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05 March 2014

CARREGADOS DE FUTURO


A 15 dias de distância, aparentemente, a actualidade do assunto dir-se-ia algo prejudicada. O ponto, contudo, é que, para o que, aqui, verdadeiramente importa, a actualidade é o menos decisivo dos critérios. Fale-se, então, do concerto de reunião dos Mler Ife Dada, do passado dia 14 de Fevereiro, no CCB. Comemorando os 30 anos de uma banda que, desde o final da década de 80, não existe, haveria sérios motivos para supor estarmos perante um quadro clínico daquilo que, no seu tratado de anatomia patológica pop, Simon Reynolds designou como “retromania”: a devoção quase museológica pelo passado, a reconstituição de um reportório “de época”, o olhar obsessivamente retrospectivo. Exactamente aquilo que podemos encontrar, por exemplo, num álbum como Sun Structures, dos Temples, grupo "soit disant" psicadélico britânico cujos elementos terão nascido por volta da altura em que a banda de Nuno Rebelo e Anabela Duarte encerrou a actividade. E justamente tudo o que nem vagamente se detectou no regresso dos Mler Ife Dada: sem pré-aviso e ignorando tudo acerca deles, ninguém no público seria capaz de adivinhar que a magnífica música que escutava não tinha sido criada na véspera. 


A diferença de atitude é crucial: voltar atrás e trazer, tão só, aquilo que já lá estava ou usar esse movimento como pretexto para continuar a pegar fogo à invenção. Naturalmente, ter como ponto de partida Coisas Que Fascinam (1987) e Espírito Invisível (1989) – duas das peças musicais pop mais carregadas de futuro do século XX – e os singles e EP complementares é uma enorme vantagem. Mas, se esse era o guião, dificilmente se preveria o modo pelo qual, sem maiores sobressaltos do que a incorporação de um trio de cordas e outro de sopros, ele seria gloriosamente expandido e dinamitado: como se o interregno de 25 anos tivesse sido minuciosamente cronometrado para possibilitar o melhor concerto de sempre dos Mler Ife Dada, a vertigem sonora da máquina de dança dada-surreal (multiplamente engatada em afro-funk arábico, visões de Naked City através de lentes Plopoplot Pot, arraiais "kitsch"-fadistas e figuras obrigatórias de "vaudeville" eurasiático) estendeu a passadeira para a exuberante encarnação de Anabela sob a forma de cegonha cruzada de pantera "on high heels", ora Yma Sumac, ora Jane Birkin, Berberian, Piaf ou Callas sem travões. No futuro, lá ao longe.

15 February 2014

LIMPAR O PÓ AOS ARQUIVOS (XIII)

(com a indispensável colaboração do R & R)

(clicar na imagem para ampliar)

13 February 2014

SERPENTEAR POR ENTRE AS CORRENTES


É francamente recomendável não se perder a oportunidade de aproveitar a fugaz abertura do túnel temporal que terá lugar no próximo dia 14, no CCB, e através do qual, o presente e meados de 80 do século passado entrarão, momentaneamente, em comunicação. É bem possível que nem sequer nos cheguemos a aperceber da verdadeira distância, uma vez que os guias de viagem serão os Mler Ife Dada – em comemoração do seu 30º aniversário –, banda-farol daquela época da música portuguesa a que, sem condescendências flacidamente nostálgicas, é obrigatório chamar “de ouro”: eles sempre tiveram um pé no futuro e o outro desgovernadamente por todo o lado. Deixar fugir uma oportunidade destas para, da boca do actual barcelonês adoptivo, Nuno Rebelo, e da cantora Anabela Duarte, conhecer a verdadeira história desses anos, também seria assaz indesculpável.

O que aconteceu em Portugal naquele breve período dos anos 80 que não tinha acontecido antes e – independentemente de ter continuado a existir muito boa música – não voltou a acontecer depois? De onde surgiu aquela explosão de bandas todas diferentes, numa altura que também não era economicamente brilhante nem a alfabetização musical era extraordinária? Vocês que estavam no olho do furacão, que explicação têm?
Nuno Rebelo – Tirámos uma rolha da garrafa. Estivemos engarrafados durante a ditadura e o que era urgente, em termos de música popular, durante a ditadura e naquele período logo após a revolução, era a música de intervenção política. No momento em que isso deixou de ser urgente, aparecemos nós que tínhamos, 14, 15 anos no 25 de Abril. Já não sentíamos essa necessidade de fazer uma música carregada politicamente, mas mais aberta. É uma geração de mudança que tem a memória de ser criança durante a ditadura e que chega à maioridade depois da revolução.



