Showing posts with label Nico. Show all posts
Showing posts with label Nico. Show all posts

13 June 2024

"Floating On A Moment" (ver aqui também)
 
(sequência daqui) Verdadeiramente importante, porém, foi a obsessão pelo trabalho de invenção de um universo sonoro único que terá começado quando, ainda um pouco perdidos acerca do que realmente buscavam, Beth tropeçou numa caixa onde guardava cortinados e declarou "Gosto deste som!" Daí, resultaria o timbre de baixo a utilizar a que se seguiriam, entre outras fontes sonoras pouco ortodoxas, Tupperwares, cordas de guitarra muito fora de prazo, cabaças percutidas debaixo de água, frigideiras de paella, cantis de couro, cordas de juta, secções de sopros com flautas de bisel e clarinetes, e "uma coisa de que ninguém sabe o nome mas que soa como um contrabaixo, é parecido com um ukulele sem trastos e com cordas de borracha que é um pesadelo para afinar". Ao contrário do que poderia supôr-se, nada disto visou alguma vez criar uma atmosfera "exótica" ou bizarra mas sim ajustar-se o mais perfeitamente possível ao surdo desespero que a voz e os textos de Beth Gibbons carregam (“Smiling with white teeth, the taste of ammonia, the need a delusion, a choice made to fail, ‘cos the dreams are for sale from afar”, canta em "For Sale" sobre fundo médio-oriental desfocado), enquanto os arranjos de James Ford sobrepõem sucessivos planos sonoros, multiplicam contrapontos e desarrumam os lugares de repouso habituais. Beth Gibbons é, alternadamente Billie Holiday, Eartha Kitt, Shirley Bassey, Janis Joplin, Björk, Nico, Beth Gibbons até. (segue para aqui)

13 February 2023

"Moonstruck (Nico's Song)" (álbum integral aqui)

(sequência daqui) Ele próprio refere que, em Mercy, “houve certos parâmetros que procurei evitar, Na verdade, a maioria das canções nasceu de um certo tipo de improvisação no sentido em que eu não tinha um plano pré-determinado. Não tinha uma lista de artistas... Na altura, havia um certo número de pessoas disponíveis para gravar e procurei tirar partido delas o melhor que fui capaz. E não foi fácil”. Com a emergência pandémica a reforçar a reclusão, John Cale calcula que, nos últimos anos, terá escrito cerca de 80 canções. “Houve qualquer coisa em mim que fez clic de um modo positivo. Tive momentos de calma e também de raiva com os quais consegui lidar de uma forma que não me foi intolerável”. Esse gatilho, no entanto, tendeu a disparar sobre o eixo sombrio do mundo (“Lives do matter, lives don’t matter, wolves getting ready, they’re gonna buy more guns”, “The monster growls at you, it shakes you to your bones”), e sobre a vertiginosa aceleração do tempo à beira do desastre (“Did you realize how late it was? Later than you think”), o que determinou o modo de encarar cada instante: “Não quis realmente insistir demasiado nos aspectos de intimidação histórica. Mas vivemos um momento em que desejamos conhecer e identificar a posição de todos os malfeitores que foram surgindo e tornando as vidas de todos num inferno”
 
 
É, talvez, um contraponto com o mal em acção que, num turbilhão de electronica malsã, ele procura na evocação de Nico (“Console me, I have come to make my peace... Don’t be afraid of this light, be afraid of this light”), em "Moonstruck (Nico’s Song)", ou dos encontros com David Bowie na noite de Nova Iorque ("Night Crawling"), em contraste imediato com a liturgia de sangue, cinzas e trevas de "Story Of Blood" (“This is the story, the story of blood, it starts in the heart, it moves all around, wakes you in the morning and brings you down”) em cujo video, Cale no papel de decano oficiante e Weyes Blood/Natalie Mering enquanto vestal de rendilhado branco, encenam um episódio de pausa súbita, brevíssimo "scratch" e retorno ao curso normal da canção. Tal como, uma noite., Rimbaud sentara a Beleza sobre os joelhos e, achando-a amarga, a injuriara, Cale não suporta viver sem aquele momento no qual desfigura a harmonia perfeita.

