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26 September 2025

(sequência daqui) Disco 3: É aqui que as canções que conhecemos de Five Leaves Left começam a ganhar forma. Há versões iniciais de "River Man", "Cello Song' e "Fruit Tree", algumas sem os ricos arranjos de cordas de Robert Kirby, outras com afinações diferentes. Até as canções mais conhecidas soam diferentes aqui — menos polidas, mas mais emocionalmente expostas. Testemunhamos a luta entre a visão de Drake e as limitações dos estúdios da época. 

Disco 4: O quarto e último disco é a versão remasterizada do próprio Five Leaves Left. Continua a ser um álbum de estreia notável, repleto de uma beleza melancólica. Canções como "Day Is Done", "Man In A Shed" e "Saturday Sun" não perderam nenhuma da sua força. A própria embalagem é elegante e discreta com aspecto de peça de arquivo, mas que se deixa folhear como um diário antigo, com notas manuscritas e manchas de café. Esta compilação conta uma história sem a explicar demasiado. Em vez disso, convida-nos a aproximar e ouvi-la e a descobrir o génio oculto de um miudo ainda em busca de quem era. Terminaria a jornada em 1974 por suicídio/overdose acidental nunca suficientemente esclarecidos. O produtor de Drake, Joe Boyd, descreveria a gravação de Five Leaves Left como estando repleta de "esperança e possibilidade". O que podemos ainda pressentir hoje encontra-se aqui.

23 September 2025

"Mickey’s Tune" (Cambridge, Lent Term / 1968)

(sequência daqui) O boxset, consiste, então, de três discos de material previamente não editado, nomeadamente demos, primeiras versões de estúdio e raras gravações caseiras. O álbum original, agora remasterizado, mantém a calor e a intimidade da reedição de 2000; e um livro de capa dura com 60 páginas, inclui fotografias e notas sobre as faixas. Detalhando: 

Disco 1: As primeiras sessões de estúdio, realizadas nos estúdios Sound Techniques, em Londres (e religiosamente preservadas durante meio século, numa cassete à guarda de Beverley Martyn), mostram Nick Drake a dar os primeiros passos na definição da sua sonoridade. Versões de "Time Has Told Me" e "Mayfair" surgem em estado bruto. Há também a belíssima "Strange Face", raras vezes escutada fora dos círculos de colecionadores. A técnica de guitarra de Drake é já delicada e segura, mas a voz soa aqui ainda algo hesitante. 

Disco 2: Este disco recupera uma fita de cassete gravada no quarto de Drake em Cambridge. Um dos pontos altos é "Mickey’s Tune", uma peça inédita que revela um lado surpreendentemente optimista e quase pop de Drake. É possível ouvi-lo a falar brevemente antes e depois de algumas das músicas, o que torna estas gravações inesperadamente íntimas. (segue para aqui)

19 September 2025

 
(sequência daqui) Foi pelo final dos anos 80 que a reabilitação da obra de Nick Drake teve início com ponto de partida na retrospectiva de Len Brown no "NME" (1989) que considerava Five Leaves Left"uma obra prima da melancolia britânica". Sucessivamente reinvindicada por inúmeros músicos como fonte de inspiração, este boxset de 4 CD agora publicado - The Making of Five Leaves Left -, leva-nos a mergulhar no mundo criativo inicial de Nick Drake. Oferece uma visão reveladora sobre a forma como o álbum de estreia de Drake de 1969, foi concebido, desde os esboços iniciais e as faixas descartadas até à obra final remasterizada. Descoberto por Ashley Hutchings (Fairport Convention') e contratado pela produtora Witchseason de Joe Boyd, Drake ver-se-ia confinado ao estatuto de "artista folk". Five Leaves Left, gravado com um orçamento mínimo em 1969, contava com a participação de músicos que tinham contribuído para a criação do folk rock. No entanto, o seu era um estilo de folk rock muito diferente, com uma pincelada de jazz. Cantadas em tom semi-sussurrado, as canções eram impulsionadas por aquilo que tinha atraído Boyd para Drake: o estilo de guitarra de afinação aberta, tocado de forma particular. (segue para >aqui)

