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06 January 2026
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01 December 2025
"Lover, You Should've Come Over"
(sequência daqui) Um dos eixos principais do documentário é justamente o relacionamento de Jeff com a mãe que desempenha um papel central de narradora ao longo do filme. As entrevistas de Guibert oferecem um olhar profundamente pessoal sobre os anos de formação de Buckley, revelando traços do seu caráter e do intenso mundo emocional que ele habitava e que o habitava. Já em 2000, quando, a propósito da publicação de Mistery White Boy (colecção de actuações as vivo), conversámos em Paris, era absolutamente notório que ela tinha assumido por inteiro o papel de ferocíssima guardiã do legado artístico do filho. Senão mesmo de guia espiritual que, superiormente, lhe orientara o percurso: "Quando ele tinha 3 ou 4 anos, dediquei-me ao estudo da metafísica. Daí que, sempre que ele me fazia o género de perguntas que as crianças fazem, lhe tenha procurado transmitir o conceito de que cada um de nós é uma partícula de deus, da mesma forma que uma gota de água faz parte do oceano e que o nosso objectivo consiste em gozar a vida na sua plenitude. Quando descobriu o poeta sufi, Rûmi, foi como se tivesse encontrado uma luz naqueles poemas". E, estabelecendo a relação entre todos esses fios de sentido, "Foi isso que o conduziu até Nusrat Fateh Ali Khan e ao modo de vida sufi que é completamente o oposto de uma atitude ascética e monástica de rejeição do mundo material: viver a vida, casar-se, ter filhos, trabalhar, e, ao mesmo tempo, cultivar o amor pela vida. É muito fácil descobrir a iluminação num mosteiro mas já não é tão fácil fazê-lo numa autoestrada". Berg combina essas reflexões com a narrativa mais ampla da vida de Buckley, mostrando como a sua sensibilidade e turbulência interiores desempenharam um papel crucial na formação de sua expressão artística. (segue para aqui)
26 July 2015
Um óptimo exemplo de como um estudo pretensamente "científico" se desmorona, desde o início, infectado pelo preconceito mais pateticamente estereotipado: "Mellow (featuring romantic, relaxing, unaggressive, sad, slow, and quiet attributes; such as in the soft rock, R&B, and adult contemporary genres); Unpretentious (featuring uncomplicated, relaxing, unaggressive, soft, and acoustic attributes; such as in the country, folk, and singer/songwriter genres); Sophisticated (featuring inspiring, intelligent, complex, and dynamic attributes; such as in the classical, operatic, avant-garde, world beat, and traditional jazz genres); Intense (featuring distorted, loud, aggressive, and not relaxing, romantic, nor inspiring attributes; such as in the classic rock, punk, heavy metal, and power pop genres); and Contemporary (featuring percussive, electric, and not sad; such as in the rap, electronica, Latin, acid jazz, and Euro pop genres)... e onde me encaixo se gostar simultaneamente de Leonard Cohen, Stravinsky, Ornette Coleman, Sex Pistols, ABBA, Nusrat Fateh Ali Khan, Stockhausen, Julie London, Jimi Hendrix, Caetano Veloso, Beach Boys, Chet Baker, música barroca e do Renascimento, Amália, Glenn Branca?...
28 January 2015
Qual dos dois é o mais violento, o Corão ou a Bíblia? Existem, felizmente, sites beneméritos que fizeram esse estudo comparativo por nós. Por exemplo, The Skeptic’s Annotated Bible, através do qual se verificará que, se, na Bíblia, podemos ler 1318 passagens de carácter “cruel” ou “violento” (maldições como “E a minha ira se acenderá, e vos matarei à espada; e vossas mulheres ficarão viúvas, e vossos filhos órfãos”), no livro segredado ao ouvido de Maomé pelo mesmo super-herói voador – Gabriel – que, há 2015 anos, deu a uma moça judia a notícia de que ela iria ser o mais célebre caso de partenogénese de sempre, existem 532. Tomando, porém, em consideração a muito maior extensão da Bíblia, deverá concluir-se que, nesta, a percentagem de leitura não recomendada a crianças e espíritos sensíveis é de 3.89% enquanto, no Corão, chega aos 8.45%. O que não deixa de ser inquietante quando nos damos conta que mais de metade da população do planeta acredita num ou no outro. Acatemos, contudo, uma tendência recente de matriz financeira (duplamente inspirada na ingenuidade dos primeiros "westerns" e no pensamento do persa Mani) e separemos os bons dos maus.
Mas, porque é a má reputação dos 8.45% – os que, entre outras enormidades, proclamam “Firmeza, pois! Logo infundirei o terror nos corações dos infiéis; decapitai-os e decepai-lhes os dedos!" – que, ultimamente, mais tem ocupado os espíritos, vale, no entanto, a pena recordar que é a esse quadrante cultural que, sintetizando barbaramente, devemos a poesia de Rûmi (Leonard Cohen: "o maior poeta da divina embriaguez pelo amor"), Omar Khayyām, Abu Nuwas, e Ibn 'Arabi, polímatos geniais como Ibn-Sīnā/Avicena, gigantes musicais como Oum Kalthoum, Mohamed Abdel Wahab, Farid al-Atrash, Sayed Darwish, Hassan Hakmoun ou Nusrat Fateh Ali Khan, lendas como os Master Musicians of Jakouka, a música dos Gnawa, ou a infinidade de géneros (dawr, qawali. malouf, taqsim, mawwal, qadd, muwashah...) através dos quais se exprimem. E, sim, as inúmeras e belíssimas representações do "profeta" (que só por volta do século XVII começaram a ser desencorajadas e não em todo o mundo islâmico) que é possível ver no riquíssimo Mohammed Image Archive. As-Salaam-Alaikum!
