Showing posts with label Pavement. Show all posts
Showing posts with label Pavement. Show all posts

30 November 2024

Rollerskate Skinny - "Some Give Birth"


"Shoulder Voices is the debut album by Rollerskate Skinny, released in 1994. (...) 'Trouser Press' called the album 'a fascinating and delightful debut that jumps easily from intimate indie tunefulness (the vocals sound like Pavement) to free-fire pop noise, with plenty of wild and wonderful textures along the continuum'. (...) 'Washington City Paper' wrote: 'Mixing the sonic textures of My Bloody Valentine with the rich melodies of Echo & the Bunnymen and angular, runaway rhythms, Voices' layered brilliance was maniacally complex, immediately catchy, and refreshingly innovative'". (ver aqui; álbum integral aqui)

30 December 2022

 
(sequência daqui) Mas, pelo meio, podemos observar como, diversas vezes, Florence consulta o placard coberto de folhas com fragmentos de textos, fonte de alimentação das canções em processo de gravação. Algures por ali – sob os espectros de Sterne, Burroughs, Gysin e Laurie Anderson –, John Parish, no posto de (discreto) comando, esforça-se por arrumar tudo ao jeito de um diário dadaísta, acondionado por um "brainstorming" instrumental em comunicação mental com os Wire, Pavement, Johnny Marr e Robert Fripp. Na capa do sucessor de New Long Leg, um sabonete no qual o título do álbum se desenha numa elegantíssima filigrana de pelos púbicos. Um manifesto? “For a happy and exciting life, locally, nationwide or worldwide, stay interested in the world around you”.

19 October 2022

"My Blood"

(sequência daqui) “Para mim, é tudo exactamente igual a quando Alan Lomax andava por todo o mundo a descobrir as músicas locais. As canções estão aí para ser colhidas”, dizia ela à WNYC. Isto, enquanto, com Greg Ahee e Michael Wallace, alimentava a fogueira dos Bloodslide, trio pós-punk de incandescências elétricas. Agora, em Dirt! Soda!, continuando rodeada de gente dos círculos privados de Bill Laswell, Julia Holter, Yves Tumor e Joan As Policewoman, à excepção de "Strings of Nashville", dos Pavement, e "Broken Hearted Wine", dos Codeine (fundidas numa liga metálica única), e de "Then You Can Tell Me Goodbye", de The Casinos, AJ assina todos os outros temas. E o que se escuta é coisa hipnótica de essência medularmente lynchiana, traduzida e expandida para o vocabulário já antes, em várias tonalidades, ensaiado por Julee Cruise, PJ Harvey, Nick Cave, Kate Bush ou Chrysta Bell.

03 January 2022

TODOS OS NEURÓNIOS ILUMINADOS
A linhagem musical e o círculo de relações dos dB’s eram imaculados: Chris Stamey, Peter Holsapple, Gene Holder e Will Rigby caminhavam nas pegadas dos Television, Big Star, Kinks e Elvis Costello mas, sobretudo, dos britânicos The Move e, em circunstâncias diversas, tinham-se cruzado ou haveriam de cruzar-se com Richard Lloyd (Television), Don Dixon (produtor dos R.E.M., Smithereens e Guadalcanal Diary), Mitch Easter (fundador dos Let’s Active e produtor dos R.E.M., Pavement e Suzanne Vega), Chris Bell (Big Star) e Scott Litt (produtor de Nirvana, R.E.M. e Liz Phair). Mas, entre a chegada a Nova Iorque, em 1978, dos quatro nativos da Carolina do Norte e a publicação – apenas no Reino Unido – dos dois primeiros (e preciosíssimos) álbuns – Stands for Decibels (1981) e Repercussion (1982) – haveria de passar-se demasiado tempo durante o qual, contudo, a banda não esteve, de modo algum, inactiva. Sob várias designações e configurações, deixaram um muito razoável baú de gravações (essencialmente, singles e registos ao vivo) do tempo em que, como conta Stamey nas suas memórias, Spy In The House Of Loud: New York Songs And Stories, imaginavam a sua música à imagem de uma máquina de flippers “quando as luzes disparam ao mesmo tempo, uma espécie de resposta cerebral instantânea, com todos os neurónios iluminados”. (daqui; segue para aqui)
 