15 September 2025

MELANCOLIA BRITÂNICA 

Quando, a 3 de Julho de 1969, Five Leaves Left foi publicado, não teve direito a passadeira vermelha nem nada muito próximo disso. Na verdade - sem que sequer a presença dos "Thompson twins" Richard (dos Fairport Convention) e Danny (Pentangle) o pudesse contrariar -, a recepção crítica foi pouco mais do que morna: uma "tonalidade demasiado melancólica e uniforme", uma "atmosfera introspectiva excessivamente obscura e depresiva", e "ausência de dinamismo" foi o que, do "Melody Maker" ao "New Musical Express", ao "Daily Telegraph" e ao "Disc and Music Echo", se opinou, nunca indo além da classificação de "interessante", considerando as canções "incertas e indirectas", e o álbum "melodicamente monótono". Apenas Gordon Coxhill no "NME", admitia que Drake possuía um "considerável talento", mas o disco "carecia de diversidade", e a voz recordava-lhe a de Peter Sarstedt (a "one hit wonder" de "Where Do You Go To My Lovely?" que, em 2007, acabaria por ser ressuscitada por Wes Anderson para os filmes Hotel Chevalier e Darjeeling Limited) mas sem a sedução e profundidade deste. Um pouco mais simpático, porém, do que, parecia ser a opinião corrente na cave do nº 49 da Greek Street londrina onde, de 1964 to 1972, funcionou o clube folk Les Cousins e Drake era "aquele jovem nervoso que punha o público a dormir"... (daqui; segue para aqui)

23 February 2025

FOLK-ROCK MINIMALISTA


Se há personagem que, sem a mais ínfima molécula de dúvida, deverá ser objecto de incondicional veneração por parte da Internacional Melómana é Joe Boyd. É o mínimo devido a quem, enquanto produtor, editor, autor e "olheiro", foi um silencioso motor por trás das carreiras de Fairport Convention, Sandy Denny, Richard (& Linda) Thompson, Pink Floyd, Nick Drake, The Incredible String Band, R.E.M., John and Beverley Martyn, Kate & Anna McGarrigle, Billy Bragg, 10 000 Maniacs, Shirley Collins, Fotheringay, Albion Band, Dagmar Krause, Mary Margaret O'Hara e June Tabor. Mas também um dos fundadores do lendário UFO, clube da Londres psicadélica, o criador da etiqueta Hannibal Records (1980/1998) e autor de White Bicycles: Making Music in the 1960s (2007), segundo Brian Eno, "O melhor livro sobre música desde há muitos anos". Razões mais do que suficientes para que, quando ele se entusiasma com alguma coisa, lhe prestemos atenção. (daqui; segue para aqui)

"Logic"

17 March 2024

Paul Simon no Les Cousins
 
(sequência daqui) Até ao encerramento em 1972, transformar-se-ia no ponto de encontro e centro nevrálgico das cenas folk, blues e tudo à volta da época, para lá convergindo tanto devotos das músicas tradicionais como audaciosos experimentadores do que não era ainda conhecido como "psicadelismo", futuras celebridades ou eternos desconhecidos. Bob Dylan, Joni Mitchell e Van Morrison terão também andado por lá, Nick Drake era visto como "um jovem nervoso que punha o público a dormir", e, conta o guitarrista Mike Cooper, uma noite, tendo-se cruzado à porta com um tipo que era a cara chapada de Tim Buckley, disse-lho. "Mas eu sou o Tim Buckley" respondeu ele. "Sim, sim, e eu sou o Tim Hardin". Era o Tim Buckley.