09 February 2023


 
 
(sequência daqui) Agora que, à beira de completar 81 anos, publica Mercy (17º álbum a solo e o primeiro numa década), na companhia de Weyes Blood, Animal Collective, Sylvan Esso, Fat White Family e Laurel Halo, um coro de louvores fez-se ouvir, oriundo de diversos quadrantes e gerações.“Se fossemos apenas o produtor que ele é e foi, teríamos lugar garantido na História. Se apenas tivéssemos sido parte dos Velvet Underground, teríamos um livre trânsito para o paraíso do rock’n’roll. Mas, depois, ainda há todos os álbuns a solo para a Island, a colaboração com Brian Eno e Songs For Drella!... Aborda as coisas sempre numa perspectiva de ‘O que é que, neste momento, me parece interessante?’ em vez de o fazer numa atitude carreirista. Canções criadas assim persistem de um modo muito diferente porque foram pensadas com respeito” diria James Murphy, dos LCD Soundsystem, esquecendo-se, porém, de dar o mui devido destaque ao sobrenatural Music For a New Society (1982) que, Cale sendo Cale, em M:FANS (2016), metodicamente demoliria; “Considero uma enorme honra poder observar cada uma das pequenas decisões que ele toma. Atira-nos duas ou três frases para explicar aquilo que pretende e isso tem um significado imenso”, adianta Brian Weitz/Geologist, dos Animal Collective; “De certo modo, ele podia ser muito formal – muito erudito e clássico. Mas era também capaz de ser tão selvagem como qualquer um de nós”, acrescenta Patti Smith, de quem – numa lista que inclui igualmente os Stooges, Nico, Modern Lovers, Happy Mondays, Siouxsie & The Banshees – ele produziu o álbum de estreia, Horses (1975). (segue para aqui)

14 November 2022

 
(sequência daqui) Em idioma folk, country, "doo wop", escutemos, então, em estado embrionário, "Heroin", "I’m Waiting For The Man" e "Pale Blue Eyes", o belíssimo pastiche trad "Men of Good Fortune" (nada a ver com a homónima de Berlin), os divertimentos "Buzz Buzz Buzz" ou "The Buttercup Song" (AKA “Never Get Emotionally Involved With A Man, Woman, Beast or Child”), os fragmentos dylanianos de "Baby, Let Me Follow You Down" e "Don’t Think Twice, It’s All Right", mas, acima de todas, os oito minutos de "Wrap Your Troubles In Dreams" – que apenas reapareceria em Chelsea Girl, de Nico (1967) –, na voz sepulcral de John Cale acompanhada por metronómica percussão sobre o corpo da guitarra. “É o momento em que se passa de Lou Reed e John Cale como duo folk para os Velvet Underground. A influência de La Monte Young e do Dream Syndicate que Cale carregava transportou-se para aquela canção crepuscular e irónica que faz pensar muito no cabaret alemão”, observa Laurie Anderson. Menos de dois anos depois, seria publicado The Velvet Underground & Nico e, embora só tardiamente se apercebesse disso, o mundo tinha mudado.

27 August 2021

Katherine Priddy - "One of Us Cannot Be Wrong" (Leonard Cohen)

"This song was inspired by Nico. Sylvie Simmons sums up the song as follows: 'One of Us Cannot Be Wrong', Leonard’s wryly humorous song, inspired by Nico, about a man battered but unbroken by lust (...) In fact, there was a period when Leonard Cohen was in love with Nico: although he never won her, he was 'madly in love with her'. Besides 'One of Us Cannot Be Wrong', she was also the source of inspiration for lots of other songs. But in 1967, feeling he 'had no skill' and that he 'had forgotten how to court a lady', Leonard went back alone to his hotel room. His thoughts full of Nico, he wrote 'The Jewels in Your Shoulder' and 'Take This Longing', then titled 'The Bells', both of which he later played and taught to Nico. She was both 'the tallest and blondest girl' in the song 'Memories' and the muse for 'Joan of Arc'".

