Valerie June - What's In My Bag? (II)
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17 June 2021
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23 November 2014
COM UM CÃO DEITADO NO CHÃO
“O processo de aprendizagem para os artistas de todos os géneros segue habitualmente a via da imitação, assimilação e inovação. (...) Por vezes, se algo, por algum motivo, se revela impossível de replicar, o artista procura descobrir outro caminho – é a inovação por defeito. (...) Era óbvio que Bob Dylan era um inovador. Esforçava-se para aprender o seu ofício, para imprimir um cunho próprio à música. (...) Aqui e ali, reconhecia possíveis influências. Uma noite, entrou pelo Kettle Of Fish dentro, acenando com uma folha de papel: ‘Têm de ouvir esta canção que acabei de escrever! Escrevi-a ou, pelo menos, julgo que a escrevi... mas posso tê-la escutado algures’”, conta Suze Rotolo, a namorada de Dylan nos seus primeiros anos nova-iorquinos, em A Freewheelin’ Time: A Memoir of Greenwich Village in the Sixties (2008).
Em 1967, Dylan havia já completado a aprendizagem – Bringing It All Back Home (1965), Highway 61 Revisited (1965) e Blonde On Blonde (1966) eram bem mais do que licenciatura, mestrado e doutoramento – mas, quando, após o famigerado acidente de moto do ano anterior, decidiu, em pleno Summer Of Love, exilar-se com a família, em Woodstock, na companhia da Band (ainda, então, apenas o grupo de músicos, ex-The Hawks, que o havia acompanhado em tournée), a atitude colectiva foi, essencialmente, a de uma descontraída cimeira de académicos da música popular norte-americana para revisões da matéria: ao universo poético e sonoro do tempo para cuja criação contribuíra, preferia, agora, intermináveis "jams" em torno das memórias de Hank Williams, Johnny Cash, Brendan Behan, John Lee Hooker, Curtis Mayfield, Patsy Cline ou Fats Domino, no cenário ideal de “uma atmosfera tranquila, uma cave com as janelas abertas e um cão deitado no chão” em que ele “actuaria como um médium numa sessão espírita, procurando captar o mistério, a magia e a verdade da grande música tradicional” e, por improváveis atalhos, oferecendo-lhe uma possibilidade de reconfiguração.
O resultado final, só hoje finalmente disponível na totalidade, desaguou em 17 bobinas engarrafadas com 138 canções (completas, em múltiplas "takes", apenas fragmentárias), quase metade versões de clássicos ou obscuridades. Na realidade, pouco ou nada é verdadeiramente inédito. Longamente aferrolhado nos cofres da Columbia até à primeira publicação, em 1975, das mui peneiradas Basement Tapes, o espólio transformou-se num dos mais lendários "bootlegs" que, em sucessivas encarnações – Great White Wonder (1969), Blind Boy Grunt & The Hawks (1986), The Genuine Basement Tapes (1992) A Tree With Roots (2001), Mixing Up The Medicine (2009) – acabaria por revelar praticamente todas as canções que as edições oficiais ou bandas como os Byrds, Band, Manfred Mann, Julie Driscoll & Brian Auger ou Fairport Convention ainda não tinham tornado públicas. A preciosidade legalizada (em versão “Raw”, de 2 CD, ou “Complete”, de 6) intitula-se The Bootleg Series Vol. 11: The Basement Tapes Complete e será, sem dúvida, merecido objecto de veneração. Mas a aura corsária já não está lá.
Em 1967, Dylan havia já completado a aprendizagem – Bringing It All Back Home (1965), Highway 61 Revisited (1965) e Blonde On Blonde (1966) eram bem mais do que licenciatura, mestrado e doutoramento – mas, quando, após o famigerado acidente de moto do ano anterior, decidiu, em pleno Summer Of Love, exilar-se com a família, em Woodstock, na companhia da Band (ainda, então, apenas o grupo de músicos, ex-The Hawks, que o havia acompanhado em tournée), a atitude colectiva foi, essencialmente, a de uma descontraída cimeira de académicos da música popular norte-americana para revisões da matéria: ao universo poético e sonoro do tempo para cuja criação contribuíra, preferia, agora, intermináveis "jams" em torno das memórias de Hank Williams, Johnny Cash, Brendan Behan, John Lee Hooker, Curtis Mayfield, Patsy Cline ou Fats Domino, no cenário ideal de “uma atmosfera tranquila, uma cave com as janelas abertas e um cão deitado no chão” em que ele “actuaria como um médium numa sessão espírita, procurando captar o mistério, a magia e a verdade da grande música tradicional” e, por improváveis atalhos, oferecendo-lhe uma possibilidade de reconfiguração.