20 April 2023

"Horumarye"
 
(sequência daqui) Agora, em Nowhere and Everywhere, sob a designação Unthank : Smith, uma escapada a duo com Paul Smith (dos não demasiado memoráveis Maxïmo Park) vigiada pela produção de David Brewis (Field Music), o argumento regionalista volta a emergir: “Eu vivo em Northumberland, já vivi em Newcastle e a minha família é de Teesside. O Paul vive em Newcastle mas é de Teesside. O David é de Sunderland. Mas não concebemos o álbum como obra de um triunvirato do Nordeste, foi apenas uma coisa bastante natural”. Smith alega que a aproximação à folk decorreu da descoberta da música de Martin Carthy, Karen Dalton, Nick Drake e Bert Jansch, e ambos, sem o terem planeado, foram achando um lugar comum para as vozes que, com o suporte do clarinete de Faye MacCalman e da percussão de Alex Neilson, sob a supervisão espartanamente minimalista de Brewis, se lançaram, de sotaques e dialectos locais orgulhosamente em riste (“Sentimos que era importante não adocicar as nossas vozes”, diz Rachel), sobre histórias e lendas de marinheiros, mineiros e lendários seres marinhos enfeitiçados.

10 March 2023

"February" (álbum integral aqui)

(sequência daqui) “Foi-me fácil usar a estrutura do ano porque é também dessa forma que se encara o tratamento do cancro – esta sensação de lidar com o tempo, um ano de cada vez”, diria Dessner. As últimas peças do "puzzle" foram acrescentadas quando, no Natal de 2018, esta desafiou os irmãos Aaron e Bryce (os gémeos Dessner, de The National) a ocupar-se das orquestrações que haveriam de ser executados pela Malmö Symphony Orchestra, repto imediatamente aceite. Gravados os esboços vocais/instrumentais nos estúdios St. Germain, de Paris, pela frente surgiria ainda o obstáculo do confinamento pandémico que, uma vez ultrapassado, possibilitaria a conclusão do projecto. Sem ser, realmente, mais uma variação sobre o tema das 4 estações mas antes uma busca da sintonia entre o individual e o universal, Complete Mountain Almanac é um ponto de encontro perfeito entre música de câmara e joalharia folk, tal como Virginia Astley, as Unthanks ou Nick Drake imediatemente as apadrinhariam.

19 May 2022

(You Belong There - álbum integral aqui
 
(sequência daqui) E, referindo-se ao facto de grande parte do disco ter sido concebido nas atmosferas rurais do Norte do estado de Nova Iorque e de Santa Fe, no Novo México, acrescentava; “Não sou uma pessoa particularmente espiritual. Não sou religioso. Mas, definitivamente, sinto uma espécie de relação misteriosa com certos lugares. É o mais próximo que chego de uma experiência espiritual”. É, então, num registo de art/rock/folk – de Van Dyke Parks a Baden Powell, Robert Wyatt, Jim O’Rourke, Nick Drake, a clássica de câmara e o jazz – que estas 10 matrioscas sonoras meticulosamente orquestradas circulam, entre espirais de guitarra, arrebatamentos orquestrais e oceânicas massas corais, à esquina de um quase aforismo Zen: “Our work for work’s sake, we’re useless in our way, clear the brush and push the paint, nothing’s lost when there’s nothing there, whatever was and whatever will”.

02 February 2021

Cabane - "Take Me Home Pt.2" 
(feat. Bonnie "Prince" Billy & Bostgehio)
(ver também aqui)
 
(sequência daqui) Em 35 minutos e 10 aguarelas pontilhistas, todos desmontam a armadilha preferida da perfeição que consiste em fazer-nos crer na sua impossibilidade de existir – ela está aqui, pronta a ser descoberta a cada capítulo desta sucessão de haikus envoltos em névoa que pairam sobre uma cabana-grande-como-uma-casa, “um lugar temporário onde nos abrigamos das intempéries”, concebido “como um espelho, como imagens que se reflectem, se opõem e se respondem”, nas vozes sobrenaturalmente complementares de Will Oldham e Kate Stables. Construída laboriosamente ao longo de 5 anos (“Tinha ficheiros verdes, vermelhos e amarelos no meu computador e, à medida que os trabalhava, esperava que alguns se elevassem à cor superior. Por vezes, voltava ao dossier vermelho na esperança de poder salvar algum e temia que algum verde tivesse sido despromovido a vermelho”, conta Thomas a respeito do seu semáforo criativo), é uma delicada peça de folk de câmara para interiores – desdobrada em componentes de video e fotografia – de um frágil impressionismo luminoso e detalhado que, para se nos colar à pele, não precisa que se diga quanto, aqui e ali, faz pensar em Paul Simon ou no olhar de Robert Kirby sobre Nick Drake.

