Claro que o Santiago tem
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25 July 2023
16 December 2019
MÚSICA 2019 - INTERNACIONAL (I)
(iniciando-se, de baixo para cima *, de um total de 40)
* a ordem é razoavelmente arbitrária...
22 January 2019
Tiago, filho de Zebedeu e Salomé, foi um dos doze discípulos de Jesus que, após aquilo que no evangelho segundo Monty Python ficou conhecido como o momento-“Always Look On The Bright Side Of Life”, terá ido pregar para a Ibéria. Uma inopinada aparição da mãe do seu mestre (não sobre uma azinheira mas, neste primeiro ensaio, em cima de um pilar nas margens do Ebro) ser-lhe-ia, porém, funesta: convencido de que isso era um sinal para regressar à Judeia, acabaria decapitado em Jerusalém – de acordo com fontes menos devotas, devido ao seu temperamento explosivo – por ordem de Herodes Agripa. Inicialmente, por via aérea (nas asas de anjos), e, depois, fluvial (a bordo de um barco sem timoneiro), o corpo seria transportado até Iria Flavia (actual Padrón, terra dos deliciosos pimentos) e, a seguir, para Compostela, onde, em 1211, haveria de erguer-se uma catedral a ele dedicada.
Não é certo que Micah P. Hinson tenha travado conhecimento com o “filho do trovão” (venenosa alusão ao alegado mau feitio de Tiago) através da americaníssima seita Mórmon que assegura ter ele ressuscitado e que, em 1829, acompanhado por São Pedro e São João, reconheceria oficialmente Joseph Smith – inventor do mormonismo – enquanto legítimo e único representante do Grande Fantasma Cósmico na Terra. A verdade é que Micah, sempre muito dado a temas bíblicos e afins, no novo When I Shoot At You With Arrows, I Will Shoot To Destroy You – inspirado num desabafo do intratável Jeová em Ezequiel 5:16 –, recorre à escultura em granito de Mestre Mateo no Pórtico da Glória da catedral de Compostela para explicar porque se faz agora acompanhar pelos Musicians of the Apocalypse: “São Tiago, rodeado por 24 músicos – aparentemente encarcerados na pedra –, com os instrumentos nas mãos: uns afinam-nos, outros estão apenas sentados, à espera. Esperam, pacientemente, há mais de 800 anos que São Tiago erga as mãos e comece a dirigi-los. São os Músicos do Apocalipse. Trarão à Terra o Inferno e o Céu. Trarão o Apocalipse”. Mantendo-se Tiago, até hoje, imóvel, Micah decidiu rodear-se de 24 músicos que permanecerão anónimos e, numa sessão de 24 horas, gravou esta colecção de 7 canções desmoronadas, entre o miasma alucinadamente místico, a country sonâmbula e cavernosa e um rock encardido, palco para maldições ("My Blood Will Call Out To You From The Ground"), insultos ("Fuck Your Wisdom") e proclamações ("I Am Looking For The Truth, Not a Knife In The Back"). O Apocalipse é que tarda a chegar.
05 December 2017
MÚSICA 2017 - INTERNACIONAL (I)
(iniciando-se, de baixo para cima *, de um total de 34)
* a ordem é razoavelmente arbitrária...
14 November 2017
PROFETAS
Nem no mundo dos profetas – ramo de actividade muito popular na Antiguidade, do qual, numa das mais famosas sequências de Life Of Brian, os Monty Python nos dão uma mui convincente representação – reinava a igualdade: de quase uma centena de praticantes desse ofício registados na Bíblia, apenas quatro (Isaías, Jeremias, Ezequiel e Daniel) são considerados “profetas maiores”. Todos os outros foram irremediavelmente desqualificados como “menores”. Um deles, Miqueias, embora nunca se elevando, de facto, à altura das visões de um Ezequiel – pioneiro da "sci-fi" e dos encontros imediatos de 3º grau –, não deixou de ser um profissional competentissimo que, de acordo com a "job description", anunciou calamidades e devastações e antecipou verdadeiramente o futuro, denunciando a desonestidade dos mercados e a corrupção nos governos.