O resultado final, só hoje finalmente disponível na totalidade, desaguou em 17 bobinas engarrafadas com 138 canções (completas, em múltiplas "takes", apenas fragmentárias), quase metade versões de clássicos ou obscuridades. Na realidade, pouco ou nada é verdadeiramente inédito. Longamente aferrolhado nos cofres da Columbia até à primeira publicação, em 1975, das mui peneiradas Basement Tapes, o espólio transformou-se num dos mais lendários "bootlegs" que, em sucessivas encarnações – Great White Wonder (1969), Blind Boy Grunt & The Hawks (1986), The Genuine Basement Tapes (1992) A Tree With Roots (2001), Mixing Up The Medicine (2009) – acabaria por revelar praticamente todas as canções que as edições oficiais ou bandas como os Byrds, Band, Manfred Mann, Julie Driscoll & Brian Auger ou Fairport Convention ainda não tinham tornado públicas. A preciosidade legalizada (em versão “Raw”, de 2 CD, ou “Complete”, de 6) intitula-se The Bootleg Series Vol. 11: The Basement Tapes Complete e será, sem dúvida, merecido objecto de veneração. Mas a aura corsária já não está lá.
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18 November 2012
COWBOY QUEEN MARGO
A uma semana das eleições presidenciais norte-americanas, a canadiana Margo Timmins confessava um enorme alívio pelo facto de a sua nacionalidade não lhe permitir escolher entre Barack Obama e Mitt Romney (“embora nesse nunca votasse, mete-me medo!”). Porque se, noutros países, podem existir dilemas eleitorais igualmente problemáticos, “pelo menos, temos o conforto de saber que as decisões do primeiro-ministro do Canadá não irão afectar o mundo inteiro. Nos Estados Unidos, a responsabilidade é imensa!” E, contudo, como ela explica pormenorizadamente, foi, justamente, às músicas e à tradição do vizinho do Sul que os Cowboy Junkies, pelo meio dos anos 80 do século passado, foram colher a matéria que, sem sequer se darem muito conta disso, transfiguraram completamente, convertendo-a naquela entidade fugidia a que só se pode chamar “uma canção dos Cowboy Junkies”.
Há um aspecto da história dos Cowboy Junkies que me parece nunca ter sido verdadeiramente investigado e que são as vossas discretíssimas metamorfoses: começaram com Whites Off Earth Now!!, um álbum de blues eléctricos; a seguir, apareceu a assombração de The Trinity Session, totalmente fora de quaisquer categorias; e, depois, converteram-se numa espécie de padrinhos (e madrinha) de toda a "alternative country" posterior. E tudo isso sem grande burburinho, como se fosse algo de absolutamente natural. Houve alguma espécie de planeamento nesse percurso?
Não, nunca planeámos coisa nenhuma. Tocámos sempre a música que nos apetecia e aquilo que a indústria ou os críticos possam dizer é, exclusivamente da sua responsabilidade. Nunca perdemos tempo a discutir sobre isso no interior da banda. Podem classificar-nos como desejarem que isso não nos incomoda.
Mas alguma coisa de importante deve ter-se passado para saltar de um álbum como Whites Off Earth Now!! para The Trinity Session...
Eu conto-lhe: no início, por volta do final dos anos 70, início de 80, éramos todos fãs de punk-rock, era uma coisa muito importante para nós. Como, para além do punk, não sabíamos o que haveríamos de escutar, começámos a ouvir imensos blues... velhos blues do Delta, coisa inteiramente nova para nós, ainda muito jovens. Foi daí que surgiu Whites Off Earth Now!!
Mas estabeleciam uma ligação entre o punk e os blues?
