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25 November 2024

MEA MAXIMA CULPA (VIII)

(publicado no nº 11 da "Granta")


(sequência daqui) A única salvação poderá muito bem ser — mas é só um palpite... — a de passar por aquele tipo de circunstâncias nas quais, sem aviso nem piedade, somos obrigados a afocinhar na própria ignorância. Pela minha experiência, posso assegurar que é assaz pedagógico. Aconteceu no café mouro M'Rabet, do "souk" El Attarine, em Túnis, quando, por efeito da milagrosa voz de barítono que se libertava de um minúsculo leitor de cassetes, senti o mundo dilatar-se à minha volta. Talvez com curiosidade demasiado turística — então eu sabia perfeitamente quem era a diva Oum Kalthoum e desconhecia aquela voz? — atrevi-me a perguntar quem cantava. Com justo e visível desprezo, fui polidamente humilhado: "É apenas o maior cantor árabe de todos os tempos, Mohamed Abdel Wahab!". De rabo entre as pernas, fui investigar. Era tudo verdade. Tão verdade quanto a minha ignorância adicional acerca de Habiba Msika, a "femme fatale" tunisina dos anos 20, Sayid Darwich, Asmahan ou Farid al-Atrash. Às vezes, ser reduzido à condição de verme rastejante pode ser muito educativo.

28 January 2015

SALAAM



Qual dos dois é o mais violento, o Corão ou a Bíblia? Existem, felizmente, sites beneméritos que fizeram esse estudo comparativo por nós. Por exemplo, The Skeptic’s Annotated Bible, através do qual se verificará que, se, na Bíblia, podemos ler 1318 passagens de carácter “cruel” ou “violento” (maldições como “E a minha ira se acenderá, e vos matarei à espada; e vossas mulheres ficarão viúvas, e vossos filhos órfãos”), no livro segredado ao ouvido de Maomé pelo mesmo super-herói voador – Gabriel – que, há 2015 anos, deu a uma moça judia a notícia de que ela iria ser o mais célebre caso de partenogénese de sempre, existem 532. Tomando, porém, em consideração a muito maior extensão da Bíblia, deverá concluir-se que, nesta, a percentagem de leitura não recomendada a crianças e espíritos sensíveis é de 3.89% enquanto, no Corão, chega aos 8.45%. O que não deixa de ser inquietante quando nos damos conta que mais de metade da população do planeta acredita num ou no outro. Acatemos, contudo, uma tendência recente de matriz financeira (duplamente inspirada na ingenuidade dos primeiros "westerns" e no pensamento do persa Mani) e separemos os bons dos maus.



Mas, porque é a má reputação dos 8.45% – os que, entre outras enormidades, proclamam “Firmeza, pois! Logo infundirei o terror nos corações dos infiéis; decapitai-os e decepai-lhes os dedos!" – que, ultimamente, mais tem ocupado os espíritos, vale, no entanto, a pena recordar que é a esse quadrante cultural que, sintetizando barbaramente, devemos a poesia de Rûmi (Leonard Cohen: "o maior poeta da divina embriaguez pelo amor"), Omar Khayyām, Abu Nuwas, e Ibn 'Arabi, polímatos geniais como Ibn-Sīnā/Avicena, gigantes musicais como Oum Kalthoum, Mohamed Abdel Wahab, Farid al-Atrash, Sayed Darwish, Hassan Hakmoun ou Nusrat Fateh Ali Khan, lendas como os Master Musicians of Jakouka, a música dos Gnawa, ou a infinidade de géneros (dawr, qawali. malouf, taqsim, mawwal, qadd, muwashah...) através dos quais se exprimem. E, sim, as inúmeras e belíssimas representações do "profeta" (que só por volta do século XVII começaram a ser desencorajadas e não em todo o mundo islâmico) que é possível ver no riquíssimo Mohammed Image Archive. As-Salaam-Alaikum! 