25 April 2021

22 March 2021

LIMPAR O PÓ AOS ARQUIVOS (LXVII)


(clicar na imagem para ampliar; a "perca" - a "bold" e tudo - em vez de "perda" é indesculpável...; ver também aqui)

07 March 2021

COMO SE FOSSE INVISÌVEL

A câmara desce da copa das árvores sobre o corpo de uma mulher que, no meio da floresta, observada de forma apática, quase sonâmbula, por meia dúzia de pessoas, dança. Num lento "travelling", desassossegado pela pontuação tensa das percussões e rasgado por golpes orquestrais, aproxima-se de Tamara Linden que, olhando-nos desconfiadamente, canta: “I never believed in the robber, I never saw nobody climb over my fence, no black bag, no gloved hand, I never believed in the robber”. Sem aviso, fala para um microfone que lhe é dirigido e, logo a seguir, à frente de duas agitadas baterias e envergando casaco e calças forrados de espelhos, qual Beth Gibbons suavemente exaltada pelas avalanches de cordas, proclama: “No, the robber don't hate you, he had permission, permission by words, permission of thanks, permission by laws, permission of banks, white table cloth dinners, convention centers, it was all done real carefully.” É o video de "Robber", primeira canção de Ignorance, último álbum de The Weather Station ("nom de plume" de Tamara). Nessa altura, ainda não o suspeitamos mas todo o programa que nas restantes nove faixas irá desenvolver-se acaba de ser-nos apresentado.

"Robber"

Numa "newsletter" do ano passado dirigida aos fãs, Lindeman escrevia acerca do seu conhecimento tardio da obra da cineasta belga Agnés Varda, desaparecida em 2019. E descrevia-a como uma artista “desprovida de ego que, através da objetiva, ampliava, mudava e renovava tudo. O seu olhar cinematográfico é sempre o da restauração e da generosidade. Coisa tão rara!” A afinidade era natural: a própria Varda confessara que o que mais desejava não era mostrar mas “suscitar nas pessoas o desejo de ver”. Para alcançar o mesmo, em Ignorance, Tamara Lindeman não se limita a retomar a proposta que Lou Reed colocara na voz de Nico — "I’ll Be Your Mirror" — mas, qual caleidoscópio, cobre-se literalmente de espelhos.

"Tried To Tell You"

Em "Tried To Tell You", no seu "traje de luces" mágico, é uma “lady in the lake” medieval que emerge das águas para, dissipando a névoa — “Some days there might be nothing you encounter, to stand behind the fragile idea that anything matters, I feel as useless as a tree in a city park, standing as a symbol of what we have blown apart” —, conduzir uma solitária personagem e extrair flores da boca e imaginá-las a desabrochar em terreno árido, e "Atlantic" vê-a transformar-se de ponto de luz desfocado em “mirror ball” humana que, na escuridão noturna de um bosque, exclama “My god, what a sunset!” e logo se interroga: “Thinking I should get all this dying off of my mind/ I should really know better than to read the headlines, does it matter if I see it? No really, can I not just cover my eyes?” (daqui; segue para aqui)

28 February 2021

27 February 2021

VINTAGE (DLIX)

Nico & Marc Almond - "Your Kisses Burn"

"Nico was a mysterious figure, enigmatic with that great musical and artistic connection to The Velvet Underground and Warhol, which were things I was obsessed about at school. And of course that wonderful intriguing voice, icy and remote yet warm at the same time. She made a sound I’d never heard before - maybe some sort of a gothic punk Marlene Dietrich. The first time i heard her music was with The Velvet Underground, but I bought Desertshore, The Marble Index and The End and liked them more. There was also her musical association with Brian Eno, which made her more intriguing" (aqui)

21 January 2020

DILETANTES GENIAIS

  
Faltava ainda quase uma década para que a Alemanha deixasse de estar dividida em Leste e Oeste mas, no início dos anos 80, com polos em Dusseldorf, Hamburgo, Colónia, Hagen e, naturalmente, Berlim, um desassossego subcultural agitava músicos, artistas, gente do cinema, da fotografia, da moda e do design, oxigenada pelas correntes de ar fresco que sopravam do pós-punk novaiorquino e britânico. Foi por essa altura – pouco depois de David Bowie ter gravado a “trilogia de Berlim” e em simultâneo com a chegada à cidade do Spree de Nick Cave e dos Birthday Party – que travámos conhecimento com Einstürzende Neubauten, Die Tödliche Doris, Sprung Aus Den Wolken, Der Plan, Freiwillige Selbstkontrolle (F.S.K.), Palais Schaumburg, Ornament & Verbrechen, e Deutsch Amerikanische Freundschaft (D.A.F.), praticantes de abalos sonoros que tanto se alimentavam do futurismo, dadaismo e situacionismo como dos Cabaret Voltaire, Throbbing Gristle, Glenn Branca e William Burroughs. 