Quando éramos adolescentes ouvíamos as grandes bandas como os Rolling Stones ou David Bowie. Com o aparecimento do punk, não podíamos voltar atrás, para esse rock clássico, não porque tivéssemos deixado de gostar dele mas porque já o conhecíamos demasiado bem. E, como estávamos um pouco perdidos, sem saber por que caminho seguir, depois do punk – que era tão forte, tão intenso, tão cheio de fúria e coisas para dizer –, os bluesmen pareceram-nos semelhantes, eram os punk rockers da sua época. Foi assim que nos lançámos à descoberta de Robert Johnson, Muddy Waters, Howlin’ Wolf. Fazia bastante sentido: eram igualmente verdadeiros e autênticos. Em Whites Off Earth Now!!, não há, praticamente, originais, são quase todas velhos blues... enfiávamo-nos na garagem, começávamos a tocar e, muitas vezes, eu cantava aquilo que tinha estado a ouvir à tarde. (risos) Durante a digressão desse álbum, andámos pelos EUA, numa carrinha, e, nessa altura, a meio dos anos 80, gente como o Dwight Yoakam, Lyle Lovett e Steve Earle, estavam a aparecer. Ouvíamo-los, líamos o que diziam nas entrevistas onde falavam dos Louvin Brothers e da mais antiga country de que desconhecíamos tudo. No Canadá, a folk é importante mas a country nem por isso. Claro que conhecia o Johnny Cash ou o Willie Nelson mas não os escutava assim tanto. Como andávamos pelo Sul, a maioria das estações de rádio passava country. Decidimos ir a Nashville, ao Country Music Hall Of Fame. Foi uma enorme revelação. E o mais impressionante eram as letras. Quando regressámos a casa, a Toronto, para gravar The Trinity Session, estávamos encharcados em country, o que passou para o álbum. E é curioso porque essas não eram as nossas raízes. Porque antes de sermos músicos, somos fãs.
Mas lembro-me bem que, quando escutei The Trinity Session pela primeira vez, com toda aquela rarefacção sonora, os enormes espaços vazios e a Margo pairando sobre tudo aquilo como uma Vénus de Botticelli... aquilo não era country!
(risos) Porque nós não éramos uma banda country nem pretendíamos sê-lo. Pegámos em canções da Patsy Cline ou do Hank Williams mas sabíamos que não éramos uma banda de country. Aliás, também nunca fomos uma banda punk ou de blues. Queríamos apenas fazer música, sem reflectir demasiado sobre isso. O que nos interessava era o espírito das canções e se gostávamos ou não delas. E, ainda hoje, continua a ser assim. Nunca paramos para pensar se ‘isto soa a uma canção dos Cowboy Junkies’. Uma ‘canção dos Cowboy Junkies’ é apenas uma canção que nós tocamos.
Nesse álbum, no entanto, definiram uma sonoridade e uma atmosfera totalmente pessoais em que parecia que, no lugar de tocarem notas musicais, as subtraíam, deixando um rasto mínimo que era, afinal, o vosso rasto...
É curioso como isso aconteceu de uma forma completamente natural. Éramos músicos muito jovens, para ser honesta, não sabíamos ainda muito bem o que fazíamos, eu nem tinha, realmente, a certeza se cantava bem... com toda a nossa inexperiência, optámos por, em caso de não saber o que fazer, não tocar! (risos) Gostava de poder de dizer que éramos génios e que foi tudo planeado, mas não foi. Se existiu alguma genialidade foi no facto de não termos tido medo dos espaços em branco, de não sentirmos necessidade de os preencher de qualquer maneira. Mas também não pensávamos que alguém fosse escutar o álbum.
O sucesso dele surpreendeu-vos?
Totalmente. E, todos estes anos depois, ainda nos surpreende que as pessoas escutem The Trinity Session e continuem a reagir de uma forma tão apaixonada.
Uma característica também muito vossa é o facto de terem sempre gostado de realizar versões de canções de outros autores. Como seleccionam essas canções de que decidem apropriar-se?