24 September 2008

UM ESCASSO MAPA



Vários - Sif Sifaa: New Music From The Middle East

Cairo, início dos anos 20. "O grupo estava já sobre o palco, dois camponeses vestidos com a longa goubba escura e de turbante, dois cheiks vindos da sua aldeia; em frente deles, ao meio, um rapaz, imóvel, sentado, assustado, com as mãos sobre o ventre, severo como podem ser os adolescentes. Somente eram visíveis as mãos e o rosto redondo que seria quase feio sem aqueles grandes olhos negros. Apesar do calor, uma capa beduína cobria-lhe o corpo e um lenço apertado na cabeça por dois anéis fechava-se-lhe no queixo. Nada se passava, as pessoas conversavam, o miúdo não sabia que fazer. Lançou, subitamente, o canto sobre a multidão. Era a 'faitha', o primeiro versículo do Corão. A voz era juvenil e insegura mas singular, apoiada numa potência pouco comum, um sopro que não cessava de exalar. O rapaz atacou a segunda frase muito baixo e subiu progressivamente, sustendo a nota e fazendo-a vibrar. As pessoas responderam com um murmúrio de aprovação. A voz recitava o texto sagrado, respirando entre as frases, num silêncio que nada perturbava. Aí, retomava o canto, subia aos agudos, ornamentava longamente a melodia. (...) Com os olhos sempre no chão, sem um sinal de conivência com o público, lançou-se de novo e uma onda de calor invadiu-lhe o rosto: os versos que ele pronunciava - "A paixão trai-se pelo olhar" - eram meus, naqueles lábios beduínos. Sorri-lhe mas sentia vontade de me esconder. Havia qualquer coisa no canto daquele adolescente que era estranha. A potência, o timbre, o domínio da respiração, eram notáveis mas aquela voz penetrava-me sem qualquer vergonha, preenchia-me de uma natural indecência, inconsciente do que fazia. No interior de certas notas, uma ligeira rouquidão introduzia um perfume de sensualidade sem véus. Sentia-me muito desconfortável.

Alguns parágrafos mais à frente na leitura de Oum, compreende-se a razão do desconforto do poeta egípcio Ahmad Rami: "o adolescente" não era senão a, então ainda jovem, diva Oum Kalthoum que iniciava uma fulgurante carreira que atravessaria todo o século XX e, ao lado de outros gigantes como Mohamed Abdel Wahab, reestabeleceria as regras da música árabe (após séculos de dominação turca), procurando unificar culturalmente uma nação territorialmente dispersa. E, mesmo que estas memórias confiadas ao jornalista Sélim Nassib sejam confessadamente imaginárias, bastam e sobram para explicar a dimensão de um mito que, soubemo-lo há pouco, vinte anos após a sua morte, continua a dominar as tabelas de vendas do mercado discográfico árabe.


Kazem Al Saher - "Kouli"

Se para escutar as fabulosas vozes de Kalthoum e Abdel Wahab existem os registos de militantes como o Club du Disque Arabe que, na actualidade, continuam a insubstituível missão de não as deixar esquecer, para investigar o que produz, hoje, musicalmente, o Médio Oriente, só há dois caminhos: deslocar-se directamente aos locais e perder-se (é o termo exacto) no seu labirinto de publicações em cassete ou apoiar-se na prestação de serviços das editoras da chamada "world music" que, com todas as virtudes e defeitos, se encarregam por nós dessa selecção e investigação. A Hemisphere, destacamento recente da EMI para o contingente extra-pop-rock-jazz anglo-americano, investiu agora nesse sentido.


Mohamed Fouad - "Fakrak Ya Naseeny"

Para enquadrar a expedição, ensinam-nos que a sif-safaa é uma árvore de muitas raízes que, por todo o Médio Oriente, lança uma imensa sombra na vastidão do calor do deserto e que a escolheram como metáfora para a própria cultura árabe: diversa de país para país mas unificada por uma língua e religião comuns, profundamente enraizadas na tradição. Depois, a audição do disco (que nunca resolve a questão de saber como um ouvinte não iniciado se pode orientar no interior de uma floresta de referências culturais que totalmente ignora - como é, realmente, o al-jil urbano, o que distingue a canção shaabi do ritmo masmoudi?...) oferece doze pistas para a exploração de um mundo - mais precisamente, o Egipto, o Iraque e a Arábia Saudita - que, à excepção do raï argelino, está quase todo por descobrir. Aberta aos ventos da (nossa) modernidade nas faixas de Hanan, Mohamed Mounir ou Mohamed Fouhad, mais tradicional nas de Hamdi Hamed ou Aida Ayubi, de um exacerbado dramatismo romântico quase kitsch na de Kazem Al Saher, ficam os sinais fugidios de uma atmosfera de vozes sensuais envolvidas por violinos serpenteantes, percussões hipnóticas, vertiginosos fraseados de oud e imprevisíveis sintetizadores e guitarras eléctricas. Como quem, inadvertidamente, sintoniza uma emissão de rádio de origem desconhecida, consideremo-nos bem vindos (ainda que com um escasso mapa) ao magnífico mundo árabe.

(1995)

07 July 2007

O MEU PROBLEMA COM O FADO
(repegando daqui)



1) Fado Alfacinha. Fado Menor. Fado Cravo. Fado Mouraria. Fado Penélope. Mais um fado no fado. Fado. Fado. Fado. Fado. Camané. Fado. Argentina Santos. Fado, pois claro. Rabih Abou-Khalil. Fado? Sim. E não. E sim e não.