Tanto assim que as suas palavras chegam, ainda hoje, até nós, na voz de outro Miqueias (em inglês, Micah), que, exactamente a meio de Micah P. Hinson Presents The Holy Strangers, durante os 7’28” de "Micah Book One", sobre fundo de "easy listening" para caixa de música de recorte country, recita, ipsis verbis, quase na íntegra, aquele peculiar tipo de "billet doux" que Jeová gostava de enviar aos seus intérpretes terrenos: “I will make this world a heap of rubble, (...) I will pour her stones into the valley and lay bare her foundations, all her idols will be broken to pieces, all her temple gifts will be burned with fire; (...) I will go about barefoot and naked, I will howl like a jackal and moan like an owl for her wound is incurable”. Hinson, o puríssimo "misfit" de Abilene, Texas, que já em "God Is Good" (de Micah P. Hinson & The Nothing, 2014) mantinha uma relação problemática com as escrituras dos pastores hebraicos da Idade do Bronze (“My true love don't need me no more, she's gone down that golden shore (...) and my Good Book claims that God is good”), optou, agora, pela composição de uma “modern folk opera” com libreto vagamente em torno da biografia de uma família em tempos de guerra. E fá-lo naquele registo de Johnny Cash despejando a última gota de "bourbon" a meias com Leonard Cohen, que, desde a abertura com "sample" de pregador evangélico, "intermezzi" instrumentais, e episódios arrepiantes, culmina num "Come By Here’/Kumbaya" sonâmbulo, cambaleante e terminalmente desalentado.
31 December 2014
MÚSICA 2014 - INTERNACIONAL (II)
(iniciando-se, de baixo para cima *, de um total de 25)
* a ordem é razoavelmente arbitrária...
15 April 2014
FADISTA
Quando escreveu "The Part You Throw Away", Tom Waits – como conta o seu ex-guitarrista, Joe Gore – até poderia estar convencido de que se tinha transformado no primeiro autor norte-americano de um fado. Mas a verdade é que, se essa canção até se dava alguns ares de fadistice, a querermos encontrar um equivalente além-Atlântico para a figura do fadista, o candidato é apenas um: Micah P. Hinson. Não por corresponder exactamente às características que Pinto de Carvalho, na História do Fado, de 1903, atribuía ao protótipo histórico lisboeta – “minado de taras, avariado pelas bebidas fortes e pelas moléstias secretas, com o estômago dispéptico, o sangue descraseado e os ossos esponjados pelo mercúrio, é um produto heteromorfo de todos os vícios, atinge a perfeição ideal do ignóbil” -, embora partilhe algumas, mas porque a ideia de sorte malvada, destino traçado e maldição garantida parece ter sido criada de propósito para ele.
Conhecemo-lo em 2004, acabado de escalar um abismo que, aos 19 anos, dependente de tranquilizantes, sem abrigo nem um cêntimo no bolso, o atirara para a prisão, após uma história desgraçada com mulheres fatais. A escada de salvação chamava-se ... And The Gospel Of Progress e foi motivo de grande assombro. Dois anos depois, qual Thomas De Quincey, encontrava-se, de novo, a abusar de analgésicos, em consequência de um acidente que o forçara a hospitalização. A cura para a ressaca, dessa vez, foi ... And The Opera Circuit e, uma vez mais, choveram louvores. Um anjo redentor, na pessoa de Ashley Bryn Gregory, apareceria na vida dele – e nas capas de ... And the Red Empire Orchestra (2008) e …And the Pioneer Saboteurs (2010) – mas, em 2011, a carrinha que o transportava em tournée por Espanha despistou-se e a terrível possibilidade (não confirmada) de perder a mobilidade dos dois braços pairou durante o tempo suficiente para que, em ... And The Nothing, ele apenas cante, reaproveitando temas anteriores ao desastre. Acompanhado por músicos britânicos e espanhóis, nunca terá sido, contudo, tão "deep southern" como agora, quase um avatar de Johnny Cash que se desse bem com theremins e quartetos de cordas em dissonâncias estridentes, maldissesse avinagradamente Deus, a vida e os antepassados e soasse... haverá outra forma de o dizer?... tão fadista.