Anabela Duarte – A minha educação sentimental na música foi com os Ocaso Épico que, no discurso que faziam, tinham uma costela muito forte de uma certa portugalidade, numa veia não exactamente política mas de contestação, gozava com a História portuguesa, olhava-a por um ângulo mais obsceno. Eu tinha 17 ou 18 anos, eram os primórdios do Rock Rendez Vous. Depois, houve várias vertentes disso, como os Ezra Pound e a Loucura, do Jorge Ferraz, já com influências americanas, os Bye Bye Lolita Girl, Moeda Noise, Santa Maria Gasolina Em Teu Ventre, Pop Dell’Arte... começaram, nessa altura, bastantes projectos que, do ponto de vista da percepção da música, eram bastante mais rudes, mais viscerais, havia ali qualquer coisa às avessas do que se costumava fazer.
NR – Salvaguardando as devidas distâncias, é semelhante ao que se passou num curto período e que deu origem a gente como Almada Negreiros, Fernando Pessoa, aquele período entre a Primeira República e a chegada da ditadura. Aqui é um pouco ao contrário: é a saída da ditadura mas também é uma época de transição. São estes períodos que permitem alguma efervescência artística.

Na altura, tinham verdadeiramente noção de que o que estavam a fazer era realmente novo e diferente e que iria marcar uma época?
NR – Era isso que estávamos a tentar fazer. Não sabíamos se o conseguiríamos mas o nosso esforço era esse: abordar a pop abrindo-a para outros tipo de música. Coisa que foi feita de modo diferente por outros grupos anteriores a nós. Os Beatles, por exemplo, pelas experiências electroacústicas que fizeram, a utilização de orquestras, distorções na voz...



Vocês não viviam, evidentemente, numa bolha, tinham influências e fontes de inspiração. Mas o que é interessante é que, tanto os Mler Ife Dada como vários outros contemporâneos, conseguiram transformar tudo isso numa linguagem completamente própria, personalizada. Isso surgiu naturalmente, foi procurado?
AD – O Nuno vinha de uma fase bastante anglo-saxónica com os Street Kids e teve um flash criativo com o Pedro D'Orey que aparece com um discurso poético mais surrealista que despertou um outro imaginário. NR – Eu poria as coisas de outra maneira: foi muito importante eu ter conhecido o Jorge Lima Barreto e ele ter-me mostrado muitos tipos de música diferente que abrangiam o planeta todo e também o passado. De repente, conheço o Pedro D’Orey que já sabia isto tudo. É uma espécie de encontro de almas gémeas.

O que é interessante é que isso, no vosso caso, não se transformou na produção de uma música ferozmente experimental mas em algo que podia continuar a chamar-se pop...
NR – Era onde eu me situava e, apesar de estar a descobrir todos esses tipos de música que não conhecia, eu vinha da pop. Não se tratava ainda de dar o salto para outro lado mas de absorver na pop aquilo que estava a viver, musicalmente, na altura.
AD – A pop foi beber a muitos dos experimentalismos da altura mas o contrário também é verdade, muitos criativos da área da música experimental se alimentaram dela. Na pop é onde se fazem as experiências todas.



É a lama primordial de onde saíram os bichos todos...
NR – Fundamentalmente, é uma música de não estudiosos da música, sem diploma. Até pode ter, desde que não se manifeste demasiado.

À distância de 30 anos, qual é a vossa retro-perspectiva do percurso dos Mler Ife Dada?
NR – Isso era toda uma tarde de conversa. No início, é a tal fase com o Pedro D’Orey, o EP Zimpó, que começa com improvisação total. Mas para improvisar canções: aparecia uma base instrumental e, logo a seguir, o Pedro criava uma vocalização com letras loucas. Gravávamos, chegávamos ao fim e tínhamos uma canção. Reaprendíamos a tocar aquilo e cristalizavamo-las. A passagem do Pedro foi importante mas meteórica. Ganhámos o concurso do Rock Rendez Vous mas, quando o EP sai, o Pedro já está a viver no Brasil. O segundo momento é de transição, com um novo cantor, o Filipe Meireles. Criam-se mais duas ou três canções – como o "Valete (de Copas)" e o "Oito Doces" – mas, como o Filipe teve de sair para o serviço militar, com a entrada da Anabela e dos gémeos Garcia, acontece o período de maturidade da banda que dá origem ao Coisas Que Fascinam. Aquilo que mostrávamos nesse disco – um grupo aberto a muitos estilos de música – no Espírito Invisível, tentei ir mais longe: se, no primeiro, fomos até aqui, neste segundo, vamos ser ainda mais experimentais e ainda mais comerciais! Abrir para os dois lados.



