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20 April 2013

TANTA PEDRA!


Café Poesia 2012 - Uma Noite de Poesia no Palácio de Belém

A Congregação das Irmãzinhas dos Pobres, fundada em 1839 por Santa Joana Jugan, tem como lema "Fazer felizes os velhinhos, é tudo!". E é para fazer os velhinhos felizes que possui várias "residências de velhinhos" onde os velhinhos são, de certeza, muito felizes. "Bonito!", como, em momento de arrebatamento místico-poético, diria a dona de casa do Palácio de Belém, cujas "noites de poesia" se não são ainda uma lenda, passarão, seguramente, a sê-lo após a publicação deste "lindíssimo!" (outra exclamação favorita) CD. Mas não um qualquer "lindíssimo!" CD: por cada exemplar de Café Poesia 2012 - Uma Noite de Poesia no Palácio de Belém adquirido pelos amantes do verbo lírico, 2 euros se derramarão sobre as casas de felizes velhinhos das Irmãzinhas dos Pobres cuja superior missão é fazer os velhinhos felizes.

Tem artistas (e intelectuais e gente assim) muito bons. A começar pela própria anfitriã que - poeticamente, claro - nos explica que "há arquipélagos de silêncio no navegar da vida" e informa que estando a celebrar-se o Ano Europeu do Envelhecimento Activo e da Solidariedade Entre Gerações, "na plateia temos gerações que vão desde os 15 anos até quase, quase aos 90. Bonito!". É, afinal, o poder das "palavras apetrechadas de asas. Lindíssimo!". E, na sua inigualável prosa-poética que abre o CD ("Caminho para Petra"), as palavras esvoaçam como tentilhões, em transcendentes nacos de pura inspiração, capturados entre a aurea mediocritas da Aldeia da Coelha e a peregrinação, abençoadamente sem picante, pelo Monte das Bem-Aventuranças:

"Fazia muito calor e a luz vibrava como em Portugal. Melhor, como no Algarve da infância. Era um sonho tão antigo esta visita à Terra Santa. (...)
Terra estranha aquela! (...) Agreste, avara, onde estavam o leite e o mel?
Tanta pedra!
O marido comentou:
- Agora percebo porque é que na Bíblia aparecem tantas pedras"

É também reconfortante saber que a poetisa e "o marido" - com as suas parcas reformas e débeis economias - não terão que temer pelo Inverno das suas vidas: as Irmãzinhas saberão, sem dúvida, retribuir tão "bonito!" gesto e providenciarão um quartinho numa residência de velhinhos felizes. Quiçá, com jardinzinho. Mas, mesmo que isso não acontecesse, todos os presentes naquele sarau de santa e redentora poesia e música portar-se-iam à altura. Lídia Jorge não compareceu (enviou, porém, um cartãozinho a falar do "esplendor das palavras" - "Fantástico!") mas Lourdes Norberto, Nuno Júdice, Mísia, Francisco José Viegas, Inês Pedrosa, José Luis Peixoto, Joana Carneiro e tantos, tantos outros não faltaram. Só é de estranhar a ausência da nutricionista e benemérita, Isabel Jonet.

18 January 2012

"THE WOMEN AND THE LUST AND SIN NECTAR"



Vários - Fado Portugal/200 Anos de Fado (2 CD + livro)

A inclusão do fado na lista do património imaterial da humanidade no âmbito da UNESCO poderá, como afirmou Rui Vieira Nery, “assegurar-lhe uma exposição pública internacional que é o meio mais valioso que podemos ter”. Porém, mesmo dando de barato que daí poderá advir algo mais do que tudo aquilo que, desde Amália, os fadistas que deram o fado a conhecer ao mundo alcançaram, uma coisa é indiscutível: edições como Fado Portugal/200 Anos de Fado não lhe poderiam agrafar pior reputação.