12 April 2014
Micah P Hinson - "Not Dark Yet" (B. Dylan)
Shadows are falling and I’ve been here all day
It’s too hot to sleep, time is running away
Feel like my soul has turned into steel
I’ve still got the scars that the sun didn’t heal
There’s not even room enough to be anywhere
It’s not dark yet, but it’s getting there
It’s too hot to sleep, time is running away
Feel like my soul has turned into steel
I’ve still got the scars that the sun didn’t heal
There’s not even room enough to be anywhere
It’s not dark yet, but it’s getting there
Well, my sense of humanity has gone down the drain
Behind every beautiful thing there’s been some kind of pain
She wrote me a letter and she wrote it so kind
She put down in writing what was in her mind
I just don’t see why I should even care
It’s not dark yet, but it’s getting there
Behind every beautiful thing there’s been some kind of pain
She wrote me a letter and she wrote it so kind
She put down in writing what was in her mind
I just don’t see why I should even care
It’s not dark yet, but it’s getting there
Well, I’ve been to London and I’ve been to gay Paree
I’ve followed the river and I got to the sea
I’ve been down on the bottom of a world full of lies
I ain’t looking for nothing in anyone’s eyes
Sometimes my burden seems more than I can bear
It’s not dark yet, but it’s getting there
I’ve followed the river and I got to the sea
I’ve been down on the bottom of a world full of lies
I ain’t looking for nothing in anyone’s eyes
Sometimes my burden seems more than I can bear
It’s not dark yet, but it’s getting there
I was born here and I’ll die here against my will
I know it looks like I’m moving, but I’m standing still
Every nerve in my body is so vacant and numb
I can’t even remember what it was I came here to get away from
Don’t even hear a murmur of a prayer
It’s not dark yet, but it’s getting there
I know it looks like I’m moving, but I’m standing still
Every nerve in my body is so vacant and numb
I can’t even remember what it was I came here to get away from
Don’t even hear a murmur of a prayer
It’s not dark yet, but it’s getting there
09 April 2014
17 January 2010
SEGUNDO EPISÓDIO
Mumford & Sons - Sigh No More
No episódio anterior, tínhamos deixado Charlie Fink, de coração despedaçado pela jovem Laura Marling que, à beira do sucesso – para o qual ele, em larga medida, contribuíra –, o abandonara, assim lhe oferecendo o argumento "arrache-coeur" para um dos melhores álbuns de 2009, The First Days Of Spring, dos Noah & The Whale. Vamos reencontrá-la, agora, redescobrindo o amor nos braços de Marcus Mumford, o baterista da banda que a acompanhava, o qual moço, embriagado pelos encantamentos de Afrodite, gravou um álbum – este – que, se ouvido em devido tempo, teria, facilmente, integrado também o escol do ano recém-defunto.
Imaginem uns Pogues (com idêntica "inautenticidade" folk) vitaminados pelo élan épico e coral dos Arcade Fire. Pensem em Nick Drake com a voz de Micah P. Hinson e mais testosterona. Considerem a hipótese de um Nick Cave cercado de banjos, bandolins, sopros mariachi-balcânicos, a expelir as mesmas tiradas bíblicas em que se doutorou ("There will come a time when I will look in your eye, you will pray to the god that you've always denied, I'll go out back and I'll get my gun, I'll say you haven't met me, I am the only son"). Acrescentem-lhe um refrão como "It was not your fault but mine, and it was your heart on the line, I really fucked it up this time, didn't I, my dear?". Aquela miúda, a Laura, deve ter mesmo qualquer coisa de muito especial...
(2010)
27 April 2009
RESPOSTAS AO QUESTIONÁRIO FLUR
01 - Um disco que tenha sido muito importante (e já não seja) + razão.
Horsedrawn Wishes – Rollerskate Skinny; disse dele coisas do tipo “o melhor disco de todos os tempos (passados, presentes e que hão-de vir)”, depois de os ter visto, ao vivo, em Dublin; continua a ser muito bom (tive de o downloadar porque, entretanto, perdi-o!...) mas parece-me que, na altura, fui um bocadinho hiperbólico...
02 - Um disco que seja muito importante agora + razão.
