Nothing, de Virginia Astley.


No dossier da “Uncut”, são referidos o coleccionador compulsivo brasileiro, Zero Freitas (6 milhões de vinis "and counting"), as lendárias (re)descobertas de Rodriguez, Linda Perhacs, William Oneyeabor, Lewis Baloue ou Elyse Weinberg e compilações preciosas montadas a partir de pepitas dispersas e/ou perdidas como Ork Records: New York, New York, da Numero Group. From The Outside, de Bert Jansch, é um dos mais recentes exemplos. Publicado originalmente na Bélgica, em 1985, numa edição de 500 exemplares, seria, fugazmente, reeditado em CD (1993 e 2001) e, desde então, permaneceria com o estatuto de raridade na discografia do sombrio e fabuloso guitarrista (morto há 5 anos), fundador dos Pentangle. Finalmente reeditado, agora, pela Earth Recordings (mas também apenas 1000 cópias "worldwide"...), é Jansch – voz, guitarra e banjo – em regime de produção-zero, às mãos de tarefeiros de estúdio de Londres e Copenhaga, reduzido à essência, “watching the dark” com a mesma feroz intensidade que nos habituámos a esperar de Richard Thompson.

10 December 2013

MUDAR DE PELE 


Não é fácil adivinhar que a banda que conhecemos pelo nome Midlake (e que a Wikipedia descreve despachamente na qualidade de “an American folk-rock band from Denton, Texas, formed in 1999”) teve origem num grupo de estudantes da Escola de Jazz, da North Texas University. Não só custa imaginá-los entregues a exercícios musculados de funk/jazz à la Herbie Hancock – mesmo garantindo que, sempre que podiam, praticavam adultério com o reportório dos Led Zeppelin... o que também não ajuda a melhorar a nitidez da imagem – como, recorrendo ao microscópio, das outras alegadas fontes de alimentação (Björk, Jethro Tull), os vestígios são virtualmente indetectáveis. Até porque, daquela parcela da discografia da banda a que o universo decidiu começar, verdadeiramente, a prestar atenção (e que lhes assegurou um confortável nicho no sector "indie"-barbudo, vagamente neo-hippie), The Trials of Van Occupanther (2006) era apenas uma declinação actualizada dos Fleetwood Mac-versão-soft-rock, e The Courage of Others (2010) guinava ostensivamente em direcção à Britânia dos Fairport Convention e Pentangle. Dá-se, porém, o caso de os Midlake serem algo como uns anti-Pink Floyd: se, a estes (e assumo o risco de ofender almas particularmente sensíveis), perder Syd Barrett não foi o acontecimento mais feliz para a sua trajectória posterior, para o sexteto texano, o abandono do cantor e principal compositor, Tim Smith, foi o melhor que lhes poderia ter sucedido. 


Vendo-se, de súbito, com a gaveta do reportório completamente vazia – apesar de o divórcio não ser violentamente litigioso, Smith fez questão de reivindicar para si as gravações de um álbum praticamente concluído durante dois anos de estúdio – não tiveram outra solução que não a de reinventar-se enquanto colectivo musical, passando a pasta de "frontman" ao guitarrista Eric Pulido. E, em seis breves meses, despiram-se, por inteiro da antiga pele e reemergem em Antiphon na condição de praticantes de uma estirpe de rock que, não sendo fulgurantemente inovador (missão realmente impossível) nem apagando na totalidade as pegadas de uma década de vida – "Aurora Gone" está lá para o recordar – se apresenta como uma das propostas mais consistentes para uma segunda vida actual da coisa prog/rock/folk/psicadélica. Não é impossível que os solavancos estéticos com que, desde a origem, foram convivendo os tenham ajudado a compreender que, se era sobre idiomas pré-existentes que pretendiam trabalhar, a regra de ouro para os não meros copistas é sempre baralhar e voltar a dar. À maneira de uns Echo & The Bunnymen que tivessem sonhado ser os Radiohead (sim, invertendo os termos) e que, para tal, sentissem ser indispensável incorporar material genético dos (ei-los de novo!) Pink Floyd-com-Barrett, não desdenhando igualmente o gosto pelas massas corais que, dos Association aos Fleet Foxes, aqui e ali, emerge, a matéria sonora que de tais colisões resulta – ponham os ouvidos em "Vale", "The Old And The Young", "Antiphon" e, sobretudo, "Provider Reprise" – é, ora um admirável barroco lisérgico, ora uma pastoral sci-fi embriagada de luz. Agradeçam a Tim Smith.