Muitas acontecem por acaso, Como dizia há pouco, antes de sermos músicos somos fãs e, quando escuto uma canção de que gosto, penso logo em como seria bom poder cantá-la. E, por vezes, se estamos a trabalhar para um disco, uma ou outra delas, parece poder integrar-se bem. Experimentamos e o critério de aceitação é saber se conseguimos transformá-la em coisa nossa. Se isso não acontece, não vale a pena. A canção já existe por si mesma e não precisa de nós para nada. Fazemos isso frequentemente e há uma boa quantidade delas que nunca irão sair do estúdio. Mas aprendemos muito com isso, é como uma espécie de escola. Até como ouvinte de música penso que oferecemos alguma coisa de nós às músicas, interpretamo-las...
A mesma canção nunca é igual para ouvintes diferentes e, por vezes, o ouvido de quem a escuta é mais talentoso do que o cantor ou o próprio autor...
Adoro essa ideia! Acaba por ser tudo uma questão de interpretação: uma boa canção faz-nos sempre pensar ou, pelo menos, levantarmo-nos e dançar.
Sendo vocês uma banda canadiana, por que motivo nunca vos apeteceu pegar numa canção de Leonard Cohen?
Essa é uma boa pergunta. E sabe porquê? Tem tudo a ver com o que lhe contei antes. No nosso estúdio já gravámos muitas canções do Leonard Cohen. Mas nunca autorizámos nenhuma a sair cá para fora! (risos) Para nós, ele é enorme e as canções são perfeitas. Mas acabo sempre a cantá-las como ele as cantaria, sinto que não lhes acrescentei nada de importante, só a minha voz é diferente. Há-de acontecer, um dia. Há meses, numa cerimónia em que lhe foi atribuído o Glenn Gould Prize, convidou-nos para cantarmos, em palco, algumas canções dele... e ele estava lá! (risos) Foi uma sensação terrível: ele, ali mesmo ao pé, nós a querermos fazer o melhor possível e a ter consciência de que nunca iríamos conseguir chegar lá!...
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04 February 2010
O APELIDO CASH

Rosanne Cash - The List
Mesmo depois de ultrapassar a barreira dos 50 anos, carregar sobre os ombros o peso do apelido Cash (do pai, Johnny), continua a não ser tarefa simples. E ainda que, em diversas áreas (da música à escrita), Rosanne Cash tenha conseguido sacudir com êxito esse fardo, chega sempre um momento em que é necessário encará-lo de frente. The List fá-lo muito explicitamente ao seleccionar o reportório de um syllabus de 100 entradas acerca do essencial e histórico na country/folk, elaborado por Johnny Cash em 1973 e entregue à então jovem Rosanne como material de estudo.
Socorrendo-se da bengala de notáveis como Springsteen, Elvis Costello, Rufus Wainwright ou Jeff Tweedy (Wilco), não custa reconhecer que Rosanne foi diligente e procurou interiorizar o idioma dos clássicos – de Hank Williams, a Dylan, Merle Haggard, a Carter Family ou Patsy Cline. Mas deve igualmente dizer-se que, nesta apresentação pública do trabalho de quase quarenta anos, existe muito mais reverência e vénia perante os mestres do que verdadeira apropriação e releitura transformadora do cânone.
(2010)
Rosanne Cash - The List
Mesmo depois de ultrapassar a barreira dos 50 anos, carregar sobre os ombros o peso do apelido Cash (do pai, Johnny), continua a não ser tarefa simples. E ainda que, em diversas áreas (da música à escrita), Rosanne Cash tenha conseguido sacudir com êxito esse fardo, chega sempre um momento em que é necessário encará-lo de frente. The List fá-lo muito explicitamente ao seleccionar o reportório de um syllabus de 100 entradas acerca do essencial e histórico na country/folk, elaborado por Johnny Cash em 1973 e entregue à então jovem Rosanne como material de estudo.
Socorrendo-se da bengala de notáveis como Springsteen, Elvis Costello, Rufus Wainwright ou Jeff Tweedy (Wilco), não custa reconhecer que Rosanne foi diligente e procurou interiorizar o idioma dos clássicos – de Hank Williams, a Dylan, Merle Haggard, a Carter Family ou Patsy Cline. Mas deve igualmente dizer-se que, nesta apresentação pública do trabalho de quase quarenta anos, existe muito mais reverência e vénia perante os mestres do que verdadeira apropriação e releitura transformadora do cânone.