O seu momento histórico ocorreria a 4 de Setembro de 1981, quando, no Tempodrom de Berlim Ocidental, teve lugar o festival “Geniale Dilletanten” (Diletantes Geniais), ponto de encontro de radicais livres, agitadores e provocadores vários e futura designação geracional do informal movimento. No interior dele, Gudrun Gut, Bettina Koster, Beate Bartel, Christine Hahn, Manon P. Duursma e Susanne Kuhnke, aliás, Malaria!, oriundas de incubadoras artísticas diversas mas absolutamente enxutas de qualquer sarro académico, foram um colectivo feminino de relativamente curta duração em cujo acelerador de partículas colidiam desgovernadamente o punk, techno, jazz, Kurt Weill, batida motorik, Bowie, disco e Nico. Compiled 2.0/Full Emotion – reeditado em vinil duplo – é uma preciosidade a (re)descobrir.

18 December 2019

FÁBULA MENTIROSA

  
Ouvir Bid explicar pormenorizadamente a génese de Fabula Mendax é um divertido exercício de humor e perplexidade. No qual, ao contrário do que é hábito, o humor reside na imensidade de informação histórica – supostamente séria e inédita – que nos oferece e a perplexidade resulta do facto de, a rematar cada jacto de erudição, o fundador e motor criativo dos Monochrome Set não ser capaz de evitar uma gargalhada escarninha. Por outras palavras, embora ninguém consiga arrancar-lhe a confissão de que este episódio medieval apenas existiu na sua fertilíssima imaginação, toda a narrativa é desmontada pela forma como a apresenta. Queiram, então, travar conhecimento com a nobre donzela Armande de Pange, pseudónimo conveniente de uma jovem guerreira de Metz, na Lorena, cuja fuga – por motivos ainda não decifrados – da casa paterna a leva a cruzar-se com Joana D’Arc em cujo exército de apoio à causa anti-inglesa de Carlos VII se alistaria. Adicionalmente, deverá saber-se também que tal relato foi descoberto em preciosos e secretos manuscritos do século XV, à guarda da antiquíssima família da mulher de Bid (originária de Metz), que jamais nos autorizará a consultá-los. 



É sabido que os Smiths nunca esconderam a sua admiração pelos Monochrome Set mas é pouco provável que estes, em troca, tenham ido, agora, inspirar-se naquela estrofe de "Bigmouth Strikes Again" em que Morrissey, referindo-se âs alucinações auditivas da "pucelle d’Orléans" (que não a levaram a ser internada mas canonizada), cantava “And now I know how Joan of Arc felt, now I know how Joan of Arc felt, as the flames rose to her Roman nose and her hearing aid started to melt”. Não é, igualmente, de supor que tenham lá chegado através do fogo de Leonard Cohen lançado sobre o gelo de Nico em "Joan of Arc", e muito menos por efeito do pastelão sonoro de Madonna, na canção homónima. Aceite-se, pois, a versão-manuscrito de Metz levedada pela neuroescrita automática de Bid pós-aneurisma de 2010 – que já lhe rendeu 6 álbuns em 7 anos – e imprima-se a lenda: a “fábula mentirosa” é um sobreexcelente álbum de pop em estado de graça, coisa de supremo requinte de confecção, onde medievalismos ibéricos se cruzam com a sombra de um Morricone inesperadamente gótico, Jacques Brel e David Bowie partilham as mesmas cordas vocais e, por entre o desfile de um elenco de figuras de Bruegel, se escuta uma "Chanson de la Pucelle" de recorte vagamente mariachi talhada à medida para um filme de Disney. "

28 November 2019

AMOR, SEXO, CULPA, REDENÇÃO E ÊXTASE (III)