E qual era a fórmula para isso funcionar? Acentuar o experimentalismo e não perder o pé?
NR – Acentuar o experimentalismo, perdendo o pé! Eram temas de improvisação total curtinhos, na sua maioria – temas de um minuto que funcionavam quase como separadores das canções –, e as canções propriamente ditas em que, como na "Dance Music" ou na "Walkman Music", a ideia era fazer coisas mais comerciais.
AD – Na "Dance Music", a música poderá ser mais comercial mas a letra é completamente anti-comercial. Nesse disco, o Nuno estava já bastante virado para o lado mais experimental, É por esse motivo que, agora, queremos tirar todo o partido dele. Se, na época, a radicalização dos extremos não funcionou e foi até menos apreciado pela crítica, vamos dar-lhe uma nova oportunidade.

Mas vocês nunca deixaram de ser "darlings" da crítica musical...
NR – É verdade. Mas o segundo disco teve um impacto negativo na banda. O fim dos Mler Ife Dada deve-se um bocado a esse fracasso.

No grande aquário da música moderna portuguesa da altura, que espécie de peixe eram vocês? 
NR – Uma enguia. Anda na água doce e na água salgada e serpenteia por entre as correntes.

03 May 2012

QUEM NÃO ESQUECEMOS


Sétima Legião - Memória

Nos idos de 80, quando o pop/rock luso, pareceu, por momentos, ir dispor de um futuro farto e próspero, para além de um pequeno enxame de frenéticas abelhas – umas desabridamente mercenárias, outras ferozmente "independentes" e "alternativas" – que a História apenas estatisticamente registará, os campos dividiram-se de modo razoavelmente claro: de um lado, a frente aventureira-experimental dos Mler Ife Dada e Pop Dell’Arte; do outro, a pop mais ou menos literário-conceptual dos Heróis do Mar e GNR; no centro, a oficina roqueira dos Xutos & Pontapés; por fim, sozinha no seu universo privado, a Sétima Legião. Sim, é simplificação, mas bastante menos abusiva do que possa parecer. E, agora que se celebram os trinta anos da fundação da banda de assombrosa estreia em álbum com A Um Deus Desconhecido (1984), mais óbvio se torna o espaço absolutamente singular (e fértil) que ela ocupou.



Com o ADN da Factory nos genes mas rapidamente mestiçada pelo contágio com as tradições populares portuguesas, galegas, irlandesas (mais pelo eixo-Pogues do que por outros), tão “nacionalista” e “trágico-marítima” quanto os Heróis mas muito menos caricatural, não só deixou uma imaculada discografia de estúdio em seis volumes (obrigatórios: o primeiro e o último, Sexto Sentido, 1999) como dela, em diversas direcções, e com vário sucesso estético, emergiriam os Madredeus, Gaiteiros de Lisboa e, a solo, Rodrigo Leão. Como todas as colectâneas, esta persegue a síntese impossível mas, no caso da Sétima, particularmente dificultada pela uniformemente superior qualidade da obra. Tudo o que aqui está é muito bom, tudo o que ficou de fora também. E o DVD que regista o concerto no Pavilhão Carlos Lopes, de 29 de Dezembro de 1990 (mais 8 videoclips), é o diamante na coroa. (amanhã, no Coliseu de Lisboa, às 21.30)

08 April 2011

PEGADAS



Aquaparque - Pintura Moderna

Abandonar o centro para, após o ter relocalizado noutro lugar geométrico, o voltar a ocupar. Não é estratégia nova nem sequer extraordinariamente distante daquela outra que, há várias décadas, Bryan & Brian raptaram para o perímetro pop e designaram como "Re-Make/Re-Model". É, aliás, sintomático que Brian (Eno) apareça no ramalhete de alusões estéticas que acompanha a publicação de Pintura Moderna, ao lado de tão diversa gente quanto Stock, Aitken & Waterman, Trevor Horn, Jellybean Benitez, Vince Clarke e Bill Laswell. E costuma ser também o procedimento através do qual sucessivas gerações pop mudam de pele - tal como no embrulho-manifesto se alega - acercando-se dos velhos materiais para reproduzir-lhes os códigos, trocando-lhes a lógica.



Pedro Magina (voz, Casio Tonebank, Yamaha DS55, harmónica, percussão) e André Abel (voz, programações, guitarra), gente de Santo Tirso com percursos paralelos e anteriores (enquanto Aquaparque haviam já editado, em 2009, É Isso Aí), redescobrem, então, as pegadas que, em outros anos, levaram Pop Del’Arte ou Mler Ife Dada a desenhar um distinto perfil para a música moderna lusa (e que, sob diferentes ângulos e iluminações, inspiraram também o eixo FlorCaveira/Amor Fúria), manipulam, desfiguram, realinham e fragmentam abstracções digitais, enovelam melodias, perplexidades e distorção, e, um pouco à maneira rigorosamente caótica de uns Animal Collective, inventam um privado e luminoso labirinto sonoro onde já começa a ser perigosamente apetecível perder-se. É diamante ainda em bruto de cuja lapidação – a ser realizada com precaução mas não exagerado desejo de perfeição – bem poderá resultar mais uma jóia da coroa.

