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28 June 2011

AQUI, DE NOVO


















The Feelies - Here Before

Não é apenas uma questão do inevitável efeito da passagem do tempo. Nem sequer aquela tendência para, ciclicamente, promover ao estatuto de genialidade exemplares vários que – justa ou injustamente –, na devida altura, foram olimpicamente ignorados. O que se passa, no caso dos Feelies, é que, não se dando muito por isso, com eles, aconteceu algo não muito diferente do que as enciclopédias registam em relação aos Velvet Underground: álbum de estreia (Crazy Rhythms, 1980) tão lendário quanto imperceptível o seu rasto pelas grandes avenidas do comércio discográfico (apesar de, dois anos antes, o “Village Voice” os ter qualificado como “a melhor banda underground de Nova Iorque”); alterações diversas ao elenco original; segundo álbum (The Good Earth, 1986) com o mesmo destino do primeiro, tendo, então, cabido a Jon Pareles, do “New York Times”, o quase-epitáfio: “The New York area’s best-loved underground rockers since the late 1970’s”; terceiro e quarto (Only Life e Time For A Witness, de 1988 e 1991) repetiram o padrão (Robert Christgau: “Once again they rock out while shedding their grace on thee”); pausa de 20 anos e, agora, Here Before.


Selvagem e Perigosa - Real. Jonathan Demme (1986)

Entretanto, pelo caminho, tanto individualmente, como em múltiplas encarnações paralelas – The Trypes, Yung Wu, The Willies, Speed the Plough –, a micro-dimensão inicial do culto foi-se ampliando e as vénias foram-se sucedendo (dos R.E.M. aos Sonic Youth e prole estética posterior), não sendo verdadeiramente motivo de admiração que Jonathan Demme ou Noah Baumbach tenham incluído temas da banda em Selvagem e Perigosa e A Lula e a Baleia, que o podcast “HBR Idea Cast”, da “Harvard Business Review” (sim, sim, coisa séria) escolhesse "Crazy Rhythms" como genérico de abertura ou que, na edição de 2009, da secção Don’t Look Back do All Tomorrow’s Parties, os Feelies tenham sido convidados para a execução integral do seu álbum inaugural.



Não existe, propriamente, uma regra que estipule, de forma indiscutível, os requisitos e condições adequados para que um grupo, muito depois de ter posto termo à existência, considere a hipótese de retornar aos lugares (palco e/ou estúdio) onde foi feliz. Em alguns casos, resulta (retomando o paralelismo anterior: o "second coming" dos Velvet Underground foi imaculado), noutros (CSN&Y, por exemplo), mais valeria não se terem incomodado. Quando, há três anos, os Feelies ensaiaram o regresso aos concertos, o momento foi circunscrito por evocações das origens (“O nosso manager costumava interrogar-se sobre qual seria o instante em que iríamos explodir em palco”) e reafirmações de princípios (“A nossa sonoridade define-se tanto pelo que tocamos como pelo que decidimos não tocar. E essa atitude vai para além da música: sempre que possível, nunca falar demasiado”), mas não estava ainda, realmente, prevista a adição de um novo tomo à discografia.



Consumada, enfim, a gravação de Here Before – quinto álbum numa trajectória com três décadas – como o encarar? Antes de mais, não se trata (nunca poderia tratar-se) de um novo Crazy Rhythms, esse monumento à hipertensão da guitarra eléctrica. Mas porque, com as melhores bandas, tudo se passa como, quando após um longo interregno, se volta a subir para uma bicicleta, Glenn Mercer, Bill Million e os restantes Feelies-versão II, nada desaprenderam, situando-se, hoje, entre a iridiscência abstraccionista de "When You Know", o lirismo ácido (olha a matriz dos R.E.M.!) de "Should Be Gone" e, mais generalizadamente, um passo adiante relativamente ao ponto – pastoralidade-rock e minimalismo – em que tinham deixado o assunto no seu segundo (e segundo melhor) álbum, The Good Earth. O que não pode ser senão considerado como uma excelente notícia.

(2011)

20 January 2011

2010 - CINEMA
(com inúmeras lacunas)












Um Homem Sério/A Serious Man - Joel & Ethan Coen













Greenberg - Noah Baumbach













Presente de Morte/The Box - Richard Kelly













O Ilusionista/L'Illusioniste - Sylvain Chomet













Tudo Pode Dar Certo/Whatever Works - Woody Allen













O Americano/The American – Anton Corbijn













Homens que Matam Cabras Só com o Olhar/The Men Who Stare At Goats - Grant Heslov













O Escritor Fantasma/The Ghost Writer - Roman Polanski


Amarga decepção:












Shutter Island - Martin Scorsese

(2010)

06 September 2009

NARCISO FERIDO


Noah & The Whale - The First Days Of Spring

Costuma ser receita garantida para o tédio irredimivel: jovem poeta/músico/artista, de coração dilacerado pela ruptura de uma relação amorosa, verte toda a sua dor oceânica sobre a página/o microfone/a tela, insufla-lhe fôlego conceptual à escala himalaica da tragédia e não descansa enquanto não tiver aborrecido de morte o último habitante da galáxia. Não é, realmente, fácil achar forma de contar ainda outra vez a mais antiga história do mundo sem correr o risco de voltar a pisar, uma por uma, todas as pegadas já milhões de vezes deixadas por outros. Apresente-se, agora, Charlie Fink, desapiedadamente abandonado pela namorada (Laura Marling, starlet pop-folk ascendente e ex-elemento da banda de Charlie), e que, para aprofundar a ferida narcísica, foi o responsável pela produção do álbum Alas, I Cannot Swim de que resultou a nomeação dela para o Mercury Prize.



Uma réstea de luz acende-se – mas, como se sabe, isso nunca é garantia de nada – quando se descobre que Noah & The Whale, o nome da banda, se inspirou no filme The Squid and the Whale, realizado por Noah Baumbach, e que, na lista de afinidades electivas de Fink, se encontra também Wes Anderson. A música, então: primeira faixa (a canção-título), sete minutos de lenta mas avassaladora ascensão orquestral, da glacial secura marcial dos Joy Division até à explosão do fogo de artifício final em 70 mm. Tema: “I do believe that everyone has one chance to fuck up their lives". KO instantâneo e hipóteses de análise fria reduzidas a cacos. É, por isso, sob séria reserva de temporária insanidade, que, escutado todo o disco (tema geral: “If you gotta run, run from hope”), afirmo que The First Days Of Spring é o melhor álbum de dor-de-corno desde Sea Change, de Beck, coisa próxima de The Opiates, dos Anywhen, ou de Ocean Rain, dos Echo & The Bunnymen, o género de odisseia pop capaz de reduzir os Arcade Fire à sua insignificante dimensão e de obrigar Neil Hannon a colocar-se em sentido. Paralelamente, Fink realizou uma curta metragem homónima. Se for digna de caminhar na sombra de Wes Anderson, será a cereja em cima do bolo.

(2009)