De Nova Iorque para Londres, de Montréal para Israel, Cuba e a Grécia. Pelo menos, Marianne ficou para sempre na contracapa de Songs From A Room (1969), Suzanne Elrod na de Death Of a Ladies’Man e Sharon Robinson na de Ten New Songs. Como, amantes ou amigas, poderiam ter ficado também a outra Suzanne (Verdal, a que inspirou a canção), Joni Mitchell, Nico, Janis Joplin, Dominique Isserman, Rebecca De Mornay, Anjani Thomas, Judy Collins. Foi à porta desta última, em Nova Iorque, que, em 1966 – descrente da possibilidade de sobreviver como romancista depois de o segundo romance, Beautiful Losers (escrito num caldeirão mental alimentado a cocktails heróicos de LSD, anfetaminas, sedativos e jejuns), ter sido arrasado pela crítica literária canadiana –, Leonard foi bater, “desconhecendo totalmente o que Dylan, Phil Ochs ou Joan Baez andavam a fazer”. No documentário, Collins conta: “Abri-lhe a porta, ofereci-lhe um café, e ele diz-me ‘Não sei cantar, não sei tocar guitarra e não tenho a certeza se isto é uma canção’. Tocou-me ‘Suzanne' e eu disse-lhe ‘Podes ter a certeza que é uma canção! E tenho de a gravar imediatamente!’ Ficamos amigos, gravei a canção [e também "Dress Rehearsal Rag", no álbum In My Life, 1967, que só ressurgiria na voz do autor, no avassalador Songs of Love and Hate] e ele deixou sempre muito claro que, nunca por nunca, quereria cantá-la em público. Num concerto de beneficência, convidei-o para subir ao palco e cantá-la comigo. Tremia como varas verdes. A meio, começou a soluçar e fugiu do palco, num ataque de pânico. Fui atrás dele e convenci-o a regressar”. A canção sobre Suzanne Verdal - bailarina que estudara com Martha Graham e interpretava peças de John Cage e Edgar Varèse – “foi uma espécie de porta. Tinha de abri-la com cautela, senão perdia o acesso ao que estava do outro lado. Não foi uma canção acerca de uma determinada mulher. Não dormimos juntos. Ela não queria macular ou contaminar a pureza do carinho que sentia pela nossa relação. Foi uma canção sobre o começo de uma vida diferente para mim”.


Contudo, desde o final da frequência na McGill University, de Montréal, e o primeiro semestre em Columbia, uma depressão recorrente assombrava-o: “Quando me refiro a depressão, não estou a falar apenas de tristeza, não se parece muito com a ressaca de um fim-de-semana em que uma rapariga nos deixou pendurados. É uma espécie de agressão mental que, de um momento para o outro, nos impede de funcionar. Uma depressão clínica que é o pano de fundo de toda a minha vida, uma sensação de angústia e ansiedade, de que nada está bem, de que o prazer é inalcançável e todas as estratégias falham”. Num programa da televisão canadiana, com Irving Layton (aquele cuja mulher, Aviva, recorda que frequentemente o espicaçava, dizendo “Leonard, are you sure you’re doing the wrong thing?”), em surdina, tocava no assunto: “Quando, de manhã, acordo, a minha verdadeira preocupação é saber se estou ou não em estado de graça”. Em Madrid, foi mais longe: “Tenho sempre a sensação de viver à beira do colapso e preciso de tomar medidas de emergência: experimentei o Prozac, experimentei o amor, experimentei as drogas e a meditação zen. Tentei esquecer todas essas estratégias e caminhar em frente. Mas o úico lugar onde a verdadeira avaliação acontece é quando me sento para escrever, quando atinjo aquele ponto em que já não posso ser desonesto acerca do que faço”.


A sua eternamente desnorteada bússola política – definiu-se como “um anarquista incapaz de lançar uma bomba” mas, em Londres, teve relações problemáticas (embora fugazes) com o situacionista alucinado Alexander Trocchi e com o militante do Black Power, Michael X – levá-lo-ia a Havana, em 1961, durante a crise da Baía dos Porcos, “lutando por ambos os lados”: “Interessava-me muito saber o que significava para um homem andar armado e matar outros homens, e até que ponto eu me sentia atraído por esse processo. A morte aproxima-nos da verdade. Nunca fui muito fervoroso nas minhas convicções, nem sequer naquele tempo. Fui até Cuba convencido de que o mundo inteiro existia para usufruto da minha observação e educação enquanto indivíduo”. Em 2001, por ocasião da publicação de Ten New Songs, comodamente recostado no sofá de um hotel, em Paris, respondia-me acerca dos motivos para chamar The Army à banda que o acompanhava: “Gosto das fardas . Gosto da ausência de ambiguidade, do grande sentido de uma finalidade, de um objectivo, da implicação de solidariedade e fraternidade, o sentido de uma comunidade sagrada, da devoção e dedicação a um ideal”. Em "Field Commander Cohen" auto-retratava-se sarcasticamente: “Field Commander Cohen, he was our most important spy, wounded in the line of duty, parachuting acid into diplomatic cocktail parties, urging Fidel Castro to abandon fields and castles. I never asked but I heard you cast your lot along with the poor, but then I overheard your prayer, that you be this and nothing more than just some grateful faithful woman's favourite singing millionaire, the patron saint of envy and the grocer of despair, working for the Yankee Dollar”. E, em "The Last Tourist in Havana Turns His Thoughts Homeward", de Flowers for Hitler (terceira colecção de poemas, 1964), exortava: “Come, my brothers, let us govern Canada, let us find our serious heads, let us dump asbestos on the White House, let us make the French talk English, not only here but everywhere, let us torture the Senate individually until they confess, let us purge the New Party, let us encourage the dark races, so they'll be lenient when they take over”.