02 January 2018

CODA


Se, numa lista de 10, escasseiam vagas para aquilo que, em ano de farta colheita musical, mais estimulou os tímpanos, 52 semanas são também intervalo de tempo verdadeiramente insuficiente para, uma a uma, se ir destapando tudo o que, no dilúvio da edição discográfica, merece não passar despercebido. O que transforma o início de cada novo ano numa espécie de coda do anterior na qual, por entre justificações mal amanhadas (ler as linhas acima) e actos de contrição perante a desatenção que conduziu a ignorar o que não devia ser ignorado, se procura remediar as falhas. Sejam, então, bem-vindos à coda 2017/2018, a abrir, justissimamente, com uma daquelas peças que, só por si, comprovariam a urgência de prolongamento do calendário gregoriano: Last Leaf, do Danish String Quartet. 




Sem cair na armadilha dos intérpretes de formação clássica que, ao deixar-se tentar pela abordagem de idiomas populares, tendem a desvalorizar a própria identidade, Rune Tonsgaard Sørensen (violino, harmonium, piano, glockenspiel) Frederik Øland (violino), Asbjørn Nørgaard (viola de arco) e Fredrik Schøyen Sjölin (violoncelo) – reconhecidos como virtuosos exploradores das partituras de Bartók, Beethoven, Shostakovich, Brahms, Haydn, Mozart, Sibelius e Schnittke – propuseram-se, agora, investigar “a rica fauna das melodias folk nórdicas”. Recuando até "Dromte Mig en Drom" – a mais antiga canção secular escandinava presente na última folha do Codex Runicus (c. 1300) –, guiam-nos por 16 pontos de paragem, num fantástico périplo de dimensão equiparável (embora com as coordenadas distintivas de um quarteto de cordas clássico) ao que os Hedningarna de Kaksi! (1992) nos haviam oferecido.


A tradição musical popular é, igualmente, a matéria-prima das Sopa de Pedra, colectivo vocal feminino a capella, do Porto, e uma das mais recentes peças de um "puzzle" onde já se encontravam Cramol, Segue-me à Capela e Maria Monda (todas, aliás, reunidas em Novembro do ano passado no concerto “De Viva Voz”)




Cinco anos de gestação foram necessários para dar à luz Ao Longe Já Se Ouvia, belíssimo painel de temas maioritariamente do reportório tradicional da Beira-Baixa, Alentejo,Trás-os-Montes e Açores (acrescidos de dois de Amélia Muge e outro de José Afonso) em gloriosas polifonias corais.


O extraordinariamente intitulado Adiós Señor Pussycat constitui, enfim, o inesperado regresso de uma das lendas secretas da escrita de canções pop britânica: Michael Head (com a Red Elastic Band), ele dos Pale Fountains, Shack e The Strands, que o “New Musical Express” chegou a coroar como “our greatest songwriter”, mas a quem, uma particularmente infeliz combinação de azares e múltiplos vícios sempre impediu de se erguer acima do estatuto de culto.

Aparentemente, de novo com a cabeça fora de água, canções como "Queen Of All Saints", "Josephine", "What’s The Difference", "Wild Mountain Thyme", "Adiós Amigo" ou "Rumer", recuperam sem perdas aquele precioso e aromático "pot-pourri" de Byrds, Love e Nick Drake.

