(sequência daqui) Tinha-a entrevisto num álbum dos Watersons mas encontrou-a junto do mestre Stanley Robertson – cigano de Aberdeen, sobrinho da lendária Jeannie Robertson de quem herdou o reportório tradicional – e da também cigana Freda Black (não espanta, pois, que, num episódio da extraordinária série Peaky Blinders, tenha aparecido como cantor num casamento cigano). De ambos, aprendeu “o que realmente significa habitar uma canção e como permitir que a música nos guie”. Exactamente o que acontece quando "Turtle Dove" e "Soul Cake" se deixam exaltar nas vagas orquestrais buckmasterianas do ex-Suede, Bernard Butler, quando Liz Fraser (Cocteau Twins), furtivamente, com "Wild Mountain Thyme", alimenta o crescendo de "The Moon Shines Bright", e quando, em todas, a voz de Sam Lee – algures entre os dois Buckley, Tim e Jeff, com Christy Moore na memória –, altiva mas reverente, declama o passado como quem inventa o futuro.
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24 February 2021
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09 September 2019
ESPOROS
Ainda faltavam cinco anos para o famoso incidente no Festival de Newport durante o qual Pete Seeger – enfurecido pela herética electrificação da música de Bob Dylan – terá ameaçado cortar à machadada os cabos do PA. Mas, já nessa altura, a inflexível ortodoxia folk o levava a inquietar-se com o crescente interesse (então, ainda apenas embrionário) de diversos músicos pelas tradições musicais do Norte de África, Médio Oriente e Índia, “um novo problema que emerge e ameaça ser catastrófico”. Seeger não poupava as palavras: “Os cidadãos de hoje que gostam de música folk são lançados em contacto não com uma, duas ou três, mas com dúzias e centenas de tradições. Qual delas seguir?... para o bem e para o mal, os jovens actuais que gostam de música folk combinam as diversas tradições a uma velocidade mais rápida do que alguma vez aconteceu. Alguns destes híbridos alastram como ervas daninhas fazendo-nos temer pela própria existência de outras formas”. Não se conhecem opiniões de Seeger acerca do universo musical que, daí em diante, viria a ser conhecido como folk-rock nem a Third Ear Band, em rigor, deveria ser considerada como um grupo de folk-rock.
Porém, sendo um "ensemble" integralmente acústico (ponto seegeriano positivo), a lauta ementa de referências – música medieval, árabe, indiana, minimalismo, "drones", improvisação livre, Bartók, uma difusa ideia de folk-pan-europeia – de que vorazmente se alimentava (ponto seegeriano fortemente negativo) poderia ter semeado o desassossego nas gavetinhas escrupulosamente arrumadas do cérebro de Seeger. Assente nas percussões de Glenn Sweeney, no oboé de Paul Minns, no violino de Richard Coff, e no violoncelo de Mel Davis (depois, Ursula Smith e Paul Buckmaster), tudo começou com The Giant Sun Trolley, grupo de guerrilha musical hippie contra a polícia londrina pela posse do coreto octogonal de Hyde Park (“Mas os pássaros estão autorizados a cantar?”, perguntava Sweeney quando os "bobbies" corriam com eles), depois, fugazmente, Hydrogen Jukebox, e, finalmente, durante três álbuns –, Alchemy (1969), Third Ear Band/Elements (1970) e Music from Macbeth (1972), para o filme homónimo de Roman Polanski – como Third Ear Band. Agora reeditados, a atmosfera não esconde o esoterismo-pedrado-fricolé da época (a banda tinha lugar cativo nos Solstícios de Stonehenge e óptimas relações com ordens de druídas) mas, se nos deixarmos arrastar sem demasiados preconceitos pelo fluxo sonoro, não será difícil descobrir os esporos de muito do que, mais tarde, haveria de germinar. (ver também aqui)
20 December 2017
UMA MIGALHA DE VERDADE
“Em A Sort Of Life, a autobiografia de Graham Greene, ele confessava que, escrever era absorver todo o caos à sua volta e destilá-lo sob uma forma em que conseguisse compreendê-lo. Há também outra citação literária muito boa do Raymond Carver acerca de, nos seus contos, existir uma migalha de verdade em torno da qual ele desenhava uma imagem bonita. Como escritor de canções, sinto-me algures, entre esses dois”, diz um tipo de Northampton, de 41 anos, mas que soa como um velho de 80, habituado a beber "bourbon" desde o berço. De acordo com as melhores fontes, anda por aí já há mais de uma década, primeiro com uns ilustremente desconhecidos Absentee (“Lou Reed mas com impressões digitais mais encardidas”, alguém sentenciou acerca deles), depois, numa outra encarnação enquanto Dan Michaelson and The Coastguards, pouco mais do que uma assinatura colectiva para Michaelson-autor individual. Vale a pena dar uma volta pelas esquinas da Internet e procurar travar conhecimento com o que estiver disponível de Saltwater (2009), Shakes (2010), Sudden Fiction (2011), mas, sobretudo, da trilogia Blindspot (2013)/Distance (2014)/Memory (2016).