2) Ninguém sabe nada sobre o fado. Quero dizer, ninguém sabe realmente nada acerca das origens do fado. Como se sabe, por exemplo, a propósito dos blues ou da génese do flamenco. Há, quando muito, uma ténue aproximação a uma espécie de "triângulo das Bermudas" primordial entre a África Ocidental, o Brasil e o Portugal europeu com um quadrângulo (apócrifo) na morna insular de Cabo Verde. Mas, sei lá eu porquê, a despeito de todas as investigações e esboços de interpretação dos vai-e-vens da História, sempre que ouvi o fado (sempre que ouvi um fado), houve qualquer coisa que, por simpatia, ressoou algures pelo Magrebe, pelo resto do Norte de África, pelo Médio Oriente. Muito provavelmente, está errada esta minha ressonância. Mas eu não deixo de a ouvir.


3) Tornemos as coisas ainda mais difíceis. Ou, para mim, muito mais fáceis. Não tenho qualquer explicação racional, cultural ou familiar para isso mas, desde razoavelmente pequeno, sempre que, algures nas ondas curtas do rádio, tropeçava numa emissora de música árabe (mais tarde, a parabólica ou o cabo encarregaram-se de prolongar ocasionalmente a experiência), nunca nada "daquilo" me soou "estranho". Ou, sequer, "exótico". Por qualquer motivo, de um modo que nunca entendi, aquela música parecia-me minha. Natural. Evidente. Não conhecia nomes. Não tinha "as referências". Mas, quando, um dia, devorado pelo calor, entrei num café mouro da medina de Túnis e escutei (aliás, fui literalmente possuído por) a voz de Mohamed Abdel Wahab — repetição da epifania que ocorrera antes, quando descobrira Oum Kalthoum —, ao inquirir de modo indesculpavelmente ignorante de quem se tratava, fui justamente tratado com o amável desprezo que merecia: "é apenas o maior cantor árabe de todos os tempos" —, apercebi-me de que ali deveria certamente haver algo que talvez só uma investigação genética pudesse explicar. Nessa altura, já gostava de fado. Mas quase só o que era cantado por Amália.

4) Camané abriu(-me) outro ciclo. Antes e depois de Cristina Branco e Marceneiro e Mafalda Arnauth e Teresa de Noronha e mais um ou dois. Eles eram meus. Todos a puxarem por um qualquer centro de gravidade (emocional? estético? sensorial?) onde passava a ser quase impossível avaliar friamente fosse o que fosse. Havia palavras, sim, textos, claro, melodias, decerto. Mas, isso tudo, naquelas vozes, atravessadas pelo contraponto delirantemente lógico e luminoso das cordas daquelas guitarras, possuía quase tudo o que imagino que a ciência se esgota a esgravatar para descobrir o lugar geométrico onde a razão e a emoção se cruzam e esta acaba sempre por ganhar.


5) A 16 de Julho deste ano, no Teatro Nacional de S. João, no Porto, continuei sem perceber nada mas voltei a sentir tudo outra vez. Escutei mais uma vez Camané e, em puro reflexo condicionado, o filme dos quatro capítulos anteriores passou diante dos meus olhos. Com Argentina Santos, pensei muito em flamenco (não pensei nada, imaginei tudo), vi-me outra vez naquela "peña" de Ronda, empoleirada sobre o desfiladeiro do Tajo, reli em segundos tudo o que antes lera sobre Alfama, a Mouraria, o século XIX. Refiz a ficção que já tinha construído e ela não se aproximou muito mais da realidade. Por um momento, com o quarteto de Rabih Abou-Khalil, supus (com óptimas razões para o supôr) que a tradição era uma lança disparada entre o passado e o futuro, trespassando e esventrando os géneros, os idiomas, os territórios. Imaginem a Sardenha, os cantos guturais universais, o jazz, os alaúdes da Idade Média, Al Andaluz e tudo à volta num imenso caldeirão. Cheguei a acreditar que isso era verdade. Até que, no final, Camané e Rabih tocaram e cantaram um para o outro, um com o outro, para nós, duas "coisas" que se haviam ocupado a inventar. Não sei como lhe chamaram ou o que lhe chamar. Eram melodias ofuscantemente cromáticas e palavras ambíguas, descentradas. Um caminho muito para fora do que antes todos tinham estado a fazer. Era, sem dúvida, difícil de interpretar mas voltava a não ser exótico, bizarro, meramente acrobático. Era "aquilo", outra vez, e eu, por mais que tentasse, continuava sem saber como o nomear. Só pode ser um problema meu. (2004)