(2011)

19 July 2010

ESPELHOS QUEBRADOS



Pop Dell’Arte - Contra Mundum




Abztraqt Sir Q - Extimolotion




Zelig - Joyce Alive!

Em 1983, Woody Allen criou a personagem Leonard Zelig, singular "camaleão humano" das décadas de 20 e 30 do século passado, capaz de, em virtude de uma incomum disfunção psíquica, involuntária e dolorosamente, mimetizar os traços de personalidade e os maneirismos sociais daqueles com que convivia. Começava a sua trajectória como freak circense e acabava na qualidade de herói de guerra mas – é da própria natureza das melhores histórias – não se ficaria pelas salas de cinema a sua peculiar condição. Exactamente da mesma forma que, dois anos depois, em outro filme de Allen, A Rosa Púrpura do Cairo, Jeff Daniels saltava do ecrã para o mundo real, o "síndroma de Zelig" - uma raríssima forma de perturbação cerebral – seria identificado, em 2007, por uma equipa de cientistas italianos dirigida por Giovannina Conchiglia. Não desistam de ler já: no quinto episódio da quarta temporada da série Dr. House (“Mirror, Mirror”), a um doente era diagnosticado o "síndroma de Giovannina", versão retorcidamente televisiva do Zelig original. E, por estes dias, há quem fale de um "síndroma de House", problema com que os médicos apenas humanos têm de lidar face à desconfiança dos doentes que não descobrem neles o poder dedutivo, sherlockianamente sobre-humano, do intratável figurão representado por Hugh Laurie. O qual (House, não Laurie), dizem as más línguas, sofrerá do "síndroma de Asperger". A arte imita a vida que imita a arte que imita a vida que imita a arte que imita a vida...



Para o que, agora, realmente, interessa, por diversos motivos, Zelig dá imenso jeito. Em primeiro lugar, porque uma das bandas portuguesas de que, aqui, se falará responde pelo nome de Zelig. E não inocentemente: são eles mesmos quem confessa que “a nossa música tem uma influência muito forte de muitos géneros diferentes. É uma música que se transfigura muito e passa por muitas mutações” e reivindicam Zelig-personagem como “metáfora da influência que as coisas exercem umas sobre as outras”. Depois, porque, tanto no caso deles como no dos Pop Dell’Arte e dos Abztraqt Sir Q, coexistem, em simultâneo, o impulso para a permanente transformação e a recusa de se deixarem indistinguir da atmosfera musical circundante. Por outras palavras, todos são Zeligs para si mesmos mas sobressaem, violentamente, no cenário, quais bizarras e inclassificáveis criaturas. Porque cometeram a proeza de reinventar a roda da gramática musical? Não, apenas porque, nesse toca-e-foge de mimetismo/antimimetismo, optaram pelo jogo de reflexos sobre espelhos quebrados e, sabiamente, recompuseram os estilhaços segundo as regras de uma (des)ordem muito pessoal e privada.



Prioridade, então, aos veteranos. Mas pela única razão de que, na circunstância, os Pop dell’Arte funcionam, de modo ideal, como precursores e elo de ligação – estético e ético – em relação aos outros dois grupos. Quixote romântico da segunda vaga do pop/rock luso, editor, com a independente Ama Romanta, de múltiplos embriões de muito e nada (Mler Ife Dada, Sei Miguel, Croix Sainte, Nuno Canavarro, Tó Zé Ferreira, Pascal Comelade, Mão Morta...), ao leme do "bateau-ivre" Pop Dell’Arte, João Peste inventou o equivalente musical de um jornal que somente é publicado quando tem, de facto, notícias relevantes para dar – de 1986 até hoje, pelo meio de singles, EP dispersos e compilações, apenas três álbuns: a memorável estreia de 1987, Free Pop (isso mesmo que o título insinua: a atitude libertária do free-jazz transposta, via Duchamp, Warhol e descendência para o universo-pop) e os quase nada menores Ready Made (1993) e Sex Symbol (1995). Pelo que, quinze anos depois, Contra Mundum seria sempre motivo de celebração. Acresce, entretanto, que não se trata, exclusivamente, de saudar o regresso do Pierrot Lunaire trágico da pop nacional: centrados no núcleo resistente Peste/José Pedro Moura, os Pop Dell’Arte que, de novo, escutamos reiniciam a jornada interrompida e voltam ao laboratório subterrâneo onde dão vida aos psicadelismos fadistas, às fanfarras eléctricas, aos arraiais weillianos e à poeticamente perversa candura de palavras e melodias estropiadas em bailado demente de que só eles conhecem o segredo.



