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08 December 2025

(Post que deveria ter sido publicado na sequência deste)

"Hallelujah" (L. Cohen) 

(sequência daqui) Não menos decisiva foi a omnipresente ausência da figura do pai, Tim Buckley. A busca de Jeff da sua própria identidade — tanto como artista como enquanto pessoa — estava irremediavelmente presa ao legado dele. Na verdade, se o jovem Buckley tentava distanciar-se do estilo musical de Tim, It's Never Over, Jeff Buckley mostra como a sombra da influência de Tim Buckley ainda o assombrava. Tanto pelo crescente assédio editorial ("As editoras começaram a infestar os meus concertos, andavam todos a tentar farejar o novo Tim Buckley. Odiava aquilo!") como pela forma como diversos testemunhos colocavam o problema: "Ele andava em busca das respostas de um fantasma, as respostas do pai". Interrogava-se acerca da sua real valia ("Precisei de 27 anos para gravar Grace. Irei precisar de outros 27 para o que vier a seguir?") mas outras figuras do passado recente assombravam-no igualmente. Caso do primeiro instante em que franqueou as portas de entrada da Sony, em Nova Iorque, e "a coisa em que imediatamente reparamos é na fotografia de um belíssimo Bob Dylan suspensa na parede"; depois, Miles, Thelonious Monk, Duke Ellington...", uma espécie de guarda de honra intimidatória que o obrigava a recordar quais os padrões com que iria ser avaliado. Tarefa para a qual, segundo o compositor e maestro Karl Berger (íntimo de Ornette Coleman, Lee Konitz, Anthony Braxton Carla Bley, Bill Laswell, John McLaughlin, Natalie Merchant) ele não se acharia insuficientemente preparado: "Ele ouvia Bill Evans, Shostakovich... conhece algum músco pop que saiba sequer quem foi Shostakovich?" (segue para aqui)

13 September 2023

Natalie Merchant interview - Keep Your Courage, love in all its forms, and a lot more
(ver aqui e também aqui)

10 August 2023

 
(sequência daqui) Para Keep Your Courage, sucessor de Butterfly (2017), poderia dizer-se que Merchant se decidiu por outra colecão de figuras (míticas e reais) como entidades tutelares: Afrodite, Narciso, São Valentim, Walt Whitman, William Blake, Joan Didion ou Buffy Sainte-Marie que, em não menos amplo espectro de idiomas musicais — gospel, soul, New Orleans, folk britânica, clássica de câmara —, chamam a si intérpretes tão distintos como Abena Koomson-Davis, do Resistance Revival Chorus, o colectivo folk Lúnasa, o virtuoso clarinetista sírio Kinan Azmeh, o trombonista Steve Davis ou o compositor Gabriel Kahane, unidos no espírito do apelo a Afrodite: “Make me head over heels, make me drunk, make me blind, over the moon, half out of my mind, oh, make me weak in the knees, tremble inside, give up easy and swallow my pride, oh, make me, make me love”.

07 August 2023

UM MUSEU NUMA CAIXA
"A palavra 'coragem' tem a raiz no latim para 'coração', 'cor', e encontramo-la em muitas línguas: 'le coeur', il cuore', 'o coração', 'el corazón'. Este é um ciclo de canções que desenha o mapa da jornada de um coração corajoso", esclarece Natalie Merchant, desde o início nas "liner notes", de Keep Your Courage. E, como que para sublinhar isso, na imagem da capa do álbum, vemos uma representação de Joana D'Arc, figura feminina de guerreira medieval. Na verdade, apenas um entre muitos objectos da sua colecção de "ephemera" — negativos fotográficos em placa de vidto, daguerreótipos, dezenas de caixas de postais, catálogos, fotografias vitorianas, cartões de publicidade, revistas, imagens de infância, trajes étnicos, flores, insectos, livros infantis — que começou a reunir por volta dos 14 anos: "Jamestown onde nasci era uma pequena cidade na qual não havia muito para fazer. Pretendi criar o meu pequeno museu dentro de uma caixa. Quando os 10 000 Maniacs começaram a gravar discos, eu era responsável pelo design de capas e posters em que recorria â minha colecção de 'ephemera'". (daqui; segue para aqui)