26 May 2011

CLUBE GOURMET
 

A Presença das Formigas - Ciclorama

No resto, não se sabe. Mas, em matéria de música, ninguém tenha dúvidas que a dieta de A Presença das Formigas é de requintadíssimos "gourmets". Naquela mesa, só entram os melhores produtos de confecção tradicional e de origem local ou internacional. Isto significa que aquilo que, no álbum de estreia do septeto do centro-norte luso, se escuta foi já bastamente decantado e destilado nos alambiques de Fausto, José Afonso, Sérgio Godinho, Gaiteiros de Lisboa e Amélia Muge e, por isso mesmo, o que de cada um dos ingredientes se identifica são apenas as mais subtis essências combinadas em doses infinitesimalmente exactas com sabedoria de perfumista. O espectro de aromas e paladares, porém, não se fica por aí e não é difícil apercebermo-nos de que, aos anteriores, se acrescentam segredos e procedimentos aprendidos (directa ou indirectamente) junto de luminárias do folk-rock britânico (Fairport Convention e, particularmente, Pentangle), eventualmente gaulês (jurava ter tropeçado em vestígios de material genético de La Bamboche), mas também oriundos de coordenadas menos previsíveis mas, indiscutivelmente identificáveis e melhor digeridas como é, garantidamente, o caso do civilizadíssimo prog-rock de marca Gentle Giant. E arabismos mediterrânicos. E penumbras fadistas. E liberdade de movimentos jazzística em contraponto com disciplina de composição contemporânea. Tudo moldado sob a forma de canções que André Cardoso (guitarras, oud, cavaquinho), Cecília Peçanha (flautas), Filipa Meneses (teclados), Luís Arrigo (percussões), Manuel Maio (violino, bandolim e cavaquinho), Miguel Cardoso (baixo, guimbarda) e Teresa Campos (voz) elevam às mais oxigenadas alturas da música portuguesa de hoje.

(2011)

10 January 2011

THE PAST IS NOT THROUGH WITH US



Trembling Bells - Abandoned Love

O folk-rock britânico do final dos anos 60/início de 70, do século passado foi tão densamente rico e ocupou tal variedade de territórios – da folk britânica propriamente dita às suas extensões no continente norte-americano, à modernidade eléctrica ou à "música antiga" – que complicou muito seriamente a tarefa de quem, futuramente, pretendesse apresentar-se como legítimo candidato à sua herança. Simplificando um pouco abusivamente, de um trio que incluiu os Fairport Convention, Steeleye Span e Pentangle e que deu origem posterior a obras como as de Sandy Denny, Richard Thompson (com e sem Linda Thompson), Maddy Prior, Bert Jansh ou Martin Carthy ou a explorações mais ou menos heréticas da "morris dance" ou do English Dancing Master, de John Playford, com incursões por vanguardas (termo, obviamente, antigo) avulsas, só muito dificilmente seria de esperar que os putativos continuadores estivessem à altura dos mestres. E, com raríssimas excepções (assim, de repente, só uma: as Unthanks), entre a paródia "freak-folk" e gente diligentemente esforçada como Alasdair Roberts e os Espers, o único confesso discípulo justamente notável (no caso, do tutor Richard Thompson), acabou por emergir em área diversa, chamou-se Peter Buck e continua a integrar os R.E.M. Os Trembling Bells, umas valentes décadas depois, têm o currículo certo (outra vez, do "experimentalismo" que “The Wire” aprova, do baterista e compositor, Alex Neilson, à formação vocal em "early music" de Lavinia Blackwell), mas, por muito que estiquemos a benevolência, não são senão muito compenetrados clones – isto é quase, quase um louvor – do lugar geométrico onde os Fairports tropeçam nos Steeleye e geram descendência. São, seguramente, bons, mas não impedem de recordar a frase de P. T. Anderson em Magnolia: “We may be through with the past but the past is not through with us”.