Caminhando perigosamente na corda bamba, em Paris, acrescentava: “Adoro política, as políticas extremistas. Posições políticas extremistas enquanto narrativa. Espero nunca viver sob tais regimes, mas sempre me atraíram naquilo que representam de um certo apetite humano pela ordem. Escutar pessoas que articulam visões da perfeição é sempre muito interessante. A maioria das pessoas é obrigada a negociar uma ambiguidade aterradora nas suas vidas. E, de súbito, alguém se ergue e afirma ‘Eu sou sérvio’". Ou sou isto ou aquilo. E tudo flui a partir daí. É a descoberta e o estabelecimento de uma identidade exclusiva. A maioria das políticas extremistas decorre desta posição. Todos os países possuem este elemento que deseja definir a totalidade da aventura nacional em termos de uma identidade muito específica”. E, de um modo mais geral, o homem que, em The Future (1992), cantaria “Give me crack and anal sex, take the only tree that's left and stuff it up the hole in your culture, give me back the Berlin wall, give me Stalin and St. Paul, I've seen the future, brother, it is murder”, explicaria: “Não me considero um pessimista. Um pessimista é alguém que está sempre à espera que chova. Eu estou encharcado até aos ossos”. (continua)

26 November 2019

AMOR, SEXO, CULPA, REDENÇÃO E ÊXTASE (I)
 

Nathan Bernard Cohen, um próspero judeu canadiano de origem polaca, dono de uma empresa de confecções dirigidas à classe média-alta, casara com Masha Klonitsky, judia lituana dezasseis anos mais nova, filha do rabi Solomon Klonitsky-Kline, pouco após a chegada dela a Montréal. Sete anos depois, em 1934, nascia Leonard Norman Cohen que cresceria com os pais e a irmã Esther no número 599 da Belmont Avenue, uma artéria do abastado bairro de Westmount, enclave anglo-canadiano e judeu-protestante numa cidade maioritariamente católica e francófona. Porém, em Janeiro de 1944, aos 52 anos, Nathan morreria precocemente. Leonard tinha 9 anos e os únicos objectos pertencentes ao pai que quis guardar para si foram uma navalha e o revólver que ele usara na tropa. Mas – tal como contaria mais tarde no seu primeiro romance transparentemente auto-biográfico, The Favorite Game (1963) –, a seguir ao funeral, esgueirou-se até ao quarto do pai e trouxe um dos laços dele que cortou com uma tesoura, tendo aí escondido um papelinho onde escreveu algo. No dia seguinte, escavou um buraco no terreno do jardim e, sob a neve, enterrou o laço. Pela primeira vez na vida, Leonard Cohen convertera a sua escrita num ritual. Décadas depois, à “People”, de Janeiro de 1980, diria que aquele fora o primeiro texto que escreveu na vida, embora confessasse não conseguir recordar-se do que escrevera: “Ando, há anos, a fazer buracos no jardim, à procura do papelinho. Talvez, afinal, seja só isso que eu faço: procuro aquele bilhete”.

