13 January 2023
Concret PH - a musique concrète piece by Iannis Xenakis, originally created for the Philips Pavilion (designed by Xenakis as Le Corbusier's assistant) at the Expo 58
(sequência daqui) Enquanto colaborava com Le Corbusier, estudava harmonia e contraponto e, em pleno palco dos grandes confrontos entre as luminárias da música da época, ia procurando quem lhe pudesse servir de ponto de apoio na descoberta da sua própria via. Nadia Boulanger rejeitou-o, Arthur Honegger franziu o nariz ao reparar no seu uso de oitavas e quintas paralelas, apenas Olivier Messiaen o acolheu. Como este recordaria depois “Apercebi-me imediatamente que ele não era como os outros. Tinha uma inteligência superior. Fiz com ele uma coisa horrível que não deverei fazer com mais nenhum outro aluno pois penso que é necessário estudar harmonia e contraponto. Mas este era um homem tão fora do vulgar que eu disse-lhe ‘Você tem quase 30 anos, tem a grande sorte de ser grego, de ser arquitecto e de ter estudado matemática. Tire partido destas coisas. Use-as na sua música’”.
Voyage Absolu Des Unari Vers Andromède
Para Xenakis que se lamentava de “ter nascido demasiado tarde e ter perdido dois milénios”, isso foi como um livre-trânsito que o autorizou a investigar (sem o adoptar) o serialismo, mas também a estudar a utilização de modelos matemáticos em música: processos estocásticos, teoria dos jogos, a teoria cinética dos gazes de Maxwell-Boltzmann, a distribuição dos pontos num plano, a álgebra de Boole, a distribuição Gaussiana, as cadeias de Markov, o movimento Browniano das partículas e a sequência de Fibonacci, assim como a música electrónica. Desenhou espaços para acolher músicas específicas e música para espaços pré-determinados. E, se recusou a ideia que nele apenas via um matemático que se envolvera com a música, também punha reticências a interpretações descabidamente políticas da sua música: quando, durante os motins do Maio de 68, em Paris, uma faixa onde se lia “Abaixo Gounod! Viva Xenakis!” foi dependurada nas janelas do conservatório, numa entrevista televisiva, fez questão de afirmar “Não se trata apenas de sons e música, é necessária uma transformação das pessoas também”. (Révolutions Xenakis - 03/12/2022 - 27/03/2023, Galeria de Exposições Temporárias do Museu Calouste Gulbenkian; segue para aqui)
09 January 2023
29 May 2018
15 February 2012
31 March 2008
02 June 2007
Björk - Volta
Há que conhecer bem a personagem para devidamente a compreender. Em 1994, numa entrevista entre álbuns - após a revelação com Debut e, quando se entregava já à concepção de Post -, Björk disse-me: “Já nem sei quantas vezes fui salva por uma canção, alturas em que nada, nem os amigos, nem o sexo, nem a actividade política nos podem valer e só a empatia que uma canção proporciona tem algum significado. É uma sensação completamente abstracta em que a música não tem (nem deve ter) explicação, que interfere com a matemática das emoções e não pode ser decifrada pela linguagem”. Recentemente, já a propósito de Volta, afirmou: “A música, para mim, é totalmente factual, exactamente como se fosse álgebra”. Há-de ser, algures aí pelo meio, entre a forma de expressão que releva do insondável e o cálculo frio e racional, que, um dia, não se chegará a “explicar” a música de Björk mas se poderá ensaiar, sem errar demasiado, uma aproximação viável. Ela própria, a propósito deste álbum, refere repetidamente o seu interesse recente pelas neurociências e por tudo aquilo que o equilíbrio (e os desiquilíbrios) entre os hemisférios direito e esquerdo do cérebro determinam no que ao comportamento humano e à cultura dizem respeito.
O que, afinal, desde “Human Behaviour” (“if you ever get close to a human and human behaviour, be ready to get confused”), tem sido um dos seus centros de gravidade. E que, aqui – no que é, talvez, a mais conseguida síntese entre a Björk que, durante anos, numa das cinquenta escolas de música de Reikjavik, se envolveu com a música de Stockhausen, Messiaen e John Cage e a outra que, pós-Sugarcubes, mergulhou de cabeça na cultura pop e suas múltiplas refracções adjacentes -, adquire um carácter definitivamente neo-pagão e multi-tribal (“Here come the earth intruders, we are the paratroopers, the beat of sharpshooters, comes straight from voodoo”), convocando para o mesmo espaço os percussionistas Chris Corsano e Brian Chippendale (Lightning Bolt), o assombroso colectivo congolês Konono nº1, o mestre da kora maliana, Toumani Diabaté, Antony (de Antony and The Johnsons – o único elo fraco de um álbum excepcional), a executante de pipa chinesa, Min Xiao-Fen, uma secção de sopros feminina islandesa e, em três faixas (“Earth Intruders”, “Innocence” e “Hope”), enquanto co-produtor, intérprete e programador, o “producer to the stars”, Timbaland. Ao mesmo tempo quase histericamente visceral e cerebralmente montado, como um puzzle de inúmeras peças do qual, apenas no último instante, descobrimos a configuração final, é, muito provavelmente, a hipótese provisoriamente encontrada por Björk para a resolução na sua música daquela equação que, quando (para a “Dazed And Confused”) entrevistou Stockhausen, formulou como definição da música do mestre alemão: “um casamento entre o mistério e a ciência”. (2007)