(2011)

10 May 2010

VEIAS E OSSOS DO NORDESTE



Simplifiquemos um pouco mas não exageradamente: desde a era dos Fairport Convention, Steeleye Span, Pentangle, Richard & Linda Thompson e das irmãs Collins – ainda que com valiosíssimos porta-estandartes como June Tabor durante o interregno –, que não surgia nenhum grupo na cena folk inglesa capaz de deixar absolutamente clara a ideia de que, no idioma popular tradicional, circulava ainda sangue suficientemente oxigenado e pronto a garantir que “os anos de ouro” nunca seriam apenas uma antiga e saudosa memória. Rachel Unthank & The Winterset (actualmente, The Unthanks), em três magníficos álbuns – Cruel Sister (2005), The Bairns (2007) e Here’s The Tender Coming (2009) –, mudaram tudo e, hoje, Rachel Unthank também já não duvida disso: “Aparentemente, os media voltaram a interessar-se pela palavra 'folk', deixou de ser um palavrão. Poderá ter acontecido devido a alguma frustração com a pop produzida em massa ou à vontade de descobrir qualquer coisa mais autêntica. Não estou certa que este novo 'revival' possa ter a mesma dimensão do dos anos sessenta, quando praticamente todos os jovens frequentavam os clubes de folk. Mas há, seguramente, um interesse renovado”.



A genealogia das irmãs Becky e Rachel, filhas mui legítimas do que já foi caracterizado como “a república espiritual de Northumberland”, também ajudou: “É verdade, os nossos pais estiveram envolvidos no primeiro 'folk-revival', sempre os vimos a cantar e a dançar músicas tradicionais e, desde miúdas, participávamos também; aprendemos o 'clog-dancing', íamos a festivais, cantávamos em clubes de folk, aprendemos imensas canções. Eram as histórias que as canções contavam que a mim e à minha irmã nos atraía. Foi, realmente, um ambiente óptimo para nós crescermos. Todo o Nordeste de Inglaterra tem um sentido de identidade extremamente forte, há um orgulho regional muito intenso, apesar de ser uma zona que atravessou tempos bem difíceis. E coisas como as indústrias mineira e naval – sempre com gente a chegar e a partir – ou o facto de estarmos encostados à Escócia, com todas as guerras que aqui foram travadas, tudo isso alimentou a tradição e as canções que dela surgiram”. Naturalmente, este é um caldo de cultura que, como adiante na conversa se compreenderá, facilmente afia facas de dois gumes. Ou mais.


Por um lado, pode exaltar ânimos “puristas” perante a “heresia” de alguns arranjos e a opção por temas de Robert Wyatt ou Bonnie Prince Billy. Mas, com isso, as Unthanks lidam bem: “Seja qual for o tipo de música que façamos, haverá sempre quem goste e quem não goste. Existe, de facto, na cena folk, quem pense que fomos longe de mais. Por mim, não existe aí nenhum problema. Sempre ouvimos tipos de músicas muito diferentes e isso reflecte-se na forma como compomos e arranjamos. Muito egoistamente, pretendemos que essa música nos estimule e que a achemos interessante, ainda que, sem a menor dúvida, o nosso coração esteja com a música tradicional. Mas, mais do que procurar agradar ao público, queremos que nos satisfaça a nós. De outro modo, não estaríamos a ser honestas”.



Por outro, o reforço da identidade – na Northumbria, mais uma questão de classe do que local – distingue a folk inglesa das congéneres irlandesa e escocesa: “Os escoceses e irlandeses sentiram uma maior necessidade de afirmar a sua tradição. Para os ingleses, isso é capaz de ser mais difícil por poder ser encarado como um gesto imperialista. Claro que estas coisas evoluem e, no fundo, a maioria destas canções têm uma origem proletária. O Noroeste, é uma zona marcadamente operária e muito politizada. Quando não é necessário lutar-se pela identidade nacional, luta-se pelos direitos de trabalho. A indústria mineira está muito presente nas canções. O Birtley Folk Club, por exemplo, pertence a uma velha família de mineiros comunistas, socialistas e humanistas. Mesmo ‘The Testimony Of Patience Kershaw’ embora seja uma canção do Yorkshire que se situa mais a Sul do que a região de onde nós somos, ainda pertence ao Norte e partilha as mesmas referências culturais. De um modo geral, escolhemos canções com histórias acerca da dureza da vida e da luta das mulheres, no fundo, sobre a condição humana, histórias sombrias… e isso corre nas veias e está agarrado aos ossos do próprio Nordeste, é um território lindíssimo mas selvagem e agreste”.