Nada disso, contudo, será suficiente para nos introduzir à experiência de First Light, “um lugar onde cada momento íntimo se materializa e nos descobrimos cercados pelos escombros das emoções”, segundo Dan Michaelson, a propósito de "Old Kisses" – “The last thing you said as we came to the end, don't dwell on old kisses, you'll only regret" –, o exacto tipo de canção que, só por distracção, não aterrou em Songs Of Love And Hate, de Cohen (os arranjos de Arnulf Lindner, para orquestra de câmara, em todo o álbum, poderiam bem ser de Paul Buckmaster). Mas que também Bill Callahan, Nick Cave ou um Matt Berninger, no ponto exacto de alcoolémia inspiradora, certamente, invejarão. A meio caminho de uns Tindersticks menos sentimentalmente filigranados e de uma versão não tão "cinemascope" dos Anywhen, acerca destas nove peças de elegantissimo desmazelo emocional, bastaria saber que Michaelson imagina ser "Careless" (“Love makes you give more than you think you can, the emptiest well floods 'til it's ready to spill”, sobre um quase requiem orquestral) “a primeira canção com alguma esperança que escrevi e que estabelece a atmosfera de todo o álbum”, para ficarmos preparados para o que nos espera. Nunca ficaremos.
02 May 2017
TRANSATLÂNTICO
Lloyd Cole nunca o admitiu mas tudo aponta para que partilhe aquela opinião de Oscar Wilde na qual ele confessava “Sou um homem de gostos simples. Para mim, o melhor basta”. Se não, repare-se: em 1988, aos 28 anos, recém-saído do divórcio – mais ou menos amigável – com os Commotions e acabado de se expatriar para Nova Iorque, quando pensa em guitarristas com quem poderia trabalhar, não faz a coisa por menos – Richard Thompson ou Robert Quine. Nunca saberemos (mas podemos sonhar muito alto...) o que poderia ter resultado caso a primeira hipótese se tivesse concretizado mas ninguém duvida que a contribuição do segundo – com quem gravou Lloyd Cole (1990), Don't Get Weird On Me Babe (1991), Love Story (1995) e Etc. (2001) – não subtraiu quaisquer pontos à reputação que conquistara com os Voidoids, Material, Tom Waits, James White, Lydia Lunch ou Lou Reed, e acrescentou muitos à de Cole. Por arrasto, veio o baterista e produtor Fred Maher (acabadinho de se sentar ao leme do avassalador New York, de Reed), com currículo nos Massacre (de Fred Frith e Bill Laswell), Material, Scritti Politti e ao lado de Quine.
Já ao necessitar de um arranjador/orquestrador para Don't Get Weird..., o primeiro nome que lhe ocorreu foi o de Paul Buckmaster, sim, o de "Space Oddity", de Bowie, Songs Of Love And Hate, de Cohen, Terrapin Station, dos Grateful Dead, e On The Corner, de Miles Davis. E, porque a separação não tinha sido verdadeiramente litigiosa, os ex-Commotions, Blair Cowan e Neil Clark, haveriam de voltar ao redil para que todos os laços com o passado não fossem cortados nos primeiros quatro tomos da emigração transatlântica. O sucesso popular de Lloyd Cole and The Commotions nunca mais se repetiria mas isso – por mais que, igual a si mesmo, Lloyd não desista de ser o seu mais venenoso crítico – de modo algum significa que “a tetralogia de Nova Iorque” agora reunida na caixa de 6 CD Lloyd Cole In New York: Collected Recordings 1988-1996 (Lloyd Cole, Don't Get Weird On Me Babe, Bad Vibes, 1993, Love Story, Smile If You Want To – inédito mas cujas canções seriam publicadas em Etc. e Lloyd Cole & The Negatives, 2001 –, e uma recolha de Demos: 89-94), alojasse canções menos que excelentes. Ou seja, matéria de estudo e prazer obrigatórios.