Um é difícil. Mas qualquer coisa algures entre os três álbuns da Hanne Hukkelberg, o Poème, de Ernest Chausson (um romântico francês do sec XIX que eu nem fazia ideia que tinha existido e descobri a ouvir rádio), pelo Itzhak Perlman e Zubin Mehta, e The Bairns, de Rachel Unthank & The Winterset. Todos por causa daquela insubstituível sensação de “mas de onde é que isto saiu?...”
03 - Um disco irresistível mas que o resto do mundo acha que é mau.
Não é “um disco”, é a discografia completa dos ABBA (álbuns, singles, DVDs) e “o resto do mundo” até tende a estar do meu lado; “o resto do mundo” do suposto “bom gosto” – com ilustríssimas excepções – é que lhe torce o nariz. Ah… e oMamma Mia é um grande filme.
04 - A capa de disco favorita.
Resposta impossível. São imensas. Mas, assim de repente, em jacto de memória, Micah P. Hinson & The Gospel Of Progress.
05 - Mais CD ou mais vinil? Porquê?
De certeza, mais CD. Tive a minha fase de fundamentalista do vinil mas a pressão da realidade venceu. Continuo, no entanto, a não dominar a técnica de retirar o CD do celofane (a cena da Mira Sorvino, no Lulu On The Bridge, do Paul Auster, a debater-se com o mesmo problema sempre me falou ao coração). E a caixa de plástico dos CD deve ser o exemplo de design mais mal amanhado da História.
06 - Qual o primeiro disco que se lembra de comprar e onde foi?
Não me lembro (quero dizer, comprado mesmo por mim e não financiado por fontes externas). Mas pode ter sido ou o Saucerful Of Secrets, dos Pink Floyd (mais dois ou três álbuns e ficaram prontos para o matadouro – a propósito, nunca consegui ouvir o Dark Side Of The Moon até ao fim) ou o Stormbringer, de John & Beverley Martin, ou o Astral Weeks, do Van Morrison. Por aí.
07 - Qual o último disco que comprou?
Renaissance Dance (Susato, Morley, Praetorius, Mainerio) – The Early Music Consort Of London/David Munrow; em Fevereiro de 2008, Sevilha. Andava há anos atrás dele (o meu velho vinil já estava imprestável) e, de surpresa, acabei por descobri-lo ali.
08 - Qual o disco que irá comprar de certeza, em 2009?
Não faço a menor ideia.
09 - Qual é o artista mais representado na colecção?
Há vários de que tenho as discografias completas ou quase. Mas há-de ser qualquer coisa entre, Richard Thompson, Tom Waits, Van Morrison, Laurie Anderson, Leonard Cohen, Elvis Costello e Nick Cave.
10 - De que artista tenta comprar todos os discos, bons e maus?
Sendo que “comprar”, comigo, é um conceito bastante relativo (a esmagadora maioria é-me enviada pelas editoras/distribuidoras), diria Leonard Cohen. Que, como se sabe, mesmo quando os discos aparentam ser menos que óptimos, trata-se apenas de engano e ilusão.
11 - Que projectos tem em mãos actualmente?
Aplico toda a minha energia no imenso objectivo de nunca ter projectos.
(2009)
16 November 2008
PERDÃO E SALVAÇÃO
Micah P. Hinson - Micah P. Hinson & The Red Empire Orchestra
Micah P. Hinson - The Surrendering EP
Aos 19 anos, Micah P. Hinson estava na cadeia, dependente de tranquilizantes, a caminho da condição de “homeless”, sem um tostão e nenhum futuro. A sua “experiência-Mrs. Robinson” não poderia ter corrido pior: Melissa Berggren, uma ex-modelo da “Vogue” consideravelmente mais velha do que ele, apossara-se do seu coração imberbe, iniciara-o no abuso de comprimidos vários e, na ausência de fundos e de receitas médicas, daí à falsificação e ao desastre – com internamento psiquiátrico pelo meio – fora um pequeno trajecto. Oito anos mais tarde, em Dezembro de 2007, perante o público que o aplaudia na Union Chapel de Londres, Micah chamou a namorada, Ashley, ao palco, ajoelhou-se diante dela e pediu-a em casamento. Tudo isto poderia e deveria ser remetido para a categoria das coscuvilhices com que se entretém a imprensa “del corazón” se não tivesse muito (na verdade, se não tivesse tudo) a ver com as canções que Hinson escreve. Mais, muito mais do que a Laura, de Petrarca, ou a Beatriz, de Dante, mais até do que – para referir um exemplo próximo e de contornos idênticas – a Cassie, de David Berman (Silver Jews), Ashley não foi apenas musa inspiradora mas, sobretudo, anjo redentor.