O gume traiçoeiro da faca surge, porém, quando – como conta Rachel – as questões identitárias se deixam sequestrar (e isso acontece com demasiada frequência) por meliantes racistas: “Este é um momento muito interessante para a política no contexto da folk: existe um movimento chamado 'Folk Against Fascism' que foi constituído quando se descobriu que o British National Party [extrema-direita] incitava os seus militantes a infiltrar-se nos grupos de 'morris-dancing' e nos eventos folk, reivindicando-os como marca de identidade nacionalista. Para mim, a folk tem apenas a ver com gente trabalhadora, com uma atitude inclusiva e de partilha”. A notícia de que isso sucede exactamente no instante em que o über-clássico, Morris On, acaba de ser reeditado, provoca uma enorme gargalhada a Rachel: “A sério?... O Morris On era o disco que, aos sábados de manhã, os nossos pais punham a tocar para que nós nos entretivéssemos a dançar e eles pudessem dormir até mais tarde!...”

(The Unthanks - Centro Cultural Olga Cadaval, Sintra, 10 de Maio, 21h30)

(2010)

19 November 2009

MY SAD AND FAMOUS SONGS



Leonard Cohen - Live At The Isle Of Wight 1970

“Sempre senti uma certa irmandade com o que se passa em todas as épocas. Mas a verdade é que nunca estive (e continuo a não estar) no centro dos acontecimentos. Senti-me próximo da 'beat generation' e, apesar de não ter feito, realmente, parte dela, conheci Ginsberg, Kerouac e Corso. Antes deles, também me dava com aqueles a quem chamávamos os ‘boémios’, frequentava os seus cafés em Montreal, embora não fosse um deles. Os hippies não me interessaram especialmente, em particular, quando começaram a poluir os rios e a deixar lixo por todo o lado, quando iam para o campo adorar Deus e a Natureza. Eram péssimos campistas! Eu, que fui escuteiro, posso dizê-lo...”, disse-me Leonard Cohen, vinte e quatro anos depois de ter actuado no festival da ilha de Wight, perante uma matilha de meio milhão de hippies raivosos contra a feroz "exploração capitalista" que lhes cobrava a exorbitância de meia dúzia de libras por seis dias (de 26 a 31 de Agosto) em que escutaram, ao vivo, Kris Kristofferson, Gilberto Gil, John Sebastian, Joni Mitchell, Miles Davis, Sly & The Family Stone, Family, os Who, os Pentangle, Richie Havens e Jimi Hendrix, entre outras menoridades (porém, maioridades, à época) como Donovan, Moody Blues, Doors, Chicago, Ten Years After, Emerson, Lake & Palmer, Free, Jethro Tull e tutti quanti.



O p.o.v.o. revolucionário estava em fúria, uivava perante os portões fechados, mas, pelas quatro da matina, um Leonard Cohen acabado de acordar, severamente encardido – ao lado de Corlynn Hanney, Susan Musmanno e Donna Washburn, impecavelmente maquilhadas -, e uma banda de country-folk capaz de humilhar toda a seita "psych" contemporânea, pouco depois de ver acrescentadas labaredas amotinadamente reais ao palco a que, antes, Hendrix lançara fogo musicalmente metafórico, domesticou, facilmente, as hostes. “They gave me some money for my sad and famous songs, they said the crowd is waiting, hurry up or they’ll be gone, but I could not change my style and I guess I never will, so I sing this for the poison snakes on Devastation Hill”. "Devastation Hill" (nome oficial: "Desolation Row") era o nome do acampamento dos "radicais livres", que o documentário de Murray Lerner (DVD e CD gémeos) ilustra em toda a sua suja realidade. Levaram com Diamonds In The Mine. E com quase todo o Cohen de rasgar as veias da época – entre Songs Of Leonard Cohen e Songs Of Love And Hate. E calaram-se. Como deviam. Hoje, os mesmos, acham-no um "cantor de charme".

(2009)

03 January 2008

MÚSICA 2007 - VI (reedições)



The Triffids – In The Pines e Calenture
Pentangle - The Time Has Come
Ennio Morricone - Morricone In The Brain
Young Marble Giants - Colossal Youth & Collected Works
GNR - Independança
Robert Forster/Grant McLennan - Intermission: the best of the solo recordings 1990-1997
Laurie Anderson – Big Science
Leonard Cohen – The Songs Of Leonard Cohen, Songs From A Room e Songs Of Love And Hate
Joy Division – Unknown Pleasures, Closer e Still
Caetano Veloso – Caetano Veloso (Tropicália), Caetano Veloso, Caetano Veloso (A Little More Blue) e Araçá Azul
Karen Dalton – In My Own Time