17 March 2015

MUSCULAÇÃO 


Não é preciso recuar até ao comunismo radical da Irmandade do Livre Espírito medieval. Podemos começar por aquele improvável momento do século XVIII em que Thomas Jefferson, inspirado por John Locke, a 4 de Julho de 1776, na Declaração de Independência dos EUA, ao lado da “vida” e da “liberdade”, inscreveu a “busca da felicidade” como um dos três “direitos inalienáveis” de todos os homens. Quase 75 anos depois, na 11ª Tese sobre Feuerbach, Marx declararia que “Os filósofos limitaram-se a interpretar o mundo de diversas formas, o que importa é transformá-lo" e, em 1873, nas páginas de Une Saison En Enfer, Rimbaud exigia “mudar a vida”. André Breton, em 1935, ensaiou a síntese (“Transformar o mundo e mudar a vida: para nós, estas duas palavras de ordem são apenas uma”) e, duas décadas mais tarde, os radicais livres de Isou, Debord e Vaneigem, enfim livres de todo o fetichismo do trabalho – “Ne travaillez jamais!”, proclamava Débord em 1952 –, não se contentavam com menos do que “Viver sem tempos mortos e gozar sem limites” porque “nada pode dispensar a vida de ser absolutamente apaixonante”



Desde então, foram muitos os espectros que assombraram a Europa (e o mundo), todos, porém, concentrados na ideia de que a existência humana é demasiado curta para nos satisfazermos em ser apenas peças no tabuleiro de um imenso jogo. Em 2000, os Hefner de Darren Hayman, militantemente politizados à custa de Billy Bragg, cantavam, eufóricos de antecipação, “We will laugh the day that Thatcher dies, even though we know it's not right, we will dance and sing all night”. Treze anos e mais de duas dezenas de álbuns e EP a solo após a separação do grupo, Hayman, em visita ao museu de William Morris – poeta, romancista, pioneiro do movimento Arts & Crafts e socialista britânico do final do século XIX – tropeçou num panfleto com poemas de Morris inspirados na condição operária e pareceu-lhe um óptimo pretexto para a criação de um disco de “canções para situações de emergência” como, não restam grandes dúvidas, são as que, hoje vivemos. O banho ideológico é, naturalmente, obreirista e pré-Situacionista, mas o exercício de musculação política de Chants For Socialists, em registo Pavement "meets" Richard Thompson "meets" Big Star é francamente recomendável.

27 August 2012

UMAS FITAS QUE GRAVÁVAMOS LÁ EM CASA
 

















Silver Jews - Early Times 1990 - 01
   
Em 1992/93, uma dúvida dilacerava o universo "indie": seria aquela banda que, sob o nome Silver Jews, editara dois EP – Dime Map Of The Reef e The Arizona Record – realmente os Pavement sob disfarce? Bobby N, Hazel Figurine e D.C. Berman, seriam, afinal, os mesmos que haviam publicado Slanted And Enchanted? A resposta, como frequentemente sucede, era sim e não: a ascendência era comum (Ectoslavia, ovo primordial chocado na Universidade da Virgínia, que, albergando Stephen Malmus, Bob Nastanovich, James McNew e David Berman, estaria na origem dos Pavement, Silver Jews e Yo La Tengo), dois dos seus elementos (Malkmus e Nastanovich) também, fora até Berman quem cunhara o título Slanted And Enchanted, mas tratava-se de duas bandas diferentes. Como, em 2006, David Berman contou, foi na altura em que ele e Malkmus trabalhavam como vigilantes no Whitney Museum of Art, de Nova Iorque, que escreveram a maioria das canções durante as horas de trabalho. (...) Quando comecei a gravar o primeiro 12", nunca pensei que os Silver Jews fossem realmente uma banda: eu enviava para o mundo esta espécie de ideia de uma banda, uma cópia desbotada de um Xerox de uma banda. (...) Nunca iríamos tocar ao vivo, vendermo-nos comercialmente, fazer parte da economia de mercado, na verdade, nunca iria existir banda nenhuma, os discos pareceriam ser discos mas não seriam mais do que umas fitas que gravávamos lá em casa”. Não poderia ter mais razão: reunindo ambos os EP, Early Times é puríssima "lo-fi" paleolítica, uma relíquia tosca em que apenas o mais ortodoxo dos fãs poderá descortinar os futuros Jews. Mas se, na Idade Média, chegaram a existir 18 prepúcios de Cristo devotamente adorados, a estes outros judeus também não hão-de escassear os fiéis.

08 April 2012

UMA VEZ NUM SÉCULO

 
















Punch Brothers - Who’s Feeling Young Now?

T-Bone Burnett, acerca dos Punch Brothers, não poupa palavras: “É uma das mais incríveis bandas que este país já produziu. Chris Thile, o bandolinista, é um daqueles músicos que aparecem uma vez num século, como Louis Armstrong”. Não é paleio de marketing, é mesmo para levar a sério. Pela solidíssima razão de que, como muito raramente acontece, perante Who’s Feeling Young Now?, é possível escrever a oh quão desejável frase, “nunca ouvi nada parecido”. E acrescentar-lhe, logo a seguir, um assaz apropriado “Uau!”. É verdade que, à primeira vista, se trata apenas de um tradicionalíssimo quinteto de "bluegrass" (esse subgénero da country germinado nas montanhas Apalaches, território selvagem de mestiçagens várias, onde terão até habitado os misteriosos afroportugueses, Melungeons), juntando ao bandolim de Thiele (cúmplice de Yo Yo Ma, Béla Fleck, Dolly Parton e Jack White) o violino de Gabe Witcher, o banjo de Noam Pikelny, a guitarra de Chris Eldridge e o contrabaixo de Paul Kowert.