Leonard e Masha
 
A história vem contada em I’m Your Man – A Vida de Leonard Cohen, a fundamental biografia de Sylvie Simmons de 2012, só agora traduzida em português, e que coincide com a publicação do álbum póstumo Thanks For The Dance e a exibição no Porto/Post/Doc Film & Media Festival de Marianne & Leonard – Words of Love, realizado por Nick Broomfield. Algumas páginas à frente, Simmons refere um outro episódio significativo: “No início da adolescência, Leonard interessou-se muito pelo hipnotismo. Adquiriu um livro de autor anónimo, ‘25 Lições de Hipnotismo/Como Tornar-se um Hipnotizador Exímio’, que abarcava ‘a Ciência da Terapia Magnética, da Telepatia, da Leitura da Mente, da Hipnose Mediúnica, do Mesmerismo, do Magnetismo Animal e de Outras Ciências Análogas’. Quis o acaso que Leonard posuisse um talento natural para o hipnotismo. Tendo obtido êxito imediato entre os animais domésticos, passou à criadagem, recrutando como sua primeira cobaia humana, a criada da casa. Obedecendo às suas ordens, a jovem sentou-se no sofá de cabedal. Leonard puxou uma cadeira para diante dela e, seguindo as instruções do manual, disse-lhe em voz baixa e suave que se descontraísse e o olhasse nos olhos. Pegando num lápis, moveu-o vagarosamente diante do rosto dela, para trás e para diante, até que conseguiu fazê-la mergulhar num estado de transe. Ignorando (ou, dependendo das interpretações) cumprindo as directrizes do autor, segundo as quais os seus ensinamentos deveriam ser usados somente para fins pedagógicos, ordenou à criada que se despisse. Quando se apercebeu de que não era fácil despertar a mulher, começou a entrar em pânico perante a perspectiva de a mãe entrar e os apanhar assim”.


Mas nem isso impediria que o narrador de The Favorite Game viesse a sublinhar: “Ele nunca vira uma mulher tão absolutamente nua... Sentiu-se estupefacto, feliz e assustado perante todas as autoridades espirituais do universo. Em seguida, recostou-se na cadeira e ficou a olhar. Eis ali o que tanto desejara ver. Não ficou desiludido. Nem então nem nunca desde aquele dia”. Numa entrevista à revista “Maclean’s” (1992), repetiria: “Não me parece que um homem alguma vez consiga superar a sua primeira visão de uma mulher nua. Creio que é Eva parada a olhá-lo de alto, é o alvorecer e o orvalho na pele. (...) Todas as tristes aventuras no campo da pornografia, do amor e das canções são meros passos no caminho que conduz aquela visão sagrada”. E, em "Memories" (de Death of a Ladies’ Man, 1977) – uma das quatro canções, com "Take This Longing", "Joan of Arc" e "The Jewels in Your Shoulder" – em que evoca as tentativas, em vão, de seduzir Nico, reencena a obsessão: “Frankie Lane, he was singing Jezebel, I pinned an Iron Cross to my lapel, I walked up to the tallest and the blondest girl, I said, look, you don't know me now but very soon you will, so won't you let me see your naked body?" Afinal, tudo aquilo em que, desde Let Us Compare Mythologies (1956) e Songs Of Leonard Cohen (1967) – primeira recolha de poemas e primeiro álbum –, iria infatigavelmente persistir: amor, sexo, culpa, redenção, morte, êxtase e condenação. Ou, como, em 1994, me diria, “A intoxicação pelo amor, a ideia de me render como um ébrio perante esse mistério, como no êxtase de Santa Teresa. Todos esses processos – cristãos, islâmicos, sufis, judaicos, tântricos – de união com Deus que passam por uma metáfora sexual, por uma embriaguês com o ser amado”. Traduzindo para "Love Calls You By Your Name" (de Songs of Love and Hate, 1971), a absoluta incapacidade para resistir à chamada: “Here, right here, between the birthmark and the stain, between the ocean and your open vein, between the snowman and the rain, once again, once again, love calls you by your name”. Todo o contrário do que, em “Ladies and Gentlemen... Mr. Leonard Cohen”, um programa de 1965 do National Film Board canadiano a ele dedicado, aludia ao falar dos residentes em Westmount, gente respeitável de fatos de bom corte e flor na lapela, que “sonha com sexo judaico e carreiras nos bancos”