06 June 2017

ASCENDER


Molly Drake nasceu, em 1915, na Birmânia. Era filha de Sir Idwal Lloyd e Georgie Lloyd, ambos membros das forças militares do império britânico. Estudou em Inglaterra mas regressaria a Rangum onde se casaria com Rodney Drake em 1937. A invasão japonesa, em 1942, obrigá-la-ia a fugir, a pé, para Deli, na Índia, aí permanecendo até perto do final da segunda guerra mundial. De volta a Rangum, teria a primeira filha, Gabrielle, e quatro anos depois, um filho, Nick (futuro autor de uma curta e sublime discografiaFive Leaves Left (1969), Bryter Layter (1971) e Pink Moon (1972) – depressivo profundo que, aos 26 anos, se suicidaria). Finalmente, em 1952, a família mudou-se para Inglaterra, residindo em Tanworth-in-Arden, no Warwickshire, não longe da shakespeareana Stratford-upon-Avon, onde desfrutaria de uma confortável vida "upper-middle-class". Não era segredo que Molly, para a família e amigos, tocava piano e interpretava canções que, informalmente, compunha sem qualquer ambição de alguma vez as gravar ou publicar. Foi apenas há dez anos, aquando da edição de Family Tree – uma compilação de gravações caseiras de Nick Drake –, que, pela primeira vez se escutaram duas canções de Molly, "Do You Ever Remember?" e "Poor Mum". 



Essas duas e mais dezassete surgiriam, depois, no CD Molly Drake (2013), recolha de canções e poemas a partir dos registos de Rodney Drake num gravador Ferrograph. Rachel e Becky Unthank, na qualidade de “cantoras folk com alma de pega”, escutaram o álbum e, “perante aquela arca de tesouros” sentiram, de imediato, que não poderiam esquivar-se a fazer algo com elas. Seria, aliás, mais uma óptima peça no puzzle da discografia paralela das Unthanks: a série “Diversions” que já inclui os volumes The Songs of Robert Wyatt and Antony & the Johnsons (2011), The Unthanks with Brighouse and Rastrick Brass Band (2012) e Songs from the Shipyards (2012). The Songs And Poems Of Molly Drake é, então – com a colaboração de Gabrielle Drake que lê os poemas –, o lugar onde, nas vozes de Rachel e Becky e nos detalhados e subtis arranjos de Adrian McNally, a sombria melancolia "naïve" das palavras e melodias de Molly Drake ganha profundidade, relevo e espessura harmónica. Ela que, morta em 1993, fez inscrever na lápide tumular “And now we rise, and we are everywhere”, de "From The Morning", de Nick Drake.

05 November 2014

SUPLENTE DE LUXO


Nick Laird-Clowes?... O nome não faz tocar muitas campainhas mas, houvesse alguma justiça nesta matéria, por esta altura, já deveria ter acedido ao estatuto de mini-lenda pop. Ora reparem: quantas personagens conhecem que possam gabar-se de, aos 13 anos, ter fugido do regaço" upper-middle-class" familiar para estar presente no festival da ilha de Wight de 1970? Ou que, um ano depois, tendo conhecido Lennon e Yoko durante uma manifestação contra o julgamento por obscenidade da revista underground, “OZ”, hajam sido convidadas por estes para pernoitar na sua mansão de Tittenhurst Park onde, pela primeira vez, conheceriam os deleites da conjunção carnal com uma modelo australiana duas vezes mais velha? E que, a isso, juntassem as medalhas de ter participado no último álbum dos T. Rex, colaborado com David Gilmour – amigo lá de casa –, em The Division Bell (1994), e com Brian Wilson (Brian Wilson, 1988) que o apelidou de “génio”? Ter convencido Johnny Marr a tocar num dos seus discos e haver sido aluno de guitarra e composição de Davy Graham e Paul Simon vale? 