O que já faz arregalar os ouvidos é darmo-nos conta de que esta gente, sem abdicar do virtuosismo próprio do género – mas, correcção: aqui é impossível falar de géneros! –, esborracha, sem cerimónias, os traços de identidade do que nos habituámos a chamar folk, jazz, clássica, contemporânea ou rock, desfibra implacavelmente "Kid A", dos Radiohead (como, na anterior encarnação, Nickel Creek, Thiele havia feito a 'Spit On A Stranger', dos Pavement), pulveriza "Flippen" dos suecos, Väsen, inventa as canções que Ray Davies (não) teria escrito com Kurt Weill ("Patchwork Girlfriend") ou que um Costello-"hillbilly" sofisticado assinaria de bom grado ("Hundred Dollars"), e pelo caminho, cria aquilo que, sem exagerar muito, foi descrito como “o resultado de complexos algoritmos introduzidos num processador interplanetário”.

07 September 2011

UM DYLAN DE BOLSO


The Wave Pictures - Beer In The Breakers

“Termos um óptimo estúdio onde pudéssemos gravar ao vivo” era a ambição que, no ano passado, quando vieram actuar ao Santiago Alquimista, os Wave Pictures confessavam. Mas, já na altura, erguiam alguns diques à enxurrada de “valores de produção” e afins que esses sonhos podem arrastar: “Não temos nada contra aquelas bandas que gostam de tirar partido de todas as possibilidades que um estúdio oferece mas é preciso estar alerta em relação à hipótese de nos deixarmos ir atrás de demasiadas facilidades. Gostamos de gravar em estúdio mas não nos agrada muito o caminho por que optam muitas bandas que, primeiro, gravam um álbum e, depois, procuram reproduzir exactamente essa gravação ao vivo. Para dizer a verdade, não estamos nada convencidos que o som que sai dos estúdios tenha melhorado muito desde discos como ‘Hound Dog’, do Elvis Presley, ou os da Big Mama Thornton”. As reticências foram mais fortes: Beer In The Breakers acabou por ser gravado num espaço “não muito maior do que uma mesa de sala de jantar”, com equipamento emprestado pelo amigo e cúmplice Darren Hayman (dos falecidos Hefner), sem cheiro de "multitracking" e "overdubs", tudo em uma ou duas takes, “só nós três a tocar e a cantar”.



Convém, aqui, esclarecer que – embora não seja imediatamente evidente – nos encontramos perante uma das mais ilustremente desconhecidas bandas britânicas de já longo curso: David Tattersall (alma criativa, guitarra e voz), Franic Rozycki (baixo) e Jonny Helm (bateria), existem como Wave Pictures há cerca de treze anos e, entre edições de autor, singles, EP, álbuns distribuídos por independentes e colaborações avulsas, podem inscrever no CV umas respeitáveis quarenta entradas. Mas é preciso compreender que o clube de "songwriters" a que Tattersall pertence (conhecem muitos capazes de abrir uma canção com um cenário como “We ate toast cut roughly into halves with sour jam in an empty bar, large vases filled with dead flowers and carved wood mirrors to show us our faces”?) não está destinado a ser levado em ombros por hordas de fãs ululantes.



E muito menos ainda quando se trata de uma banda que, em concerto, ignora o conceito de "set-list", cujo compositor-em-chefe não tem problemas em admitir que, tal como os de vários dos seus heróis (Pavement, Dylan, Tom Verlaine), os textos de muitas das suas canções são puro "nonsense", e que, falando de matéria inspiradora (Steinbeck, D. H. Lawrence, Carver), nem pestaneja quando declara que uma ou outra foram montadas sobre colagens de frases de Bukowski escolhidas ao acaso. "Indie" é "indie" mas, longe de cenas "trendy" e com nenhuma vontade de as procurar, Tattersall e cúmplices são espécimes demasiado bizarros para até aí se acolherem.