É fácil relacionar os Pop Dell’Arte com os muitíssimo mais novos Abztraqt Sir Q. Desde logo, porque algum motivo terá havido para que João Peste (não propriamente uma guest star de serviço) tenha aparecido como convidado do seu óptimo álbum de estreia, Qorn Pop Garden, publicado no final de 2008. A afinidade que, então, já se pressentia – a costela teatral e operaticamente excessiva, os malabarismos linguísticos poliglotas, a veia experimentalista domesticada pelo vício pop – confirma-se integralmente mas, desta vez, em Extimolotion, aprofundando a morfologia ossuda das canções, o perfil esquinado das melodias e o solavanco rítmico como forma superior do riff, numa espécie de depuração última do pós-punk, filtrado através de trinta anos de história, alguma erudição e um prazer evidente em construir diagramas sonoros a três dimensões e bastante mais variantes cromáticas.



Os Zelig, enfim, são o improbabilíssimo lugar geométrico onde gente oriunda dos Ornatos Violeta, Pluto, Drumming, Dep, Electric Buttocks, Tchakare Kanyembe, Foge Foge Bandido e tropelias punk hardcore paralelas tropeça em Sun Ra, nos Naked City, em John Barry e Frank Zappa e, armada de marimbas, vibrafones, contrabaixo, flauta, teclados, percussões, serrote, guitarra e uma devastadora secção de sopros de faca nos dentes, capaz de passar a ferro uma seara, vai-se estatelar gloriosamente muito próximo da terra de ninguém onde, num hipotético momento de repouso, a Flat Earth Society de Peter Vermeersh e seus pacientes de Tourette associados recupera o fôlego, após mil refregas sonoras. António Serginho, Eduardo Silva, José Marrucho, Nico Tricot e Pedro Cardoso – muito conservatório, muito currículo de jazz, rock e ruídeira marginal afim – estão prontos para, caso seja necessário, operar como reserva estratégica da brigada de combate flamenga: as coordenadas do terreno conhecem-nas de cor e não têm a alma menos engarrafada de sonhos de Morricone em pagodes chineses, de surf bands flutuando em jangadas de juncos no Sahara, de James Bond correndo por entre semifusas numa animação musicada por Carl Stalling ou de cenas tórridas de Rita Hayworth nos braços de um mullah de Andrómeda. Não duvidem por um só segundo: com um máximo de prontidão, esse será sempre o mínimo que deles poderemos esperar.

(2010)

05 September 2009

DEPOIS DA LUSOFOBIA


Real Combo Lisbonense - Real Combo Lisbonense

Quando, em 1989, os Tina & The Top Ten se apresentaram como "the first all portuguese fake american rock’n’roll band", o caldo de cultura de então na pop-rock portuguesa possuía o equilíbrio de microorganismos exactamente adequado para que o gesto de João Paulo Feliciano (aliás, Dr. Top), Tina Costa, Johnny "Scratch" Money, Captain M. D., Lee "Beaty" Deasy, Cosmic Rita e Plastic Mimi pudesse ser facilmente interpretado enquanto acto de ironia arty, um "scherzo" conceptual em torno das velhas categorias do "autêntico" e do "falso", encenado, de princípio a fim, como se, por um golpe de magia, num universo alternativo, os Sonic Youth – com quem, para adensar a trama do argumento, os T&TTT viriam a estreitar relações e a actuar conjuntamente, em 1993, no Campo Pequeno, em Lisboa – tivessem nascido para o mundo não em Nova Iorque mas algures entre Lisboa e as Caldas da Rainha. E uma das razões porque, nessa altura, não existiriam muitas dúvidas acerca do sentido estético da banda era o facto de, à época – dos GNR aos Mler Ife Dada, dos Rádio Macau aos Pop Dell’Arte – ser absolutamente insólito pretender simular-se uma identidade pop com registo de nacionalidade diferente daquele que o BI exibia.


Nada de extraordinário, afinal: das cantigas de amigo medievais, ao fado, ao amarrotado nacional-cançonetismo ou à geração imediatamente anterior dos cantautores como José Afonso, Sérgio Godinho ou José Mário Branco, a norma “espontânea” (em todas as suas infinitas variações e contaminações) sempre foi a de, com maior ou menor dose de tempero patrioteiro, se compor e interpretar música portuguesa e em português. É, talvez, por isso, que soa um pouco bizarra alguma perplexidade actual perante a inevitabilidade de, após o curto interregno de domínio anglófono iniciado pelos Silence 4 em meados da década de 90, a pop lusa – essencialmente, através das independentes FlorCaveira e Amor Fúria, mas não exclusivamente – ter voltado a proferir frases como “beijas como uma freira” em vez de portentosos absurdos do género “I will build my world, I will sing my songs, I will keep my helmet on”. E duplamente interessante é também, neste preciso instante, darmos com o regresso de João Paulo Feliciano, desta vez, ao leme do Real Combo Lisbonense.