A verdade é que, nunca tendo escondido as suas origens – “Quando apareci nos anos 60 já era mais velho, não tinha vergonha da minha educação. Não fingia que era da província. O meu pai era fabricante de roupas. Eu escrevia. Tinha um curso universitário” –, Leonard poderia muito bem ter sido um operário capaz. Tendo aceitado no final de 1956 um emprego temporário numa das empresas da família Cohen (a WR. Cuthbert & Cº, uma fundição de latão que o tio Lawrence dirigia), ao sair um ano depois, a carta de recomendação do director de pessoal, declarava: “Leonard Cohen esteve ao nosso serviço entre 12 de Dezembro de 1956 e 29 de Novembro de 1957, tendo desempenhado várias funções: operador de torno mecânico hidráulico vertical, operador de máquina de fundição em molde, assistente de analista de tempo e movimento. Enquanto aqui trabalhou, o Sr. Cohen mostrou ser honesto, competente e aplicado. Não hesitamos em recomendá-lo para qualquer emprego e lamentamos vê-lo abandonar a nossa empresa”. Seria, no entanto, a descoberta, num alfarrabista, dos poemas escolhidos de Garcia Lorca (em particular, "Gacela del Mercado Matutino") que, entre os 15 e os 16 anos, lhe traçaria para sempre o rumo: “Queria reagir aqueles poemas. Todos os poemas que nos comovem são como um chamamento que exige uma resposta, sentimos o desejo de reagir com a nossa própria história. Não dizia respeito somente ao meu coração mas a todos os corações humanos, e a solidão dissipou-se. Senti que era uma criatura amargurada no meio de um cosmos amargurado e que não havia nada de censurável na amargura. Não só não era censurável como era o modo certo de abraçar o Sol e a Lua” (diria, em 1993 a Arthur Kurzweil). Ia escutando Leadbelly, Woody Guthrie, flamenco, "border songs", fazendo a mão na guitarra, e, com o “bando da Côte Saint Luc”, do poeta, mestre e amigo (22 anos mais velho), Irving Layton, “estudávamos um poema até termos desvendado o respectivo código, até descobrirmos exactamente o que o autor estava a tentar dizer e como o dizia. Era assim a nossa vida, a nossa vida era a poesia” (“Les Inrockuptibles”, 1991). Quando, comemorando o 50º aniversário, Let Us Compare Mythologies foi reeditado em 2006, comentaria: “Há neste livrinho uns quantos poemas muito bons. Desde então foi sempre a descer”. (continua).

12 November 2019

UMA ESTRADA MUITO NEGRA

  
Se, no século XIX, a homeopatia e a psicanálise puderam passar por ciência, não haveria motivo nenhum para que o mesmo não acontecesse ao “folclore” – termo utilizado pela primeira vez em 1846, numa carta de um tal W. J. Thomas para a revista “Athenaeum” – que o britânico Lawrence Gomme, fundador da Folk-Lore Society, definiria enquanto “ciência que lida com a sobrevivência nos tempos modernos das crenças e costumes arcaicos”. A intenção com que essa sobrevivência seria estimulada é que obedeceria a convicções irremediavelmente políticas. No indispensável Electric Eden – Unearthing Britain’s Visionary Music (2011), Rob Young explica que onde compositores e folcloristas como Vaughan Williams e Cecil Sharp “viam a música de um povo (i.e., de uma nação, de uma raça), para outros, mais jovens, tratava-se da música do povo. (...) Empunhando uma foice e um martelo, o cantor e folclorista A. L. Lloyd pôs os pontos nos 'i' no seu monumental estudo sobre a folk song [Folk Song in England, 1967]: ‘A mãe do folclore é a pobreza’

 

Tudo isto não poderia estar mais ardentemente presente no avassalador The Livelong Day, dos irlandeses Lankum: na aflitiva miséria de "Hunting The Wren" – acerca das comunidades de prostitutas sem abrigo, alcoólicas, ex-presidiárias, vagabundas, desempregadas, que, escorraçadas das vilas e cidades durante as grandes fomes do século XIX, viviam, no campo, em “tocas” de tojo –, na igualmente humilhada "Katie Cruel" (aprendida de Karen Dalton), ou no enforcado de "The Young People". Mas – e é isso que torna os Lankum, ex-Lynched, num caso absolutamente singular – sem investir no registo da “canção de protesto” ou, na “topical song” da velha matriz folk. E, embora em tempos tenham declarado que “folk is more punk than punk”, também não é exactamente por aí que seguem. Socorrendo-se de uma imponente bateria instrumental (violino, viola de arco, contrabaixo, harpa, guitarra, banjo, piano, Hammond, Wurlitzer, mellotron, vibrafone, "uilleann pipes", "tin whistle", concertina, "bayan" e harmonium), do timbre imperial de Radie Peat (algures entre Nico e Norma Waterson), e das sobrenaturais polifonias a quatro vozes, a banda que venera Robert Wyatt, Neu!, Can, SunnO))) e manuseia os "drones" como tela de projecção, não apenas assegura a “sobrevivência nos tempos modernos das crenças e costumes arcaicos” mas, também, os trespassa com a denúncia da “estrada muito negra a que governantes e igreja católica nos conduziram nos últimos 100 anos”.