"Pablo Casals dizia que 'o amor que temos pelo nosso país é uma coisa esplêndida. Mas porque não poderá esse amor passar a fronteira?' e Einstein acrescentava que 'o patriotismo é uma doença infantil, o sarampo da humanidade'. Foi (também) assente em generosas convicções desse género que projectos como o da União Europeia emergiram apesar de, já em 1979, o ex-embaixador britânico em Lisboa, Sir Archibald Ross, numa comemoração dos 25 anos de intercâmbio cultural entre Portugal e o Reino Unido, ter recordado um dos persistentes argumentos eurocépticos: 'Para quê aproximar as pessoas, se é sabido que, quanto mais se conhecem, mais se odeiam?'” (autocitação)
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09 July 2015
17 December 2014
SEM CERIMÓNIAS
Pablo Casals dizia que “o amor que temos pelo nosso país é uma coisa esplêndida. Mas porque não poderá esse amor passar a fronteira?” e Einstein acrescentava que “o patriotismo é uma doença infantil, o sarampo da humanidade”. Foi (também) assente em generosas convicções desse género que projectos como o da União Europeia emergiram apesar de, já em 1979, o ex-embaixador britânico em Lisboa, Sir Archibald Ross, numa comemoração dos 25 anos de intercâmbio cultural entre Portugal e o Reino Unido, ter recordado um dos persistentes argumentos eurocépticos: “Para quê aproximar as pessoas, se é sabido que, quanto mais se conhecem, mais se odeiam?” Uma das invenções que, particularmente no âmbito do cinema, mais contribuiu para fazer torcer o nariz ao europeísmo, foi o justamente mal afamado “europudim”, essa receita de transnacionalidade por encomenda que consiste em juntar um realizador eslovaco com um argumentista lituano, colocar-lhes à disposição um catálogo de actores e técnicos das outras 26 nacionalidades e sugerir-lhes que vão rodar na Transilvânia um épico sobre as campanhas napoleónicas.
Não é, por isso, má vontade o motivo que leva a olhar, instintivamente, de esguelha um álbum que reúne 11 músicos da Grécia, Itália, Portugal, Estónia e Espanha, num “projecto cooperativo entre várias instituições culturais europeias”, com o objectivo de abater fronteiras e celebrar o diálogo entre as músicas tradicionais dos respectivos países. Afinal, todo o resto corresse tão bem na Europa como sucedeu em Folk Music In Museums – Young Musicians And Old Stories e não se associe aos “museus” a ideia de fósseis religiosamente preservados porque o que aqui se descobre é exactamente o contrário: a gloriosa promiscuidade que enrola “tammurriatas” com marchas catalãs, paganismos mirandeses e estónios, a total ausência de cerimónia na coabitação de melodias das Cíclades com “sardanas” tingidas de flamenco, a obscena naturalidade do convívio entre desbragamentos de taberna, virgens curandeiras e pescadores contrabandistas de haxixe, e o fogo de artifício tímbrico (teppo lööts, tsambouna, torupil, gralla – ataquem os dicionários!) não poderiam ser mais diferentes das hirtas folhas de Excel de qualquer Pacto de Estabilidade e Crescimento.
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