Façam, então, o favor – com mais umas poucas centenas de outros – de conhecer o décimo primeiro álbum dos Wave Pictures, obra de uma espécie de Morrissey desleixado por demasiado convívio com Jonathan Richman (“You so ugly, you so cold, you so stupid, singing ‘I caught my baby kissing Cupid’”), recolector dos instantes esquecidos por Lou Reed tal como os Orange Juice os recuperaram ("Pale Thin Lips" é um "Pale Blue Eyes" com “purple velvet under soft orange lights”), uns descendentes britânicos dos Violent Femmes apaixonados por "high life" africano travestido de blues, um pequeno Dylan de bolso (Tattersall não faz segredo disso: “Como qualquer outro singer/songwriter, daria tudo para ser o Bob Dylan. Não ele próprio, claro, que já não lhe falta muito para morrer. Mas só para ter um bocadinho do talento dele”), perdido pelo gemido das harmónicas. E que – milagre – torna tudo isso seu.

(2011)

18 July 2011

RETROMANIA


















Joy Division/New Order - Total/From Joy Division To New Order

Nas primeiras linhas da "Introdução" de Retromania: Pop Culture’s Addiction To Its Own Past, de Simon Reynolds – 458 páginas absolutamente decisivas para a navegação sem demasiados acidentes no oceano da cultura (não exclusivamente) pop contemporânea –, pode ler-se: “Vivemos numa idade pop enlouquecida pelo retro e obcecada por comemorações. Reunificações de bandas e tournées de regresso, álbuns de homenagem e 'box-sets', festivais de aniversário e interpretações ao vivo de álbuns clássicos. Será que o maior perigo para o futuro da nossa cultura musical é... o seu passado? Talvez isto soe desnecessariamente apocalíptico. Mas o cenário que estou a imaginar não é o de um cataclismo mas o de uma gradual perda de gás. A pop chegará ao fim não com um BANG mas com um 'box-set' cujo quarto disco nunca chegaremos a escutar e com um bilhete caríssimo para o concerto em que os Pixies ou os Pavement executarão aquele álbum que ouvimos até ao vómito no primeiro ano da faculdade”.


New Order - "Ceremony"

É capaz de não ser fácil imaginar quanto isto é verdade e de que forma, semanalmente, se vão acumulando caixotes sobre caixotes de reedições de outras reedições anteriores. O catálogo Joy Division/New Order já tinha sido submetido a este processo mas, hélas!, faltava ainda o formato "best of" em edição conjunta. Comprimido em dezoito faixas, só poderia ser severamente incompleto. Mas francamente pior do que isso é o tom patologicamente retromaníaco das "liner notes" de David Quantick que, para demonstrar a superior magnificência da banda de Ian Curtis e descendência directa, lança mais uma outra pazada sobre qualquer vaga hipótese de futuro: “Ainda hoje, podemos silenciar o entusiasmo de um fã adolescente pelo seu grupo de rock favorito, chamando-lhe a atenção para que, seja ele qual for, não é os New Order nem os Joy Division”.

05 July 2009

BOLONHA



Smix Smox Smux - Eles São Os Smix Smox Smux

Apanhar um comboio já em bom andamento tem vantagens e desvantagens: tanto pode servir para tirar partido do movimento iniciado como, face aos restantes passageiros a bordo, o jogo de comparações não ser o mais favorável. A locomotiva bimotor – FlorCaveira/Amor Fúria – que, durante os últimos meses, tem puxado pela reactivação do pop/rock nacional possui um belo jogo de trunfos para exibir mas isso não deverá ser motivo suficiente para que qualquer nova publicação seja automaticamente louvada. Os Smix Smox Smux, trio da academia-pós-punk de Braga, concluiram a licenciatura (versão-Bolonha) mas ainda lhes falta notoriamente o mestrado e o doutoramento.



A música e a estenografia dos textos – salpicados de referências à coisa-pop de raiz local – têm a cabeça e o coração nos sítios certos, a onda sonora (aqui punk-punk, ali Pavement, acolá, eixo Manchester-Liverpool primeira forma) ainda denuncia demasiado a caligrafia dos mestres e, ao longo de um álbum de treze canções, repara-se bastante que a elasticidade estética e a amplitude do vocabulário musical não são exactamente grandes. Mas antes mil vezes eles que um qualquer outro produto laboratorial-industrial.

(2009)

20 January 2007

TIKKUN OLAM OU OS MORANGOS SILVESTRES



À minha frente, num snack-bar encardido de King's Cross, em Londres, a dois passos do "Scala" onde, à noite, irá dar aquele que é apenas o 14º concerto da sua vida, está o homem que, de si mesmo, escreveu: "Fui a partida que a minha mãe pregou ao mundo, dezassete médicos não conseguiram decidir se me deveriam deixar entrar em jogo (...) Como forma de me manter em contacto com as minhas origens, todas as noites acerto o despertador para a hora em que nasci de modo a que acordar se transforme numa reconstituição histórica".