O manifesto/declaração de princípios (com contextualização histórica incluída: “Num mundo em transformação a um ritmo cada vez mais acelerado, corremos o risco de deixar, irrecuperavelmente, para trás muitas marcas, objectos e tradições da maior importância para a preservação da nossa identidade. Na música, uma das tradições que lamentavelmente se perdeu foi a das orquestras e conjuntos que, em meados do século XX, animavam os casinos, hotéis, bares e restaurantes das principais metrópoles ocidentais. Lisboa não era excepção – apresentava, nas décadas que se seguiram à Segunda Guerra Mundial, uma cena viva de espaços dedicados ao convívio e à dança”) não podia ser mais sério, reivindicando-se dos “clássicos de sempre e pérolas perdidas da música portuguesa”, das “tradições da canção ligeira e romântica”, dos “sons e ritmos oriundos da América do Sul”, do “ twist, (d)o yé-yé e (d)o rock’n’roll”.



E, sem se rir, João Paulo (Hammond, piano, guitarra), Ana Brandão (voz), Bernardo Barata (baixo), Ian Mucznik (voz, guitarra, percussões), João Leitão (guitarra), João Pinheiro (bateria), Márcia Santos (voz, percussões), Mário Feliciano (Farfisa, percussões, voz), Rui Alves (percussões, voz), Sérgio Costa (piano, piano eléctrico, flauta, saxofone) e Tomás Pimentel (trompete, fliscorne), numa atitude “congregadora, transgeracional, transsocial e transcultural”, apelam a que “novos e menos novos, ricos, pobres e remediados”, dançando, participem da “recuperação de algo vital, de manifesto interesse, que se perdeu nessa corrida desenfreada do progresso que tudo atropela e tudo faz esquecer”. Traduzindo: aquilo que, em versão caricatural, Os Tornados, de Twist do Contrabando (ed. Arthouse/Valentim de Carvalho), ensaiam e os OqueStrada, de Tasca Beat, cinematizam e gloriosamente baralham, o Real Combo Lisbonense, assumindo a pose de "first all portuguese fake fifties dance band", junta as pontas soltas do imenso baú de tesouros que as edições Portugal Deluxe começaram a revelar (e que, no plano internacional, a monumental enciclopédia Ultra Lounge arrancou das trevas), puxa o lustro a meia dúzia de suaves frivolidades de Eugénio Pepe, Frederico Valério, Artur Ribeiro, Carlos Canelhas, Byron Gay e Mário Simões (o insano surrealismo de casino de "A Borracha do Rocha") e, tão naturalmente como quem, todos os dias tropeça em Thurston Moore à porta da tabacaria, projecta-as como novas para o enorme coreto do arraial pós-neo-alter-moderno do admirável mundo velho.

(2009)

01 March 2009

TERRA (QUASE) INCÓGNITA

Né Ladeiras - Essência: Os Anos Valentim de Carvalho 1982–1983
Por esta altura, deverá começar a ficar cada vez mais nítida a ideia de que foi no último terço do século XX que a música popular portuguesa conheceu aquilo que se costuma designar por “anos de ouro”. Após décadas do chamado “nacional-cançonetismo” (no qual, em consequência da associação automática aos tempos do Estado Novo, uma boa mão cheia de standards dignos de figurar em qualquer songbook de pergaminhos ilustres foi, durante demasiado tempo, bastante mal amada), de proletarismos de Parque Mayer, de folclorismos de propaganda oficial, da lenta mutação da matriz do fado e do caricatural “yé-yé” paleolítico – com a desejavelmente esquecível baladeirice “de protesto” em fugaz interregno –, no final dos anos 70, fruto do impacto em terreno local dos estilhaços da explosão punk e do arejamento com que as gravações de José Mário Branco e Sérgio Godinho haviam despoluído a atmosfera, iniciou-se claramente uma nova era. O cânone dos clássicos de então – dos GNR, Pop Dell’Arte e Mler Ife Dada aos Xutos, Variações e Sétima Legião – está suficientemente estabelecido mas, ainda assim, restam ainda uma ou duas zonas obscuras que, no processo de reavaliação, foram ficando, descuidadamente, esquecidas.
 
