DESARRUMAR A MEMÓRIA

A 1 de Fevereiro passado, em “The Conversation”, Emma Smith, professora de Shakespeare Studies em Oxford, publicou o texto
“Why we need to remember how to forget” no qual, afirmando que vivemos na era da
hyperthymesia (do grego: excesso de memória), explicava como
“A característica definidora do que é ser humano na idade digital é a de estar esmagado pelo passado – a ameaça aos nossos presente e futuro criativos é que o passado se torne demasiado omnipresente impedindo-nos de avançar. Abram-se as portas ao potencial criativo do esquecimento”. Caso o lesse, Meilyr Jones achá-lo-ia absolutamente incompreensível ou rir-se-ia à gargalhada. Porque ele não se sente, de todo, esmagado pelo passado, ele vive, literalmente, lá dentro. E, se lhe apontam que
"Strange/Emotional" exibe uma muito directa relação familiar com "Rebel Rebel", de David Bowie, não hesita na resposta:
“Adoro essa canção, por isso, apropriei-me da introdução. Antigamente, não havia nenhum problema em referirmo-nos livremente a obras alheias. Hoje, olhamos para a música do passado sem essa confiança, procuramos ocultar as nossas fontes. Esses compassos de ‘Rebel Rebel’ são-me familiares para lá do ponto em que poderia falar-se sequer de empréstimo. Se vou ser autêntico, uso a minha música e a de outros, para mim, o mundo moderno é isso, desarrumar o passado. Um processo de osmose mais do que conceptual”.
A canção de Bowie não é caso único em
2013 álbum de estreia a solo do galês ex-
Race Horses: "How To Recognize a Work Of Art" ecoa "Disco 2000", dos Pulp (ela própria já uma montagem de citações), "Don Juan" contêm ADN de "You’re So Vain", de Carly Simon, "Rain In Rome" é a polifonia renascentista "Mon Cœur se Recomande à Vous", de Orlando di Lasso, sobre fundo de chuva e tempestade, e "Rome" uma encenação elegantemente isabelina. Opulentamente orquestral
à la Neil Hannon, Meilyr Jones,
“an actor recalling my previous lives, no Hamlet, no Macbeth, come and see me tonight” ou, em alternativa,
“this week’s featured artist, the face of The Observer’s free magazine”, criatura impregnada de Byron, Keats e Shakespeare, deverá, então, ser considerado como um dos primeiros autores do século XXI a enfrentar, sem medo, a
hyperthymesia e, desarrumando a memória, a sair vencedor do combate.