A expressão bíblica não é excessiva: criado numa família cristã fundamentalista, na biografia (e na música) de Micah P. Hinson há feridas irremediavelmente abertas pelos demónios da culpa e do pecado (é ele mesmo quem fala de “salvation and forgiveness”) e pelo enfrentamento da figura do pai, professor na Abilene Christian University. Abilene, Texas: cem mil criaturas – 80% caucasianas –, 15% abaixo do limiar de pobreza, uma base da força aérea (o maior empregador local) e, aparentemente, a 17ª melhor cidade no sistema de ensino público norte-americano. Que não chegou, porém, para evitar que Micah, em poucos anos, estivesse inteiramente à altura de exceder largamente as condições que Sam Phillips, em 1954, impusera a Johnny Cash para aceitar gravá-lo: “Volta para casa, peca muito, e traz-me, depois, uma canção que valha a pena”. Hinson tinha (e continua a ter) uma figura de Elvis Costello pré-púbere mas, nas canções que escreve e na voz de sexagenário corroído pela nicotina, não há menos vida vivida do que nas de Cash ou Hank Williams.
E é exactamente aqui que se torna obrigatório desmontar o lugar-comum: “alt.country”, “americana”, “gothic-folk” são categorias a que a sua música, definitivamente, nunca se ajustará. No álbum de estreia, Micah P. Hinson & The Gospel Of Progress (2004), no seguinte, Micah P. Hinson & The Opera Circuit (2006), e no actual Micah P. Hinson & The Red Empire Orchestra (acrescido do EP de esboços e fragmentos, The Surrendering), se se adivinha a presença de alguns desses espectros, não só não são eles quem comanda as operações como o tempo e o lugar são irrelevantes. Porque também os de um Cohen mais rude, de um John Cale menos erudito ou (em particular, no último disco) do Scott Walker dos arrebatamentos orquestrais por aqui pairam. Não se procure nele o primeiro ou o último da interminável fila de novos candidatos a Townes Van Zandt com alma murcha de James Taylor. Micah P. é da estirpe dos maiores, dos duros e autênticos. E que, mesmo agora supostamente apaziguado, em equilíbrio instável sobre espirais de violino, frágeis valsas ébrias e incêndios de guitarra, continua sobressaltado por visões (“the flood came down to my knee and you were there drowning below”) e longe da beatitude (“I’m not afraid of the suffering or the pain, I’m just afraid of dying alone”).
(2008)
15 November 2008
13 November 2008
EXPIAÇÃO
Micah P. Hinson - Micah P. Hinson & The Opera Circuit
Antepassado directo do “free folk” nas gavetinhas dos míopes profundos da catalogação, o “alt.country” é outro galho da mesma árvore folk/country (pelo menos, a fazer fé em Louis Armstrong que garantia que “all music is folk music, I ain’t never heard a horse sing”), no qual houve quem quisesse, à viva força, arrumar Micah P. Hinson, aquando da publicação, há dois anos, do seu primeiro e óptimo álbum, And The Gospel Of Progress.
Não era verdade, então, e ainda o é menos agora quando Micah P. Hinson And The Opera Circuit – de novo, criado na ressaca de outra temporada de dependência de “painkillers”, agora provocada por um acidente que atirou o “ex-con” de Abilene para uma cama de hospital – projecta tudo isso para aquela decadente e gloriosa equação Tom Waits meets Pogues meets Tindersticks meets Psychedelic Furs meets Lambchop, na qual, o universo rodopia à volta de meia dúzia de polcas debochadas, quartetos de cordas elegantemente cambaleantes, uivos de harmónica, trémolos de banjo, guitarra e bandolim, celebrações marítimas de vela enfunada, crescendos de guitarras panorâmicas e aquele género de festiva expiação da esquálida natureza do mundo em que não fica mal declarar, à sombra de um piano trôpego que já bebeu demais, “don’t leave me now, I must confess, haven’t been the worst, haven’t been the best, since you came, found the word ‘digress’ and made it a home”. E tudo isso é muito, muito belo.