"Come On, Aphrodite" (feat. Abena Koomson-Davis)

27 July 2023

COMO UMA CORRENTE 

Há três anos, aquando da publicação do belíssimo Heart’s Ease, de Shirley Collins, a veterana padroeira da folk britânica, sem papas na língua mas com alguma dose de injustiça pelo meio, a propósito daqueles que poderiam constituir a sua "descendência" actual, dizia-me: "Para ser sincera, as Unthanks fazem música lindíssima mas parecem-me demasiado repetitivas, prefiro um pouco mais de substância. E os Stick In The Wheel dão-me a sensação de estarem a cantar sempre a mesma música. Mas adoro os Lankum – a Radie Peat é uma cantora extraordinária!..." No último número da "Songlines" – na capa, os Lankum, sob o título de "The Fearless Future of Folk" –, a mui respeitável Natalie Merchant, unindo pontas, contava como, tempos antes, quando procurava uma versão de Shirley Collins para o tradicional "Hares On The Mountain", deparara com um vídeo de Radie Peat e Daragh Lynch (metade dos Lankum) interpretando esse tema: "Fiquei imediatamente rendida à tonalidade da voz dela e ao desenho hipnótico da guitarra. Escavei mais fundo e descobri 'The Young People' e 'Hunting The Wren' (ambos de The Livelong Day, 2019). Parei imediatamente. Os textos do Ian Lynch e o talento da banda para reinventar a tradição são impressionantes. Se 'Hunting The Wren' fosse um poema, não seria menos poderoso. Mas, com aquela voz, naquela música, é devastador". (daqui; segue para aqui)

06 March 2018

Francamente, David!... Depois de Love This Giant (a meias com St. Vincent) e Here Lies Love (com Florence Welch, St. Vincent, Candie Payne, Tori Amos, Martha Wainwright, Nellie McKay, Cyndi Lauper, Allison Moorer, Ganda Suthivarakom, Charmaine Clamor, Róisín Murphy, Camille, Theresa Andersson, Sharon Jones, Alice Russell, Kate Pierson, Sia, Santigold, Nicole Atkins, Natalie Merchant e Shara Worden), não te parece absolutamente idiota um pedido de desculpa? (ou existe uma lei das quotas que, retroactivamente, também desvalorizará uma imensa parte da história da música?)

02 January 2015

MÚSICA 2014 - INTERNACIONAL (IV)

(iniciando-se, de baixo para cima *, de um total de 25)






























* a ordem é razoavelmente arbitrária...

Em ainda outro ano de maioria feminina – e não chocaria se Natalie Merchant ou a regressada Suzanne Vega tivessem integrado a lista de dez... mas o mesmo poderia dizer-se de Bonnie ‘Prince’ Billy ou Micah P Hinson, para ficarmos apenas por estes e não aproveitarmos o pretexto alinhando, à socapa, uma lista alternativa –, verdadeiramente difícil é, entre FKA twigs e St. Vincent, decidir qual das duas mais contrariou a rotina quase hegemónica do copy + paste e se empenhou em enxergar os contornos de uma música (e das imagens que alimentam e se alimentam dessa música) indiscutivelmente contemporânea. And beyond... Se isso, realmente, importa, diga-se, então, que o ínfimo piparote que terá empurrado LP1 para cima decorre, justamente, da videografia de twigs: há muito tempo que não ficávamos tão arrepiantemente mudos perante uma articulação de imagens e sons que nos coloca perante o que ainda não tem nome.

19 August 2014

O TODO E AS PARTES 


A ideia atribuída a Aristóteles segundo a qual o todo é superior à soma das partes poderá entusiasmar os adeptos das sinergias mas é bastante provável que até o velho trácio concordasse que a sua aplicação ao caso de uma banda como The Walkmen não é fácil. Não se discute que a óptima discografia do grupo de Hamilton Leithauser, Paul Maroon, Walter Martin, Peter Matthew Bauer e Matt Barrick tenha resultado da particular alquimia em acção no interior do sexteto sem a qual (ou com outra composição de reagentes estéticos) tudo teria resultado seguramente diferente. Porém – para chamar à conversa um exemplo de manual –, ao contrário do que aconteceu com os Beatles, da separação no final do ano passado, até agora, não emergiram personalidades individuais que façam sentir saudades da glória colectiva mas três belíssimos álbuns, bem distintos e a estimular o apetite para o que virá a seguir.