David Berman, 39 anos depois dessa indecisão numa sala de partos de Williamsburg, Virginia, "songwriter" e poeta, sombra chinesa por trás de uma banda hipotética, os Silver Jews. Que são, afinal, apenas ele e que, após cinco álbuns — Starlite Walker (1994), Natural Bridge (1996), American Water (1998), Bright Flight (2001) e Tanglewood Numbers (2005) —, só agora, pela primeira vez, se decidiu a pisar um palco. Mas não estava, de todo à espera, que, quando lhe pergunto se o nome, Silver Jews, era, de facto, giria de Brooklyn para designar "judeus de cabelo loiro", com pouco ou nada a ver com a sua ascendência judaica, a resposta que me deu fosse o ponto de partida para um dilúvio de convicções religiosas e uma exploração quase psicanalítica da sua conturbada história pessoal: "O nome da banda, inicialmente, foi só algo que eu e o Stephen Malkmus inventámos. Mas, se é verdade que não fui educado como judeu, eu identificava-me como tal. Uma das coisas que, desde há dois anos se me revelaram foi como todas os impérios — romano, grego, babilónio, o III Reich — desapareceram, mas esta pequena tribo persistiu, apesar de ter sido perseguida por todos eles. Eu queria compreender qual era o segredo disso, o que, apesar de dispersos pelo mundo todo, os manteve unidos, o que os impediu de serem assimilados. Toda a ideia do judaísmo é a de um grupo de pessoas que constitui uma comunidade. Se eu, todos dias, fizer as orações judaicas, tenho a certeza que isso acontece desde há 3 000 anos, pelo mundo todo, passando-as de geração em geração. O meu avô e o meu pai decidiram cortar com tudo isso, eram homens de negócios.



Quando tomei consciência do que pensariam todos os meus antepassados acerca destes dois homens, disse 'Isto não está certo, não temos o direito de fazer uma coisa destas, de quebrar esta cadeia!'. A minha fé em Deus é algo em que ainda tenho de trabalhar. Mas, mesmo assim, escolhi viver como judeu porque descobri que não posso viver o meu dia-a-dia de outra forma, aquela perspectiva de procurar que tudo o que acontece em cada dia seja divino. Toda a minha visão acerca do futuro se modificou, trabalho activamente para ele. Quero deixar uma marca. Neste Verão, vou tocar a Telavive. Noutro dia, peguei num numero da 'Time Out' de Telavive em que vinha uma entrevista minha e dei comigo a pensar nas dezenas de milhar de judeus que terão olhado para a minha fotografia e dito 'Mas que raio de gajo é este, judeu do Tennessee, duma banda chamada Silver Jews?!!!...' É por isso que agora penso que dar concertos faz todo o sentido se relacionar isso com o meu judaísmo. Sem o judaísmo, nunca teria tocado ao vivo, nunca teria sentido esta obrigação de lidar com as outras pessoas. O objectivo é tikkun olam, reparar o universo. Todos os dias, a mais pequena acção deverá melhorar um pouco o universo. Temos a obrigação de fazer aquilo que está certo. Todas aquelas pequenas coisas que eu fazia, como mentir ou enganar alguém, não são pequenas, são realmente muito grandes".



Bom, este parece ser um David Berman consideravelmente diferente do autor do magnífico livro de poesia Actual Air (1999) ou do escritor de canções na directíssima descendência de Cohen, Randy Newman, Mark Eitzel ou Tom Waits, aquele de que nunca resistimos a citar infinita e extensamente nacos de textos como "Eis-me bêbedo num sofá em Nashville, num duplex perto da lixeira, e cada coisa em que penso é como um murro na cara, pareço um coelho a tiritar de frio agarrado a uma estrela; no lado errado de um domingo de manhã, desfeito em cacos sob uma luz insuportável, a trabalhar para um circo falido, no lado errado de sábado à noite", "Belíssima e estúpida, a neve cai frente à silhueta negra das árvores de Abraham Lincoln, o céu baixo como uma mesa japonesa e as pernas dos cavalos como quatro caçadeiras castanhas", "Fui hospitalizado em 1984 por me ter abeirado da perfeição" ou "Quando Deus era jovem, criou o sol e o vento, desde então, tem sido uma demorada educação". Mas regressemos aquela expressão que Berman, casualmente, deixou escapar, "desde há dois anos". Foi nessa altura que ele terá deixado para trás um prolongado pesadelo de drogas e alcoolismo e iniciado aquilo a que só se poderá chamar "uma nova vida". Falemos, então, sobre isso: "Quando inventei o nome Silver Jews, nem sequer pensava nesta questão do judaísmo. Mas, às vezes, penso que foi uma coisa providencial. Durante muito tempo, chegou a ser um fardo, só nestes dois últimos anos é que compreendi como, na verdade, era uma benção. Só por causa desse nome, todos os meus interesses na vida estão, finalmente, juntos. Se represento algo mais do que apenas eu próprio, isso alegra-me. No passado, nunca teria desejado representar algo ou alguém porque as minhas acções eram demasiado sinuosas e pessoais, demasiado tortuosas e erróneas. Agora, penso no meu futuro como uma sequência de boas decisões. Ainda só há dois anos eu estava na sarjeta, não possuía nada. Voltei a conseguir por-me de pé muito depressa. Para mim, tudo isto é muito difícil porque não acredito no sobrenatural".