(2006)
12 November 2008
11 November 2008
QUASE UM REQUIEM
Micah P. Hinson - Micah P. Hinson & The Gospel Of Progress
Acorrem imediatamente à memória os melhores dos melhores: John Cale, Leonard Cohen, Johnny Cash, Townes Van Zandt. E, logo a seguir, alguns dos seus filhos dilectos: Tindersticks, Lambchop, Sparklehorse, David Berman. Micah P. Hinson é, realmente, um pouco de todos eles mas, nem de longe, num daqueles exercícios calculados de montagem de puzzles sonoros com as peças rigorosamente seleccionadas para lançar o anzol ao máximo público-alvo. Micah é a coisa a sério: um "ex-convict" de 23 anos, apanhado na armadilha de uma história de "love gone terribly wrong" com uma ex-modelo da "Vogue", consequentes receitas de sedativos falsificadas e outros ilícitos demasiado comprometedores. Fado.
E a tradução de tudo isso para um álbum que dá corpo ao milagre de não chafurdar no confessionalismo da desgraça: os textos são mínimos quando não apenas telegráficos (obsessões em "loop" como "it's all my fault", "there are things that I've said that don't mean a thing, anyway"), a música — não dar um átomo de crédito aos arquivadores preguiçosos que hão-de querer, à viva força, arrumá-lo na "alt.country", na "new folk" ou outras invenções adventícias — tão só as coordenadas de uma trajectória de inexorável queda em espiral ("At Last, Our Promises" faz pensar na asfixia de Music For A New Society), instantâneos de câmara para pequenas feridas de guitarra, piano, euphonium, acordeão, melódica, Hammond, mellotron, violoncelo ou flauta, valsas de espectros pálidos, amabilidades de salão um segundo antes do salto através da vidraça, fanfarras fatigadamente amargas, melodias circulares esvaídas. Quase um requiem. E belo como poucos.
(2004)
19 May 2008
PALAVRAS E GUITARRAS
(fechando um círculo a partir daqui...)
(foto)
Uuuuf!... Não são bons, são magníficos. Em cima de um palco, quero dizer. Pelo menos, no da Aula Magna, há meia dúzia de dias. Explico-me: depois de Alligator e Boxer, ninguém se atrevia sequer a pingar o primeiro ponto de reticências acerca da grandeza de The National enquanto autores de algumas das mais assombrosas canções contemporâneas, deste lado de David Berman, Mark Eitzel ou Micah P. Hinson. Mas – relatórios de campo e histórias avulsas chegavam daqui e dali –, poderíamos encontrar-nos perante um novo “caso Go-Betweens”: sublimes em disco, constrangedores (muitas vezes) ao vivo. Nada que diminua uma obra mas que pode comprometer bastante alguns preciosos encontros imediatos. Foi coisa de instinto: o som de “Brainy” – a turva obsessão “you know I keep your fingerprints in a pink folder in the middle of my table” –, abertura dos trabalhos, poderá não ter sido transcendente mas havia matéria de facto suficiente para adivinhar que se estava a fazer História (sublinhem a maiúscula). Estava. Daí em diante, Matt Berninger, o seu templo do duplo par de anjos gémeos caídos e o violinista demente, Padma Newsome, ungiram a mole. “Squalor Victoria”, “Abel”, “Fake Empire”, “Mr. November” (com imersão – espontânea? calculada? que importa? – na massa dos fiéis) operaram, caso ali houvesse almas a converter, infinitas conversões instantâneas e meia dúzia de apocalipses sonoros. Incêndios de guitarras e palavras. E uma escansão rítmica que dividia e multiplicava uma espécie de poética cardiográfica quase absurdamente matemática. Demasiado perfeito para sonhar vê-los outra vez. (2008)
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