 

A discografia de Né Ladeiras, dos mais recentes Da Minha Voz (2001), Todo Este Céu (1996, dedicado às canções de Fausto) e Traz-os-Montes (1994, em torno da tradição do Nordeste) aos primeiros álbuns a solo, após a participação em registos da Brigada Vitor Jara e da Banda do Casaco, é um desses territórios virtualmente ignorados que apenas sobrevivem na (melhor) memória de quem, na altura, os escutou. Se Corsária (1989, acto de veneração perante a lendária Greta Garbo, produzido por Luís Cília) ainda foi confidencialmente publicado em CD, o EP Alhur (agora, em Essência, reunido ao mini-LP de 1983, Sonho Azul, que também já conhecera meteórica existência digital), continuou, durante vinte e sete anos, ausente em parte incerta, no limbo do vinil. Dificilmente se poderia ter cometido maior delito por omissão: nas suas quatro faixas (“Húmus Verde”, “Holoteta”, “Essência” e “Alhur”), redescobre-se, agora, o intrigante lugar onde – com produção de Ricardo Camacho, textos de Miguel Esteves Cardoso e mão-de-obra instrumental dos Heróis do Mar – os ecos da música tradicional portuguesa se deixam devorar pelo fantasma de uma Nico gentilmente rústica e as polifonias vocais serranas fazem sobrenatural raccord com a claustrofobia sonora da estética Martin Hannett/Joy Division. 
 
 

Um ano depois, Sonho Azul mudava radicalmente de cenário: entre a reinvenção da canção "easy/lounge" e uma amabilíssima dance music de salão, com pontes imaginárias lançadas para os vetustos universos do swing e da "torch song" ligeira, os oito temas escritos a quatro mãos por Pedro Ayres de Magalhães e Né (em especial, “Os Sinos”, “Em Coimbra Serei Tua” e “Sonho Azul”) e cinzelados por Mário Laginha, Carlos Martins, Tomás Pimentel, António Emiliano e Ricardo Camacho eram um exercício de estilo deliciosamente frívolo que, lamentavelmente, não deixou descendência. Verdadeiramente digna de medalha no 10 de Junho – para além da reedição integral do que falta repor em circulação – seria a exumação do mítico "lost album" da cantos populares religiosos começado a produzir por Hector Zazou em 1999, na igreja de Montemor-o-Velho, e abruptamente interrompido devido às proverbiais “divergências”. Qualquer que fosse o estado de finalização, mesmo enquanto work in suspended progress, faria, decerto, a felicidade de muitos. (2009)

26 January 2009

TELETRANSPORTE



AbZTRAQT SiR Q - Qorn Pop Garden

Há um cenário exótico de ficção algures pelo Oriente e quatro personagens heterónimas – Andy Newman, “o baterista pedante”, Egon Crippa, “o baixista esquivo”, Mundina Moruniq, “a vocalista exibicionista”, e Peter Shuy, “o guitarrista neurótico”. O “lettering” e a concepção gráfica da capa remetem também para um universo paralelo alternativo, com script final assinado por AbZTRAQT SiR Q para a BD/filme sem imagens Qorn Pop Garden.



O finíssimo elo de ligação com a realidade conduz-nos daí até Lisboa, Portugal, ainda que com um considerável solavanco na máquina do tempo, projectada duas décadas para trás, na direcção daquele remoinho sonoro onde se geraram bandas como os Mler Ife Dada e Pop Dell’Arte (cujo lendário João Peste, apanhado numa curva apertada do espaço-tempo, foi para aqui aspirado em “Sorry O”) e, sob outras coordenadas geográficas mas também com significativo ADN luso, até ao esconderijo londrino no qual as Raincoats se debatiam com a afinação das guitarras.



A língua portuguesa, durante o teletransporte, foi, acidentalmente, trocada pelo inglês mas a perda é largamente compensada através da viagem que nos é oferecida por um constante zig-zag de ritmos e melodias, planos harmónicos em declive e interpelações sedutoramente absurdas.

(2009)

27 October 2008

BEM-VINDOS AO RENASCIMENTO!