10 April 2007

DESTE LADO DO MUNDO


Existirá na génese do fado uma raiz longinquamente árabe, muçulmana ou, sequer, magrebina? Terão as características melismáticas do "cante" alentejano alguma coisa a ver com o canto moçárabe? A verdade é que — inúmeras hipóteses e especulações à parte — a única resposta honesta que, até agora, tem sido possível dar é "não sabemos". Exactamente da mesma forma que o Ocidente, arrogantemente, desconhece praticamente tudo da música árabe e islâmica. Existem seguramente os nichos de especialistas, eruditos, académicos e cultivadores do exotismo. Mas, mesmo para quem se interessa de verdade pelo conhecimento das "músicas do mundo", é perfeitamente possível ignorar nomes, datas, géneros, acontecimentos cruciais. Como, há dez anos, me sucedeu no café mouro M'Rabet, do "souk" El-Attarine, em Túnis: hipnotizado pela avassaladora voz de barítono que, emergindo do pequeno leitor de cassetes, envolvia todo o ambiente, ousei perguntar quem cantava. Fui devidamente humilhado: "É apenas o maior cantor árabe de todos os tempos, Mohamed Abdel Wahab", responderam-me com justo e visível desprezo. Como se, em Portugal, um vil bárbaro americano me perguntasse "Então, quem é essa tal Amália Rodrigues?"...



Vergastado, tomei nota. Investiguei e era mesmo verdade. Era bem feito. Conhecia Oum Kalthoum e pensava que sabia quase tudo. Afinal, como já deveria desconfiar, sabia muito pouco. A sublime diva egípcia, Oum Kalthoum, e Mohamed Abdel Wahab são apenas dois exemplos em relação aos quais, por exemplo, a consulta das colecções de CD do Club du Disque Arabe poderia evitar embaraços semelhantes.


Oum Kalsoum

Mas quem faz sequer uma vaga ideia da importância que, no início do século XX, teve um género musical como o "dawr", de Casablanca a Argel, de Tripoli a Cartum, de Beirute a Damasco, do Cairo a Bagdad? Quem conhece a "femme fatale" tunisina dos anos 20, Habiba Msika? Quem ouviu falar de Sayid Darwich, de Asmahan ou Farid al-Atrash? Dir-se-à que, até há dois ou três anos, também quase tudo se desconhecia sobre os optimos veteranos músicos de Cuba. E é verdade. Eis, pois, agora, uma óptima oportunidade — ainda que pelas piores razões — para se começar a saber o que há muito se devia. Por exemplo, que, tal como no Ocidente, existe uma sofisticadíssima e elaborada música clássica árabe. Ou que, como ibéricos que somos, a cultura do Al-Andalus deveria dizer-nos muito mais do que o quase nada que nos diz. Alguns, não muitos, conhecerão o canto "qawwali" sufi do (já desaparecido) quase pop-star paquistanês Nusrat Fateh Ali Khan. Mas quantos serão os que terão escutado os, pelo menos iguais, Sabri Brothers ou terão sequer uma ínfima ideia do revelador sentido filosófico/gnóstico do pensamento sufi islâmico?


Sabri Brothers

E quem terá ouvido a moderníssima iraniana residente em Nova Iorque, Sussan Deyhim, em Madman Of God, interpretando o sobrenaturalmente sábio Rûmi (para Leonard Cohen, "o maior poeta da divina embriaguez pelo amor"), Saadi, Djami e outros autores sufis, do século XI ao XIX? Haverá os que conhecem alguma coisa do pop-raï argelino por via de Khaled mas quantos já se terão atrevido a explorar o "malouf", a modalidade dos "tab" e "maqám", a "escola árabe-andaluz de Tlemcen" ou a música judaico-árabe de Ezzine-Ezzine, Ala Diennat ou Berouel Asbaine? E terá sido muita a curiosidade por músicos tão geniais como o marroquino Hassan Hakmoun, o turco Necdet Yaçar ou por todos os outros revelados pelas excelentes colectâneas da World Network?


Hassan Hakmoun

Como quase sempre acontece, a pop/jazz/rock foi à frente. E, sem esgotar exemplos, foi ela que através dos Saqqara Dogs, C-Cat Trance, Loop Guru, Trans-Global-Underground ou Jah Wobble se atreveu — directa ou indirectamente — a revelar o êxtase/transe/sufi/universal que, mais "etnologicamente autêntico", emergiu através de compilações como Crossroads Of Time e Trance, exemplos do "dikhr", recitação auto-encantatória do nome de Deus, que Brian Jones, William Burroughs, Paul Bowles, Ornette Coleman, Brion Gysin, Jimi Hendrix, Pharoah Sanders, Maceo Parker, Timothy Leary, Bill Laswell, Dissidenten, Marianne Faithfull e Sonic Youth aprenderam a declinar com os músicos marroquinos de Jajouka, Gnawa e todos os outros.


Dissidenten

Mas, acreditem, como quase todos nós, deste lado do mundo, eles conheciam muito pouco profundamente aquilo com que lidavam... (2002)