Naturalmente, tenho de lhe perguntar por que motivo toda essa colecção de bons propósitos será especificamente judaica e não apenas uma questão de bom senso cívico, uma certa ética de comportamento comum a todas as religiões ou mesmo a quem não professe nenhuma. Da mesma forma nervosa mas determinada com que, aparentemente, descobriu a resposta para tudo, diz-me: "É verdade. Mas foi um alívio quando descobri que os cristãos não tinham razão. Nunca fui cristão mas pensava que, se toda a gente dizia que eles estavam certos, então, deviam estar. Na verdade, agora acredito que eles saquearam o judaísmo e o transformaram de acordo com os seus próprios objectivos. Na América, o cristianismo é muito intimidatório. Afastar-me dos Republicanos, dos cristãos e de todos os idiotas melhorou muito a minha vida. Mas tem razão, tudo começou por aí, por aquilo que, no judaísmo, se relaciona com a justiça social. O meu pai é um judeu muito, muito, muito mau!... É uma das piores pessoas do mundo. Não comigo, até suponho que gostava de mim.. De certo modo, a minha adesão ao judaísmo foi uma forma de o afastar. É curioso como eu tendo a rodear-me de pessoas que é bom afastar. Lembro-me de uma vez em que tive de lutar fisicamente com o meu pai e o venci. O olhar dele dizia-me claramente 'Tu não fazes parte de mim'. Foi uma sensação muito estranha, embaraçou-me muito. Foi nessa altura que saí de casa, todo o comportamento dele me parecia muito indigno. Nunca mais me voltou a incomodar mas só recentemente me consegui libertar da intimidação que a figura dele representava. Talvez através daquela imagem de Deus-Pai tenha conseguido eliminar a outra do meu pai biológico. Agora, sinto-me, finalmente, capaz de realizar coisas. É curioso que, ao mesmo tempo que comecei a descobrir estes sentimentos religiosos, reparei também que tinha algum público e apeteceu-me descobri-lo. No papel, tudo apontava para que isso corresse mal: um tipo da minha idade, que já publicou 4 ou 5 álbuns a que ninguém ligou nenhuma... A salvação talvez tenha surgido do nome, Silver Jews, que permitiu um certo anonimato: fica-se sempre na dúvida se colocar "silver" e "jews" na capa de uma revista não irá criar problemas".


E, apesar de começar a estar preparado para todo o tipo de revelações, ainda me surpreendo quando David Berman me conta que, desde há dois anos (sempre "desde há dois anos"...), segue um rabi: "Não o procurei, foi ele quem me encontrou. Mandou-me um email a convidar-me para um programa na universidade sobre escrita espiritual. É também um excelente escritor que se dedica ao estudo da confluência do budismo com o judaísmo e ensina meditação judaica. Um rabi não tem nada a ver com um guru, limita-se a fazer muito bem o seu trabalho, devolve-nos a nossa responsabilidade. Fez-me muito bem à cabeça. Os temas religiosos costumavam aborrecer-me de morte e agora tenha uma pilha de livros sobre o assunto que, embora nem tenha conseguido chegar a meio, estou a devorar. Não me meto em temas como a Cabala, nada disso... Tento apenas aprender os princípios e isso está a interessar-me imenso".

Parece-me a altura certa para lhe dizer que, apesar de sempre ter tido a maior admiração pela sua poesia e canções, o último álbum, Tanglewood Numbers, me soou (começarei agora a compreender porquê?)... perigosamente feliz. Não se desconcerta, garante-me que já outros lhe disseram o mesmo e acrescenta: "Quando saí da desintoxicação e fazendo parte de uma tradição musical onde existem tantas almas perdidas, foi um desafio enfrentar o mundo e andar em frente. Vivi no inferno durante vários anos, num inferno ainda mais profundo durante seis meses, e nunca mais quero voltar para lá. Farei tudo para o evitar. Mas sei perfeitamente que nunca voltarei a gravar outro álbum com tantas canções "upbeat", quando a minha personalidade se reequilibrar por completo não irá repousar aí".