(2010)
04 April 2007
Neko Case - Fox Confessor Brings The Flood

Cat Power - The Greatest

Ambas têm qualquer coisa na voz — uma sombra de fumo, um excesso ácido de estrogénios, um toque de seda áspero — que provoca todas as sensações certas nos sítios certos. E uma e outra (embora de modo diferente), sentem-se bem quando isso é transportado para o interior de uma tradição enraízada na história da música americana: Neko Case (a solo, por outras palavras: quando não integrada nos New Pornographers) enquanto descendente — por conturbada e inexplicável genealogia - de Tammy Wynette, Patsy Cline e Loretta Lynn; Cat Power, neste álbum, algures em Memphis, esvaziando barris de bourbon, ao lado de Al Green.
O que, se fica, literalmente a matar a Neko Case, desfigura e amolece Cat Power. Fox Confessor Brings The Flood (que é, pelo menos, tão assombrosamente óptimo quanto Blacklisted, de 2002) recruta, de novo a seita dos suspeitos habituais (Giant Sand/Calexico) e acrescenta-lhe Garth Hudson, da Band, mergulha na América "western/noir" de um Leone corrompido por Lynch e, por entre guitarras fluorescentes e assomos de "torch song", faz-nos desfilar diante dos olhos e ouvidos um filme inteiro de personagens ("Her love pours like a fountain, her love steams like rage, her jaw aches from wanting and she's sick from chlorine, but she'll never be as clean as the cool side of satin, Pauline"), puros instantâneos-Waits ("My true love drowned in a dirty old pan of oil that did run from the block of a Falcon Sedan 1969, the paper said 75"), flashes de pesadelo ("He sang nursery rhymes to paralyse the wolves that eddy out the corner of his eyes").
The Greatest, por outro lado, partiu de uma boa ideia (rodear-se de veteranos músicos de estúdio da Memphis-soul) e não lhe faltam os óptimos textos de Chan Marshall mas a atmosfera demasiado confortável e preguiçosamente "laid back" de todo o álbum esvazia-o da tensão que as canções exigiam. Seca, esquemática e nua como em You Are Free, Cat Power é bem mais urgente. (2006)
Cat Power - The Greatest
Ambas têm qualquer coisa na voz — uma sombra de fumo, um excesso ácido de estrogénios, um toque de seda áspero — que provoca todas as sensações certas nos sítios certos. E uma e outra (embora de modo diferente), sentem-se bem quando isso é transportado para o interior de uma tradição enraízada na história da música americana: Neko Case (a solo, por outras palavras: quando não integrada nos New Pornographers) enquanto descendente — por conturbada e inexplicável genealogia - de Tammy Wynette, Patsy Cline e Loretta Lynn; Cat Power, neste álbum, algures em Memphis, esvaziando barris de bourbon, ao lado de Al Green.
O que, se fica, literalmente a matar a Neko Case, desfigura e amolece Cat Power. Fox Confessor Brings The Flood (que é, pelo menos, tão assombrosamente óptimo quanto Blacklisted, de 2002) recruta, de novo a seita dos suspeitos habituais (Giant Sand/Calexico) e acrescenta-lhe Garth Hudson, da Band, mergulha na América "western/noir" de um Leone corrompido por Lynch e, por entre guitarras fluorescentes e assomos de "torch song", faz-nos desfilar diante dos olhos e ouvidos um filme inteiro de personagens ("Her love pours like a fountain, her love steams like rage, her jaw aches from wanting and she's sick from chlorine, but she'll never be as clean as the cool side of satin, Pauline"), puros instantâneos-Waits ("My true love drowned in a dirty old pan of oil that did run from the block of a Falcon Sedan 1969, the paper said 75"), flashes de pesadelo ("He sang nursery rhymes to paralyse the wolves that eddy out the corner of his eyes").
