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06 September 2008

SANS TROPHÉE ET SANS GLOIRE
(revisão daqui)



Stereolab - Dots And Loops




Mono - Formica Blues

"Se levarmos em conta o número de grupos pop que foram influenciados simultaneamente pelas peças para orgão de Steve Reich, pelos Neu, por Martin Denny, Françoise Hardy e pelo marxismo, não é muito arriscado dizer que os Stereolab percorrem uma trajectória singular". Quem o afirma é Mike Barnes no número de Outubro da "Wire" e tem toda a razão. O grupo de Tim Gane e Laetitia Sadier poderá praticar aquilo a que já chamaram "post-easy groove" mas a verdade é que a sua peculiar combinação de "muzak cool" com "space age pop" condimentada com partículas de drum'n'bass e um aroma de minimalismo subtraido aos Young Marble Giants precedeu de vários anos o actual fascínio pelo "easy listening".



Dots And Loops, o último álbum, é talvez aquele onde todo o catálogo de referências dos Stereolab melhor se articula e desenvolve: partindo da particular sensibilidade gaulesa transmitida por Laetitia (leia-se: como se a língua francesa fosse o idioma "easy" internacional), tudo se organiza em torno das componentes minimais da música - "dots and loops", precisamente - convertidas em delicadas miniaturas de neon que tanto se aventuram por um psicadelismo amável como vivem confortavelmente aconchegadas pelos arranjos de cordas e sopros de Sean O'Hagan (dos High Llamas), animadas pelos desenhos repetitivos de marimbas reichianas ou convivendo com os influxos conjugados de John McEntire (dos Tortoise) e dos germânicos Mouse On Mars. E depois, haverá muitos grupos que, num épico "space lounge" de quinze minutos ("Refractions In The Plastic Pulse"), se atrevam a cantar coisas como "Ce qui est n'est pas clos, du point de vue le plus essentiel, ce qui est ouvert est à être dans une action sans fin, sans trophée et sans gloire"?


Stereolab + Stan Brakhage

No salão ao lado dos Stereo, actuam os Mono. Isto é, Martin Virgo (compositor, programador e multiinstrumentalista com currículo ao lado de Björk e dos Massive Attack) e a "chanteuse" Siobhan De Maré, praticantes de um trip hop orquestral que se alimenta em simultâneo de um retropop francófilo (por outras palavras, Gainsbourg, Gainsbourg e Gainsbourg com Siobhan no papel de Jane Birkin), de "samples" de John Barry, Isaac Hayes, Roy Budd, David Sylvian e Gil Evans e de ocasionais acrobacias rítmicas "junglistas".



A atmosfera é irrepreensívelmente elegante e transpira aquele tipo de "ennui" pós-moderno que se poderia encontrar nuns Portishead chiques, parisienses e em dieta rigorosa de Moet et Chandon. Formica Blues, o título, explica realmente tudo acerca de um álbum que é, ao mesmo tempo, uma sofisticada peça de "period music" e de modernismo luxuoso, sem nenhuma contradição nos termos. Já agora, de passagem, não nos admiremos demasiado com a inesperada (?) persistência da estética "easy". Não foi Dickon Hinchcliff, o violinista dos Tindersticks, que confessou que aprendeu tudo sobre arranjos para cordas num manual de Henry Mancini?

(1997)

31 January 2008

À BEIRA DO RISCO
(VII - uma série exumada a partir daqui)



Mono - One Step More And You Die

Nada de novo debaixo do Sol. Como os Mogwai, Godspeed ou Sigur Rós, o conceito sonoro assenta nos jogos de dinâmica loud/soft, nos arrasadores crescendos eléctricos lado a lado com pianíssimos acústicos à beira da extinção no silêncio, uma sucessiva multiplicação da fórmula da bola de neve em movimento pendular entre as duas encostas de um vale gelado: começa em murmúrio, vai-se amplificando em avalanche até ao limite de volume suportável e, a partir daí, inicia o movimento inverso. Depois, repete sempre, em inúmeras variações. A única boa notícia é que os japoneses Mono, à excepção dos Youth da primeira geração, são, provavelmente, os melhores alunos da turma. Levando à letra o lema do título — One Step More And You Die —, toda a música é executada verdadeiramente à beira do risco fatal, os tufões que desencadeiam devastam literalmente tudo em redor e os momentos-asa-de-borboleta ficam suspensos sobre a pura inexistência. Não se prestam tanto a metáforas de índole vulcânico-paisagística como os Sigur Rós (a menos que o Fujyama...) mas as marcas que deixam no terreno são incomparavelmente mais fundas.
(2004)