Tiago Guillul - IV




João Coração - Nº 1 Sessão de Cezimbra




Os Pontos Negros - Magnífico Material Inútil

O pop/rock português não teve, praticamente, Pré-História. Escutaram-se apenas uns vagidos inaugurais (que, volta e meia, são reeditados “por causa da nostalgia”) em versão mimética e pobrezinha do que, de Elvis aos Beatles, Shadows e horrores “prog” avulsos, se fazia no grande mundo e, por esse motivo, queimando etapas, no final dos anos 70/início de 80, saltámos directamente do Homo habilis para a Idade Clássica. Entrámos, naturalmente, pela porta do punk/new wave mas, rapidamente, recuperámos os milénios perdidos através de bandas, editoras “independentes” e lugares capazes de – à dimensão local – constituir uma vigorosa “cena” esteticamente autónoma das referências iniciais, com rosto próprio e espaço suficiente para “mainstream” e aventuras marginais. Entre os Pop Dell’Arte e os GNR, a Ama Romanta e as “majors” que surfaram a onda, os Mler Ife Dada e os Xutos & Pontapés, a Sétima Legião, o Rock Rendez Vous e os Heróis do Mar, o Quinto Império de Vieira parecia chegar, de guitarra eléctrica em punho e carregado de saudades do futuro. Porém, como o dos Césares, também este acabaria por ajoelhar às mãos dos bárbaros, adoptar o idioma e os costumes do invasor e mergulhar numa prolongada Idade das Trevas que a emergência de um ou outro herético não bastaria para pôr termo. A imaginação da espécie, como se sabe, é limitada e a História (para o pior e para o melhor) repete-se. Aproveitemos, então, estes dias: parece ter, finalmente, soado a hora do Renascimento e da recuperação dos valores clássicos!


Tiago Guillul - "Beijas Como Uma Freira"

A Florença do pop/rock luso situa-se algures entre Queluz e S. Domingos de Benfica – com derivações para outras coordenadas – e os seus mecenas e artistas (que, por vezes, coincidem) são gente animada daquele espírito que conduz a redigir manifestos e proclamações (“Surge um exército de rapazes e raparigas de caras e almas pintadas, pronto a transformar as emoções colectivas num momento partilhável pelas multidões. Apresentam cantigas, planeiam o fim deste mundo e o início de um novo tempo onde as canções substituam as janelas fechadas dos automóveis, as conversas dentro dos edifícios, as filas de espera para os autocarros, os desesperos solitários”). O quartel-general/laboratório aloja-se nas editoras FlorCaveira e Amor Fúria e, se lhe quisermos identificar um porta-voz, escolhamos Tiago Guillul que, a si mesmo (em página do MySpace), se define como cidadão “casado, monogâmico, pai de três filhinhos, pregador baptista, escreve em cantos obscuros da imprensa”, adopta como lema “religião e panque-roque” e refere como influências “o Evangelho do Senhor Jesus e o Roque-Enrole”. Atenção: aqui não existe uma gota de comédia! Há, certamente, ironia e sarcasmo de sobra mas todas as declarações devem ser levadas a sério. A quarta publicação de Guillul (antecedida de Fados Para o Apocalipse Contra a Babilónia, 2002, Mais Dez Fados Religiosos de Tiago Guillul, 2003,e Tiago Guillul Quer Ser o Leproso Que Agradece, 2004, todos publicados pela FlorCaveira) é o género de OVNI estético que sobrepõe sem problemas apostolado tão convicto quanto verrinoso (“Igrejas Cheias ao Domingo”, “Pior Que Gente Devassa É Um Clero Com Preguiça”) ácido sulfúrico “à la Dylan” (“murmuras modelo em Madonna mas tu beijas como uma freira”), imprecações literalmente incendiárias (“se o país tivesse de arder seria pela minha mão, Portugal tornar-se-ia a lareira da Europa”) e infantilidades surrealmente dementes, em gloriosa encenação sonora que faz ricochete do “panque” para o arraial “cool”, da tasca para o altar.


João Coração - "Dobra"

Pelo meio de um arquipélago densamente povoado de outros nomes – Ninivitas, Manuel Fúria, Os Lacraus, Almirante Ramos, Samuel Úria –, em Nº1 Sessão de Cezimbra, João Coração entrega-se a um estilo de canção acústica com iluminuras “bruitistas”, nascida da improvável intersecção de um Chet Baker sonâmbulo com um Fausto perdidamente romântico, embora ele prefira falar de outros (Arvo Part, Bob Dylan, Camané, Tom Waits, Will Oldham, Erik Satie, Fiona Apple, Cohen, Caetano, Nick Drake, Variações) e de cinema (Godard, Truffaut, Vincent Gallo, Tarkovski, Cassavettes, Murnau). Muitas vezes mais balbuciada e suspirada do que propriamente cantada, é uma pequena música de crepúsculos cujo melhor exemplo, a mui waitsiana “Fado do Bolo Alimentar”se encontra na sua página do MySpace.



Por fim, do lado do neo-punk “teen”, Magnífico Material Inútil, dos Pontos Negros, não será ainda exactamente a “ponte para esse longínquo oásis da cantiga certeira do roque português” que o produtor Guillul anuncia mas, nesta variante de Strokes com infusão bíblica e “crítica social” ingénua gerada na cripta de uma igreja baptista, há francamente mais energia e futuro do que em mil e um produtos formatados com que a indústria se entretém.

(2008)