Foi, de facto, pela relação com Simon, que tudo começou, quando o moço que, com o teclista Gilbert Gabriel, tocava, antes dos strip-shows, num clube do Soho londrino, lhe apresentou uma canção que ele e Gabriel tinham composto, "The Morning Lasted All Day". Paul Simon aprovou a canção mas vetou o título: deveria, antes, chamar-se "Life In A Northern Town". Supostamente inspirada em Nick Drake – afinal, fora apenas criada na guitarra que Drake exibe na capa de Bryter Layter, a qual, num impulso fetichista, Nick comprara –, articulando um refrão coral “africano”, atmosfera folk, a guitarra de Gilmour e arpejos repetitivos, confessadamente "à la" Steve Reich, seria, em 1985, o primeiro e único sucesso dos Dream Academy, aliás, Laird-Clowes, Gilbert e Kate St. John, oriunda (tal como Virgínia Astley) das Ravishing Beauties. Ao primeiro álbum homónimo, suceder-se-iam Remembrance Days (1987) e A Different Kind Of Weather (1990), sombras de Satie, Edie Sedgwick e Steinbeck, algo como um suplente de luxo para aqueles momentos em que não há um disco dos Prefab Sprout à mão. Tudo, enfim, reunido agora nos dois outonais CD deThe Morning Lasted All Day

06 June 2013

NULLI PRAEDA SUMUS


No caldo de cultura pop largamente dominante em que a inspiração tende a funcionar através do método de aspiração-Hoover do passado, as águas dividem-se entre aqueles que negam peremptoriamente as provas óbvias da matéria aspirada e os outros que as exibem triunfantemente como se de troféus de caça se tratasse. Com Laura Marling, as coisas passam-se de um modo algo diferente: não só é ela a primeira a admitir que, quando, aos seis anos, começou a aprender a tocar guitarra, a primeira canção que o pai lhe ensinou foi "The Needle And The Damage Done", de Neil Young, e que, praticamente, bebeu do biberão Joni Mitchell, Bert Jansch e James Taylor, como, hoje, é, justamente, gente como Young, Graham Nash ou Joan Baez que se confessa fã da filha do quinto baronete de Marling, cujo lema de família, Nulli Praeda Sumus (“Não somos presa de ninguém”), Laura tatuou no pulso direito. 

 

Once I Was An Eagle poderá, facilmente, deixar-se inscrever no género dos álbuns “confessionais” – de que Mitchell et alia foram os praticantes máximos, entre uma multidão de discípulos menores que chegaram a transformar "singer-songwriter" num insulto bem pior do que “palhaço” – mas, note-se, num subcapítulo das refregas sentimentais em que Laura Marling não abdica do estatuto de predadora. Experimentem este percurso: “When we were in love, I was an eagle and you were a dove”, “I’m a master hunter, I cured my skin, now nothing gets in”, “I will not be a victim of romance, I will not be a victim of circumstance”, “Once is enough to make you think twice”, “You weren’t a curse, thank you naïveté for failing me again, he was my next verse” e “Give me something, let me go, tell me something I don’t know”.  



Mas, se lhe acrescentarem “You want a woman who’ll call your name, it ain’t me babe, no, no, no, it ain't me babe”, isso, por interposto Dylan, ajudará a compreender como Marling, ainda só no quarto álbum (após Alas, I Cannot Swim, 2008, I Speak Because I Can, 2010, e A Creature I Don't Know, 2011, todos, como este, com títulos de seis sílabas) se mostra suficientemente confiante para citar os clássicos e – escutando os seus 63 minutos –, ao mesmo tempo, reclamar para si uma genealogia musical não menos aristocrática do que a da sua família de sangue: a de Roy Harper, John Martyn, Nick Drake, Van Morrison ou dos Byrds (se quisermos aproximar mais conspirativamente a cronologia, pense-se, igualmente, em Sometimes I Wish We Were An Eagle, de Bill Callahan, 2009). Quase conceptual na estrutura (suite inicial de uma única peça desdobrada em cinco títulos, coda, interlúdio e desfecho final em oito andamentos), austero na utilização praticamente exclusiva de guitarras, violoncelo e percussão – mas o Hammond, oh quão dylaniano!... de ‘Where Can I Go?’ –, é o perfeito lugar geométrico onde todos os elementos se combinam, expandem e transfiguram, a evocação das 12 cordas de Roger McGuinn convive com modalismos tão orientais como ibéricos e, à discretíssima boleia de "It's Alright, Ma (I'm Only Bleeding)", em "When We Were Happy", Laura Marling, por um segundo, nos obriga a pensar com ela: “I look at people in the city and wonder if they’re lonely or like me they’re not content to live as things are meant to be”.