As canções e a poesia, então: como começou tudo? "No princípio, ainda na faculdade, tentei escrever canções rock mas não me saí muito bem. As primeiras de que gostei abordavam temas fora do que é habitual no domínio 'cool' do rock que é, aliás, muito limitado, pouco vai além do habitual 'boys and girls'. Expandiu-se um bocadinho mas, na verdade, não aquilo que seria de esperar numa forma de arte. As fronteiras sonoras têm-se alargado mas, no que diz respeito à palavra, à linguagem, nem por isso. É raríssimo encontrarmos um autor de canções que se dedique realmente à forma como emprega as imagens numa canção. Não é nada de terrivelmente abstracto... Tudo decorreu também de ver aquilo que os meus amigos faziam. Quando o Sephen Malkmus publicou o seu primeiro 7", para mim, foi como atirar uma bola ao mar e ver até onde é que ela ia. Nem eu nem ele percebíamos nada acerca de editoras independentes. Mas, porque ele fazia um determinado tipo de música, eu iria, necessariamente, tentar fazer algo diferente dele. Daí que os meus limites tenham sido parcialmente definidos por ele. Aquilo que eu lia, alguma poesia em prosa, mostraram-me como uma ideia pode ser moldada sob formas muito diferentes. O Charles Simic tem um livro, The World Doesn't End, que saíu em 1988, tive de o ler na faculdade, tem parágrafos espantosos, como pequenas caixas que contém aquela ideia muito-Joseph Cornell de colecção de objectos e imagens que me atraía muito. Antes disso, provavelmente imaginava que isso não seria permitido, numa canção, pegava numa ideia e tentava desenvolvê-la até ao fim. A partir daí, diverti-me a escrever como quem vai atirando uma moeda, um clip, um lápis para dentro de uma caixa... Ao mesmo tempo, também ia escrevendo poesia segundo essa ideia de textos como objectos concisos e auto-suficientes, nunca me interessei pelo romance, pela pintura ou por coisas que me ocupassem muito tempo. Prefiro temas rápidos, curtos que consiga olhar e apreender de uma só vez. Quando estou a ler um romance, se o interrompo e, a seguir, volto a ele, há muita coisa que se perde. Obviamente, sentimo-nos atraídos para aquilo que somos capazes de fazer.


Tenho uma quase total ausência de memória. Não sou capaz de aguentar nada de um dia para o outro. Quando deixei de beber, a minha capacidade para alinhar uma sequência de pensamentos e acompanhar um projecto durante mais do que um dia melhorou um pouco mas, ainda assim, preciso de fazer as coisas depressa. Mas, desde os primeiros tempos, nunca pretendi soar como outra banda qualquer. Claro que admirava muitas bandas e músicos como os Dinosaur Jr, os primeiros quatro álbuns dos R.E.M., The Fall, Pussy Galore, Royal Trux..." Recordo-lhe uma entrevista em que confessava que, ter trabalhado como vigilante no Whitney Museum of Art, de Nova Iorque, havia sido, realmente, a circunstância que dera origem à ideia-Silver Jews. "É verdade, foi aí que compreendi o que os Silver Jews deveriam ser: não só a maioria das canções foram literalmente escritas durante as horas de trabalho (eu escrevia o tempo todo) como, nessa altura — final dos anos 80, início de 90 —, a maioria do que se fazia era arte política ou conceptual. No Whitney, o museu mais importante para os artistas jovens, eu e o Steve (Malkmus) víamos todas aquelas obras, conversávamos imenso acerca delas e de artistas como o Bruce Nauman, Charles Ray... Quando comecei a gravar o primeiro 12", nunca pensei que os Silver Jews fossem realmente uma banda: eu enviava para o mundo esta espécie de ideia de uma banda, uma cópia desbotada de um Xerox de uma banda. Sentava-me no Whitney e, com o Steve, inventávamos nomes de bandas, títulos de canções. Nunca iríamos tocar ao vivo, vendermo-nos comercialmente, fazer parte da economia de mercado, na verdade, nunca iria existir banda nenhuma, os discos pareceriam ser discos mas não seriam mais do que umas fitas que gravávamos lá em casa. A certa altura, no entanto, pareceu-me que aquilo que eu fazia era bom, até podia ganhar algum dinheiro com isso e continuei". A opção de nunca dar concertos — justificando e legitimando o "stagefright" — também surgiu aí: "Os artistas e escritores não fazem digressões em que sejam obrigados a 'tocar' as suas obras. Via-me como um deles, gostava de ir a concertos mas nunca me identificava tanto com os músicos em palco como o fazia quando, por acaso, via um pintor numa galeria: quero ser como este tipo! Ele faz o que lhe apetece durante o dia todo, ninguém o aborrece, pode viver como um ermita ou no centro de Nova Iorque, é isso mesmo que eu quero!"