14 January 2013
Leonard Cohen - Songs Of Love And Hate
Se houve um momento em que ninguém duvidou que o formato da canção, tal como a segunda metade do século XX a conheceu, não era, de todo, incompatível com o texto literário poético, muito mais do que no caso de Bob Dylan, isso aconteceu na totalidade da obra de Leonard Cohen e, em particular, no devastador Songs Of Love And Hate. Não porque, aqui, Cohen se tenha aproximado da palavra e da melodia de forma diferente do que já fizera ou viria a fazer. Como sempre, o que o leva a mover-se é “a intoxicação pelo amor, a ideia de me render como um ébrio perante esse mistério, como no êxtase de Santa Teresa. Todos esses processos – cristãos, islâmicos, sufis, judaicos, tântricos – de união com Deus que passam por uma metáfora sexual, por uma embriaguês com o ser amado”. Mas nunca como desta vez, tais passos seriam dados tão à beira do abismo (“And we read from pleasant Bibles that are bound in blood and skin that the wilderness is gathering all its children back again”), tão próximo do desespero final que o esgar que nos olha da capa mal disfarça (“Now Santa Claus comes forward, that's a razor in his mit; and he puts on his dark glasses and he shows you where to hit”), tão sufocadamente aflito perante a perda e o fim de tudo (“There are no letters in the mailbox and there are no grapes upon the vine, and there are no chocolates in the boxes anymore, and there are no diamonds in the mine”). Abraçado à sumptuosa decadência desenhada pelas orquestrações de Paul Buckmaster, resta apenas o êxtase material (“here, right here, between the birthmark and the stain, between the ocean and your open vein, between the snowman and the rain, once again, love calls you by your name”) e o fogo que derrete o gelo de uma Joan Of Arc chamada Nico.
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14 February 2011
COISA IMENSA
Nina Nastasia - Outlaster
Deve ser praticamente impossível escrever (e pior, cantar) algo mais frio e, paradoxalmente, cruel e desesperado do que “every day I tear a bit from myself and from the one I love and from the other one I love”. E com o sentido de cada golpe e cicatriz implacavelmente tatuado nas palavras que vêm a seguir: “with each tear another stitch, there's always something new to fix, till blazing flames burn it all to pitch”. A dois versos do fim, uma alusão a The Blackened Air (2002): “Through the blackened air and all will I meet you this familiar way”. Mas não se suponha que se trata de um exercício de intolerável intensidade apenas verbal: "This Familiar Way" é um jogo de massacre em forma de tango, desfigurado pelo suplício de uma orquestra de câmara esventrada a frio perante os nossos ouvidos.
Dois passos à frente, "A Kind Of Courage" coreografa uma transtornada valsa de espectros para uma cerimónia de despedida do mundo dos vivos e os termos não são mais amáveis: “Don't think about, best to ignore, no one will miss you, no one will know (...) you're one of a million more of the same mind who deserve all to fade”. E, imediatamente antes, em "What's Out There?", pelo meio de estrondos, incêndios e estridências de cordas em desordenada aflição, Nina Nastasia, como se, naquele instante, o peito se lhe esvaziasse do último sopro, uiva, em ameaça “Oh window, window, I have to smash you out and let in something mean”. De Dogs (2000) a You Follow Me (2007), o "songbook" de Nina nunca foi ameno e feliz. Em Outlaster, porém – de novo escoltada pelo invariável Steve Albini –, num derradeiro passo de gigante, devora as Kristin Hersh, Sandy Denny ou Nico de cujas carcaças sempre se alimentou e, com o orquestrador Paul Bryan no lugar de Paul Buckmaster, cria aquilo que só se pode designar como as suas Songs Of Love And Hate. Coisa imensa, sim.
(2011)
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