Em formato de livro/disco (cerca de 200 páginas em que se procura abordar dois séculos de fado, das várias hipóteses explicativas sobre as origens à actualidade), os dois CD são de natureza diversa: o primeiro, dedicado ao reportório e intérpretes tradicionais/clássicos, é minimamente equilibrado e representativo; o segundo, virado para o “fado contemporâneo”, para além da gritante ausência de Camané, inclui (ao lado de Cristina Branco, Ana Moura ou Mísia) a estreia de uma série de supostos “novos talentos” cuja presença, neste contexto, é bizarra.

Muito pior, contudo, é o verdadeiro desastre da tradução do texto para inglês. É praticamente impossível ler um parágrafo em que o idioma de Shakespeare não seja esquartejado: da terminologia musical (“compassos”, por exemplo, é traduzido por “beats”) a descobertas como a “marine origin” (no original, “marítima”), a “umbigada” convertida em “encounter of belly-buttons”, as "cantigas de amigo" em “friends’ songs”, a magnífica explicação da sedução da aristocracia pelo fado “attracted by the women and the lust and sin nectar”, a inigualável descrição da voz “of lyrical tune” de António Menano ou a utilíssima informação de que “fado has attended assiduously in Portuguese cinema”, é um festival. Suspeito que os consumidores anglófonos irão imaginar o fado como um género humorístico.

(2012)

20 December 2009

LONGE DO DITO E NÃO DITO



Amélia Muge - Uma Autora: 202 Canções

Não é “best of”. Não é “ao vivo”. Não é “unplugged”. Não é “compilação” embrulhada à pressa, a pôr-se a jeito para as oferendas rituais, por ocasião do aniversário de Osíris, Mithra, Diónisos e do tardio Jeshua. Nas palavras da própria Amélia Muge, trata-se, sim, da escolha de “um sortido em carteira”, de onde “se vão retirando estas e não aquelas, consoante os locais de concerto, o número de músicos, os convidados, os espaços e os tempos disponíveis”. O ovo de Colombo conceptual começou a ser chocado há dois anos, e foi planeado para eclodir durante o concerto que se realizou em Dezembro de 2008, no Centro Cultural de Belém: o título (do álbum e do concerto), Uma Autora: 202 Canções, referia-se ao número de obras de Amélia registadas, até àquela data, na Sociedade Portuguesa de Autores e, evidentemente, não a nenhuma performance na modalidade maratona-de-palco. O resultado, porém, foi uma proliferação de (em quase todos os casos) radicalmente novas releituras de canções criadas para os álbuns anteriores, de recuperações de temas escritos para outros intérpretes como Camané, Mafalda Arnauth, Mísia, Mariana Abrunheiro e Ana Moura, e três inéditos que, por arrasto, se deixaram incluir facilmente incluir no cânone. E tão fértil o formato se revelou que “tomou forma de chão por onde se pode ir caminhando, paralelamente a outros novos e futuros trabalhos que possam aparecer”.



Caminhando, então, para onde? Se Bob Dylan nos avisou I’m Not There, Amélia quase lhe fez eco declarando Não Sou Daqui. E, agora, muito mais ainda se desterritorializa, retirando, uma a uma, as pedrinhas que deveriam marcar o caminho, na canção de despedida ("Hora de Ir Embora"): “Toca a andar que está na hora, isto é um aviso d’alerta! Já há caminhos no céu e nebulosas na terra, toca a andar p’ra bem longe, longe da paz e da guerra, longe do dito e não dito, do que se está mesmo a ver, da regra das audiências, do quem havia de dizer”. E a geografia vai pegando fogo (“Longe da bolsa em Berlim, das quedas em Nova Iorque, dos diários de Luanda e dos jogos em Banguecoque, do canivete suíço, do chá das 5 da tarde, das rendas todas de Flandres e do petróleo que em nós arde, dos terramotos na Índia, do pechisbeque chinês, do ouro branco do Chade, do destino português”), latitudes e longitudes incineradas, uma a uma, em dolorosamente irónico ternário. As restantes treze – embaladas em formato-livro bilingue de 68 páginas, com ilustrações/fotos de Amélia Muge e textos –, por entre fumos mais ou menos jazzy, impressionismos harmónicos de aquário, pegadas de Robert Wyatt e Laurie Anderson, acordeões, violoncelos, Áfricas imaginárias, sopros, piano e braguesa, seguem-lhe o (des)caminho, errando, magnificamente, por aí.