Acerca do único livro de poesia publicado e do modo como divide a escrita entre textos para o papel e para as canções, tudo deixa a impressão de estar bem resolvido na cabeça de Berman: "Acaba por ser uma questão de decidir: o que vou fazer agora? Escrever poemas ou canções? Funciono por períodos separados. Às vezes uma coisa comunica com a outra. Mas só publicarei outro livro quando tiver a certeza de que será bastante diferente do primeiro. Já o poderia ter feito mas seriam apenas outras versões dos mesmos poemas. Aliás, entretanto, Actual Air foi até adaptado ao teatro. Estava cheio de medo que resultasse muito mal mas o grupo de teatro de Huston que trabalhou sobre ele era excelente e o resultado foi óptimo: retiraram cerca de doze cenas/vinhetas do livro, colocaram versões de músicas minhas como elemento de ligação, foi uma surpresa magnífica, nunca pensei que fosse tão bom". Queiram, então, reler, agora, todo o início desta conversa com David Berman. Porque é absolutamente necessário habitarmos um pouco o interior da sua (renascida) mente para não vacilarmos demasiado quando, a uma pergunta simples como "Qual a razão para, só quase quinze anos depois, se decidir a subir a um palco?", ele nos responde assim: "Quando entrei no processo de desintoxicação, de repente, tive de me convencer a lidar com pessoas a que não estava habituado e de que não gostava. Também, durante a gravação do álbum, fui obrigado a responsabilizar-me por diversos aspectos da produção. Estava sempre pronto a regressar à minha caverna mas, quando o disco saíu, um dia em que caminhava em Nashville, pela Tanglewood Drive, pedi a Deus que me desse algum sinal acerca do que deveria fazer. Fazia parte das minhas experiências com a oração... No início da rua, colocava a pergunta — deverei fazer uma digressão em 2006? — e esperava que, no fim dela, surgisse uma resposta. Como estava convencido que não receberia qualquer sinal, a ideia de fazer concertos mal se chegava a pôr. No fundo da rua, havia um canteiro apenas coberto de relva onde, quando andava a passear com o cão, eu, habitualmente, voltava para trás. Nesse dia, reparei que estava cheio de morangos silvestres. Provavelmente, os morangos crescem ali todos os anos. Mas eu escolhi acreditar que aquele tinha sido o sinal de que andava à procura". (2006)



VER-LHE O BRANCO DOS OLHOS

"Quanto menos o meu corpo se mover, mais energia o meu cérebro tem para escrever": David Berman disse-o mas — embora fosse uma justificação tão boa como outra qualquer — nunca o chegou a utilizar como argumento para (à parte uma ou outra leitura de textos e poesia) sempre ter posto de lado a possibilidade de transformar o conceito-Silver Jews numa banda real, daquelas que publicam álbuns, aparecem nas televisões e nas rádios e se fazem à estrada em intermináveis digressões transcontinentais, na insana missão de, cidade a cidade, somar cachets e convencer os fãs a comprar uma cópia do último opus. Não, Berman, não era um "animal de palco" (imagina-se mesmo que deverá abominar a expressão) e muito dificilmente seria aos 39 anos que se transformaria num exemplar dessa espécie.



Apenas com treze concertos norte-americanos no currículo — isto é, a parte inicial da actual tournée —, os Silver Jews de turno no "Scala" de Londres foram, assim, um sexteto de "indie" rock muito próximo daquela admirável incompetência que, por exemplo, os Go-Betweens converteram na sua imagem de marca: duas guitarras (mais a do próprio Berman, um tanto ou quanto... impressionista), baixo (nas mãos de Cassie "american belle" Marrett, aliás, Mrs. Berman), teclado e bateria, com excelentes momentos de coesão que se percebe irem sendo conquistados em cada concerto, instantes de total desacerto (com Berman e o grupo iniciando, simultaneamente, duas canções completamente diferentes) e, para o que conta, inteiramente capaz de — pela simples presença no mesmo espaço físico dos fãs que, finalmente, puderam ver o branco dos olhos ao autor de "Random Rules" — sintonizar instantaneamente o mesmo comprimento de onda de um público que não buscava mais do que essa epifania. Mesmo socorrendo-se de uma estante (com os textos das canções e sequências de acordes), David Berman poderia ter cometido muito mais gaffes do que aquelas que aconteceram, que tudo lhe seria relevado: quem ali se deslocara não vestira a toga de examinador. E ele nem sequer insistiu demasiado no último Tanglewood Numbers (apenas foram interpretadas "There Is A Place", "Animal Shapes", "Sometimes A Pony Gets Depressed", "Sleeping Is The Only Love" e um arrasador "Punks In The Beerlight"), preferindo serpentear por todo o reportório anterior, de "Time Will Break The World" a "Slow Education", "Smith & Jones Forever", "Trains Across The Sea" ou "Horseleg Swastikas". Na noite de 24 de Abril em Londres (socorrendo-nos daquela frase de William Carlos Williams que Berman também gosta de citar), ninguém morreu "por falta do que na poesia se pode encontrar".

(2006)