Já abordado Black Hours, de Leithauser, preste-se, então, atenção a We’re All Young Together, de Walter Martin, e a Liberation!, de Peter Matthew Bauer. Capítulo mais recente do género musical em formação “cool songs for cool kids” de que The Tragic Treasury, de Stephin Merritt/Gothic Archies (2006), e Leave Your Sleep, de Natalie Merchant (2010) foram antecessores directos, o álbum de Martin é o género de brinquedo que se oferece aos infantes mas com o qual os adultos também se divertem. Serviu de pretexto para colocar Matt Berninger (The National) a cantar "We Like The Zoo (Cause We’re Animals Too)", para convencer Karen O (Yeah Yeah Yeahs) a não insistir no perfil de felina neo-gótica e revelar uma faceta folk bem mais saborosa e, de um modo geral, pôr alguma da nata indie nova iorquina – Leithauser incluído – a folgar valentemente com canções sobre tigres, cascavéis e Beatles.


Peter Bauer, o discreto baixista/teclista, demonstra igualmente como, sob o quase anonimato do "line up" dos Walkmen, se escondia um excelente "songwriter" capaz de dedicar uma gravação completa aos combates com a fé nas suas várias e venenosas manifestações, num registo confessadamente influenciado por Roberto Bolaño e Elvis Presley (sim, isso mesmo), algures entre Tom Petty, Costello e Dylan, e que autoriza o diálogo com Richard Dawkins e Jorge Luís Borges (não, não é gralha).

13 August 2014

LIMPAR O PÓ AOS ARQUIVOS (XVI)

(com a indispensável colaboração do R & R)

(clicar na imagem para ampliar)

21 May 2014

PESSIMISTAS

  
Alain de Botton poderá não ser o mais fulgurante intelectual contemporâneo dedicado à divulgação de temas filosóficos, literários e artísticos mas tê-lo visto e ouvido, há catorze anos, em Amesterdão – a ocupar a primeira parte de um concerto no qual os Magnetic Fields apresentariam 69 Love Songs –, monologando em modo-"stand up comedy", acerca do seu recém-publicado livro The Consolations Of Philosophy, obrigou a encará-lo, se não de uma forma mais “séria”, pelo menos, francamente simpática. Entretanto (depois dos assaz recomendáveis The Art Of Travel e The Pleasures And Sorrows Of Work – ficaram ainda onze na "to do list"), ler as respostas que deu a uma espécie de questionário de Proust que, em 2009, o “Independent” lhe enviou, não só contribuiu para o estreitar de uma espécie de afinidade virtual como ajudou a vê-lo-lo ainda sob outro ângulo. Por exemplo, à pergunta “qual a pessoa que o faz realmente rir?”, respondia “Arthur Schopenhauer. É profundamente pessimista e o pessimismo é divertido. Disse, uma vez, que ‘todo o homem deveria engolir um sapo pela manhã para ter a certeza de que não irá encontrar nada mais repugnante durante o resto do dia’”



Mas foi a reacção à interrogação imediatamente anterior (“qual o último álbum que comprou?”) que me fez prestar mais atenção: Ophelia, de Natalie Merchant. Estou apaixonado pela voz dela e, portanto, por ela própria”. Merchant não faz, de todo, o género da "pin-up" pop capaz de pôr as hormonas de cavalheiros de meia-idade em ebulição. Porém, se não se encontraram antes, tê-lo-ão feito na passada 5ª feira, no Shoreditch Town Hall de Londres para conversar sobre o último álbum de Natalie. E o pessimismo poderá ter sido um óptimo quebra-gelo já que Merchant confessa abertamente “Sou extremamente pessimista e cínica. Mas, ao mesmo tempo, consigo ser optimista em relação a pessoas e situações específicas”. Natalie Merchant, o disco, não é, realmente, nenhum convite para uma festa de hedonistas militantes: viagem interior agri-doce feita de tensas melancolias orquestrais e recolhimentos folk-acústicos, lugar de perdas e desistências (“Giving up everything, see the cold magnificent emptiness”), é coisa sofrida, magoada, dorida. À pergunta “qual a melhor invenção de sempre?”, de Botton respondera “painkillers”.