The Greatest, por outro lado, partiu de uma boa ideia (rodear-se de veteranos músicos de estúdio da Memphis-soul) e não lhe faltam os óptimos textos de Chan Marshall mas a atmosfera demasiado confortável e preguiçosamente "laid back" de todo o álbum esvazia-o da tensão que as canções exigiam. Seca, esquemática e nua como em You Are Free, Cat Power é bem mais urgente. (2006)
03 April 2007
Neko Case- Blacklisted

Foi em A New Coat Of Paint — um francamente medíocre álbum de homenagem a Tom Waits de 2000 — que, pela primeira vez, escutei Neko Case. Numa colecção de versões que nem sequer se esforçava muito por estar à altura do tornozelo do homenageado, o "Christmas Card From A Hooker In Minneapolis", de Neko Case (juntamente com Lydia Lunch em "Heartattack And Vine", Sally Norvell em "Please Call Me, Baby", Carla Bozulich em "On The Nickel" e Eleni Mandell em "Muriel"), era uma das bastante poucas manifestações de talento e individualidade de uma gravação que valia só pelo contingente feminino. E, por acaso, delas todas, era, de longe a melhor.

Blacklisted, o seu terceiro álbum e primeiro a ser distribuido em Portugal, é aquilo a que, em rigor, é obrigatório chamar "uma revelação". Um catalogador preguiçoso designá-lo-ia como "alt.country" e, logo a seguir, mereceria ser fuzilado. Porque não só é muito mais do que isso como, na verdade, é o género de música que deveria ter jorrado em permanência do juke-box no bar de Twin Peaks ou que poderia servir de banda sonora para um álbum de fotografias de Robert Frank:
melodias memoravelmente assombradas, guitarras em registo "twangy" — pensem em Nick Cave cruzado com Badalamenti —, atmosferas "noir" a trespassar os textos ("Fluorescent lights engage like birds frying on a wire, same birds that followed me to school when I was young, were they trying to tell me something, were they telling me to run?"), a brigada Giant Sand/Calexico (Howe Gelb, Joey Burns, John Convertino) a desenhar os cenários e, sobre tudo isso, a fabulosa voz de Neko, uma espécie de Kristin Hersh com muito mais estrogénios, a apresentar a candidatura a Patsy Cline do novo milénio. Até porque o caldo de cultura é sensivelmente o mesmo, recomenda-se a escuta antes ou depois de The Listener, de Howe Gelb. E é deveras difícil dizer qual dos dois é mais indispensável. (2003)
Foi em A New Coat Of Paint — um francamente medíocre álbum de homenagem a Tom Waits de 2000 — que, pela primeira vez, escutei Neko Case. Numa colecção de versões que nem sequer se esforçava muito por estar à altura do tornozelo do homenageado, o "Christmas Card From A Hooker In Minneapolis", de Neko Case (juntamente com Lydia Lunch em "Heartattack And Vine", Sally Norvell em "Please Call Me, Baby", Carla Bozulich em "On The Nickel" e Eleni Mandell em "Muriel"), era uma das bastante poucas manifestações de talento e individualidade de uma gravação que valia só pelo contingente feminino. E, por acaso, delas todas, era, de longe a melhor.
Blacklisted, o seu terceiro álbum e primeiro a ser distribuido em Portugal, é aquilo a que, em rigor, é obrigatório chamar "uma revelação". Um catalogador preguiçoso designá-lo-ia como "alt.country" e, logo a seguir, mereceria ser fuzilado. Porque não só é muito mais do que isso como, na verdade, é o género de música que deveria ter jorrado em permanência do juke-box no bar de Twin Peaks ou que poderia servir de banda sonora para um álbum de fotografias de Robert Frank:
melodias memoravelmente assombradas, guitarras em registo "twangy" — pensem em Nick Cave cruzado com Badalamenti —, atmosferas "noir" a trespassar os textos ("Fluorescent lights engage like birds frying on a wire, same birds that followed me to school when I was young, were they trying to tell me something, were they telling me to run?"), a brigada Giant Sand/Calexico (Howe Gelb, Joey Burns, John Convertino) a desenhar os cenários e, sobre tudo isso, a fabulosa voz de Neko, uma espécie de Kristin Hersh com muito mais estrogénios, a apresentar a candidatura a Patsy Cline do novo milénio. Até porque o caldo de cultura é sensivelmente o mesmo, recomenda-se a escuta antes ou depois de The Listener, de Howe Gelb. E é deveras difícil dizer qual dos dois é mais indispensável. (2003)
06 March 2007
Jenny Lewis With The Watson Twins - Rabbit Fur Coat
Não valeram de muito aos Rilo Kiley os abundantes elogios derramados por Elvis Costello sobre o seu óptimo álbum do ano passado, More Adventurous. O passado de Jenny Lewis e Blake Sennett como "prodigy child actors" arrasta preconceitos pesados e nem mesmo a relação de amizade e camaradagem com Conor Oberst — o pseudo-génio mais "cool" do parque de diversões "indie" — ajudou grande coisa a lavar essa tremenda nódoa no currículo. "Indie" que é "indie" não pode ter sido contaminado pelos miasmas de Hollywood e, a menos que se purifique através de um estágio de toxicodependência profunda com residência sacrificial em dois ou três "slums" piolhosos, a credibilidade nunca deixará de ser problemática.
