EVERYDAY I WRITE THE BOOK

Comecemos, então, pelo princípio. Isto é, pelo capítulo 6, "London’s Brilliant Parade": “Nasci no mesmo hospital em que Alexander Fleming descobriu a penicilina. Peço, antecipadamente, desculpa por não ter sido uma dádiva equivalente à humanidade. Há muitos lugares em Londres que oferecem a sensação de lhes pertencermos: Camden, Stepney, Hampstead, Brixton, até Shepherd’s Bush. Paddington não é um deles, a menos que se seja um urso de ficção. É um lugar de passagem, uma estação no tabuleiro do Monopólio”. Em epígrafe, “From the gates of St. Mary’s, there were horses in Olympia and a troley bus in Fulham Broadway, the lions and the tigers in Regent’s Park couldn’t pay their way, and now they’re not the only ones”. É um mapa instantâneo das origens de Declan Patrick MacManus, aliás, Elvis Costello: o hospital de St. Mary’s, à beira de Paddington e das competições equestres do Olympia Horse Show. Há uma prova do feliz acontecimento na página 406 de Unfaithful Music & Disappearing Ink: a reprodução de um minúsculo recorte de 6 linhas do “New Musical Express” de Agosto de 1954 em que o semanário “dá os parabéns a Ross MacManus, trompetista-vocalista da Arthur Rowberry Band, cuja mulher, Lillian, o presenteou com um filho na passada terça-feira. O bebé chamar-se-á Declan Patrick”.
Não é tudo rigorosamente verdade – 25 de Agosto de 1954 foi uma quarta-feira – mas isso não deverá incomodar demasiado Costello que, não sendo um efabulador compulsivo como Tom Waits, nas 670 páginas destas suas "memoirs", não se esquiva a confessar episódios nos quais, sem cerimónias, reconfigura os factos em função das circunstâncias. Por exemplo, aquele, acontecido na Casa Branca, em 2010, aquando da entrega a Paul McCartney do Gershwin Prize for Popular Song. Integrando o grupo de músicos que actuariam perante o homenageado, Barack Obama e a corte de convidados, coube-lhe interpretar "Penny Lane" que apresentou evocando quão importante tinha sido para um miúdo de 13 anos escutar no rádio, “ao lado do meu pai, da minha mãe e do gato”, uma canção “tão fantástica acerca de uma anónima rua suburbana, muito próxima daquela onde, em criança, a minha mãe vivera”. Na realidade, não havia gato algum e, por essa altura, os pais estavam já separados...
É também indispensável não contar com uma narração cronologicamente ordenada. Da vaga recente de autobiografias e memórias de medalhados estadistas do pop/rock – o primeiro volume das
Chronicles, de Dylan, a
Autobiography, de Morrissey,
Girl In a Band, de Kim Gordon –, Costello tende mais para o estilo-Dylan: ora está a justificar a sua má reputação inicial por culpa do maldito diastema (
“parece que o espaço entre os meus dois dentes incisivos, que fizeram Jane Birkin, Ray Davies e Jerry Lewis tão atraentes, teve o efeito de fazer soar metade do que digo como uma provocação ou um insulto”); ora salta para o meio da década de 80 e, ele que se reivindica perito em
“sentimentos de culpa católicos”, faz público acto de contrição acerca da sua condição de predador sentimental (
“Escrevi cartas, seduzindo raparigas diferentes, levando-as a acreditar fosse no que fosse que desejassem acreditar (...) Depois, escrevi canções tentando convencer-me que o fazia em busca do amor e não apenas das boas e velhas luxúria e cobiça e de mais dois ou três dos restantes pecados mortais”); ora, ao longo de 20 assombrosas páginas faz desfilar uma História viva da Irlanda-Reino Unido-EUA iniciadas com o bisavô, John MacManus (
“que, como muitos irlandeses nascidos nos anos da Grande Fome, se safaram da Irlanda mal tiveram idade para isso”), continuadas com o avô, Patrick – entre as carnificinas da primeira guerra mundial e da guerra de independência da Índia, e a carreira como executante de trompa que, a bordo do White Star Liner, terá conhecido Duke Ellington – e, depois com as perturbadas evocações do pai, já doente de Parkinson, sobre os anos da Grande Depressão, quando
“muitas coisas tiveram de ser cortadas ao meio: a força de trabalho, o salário, o pão”.

Mom, dad, Declan & no cat
Dispersas um pouco por todo o livro, há elucubrações teóricas sobre o que distingue bandas inglesas e americanas (
“As melhores bandas inglesas preocupam-se mais com ‘como começamos?’ do que com ‘como acabamos?’”); inventários detalhados de onde e a quem foram surripiados arranjos, melodias, riffs, introduções; desabafos como o de nunca ter conseguido convencer nenhum dos seus primeiros comparsas a escutar um álbum de David Ackles; as cumplicidades diversas com Dylan,
Robert Wyatt, Allen Toussaint,
Bacharach,
Chet Baker, Johnny Cash, Diana Krall, T Bone Burnett; as dementes digressões com os Attractions através da América; a figura sempre presente e ausente do pai – perdido à procura de uma estrofe para "This House Is Empty Now", de
Painted From Memory, sintetiza o espírito de
Unfaithful Music & Disappearing Ink em duas frases:
“Tinha, agora, de encontrar ainda mais palavras. O meu pai entrou no meu quarto quando eu tinha oito anos e ofereceu-mas”.

Poderia ser um momento cinematográfico como são, aliás, inúmeros outros no decurso dos 36 capítulos. Até porque ele cuidou de que, para eles, existisse a banda sonora adequada: um duplo álbum (quase) homónimo com outros tantos temas da sua discografia mais dois inéditos – "April 5th", com Rosanne Cash e Kris Kristofferson, e "I Can’t Turn It Off", relíquia dos primórdios assinada por D. P. Costello. Afinal, exactamente o mesmo tipo que escreveu
“I'm a man with a mission in two or three editions, and I'm giving you a longing look, everyday, everyday, everyday I write the book”.