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10 April 2007
DESTE LADO DO MUNDO
Existirá na génese do fado uma raiz longinquamente árabe, muçulmana ou, sequer, magrebina? Terão as características melismáticas do "cante" alentejano alguma coisa a ver com o canto moçárabe? A verdade é que — inúmeras hipóteses e especulações à parte — a única resposta honesta que, até agora, tem sido possível dar é "não sabemos". Exactamente da mesma forma que o Ocidente, arrogantemente, desconhece praticamente tudo da música árabe e islâmica. Existem seguramente os nichos de especialistas, eruditos, académicos e cultivadores do exotismo. Mas, mesmo para quem se interessa de verdade pelo conhecimento das "músicas do mundo", é perfeitamente possível ignorar nomes, datas, géneros, acontecimentos cruciais. Como, há dez anos, me sucedeu no café mouro M'Rabet, do "souk" El-Attarine, em Túnis: hipnotizado pela avassaladora voz de barítono que, emergindo do pequeno leitor de cassetes, envolvia todo o ambiente, ousei perguntar quem cantava. Fui devidamente humilhado: "É apenas o maior cantor árabe de todos os tempos, Mohamed Abdel Wahab", responderam-me com justo e visível desprezo. Como se, em Portugal, um vil bárbaro americano me perguntasse "Então, quem é essa tal Amália Rodrigues?"...
Vergastado, tomei nota. Investiguei e era mesmo verdade. Era bem feito. Conhecia Oum Kalthoum e pensava que sabia quase tudo. Afinal, como já deveria desconfiar, sabia muito pouco. A sublime diva egípcia, Oum Kalthoum, e Mohamed Abdel Wahab são apenas dois exemplos em relação aos quais, por exemplo, a consulta das colecções de CD do Club du Disque Arabe poderia evitar embaraços semelhantes.
Oum Kalsoum
Mas quem faz sequer uma vaga ideia da importância que, no início do século XX, teve um género musical como o "dawr", de Casablanca a Argel, de Tripoli a Cartum, de Beirute a Damasco, do Cairo a Bagdad? Quem conhece a "femme fatale" tunisina dos anos 20, Habiba Msika? Quem ouviu falar de Sayid Darwich, de Asmahan ou Farid al-Atrash? Dir-se-à que, até há dois ou três anos, também quase tudo se desconhecia sobre os optimos veteranos músicos de Cuba. E é verdade. Eis, pois, agora, uma óptima oportunidade — ainda que pelas piores razões — para se começar a saber o que há muito se devia. Por exemplo, que, tal como no Ocidente, existe uma sofisticadíssima e elaborada música clássica árabe. Ou que, como ibéricos que somos, a cultura do Al-Andalus deveria dizer-nos muito mais do que o quase nada que nos diz. Alguns, não muitos, conhecerão o canto "qawwali" sufi do (já desaparecido) quase pop-star paquistanês Nusrat Fateh Ali Khan. Mas quantos serão os que terão escutado os, pelo menos iguais, Sabri Brothers ou terão sequer uma ínfima ideia do revelador sentido filosófico/gnóstico do pensamento sufi islâmico?
Sabri Brothers
E quem terá ouvido a moderníssima iraniana residente em Nova Iorque, Sussan Deyhim, em Madman Of God, interpretando o sobrenaturalmente sábio Rûmi (para Leonard Cohen, "o maior poeta da divina embriaguez pelo amor"), Saadi, Djami e outros autores sufis, do século XI ao XIX? Haverá os que conhecem alguma coisa do pop-raï argelino por via de Khaled mas quantos já se terão atrevido a explorar o "malouf", a modalidade dos "tab" e "maqám", a "escola árabe-andaluz de Tlemcen" ou a música judaico-árabe de Ezzine-Ezzine, Ala Diennat ou Berouel Asbaine? E terá sido muita a curiosidade por músicos tão geniais como o marroquino Hassan Hakmoun, o turco Necdet Yaçar ou por todos os outros revelados pelas excelentes colectâneas da World Network?
Hassan Hakmoun
Como quase sempre acontece, a pop/jazz/rock foi à frente. E, sem esgotar exemplos, foi ela que através dos Saqqara Dogs, C-Cat Trance, Loop Guru, Trans-Global-Underground ou Jah Wobble se atreveu — directa ou indirectamente — a revelar o êxtase/transe/sufi/universal que, mais "etnologicamente autêntico", emergiu através de compilações como Crossroads Of Time e Trance, exemplos do "dikhr", recitação auto-encantatória do nome de Deus, que Brian Jones, William Burroughs, Paul Bowles, Ornette Coleman, Brion Gysin, Jimi Hendrix, Pharoah Sanders, Maceo Parker, Timothy Leary, Bill Laswell, Dissidenten, Marianne Faithfull e Sonic Youth aprenderam a declinar com os músicos marroquinos de Jajouka, Gnawa e todos os outros.
Dissidenten
Mas, acreditem, como quase todos nós, deste lado do mundo, eles conheciam muito pouco profundamente aquilo com que lidavam... (2002)
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