(2009)

08 February 2009

"WHAT IS ETHNIC IS WHAT HOLLYWOOD HAS MADE ETHNIC"
(Jerry Goldsmith)


Sofia Milos/Celia Amonte/Mísia

Passionada, realizado por Dan Ireland, 2002

"Factual errors: Most of the Portuguese ethnic and cultural references - except the 'Fado' songs (by Mísia) - are flawed: - the title is not correct - in Portuguese it would be "Apaixonada". - none of the character's names are typically Portuguese (Celia, Amonte, Angelica, Gianni Martinez) - Celia prepares a Spanish Paella for Jason - at the street parade, the song is not the Portuguese folk-song the people are dancing on the background - the dance scene is under the spell of a Brazilian Soft-Samba. - "Granny" in Portuguese is "Vovó". (aqui)

(2009)

28 November 2007

NAVEGAR É PRECISO



Cristina Branco - Ulisses

Suponho que, neste momento, não deverá ser tremendamente arriscado afirmar que o futuro do fado (venha ele a ser qual for) passará inevitavelmente por um percurso definido por duas atitudes só aparentemente opostas: a puríssima autenticidade, quase austeridade — mas, atenção, nunca sinónimo de ortodoxia — de Camané e a liberdade de movimentos de Cristina Branco. Lateralmente, poderão considerar-se também contributos como os de Mafalda Arnauth/Amélia Muge em Esta Voz Que Me Atravessa, de António Chainho com A Guitarra E Outras Mulheres ou até experiências importantes (embora falhadas) como Canto, de Mísia, sobre a música de Carlos Paredes. E, uma vez que é do novo álbum de Cristina Branco que agora se trata, há-de vir a propósito recordar como, por altura da edição de O Descobridor - Cristina Branco canta Slauerhoff, ela própria se definia: "Não me considero fadista. Ponto. Canto fado. Canto o meu fado. Aquela ideia do xaile, aquele dramatismo não tem nada a ver comigo. Canto a vida, a minha vida".



É certamente uma atmosfera bastante mais saudável de se respirar do que aquela que ainda teima em se colar aos velhos estereótipos ou, para efeitos de exportação, os espectacularizar e quase caricaturizar. Ulisses só pontualmente é fado — em rigor, apenas na "Gaivota" de Amália/O'Neill/Oulman — mas, na voz de Cristina e na guitarra de Custódio Castelo, quer o idioma seja o português de Portugal ou do Brasil, o castelhano, o inglês ou o francês, é impossível não sentir que o "blueprint" do que é (foi, será?) o fado, explícita ou implicitamente, se encontra presente. Nem que seja somente perceptível à transparência. Podemos, então, reparar como, sem o saber, Joni Mitchell andou pelas margens do fado quando escreveu "A Case Of You", como, obliquamente, Vitorino ou Fausto se cruzaram também com ele ou apercebermo-nos de que nas palavras de Paul Éluard ("Liberté"), na música tradicional portuguesa ou na discreta aproximação a alguns padrões rítmicos brasileiros, há, de certeza, matéria mais do que suficiente para enriquecer e ampliar o código genético daquilo que, um dia, se chamou fado. Cristina Branco canta como (quase) ninguém, Custódio Castelo (e Ricardo Dias) aplicam-se na arte da joalharia e, daí, resulta naturalmente o que será, sem dúvida, um dos grandes discos de música portuguesa de 2005. E do futuro. (2005)