23 May 2007

O MAGNÍFICO ABSURDO



Pentangle - The Time Has Come: 1967 - 1973

Aquando da primeira tournée dos Pentangle pelos EUA, em 1968, ao chegarem ao lendário Fillmore East, os técnicos da casa interrogaram Bobby Cadman – o “roadie” da banda – acerca de que tipo de luzes preferiam que fossem utilizadas. Não fazendo a menor ideia do que responder, Cadman reflectiu um pouco e decidiu-se por “Parece-me que ficava bem uma coisa assim tipo Mateus Rosé...”. A história poderia ser apenas anedótica mas caracteriza bem a dificuldade que sempre existiu quando se pretendeu classificar a música do grupo de Jaqui McShee, John Renbourn, Bert Jansch, Danny Thompson e Terry Cox.



E que, noutro episódio recordado por Renbourn, fica ainda mais explícita: obrigados, em plena época do hippismo florescente, a integrar os diversos circuitos de festivais e concertos mais ou menos “underground” desses anos, com um reportório predominantemente acústico ensanduichado entre pesos-ultra-pesados como os Canned Heat ou Rhinoceros, havia, frequentemente que resolver situações de contiguidade complexas. A mais arriscada terá sido actuar a seguir aos Spirit: “O baterista, Ed Cassidy, vestindo correntes e banhado em ‘strobe lights’, costumava terminar o concerto com um gigantesco solo de bateria em que utilizava tambores militares em ambos os lados do palco. Era uma coisa impressionante. A canção com que nós abríamos era ‘No More My Lord’, com uma muito discreta introdução da bateria do Terry. O contraste não podia ser mais absurdo. Mas a nossa banda foi sempre um imenso contraste absurdo”.



Ou, muito mais exactamente, um magnífico contraste (só aparentemente) absurdo: dois prodigiosos guitarristas – John e Bert – educados na tradição folk/blues/jazz mas avidamente interessados pela música medieval e do Renascimento e nada relutantes em dedicar-se à execução do sitar indiano; uma cantora – Jaqui – de voz luminosa treinada no cancioneiro folk mas que, mal pôs o pé em Nova Iorque, correu para ouvir Bill Evans, Miles Davis e a big-band de Thad Jones e Mel Lewis, no “Village Vanguard” e no “Barron”, de Harlem; e uma virtuosíssima secção rítmica de contrabaixo e bateria – Danny e Terry – com a flexibilidade jazz/blues adquirida ao lado de Alexis Korner nos Blues Incorporated (onde Thompson substituiu Jack Bruce quando este saiu para formar os Cream, com Eric Clapton e Ginger Baker) ou de Tubby Hayes, Ronnie Scott, Stan Tracey, Little Walter, John Mc Laughlin, Josh White, Joe Williams, Art Farmer, Freddie Hubbard, Sonny Terry, Brownie McGhee e John Lee Hooker.



Reunidos quase acidentalmente nas “jam sessions” que aconteciam, em 1967, no pub do Horseshoe Hotel de Tottenham Court Road (onde apareciam também Sandy Denny, Davy Graham ou Anne Briggs), entre esse ano e 1973 – não contabilizando agora os diversos reencontros posteriores, com diversas e flutuantes formações –, devemos-lhes uma preciosa discografia em seis volumes (The Pentangle, 1968, Sweet Child, 1968, Basket Of Light, 1969, Cruel Sister, 1970, Reflection, 1971, e Solomon’s Seal, 1972) que, hoje, é ritualmente venerada pela tribo “psych/free/freak/folk” (o que mestre-Jansch retribuiu, convidando Devendra Banhart e elementos dos Espers e Vetiver para o seu muito bom mas irregular The Black Swan, do final do ano passado) e que, agora, podemos deslumbradamente revisitar nesta sumptuosa caixa de 4 CD.



Por uma vez, todas as “takes” alternativas, lados-B, raridades, gravações de rádio e ao vivo e exumados temas de filmes não só fazem inteiramente sentido, como contribuem para que seja possível apercebermo-nos do amplíssimo espectro estilístico da música (dos brocados folk e do reportório original às transfigurações de Charlie Mingus, Phil Spector e Bach, às incursões John Barry/Bernard Herrmann ou às “jams” gratefuldeadianas) da única banda britânica que, no terreno do que – na ausência de melhor designação e para grande desgosto dos próprios Pentangle – teremos ainda de chamar folk-rock, terá ousado fazer alguma sombra aos Fairport Convention. (2007)