20 May 2014

Natalie Merchant - "Lulu"

imagens de "Pandora's Box - real. Georg Wilhelm Pabst (1929)

17 January 2011

SEM PAU NEM GATO



















B Fachada - B Fachada É Pra Meninos

Dar música aos infantes sem ter de atirar o pau ao gato não é tarefa simples. E até pode gerar pequenos equívocos como o que surgiu à volta de "Puff The Magic Dragon", durante décadas – por mais que o seu autor, Peter Yarrow, jurasse que esse sucesso de Peter, Paul & Mary era absolutamente inocente e nada tinha a ver com o tipo de inalações que Bill Clinton também negou veementemente –, encarada como uma "drug-song" encapotada. Mas não é difícil entender-se que as melhores canções para miúdos são aquelas que, quando escutadas por gente mais crescida, contêm matéria suficientemente interessante para lubrificar dois ou três circuitos cerebrais. Nos últimos anos, houve, pelo menos, dois óptimos exemplos: The Tragic Treasury, de Stephin Merritt/versão-Gothic Archies (2006), um conjunto de "histórias de terror para crianças", repleto de educativos ensinamentos políticos ("Be vicious, vain and vile, everything's yours to steal if you'll just smile"), e Leave Your Sleep, de Natalie Merchant (2010), colecção de poemas musicados submetida ao lema “Girls and boys, come out to play, (...) leave you supper and leave your sleep, and come with your playfellows into the street”. B Fachada É Pra Meninos sintoniza a mesma onda e, em registo de Comelade-Playmobil (com baterias de plástico e tudo) que, só aparentemente, se desvia dos álbuns anteriores, alinha interpelações morais (“Porque é que o bom é melhor que o mau? Porque é que o mal é pior que o bem? Porque é que é certo ser cara de pau mas está mal ser filho da mãe?”), miminhos de avô sábio (“antes louco e malcriado que pensar só de emprestado”) e faz regressar o mítico João, sem balão, mas com mais pertinente aconselhamento: “Larga a sopa João, não comas mais, não dês ouvidos às mentiras dos teus pais”.

(2011)

02 January 2011

MÚSICA 2010 - INTERNACIONAL (III)
(iniciando-se, de baixo para cima *, de um total de 20)










The National – High Violet











Vampire Weekend – Contra











Field Music - (Measure)











Laura Marling – I Speak Because I Can











Laurie Anderson – Homeland











The Knife in collaboration with Mt. Sims and Planningtorock - Tomorrow, In A Year











The Gaslight Anthem - American Slang











Peter Gabriel – Scratch My Back











Lloyd Cole - Broken Record











Natalie Merchant - Leave Your Sleep

Não existiu, de certeza, um único ano na ainda curta história da música gravada (pouco mais de um século) acerca do qual se pudesse garantir que seria impossível seleccionar, pelo menos, dez discos capazes de permanecer longamente na memória. E, ainda que, no grande plano cósmico para a música das esferas, não assinalassem nenhum momento particularmente significativo, deles houve sempre matéria sonora suficientemente estimulante a retirar para a lubrificação do canal auditivo. 2010 deixa-se, facilmente, arrumar nesta última categoria despretensiosa mas decente e honesta. O que, se repararmos que, no top-10, poderiam também ter figurado, sem cunhas, The Divine Comedy, Johnny Flynn, Elvis Costello, The Magnetic Fields, Efterklang, The Walkmen, Fanfarlo ou Bonnie “Prince” Billy, ajuda a compreender como, com crises ou sem crises, a música é sempre uma fonte de energia renovável.

* a ordem é razoavelmente arbitrária...

(2011)

29 June 2010