E, convenhamos, aquele ar de quem acabou sempre de saír perfumado do banho só complica... No caso de Rabbit Fur Coat, de Jenny Lewis com as Watson Twins, será bastante injusto se não se reparar que, provavelmente, é a ela e à sua acidez de alma disfarçada de candura que se deve o melhor dos Rilo Kiley. Lewis estabelece claramente termos de comparação elevados — das Tammy Wynettes, Patsy Clines e Loretta Lynns deste mundo a Laura Nyro — e, com o apoio das vozes country/gospel de Chandra e Leigh Watson, expele mel e veneno em doses rigorosamente equilibradas.
O antigo conflito com Aquele Cujo Nome Não Pode Ser Pronunciado persiste ("Well you praise him, then you thank him till you reach the by-and-by, and I've won hundreds at the track but I'm not betting on the afterlife" ou "It's just you and god but what if god's not there? But his name is on the dollar bill which just became cab fare" são esclarecedores), os mortais não são feitos de melhor massa ("What are you changing? Who do you think you're changing? You can't change things, we're all stuck in our ways, it's like trying to clean the ocean, what do you think you can drain it? It was poisoned and dry long before you came") e até os "family values" levam que contar ("So my mom, she brushes her hair and my dad starts growing Bob Dylan's beard and I share with my friends a couple of beers in the Atlanta streets, in the belly of the beast") num processo de muito improvável redenção ("But I like watching you undress, and I think we're at our best by the flicker of the light of the TV set, 'cos I can't remember why I hated you, can't remember why I still do, but I'm as sure as the moon rolls around you that I could be happy").(2006)
Rilo Kiley - More Adventurous
Foi Bob Dylan, com "Like A Rolling Stone", quem inaugurou o género que, daqui em diante, passará a ser designado como canção-pop-fdp: uma variedade de generosa aspersão de bílis e veneno sobre ódios de estimação avulsos, o mundo em geral e, não infrequentemente, sobre si mesmo. Sob a forma de melodia redonda e texto de arame farpado, bombom com recheio de cicuta, carta armadilhada em papel perfumado. Elvis Costello e Aimee Mann foram (e são) dos mais notórios praticantes pelo que não haverá de ser um acaso que o primeiro tenha oferecido a sua pública benção aos Rilo Kiley e que, a espaços, o espírito (e a letra) das canções de Jenny Lewis e Blake Sennett façam pensar na segunda. More Adventurous — terceiro álbum da banda — abre da melhor maneira: "Any chimp can play human for a day, and use his opposable thumbs to iron his uniform and run for office on election day" ("It's A Hit") dedicada aquele W que o universo prefere detestar.
Mas não é necessário apontar o tiro tão para cima porque o mundo da "little people" não podia ser terreno mais fértil para "snapshots" de pequenas abominações e grandes desastres ("you're just damage control for a walking corpse like me, like you, 'cause we're all portions for foxes"), débeis encenações de quase nada ("the absence of god will bring you confort, baby, and planning is for the poor so let's pretend we're rich"), pura e simples insolência ("you're obsessed with finding a new brain but what you need is a new body"), desprezo e vómito ("I never loved you even in my weakness, you were fuel for the fire, cannon fodder"), ausência e perda ("it's only doubts we're counting on fingers broken long ago").
Isto é, um exercício de regurgitação do humano mais desgraçadamente humano como higiene do corpo e da alma traduzido para um idioma que cruza o glorioso colorido da pop clássica com a new-wave americana facção-"ear-friendly" e Dylan tal como Lloyd Cole o ouviu. A boa velha atitude "it's a holiday for a hanging", na exacta definição e na magnífica voz de Jenny Lewis. (2005)
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